segunda-feira, 31 de março de 2014

AS ESCOLAS POLITÉCNICAS DE LISBOA E PORTO

Meu artigo no mais recente número da revista "As Artes entre as Letras" (na imagem, a Academia Politécnica do Porto):

Passada a fase muito conturbada das Invasões Francesas, da Revolução Liberal de 1820, da Carta Constituinte e da Independência do Brasil em 1822, foram criadas, em Portugal, duas novas escolas superiores, de tipo politécnico, que de algum modo passaram a rivalizar com a Universidade de Coimbra: a Escola Politécnica de Lisboa e a Academia Politécnica do Porto. Os dois novos estabelecimentos estavam eivados do espírito do liberalismo, isto é, faziam parte da reacção contra a monarquia absoluta e em favor de um regime que criasse e garantisse mais liberdades individuais e colectivas. O seu fito era o de conferir uma formação mais prática do que a antiga universidade coimbrã, em particular para aqueles que pretendiam seguir uma carreira militar e necessitavam de conhecer a ciência e a técnica com alguma profundidade.

 Entre os professores da Escola Politécnica de Lisboa, que foi instalada no sítio que tinha sido o Colégio dos Nobres e onde hoje é o Museu da Ciência da Universidade de Lisboa, o que mais se notabilizou pela sua actividade internacional foi talvez Agostinho Vicente Lourenço, que estudou em Paris a partir de 1848, tendo‑se aí doutorado. Depois efectuou uma prolongada excursão pela Europa, trabalhando em laboratórios de químicos famosos como o francês Wurtz e os alemães von Liebig, Bunsen e von Hoffmann. Publicou vários artigos nos Comptes Rendus e nos Annales de Chemie et Physique. Em 1862, ocupou em Lisboa a cátedra de Química Orgânica na Politécnica, tendo esmorecido a sua actividade científica. Mas desenvolveu o Laboratorio Chimico de Lisboa, instalado em 1844, e que hoje se encontra bem restaurado e pode ser visitado no referido Museu. Digno de nota é também o pioneirismo de Guilherme Dias Pegado, ao fundar em 1853 o primeiro Observatório Geofísico Português (o Observatório D. Luís, que ainda hoje existe), e de Francisco Pereira da Costa, que foi director da Comissão Geológica de Portugal. São ainda de referir os nomes do astrónomo e geodesista Filipe Folque e do zoólogo José Barbosa do Bocage, primo do poeta Manuel Maria Barbosa do Bocage.

 Também vários professores se distinguiram na Academia Politécnica do Porto, que desenvolveu colaboração profícua com a Associação Industrial Portuense, fundada em 1849 e hoje designada por Associação Empresarial de Portugal. A Academia do Porto sempre se revelou mais ligada à indústria do que a sua congénere de Lisboa, o que não admira dada a longa tradição primeiro comercial e depois também industrial da capital do Norte.

 O mais notável dos professores da Escola Politécnica do Porto, não só pela sua influência interna mas também pela sua repercussão internacional, foi o matemático Francisco Gomes Teixeira. Pode ser considerado o mais notável cientista português do século XIX. Brilhou como professor, primeiro, embora por pouco tempo, na Universidade de Coimbra, e depois, durante longos anos, na Academia Politécnica do Porto e, finalmente, na Universidade do Porto. Foi o primeiro Reitor desta Universidade, fundada em 1911. Membro de várias academias nacionais e internacionais, Gomes Teixeira defendia que os portugueses deviam publicar os seus trabalhos científicos noutras línguas que não o português, a fim de permitir a internacionalização. Mas deixou obra em português, onde ressaltam Curso de Análise Infinitesimal (1887‑1892), que influenciou o ensino da Análise em Portugal, e História das Matemáticas em Portugal (1934). Por outro lado, o seu Tratado das Curvas, escrito em castelhano, foi premiado pela Academia das Ciências de Madrid em 1900. Uma versão melhorada saiu em língua francesa, pela Academia de Ciências de Paris em 1917, sendo ainda hoje uma das obras de referência sobre a teoria clássica das curvas (teve modernas reedições em Nova Iorque em 1971 e em Paris em 1995). Gomes Teixeira fundou em 1877 os Anais Scientificos da Academia Politécnica do Porto.

 Mas um outro nome notável, também com reconhecimento internacional, foi o do químico António Ferreira da Silva, tal como Gomes Teixeira formado em Coimbra, que se especializou em Química Analítica e instalou em 1884 o Laboratório Químico Municipal do Porto, onde efectuou numerosas análises de águas. Em 1911 fundou a Sociedade Portuguesa de Química, que publicou a Revista de Química Pura e Aplicada.

Outros professores da Academia Politécnica do Porto foram os físicos José Vitorino Damásio, introdutor do telegrafo em Portugal (1853), Adriano Paiva, percursor mundial do conceito de televisão (1878), o zoólogo Augusto Nobre, zoólogo, irmão do poeta do “Só”, António Nobre”, o botânico Gonçalo Sampaio e o geólogo Carlos Ribeiro, co-director com Pereira da Costa da Comissão Geológica de Portugal, fundada em 1858.

 As Escola Politécnicas em Lisboa e no Porto formaram os homens práticos de que o país precisava num tempo marcado pelo triunfo da Revolução Industrial. No entanto, pese embora toda a sua meritória actividade científica e técnica, que se somou à que prosseguiu na Universidade de Coimbra, não se pode dizer que o século XIX português tenha sido na ciência um período de grande luz. A ciência e a técnica vinham principalmente de fora. Essas Escolas seriam, em 1911, transformadas nas Faculdades de Ciências das duas novas Universidades, a de Lisboa e do Porto. No meio de muitas dificuldades, os embriões de ciência plantados no século XIX haveriam de continuar a florescer e dar frutos no século seguinte.

Nota: Texto, tal como os anteriores desta série adaptado de Carlos Fiolhais, História da Ciência em Portugal, Lisboa: Arranha-Céus, 2013.

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