domingo, 2 de fevereiro de 2014

TRIBUTO AO GENERAL SOARES CARNEIRO


"Temos como futuro o esquecimento"
(José Luís Borges, 1889-1986)

No passado dia 28 de Janeiro faleceu o General António Soares Carneiro.

Nesta infausta efeméride, não podia deixar de me lembrar dessa figura de militar que muito honrou o seu juramento de bandeira em servir, parafraseando Camões, “a ditosa Pátria sua amada”, numa altura em que  a extensão territorial de Portugal se estendia do Minho a Timor. Em contexto embora diferente, o próprio Torga exprimiu “a angústia da morte da Pátria” (Expresso, 29/01/94).

Corria o ano de 1952, era eu então soldado-cadete do 1.º ciclo do Curso de Oficiais Milicianos de Infantaria, em Mafra, sendo instrutor do pelotão a que eu pertencia o então alferes Soares Carneiro. Dele recordo a estatura física meã que se impunha pelo exemplo de panache militar que transmitia aos seus subordinados.

Recordo-me, por exemplo, das marchas, em passo de corrida, que fazíamos com a pesada espingarda Mauser, cruzada nos braços. Chegado a um determinado ponto do percurso ensarilhávamos as espingardas descansando, esbodegados de cansaço, debaixo da frondosa copa das árvores que nos davam generosa sombra. Entretanto, o alferes Soares Carneiro, permanecia na posição militar de descansar: de pé, pernas afastadas, mãos atrás das costas.

Passado o merecido tempo de descanso, dava-nos a voz de regresso ao quartel com ele à nossa frente, em idêntico e penoso percurso. Ou seja, aquilo que nos exigia (perante alguns protestos nossos em surdina) fazia-lo ele em exigência bem maior. Se me é permitido a analogia, à sua “pedagogia” presidia o princípio de Séneca: “É lento ensinar por teorias, mas breve e eficaz fazê-lo pelo exemplo”. Ou como nos legou Marco Aurélio: O homem comum é exigente com os outros; o homem superior é exigente consigo mesmo. Ou, ainda, como foi reconhecido por outro cabo de guerra da nossa contemporaneidade, Dwight Eisenhower: Liderança é a arte de conseguir levar alguém a fazer o que queremos que ele faça.

Recordo-me, ainda por exemplo, do facto de quando o alferes Soares Carneiro estar de oficial de dia, assistindo, nessa condição, ao jantar dos respectivos instruendos, em preito pela nossa condição de alunos ou já licenciados do ensino superior, convidar um de nós  para, sentado a seu lado, ouvi-lo sobre questões relativas ao nosso tirocínio para futuros oficiais milicianos, dispondo-se a aceitar sugestões ou mesmo queixas devidamente fundamentadas.

A sua figura de militar mereceu várias homenagens em vida pela atribuição de elevadas condecorações nacionais. A última que lhe foi prestada, após o seu falecimento, teve lugar na Assembleia da República, através das bancadas do Governo e do Partido Socialista (e, claro, o repúdio do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda) em reconhecimento  da sua valorosa folha de serviços quer em cargos militares (como a criação dos Comandos) ou civis.

Por isso, hesitei, com a opacidade do meu verbo, em deslustrar o brilho de inúmeros preitos por parte de diversos sectores da vida militar, política e cultural portuguesa (vide, por exemplo, o artigo de Vasco Pulido Valente, no Público, 31/01/2014, intitulado, Soares Carneiro).

Apesar de tudo, seja-me desculpado o meu atrevimento que tem como indulgência o respeito que dediquei ao General Soares Carneiro pelos ensinamentos de brio militar que dele colhi e que nortearam a minha prestação militar como futuro oficial miliciano.

Mereceu em vida, o General Soares Caneiro, a exemplo de Carlos Magno, o “repouso do guerreiro” só desassossegado por uma breve passagem pela política, como candidato a Presidente da República, pela Aliança Democrática. Em comícios  foi acusado pela esquerda, segundo Vasco Pulido Valente, “como embrião de ditador ‘fascista’, enquanto ele respeitava meticulosamente as mais simples normas da democracia”. Que bem se enquadram nesta acusação as palavras de Sophia de Mello Breyner, em carta a Jorge de Sena: “A nossa vida é cada vez mais engagée na luta que você sabe mas a oposição está cheia de aventureiros que sujam e confundem tudo. Está também cheia de tontos.”

11 comentários:

  1. O 6.º § deste meu post é substituído por este:

    Recordo-me, ainda, de ocasiões em que o alferes Soares Carneiro estava de oficial de dia, assistindo nessa condição ao jantar dos instruendos. Julgo que em consideração pelo nosso estatuto civil de alunos ou licenciados pelo ensino superior, convidava um de nós para a sua mesa para ser ouvido sobre questões relacionadas com o nosso dia a dia de futuros oficiais milicianos dispondo-se, ainda, a aceitar sugestões ou mesmo queixas devidamente fundamentadas sobre aspectos merecedores de correcção.

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  2. Aventureiros e tontos são hoje termos benévolos e parcos para assinalar quem assim destrata o seu país e quase todos os portugueses

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  3. Não sei o que é uma pátria. É onde se nasce ou onde se morre?

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    1. O conceito de Pátria tem várias “nuances”, o que torna difícil a sua definição, deparando-me eu assim com a perplexidade de Santo Agostinho sobre o conceito de tempo: “Se não me perguntarem o que é o tempo, eu sei o que é o tempo: mas se perguntarem o que é o tempo, eu não sei o que é o tempo”.

      Respaldo-me, portanto, em assento que tomo de empréstimo a Miguel Torga quando ele escreve: “Uma pátria é o espaço telúrico e moral, cultural e afectivo, onde cada natural se cumpre humana e civicamente. Só nele a sua respiração é plena, o seu instinto sossega, a sua inteligência fulgura, o seu passado tem sentido e o seu presente tem futuro” (in “O Dia”, 11/09/1976).

      É todo este vasto conceito que leva a crer que a “angústia (do Poeta Torga) da morte da Pátria”, transcende, caríssimo “Geo Lógica”, que pátria, quando diz não saber o que é uma pátria, é algo de muito mais do que o torrão “onde se nasce ou onde se morre”. Ou seja, onde se dá o primeiro vagido e se exala o último suspiro!

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    2. Caríssimo Professor (quem o foi, nunca deixa de o ser)

      Pátria é, atualmente, um conceito móvel cuja moralidade se diluiu no indeterminismo próprio de tudo o que é demasiado permeável. Hoje, as pessoas não se cumprem na pátria, cumprem-se no umbigo porque no tal espaço telúrico apodreceram todas as raízes culturais sendo que a afetividade não passa de um resto de terreno baldio de natureza daninha.
      Pela parte que me toca, pátria é a minha mãe branca e negra e um futuro resumo de epitáfio.

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    3. Caríssimo Geo lógica: Houvesse uma mole imensa de pessoas como o meu Amigo e a Pátria seria sempre "ditosa e amada".

      Também para mim, que nasci em Angola, filho de pais nados e criados em Portugal continental, tendo vivido 18 felizes anos em Moçambique (onde me nasceu a minha prole de filhos), a seu exemplo, "pátria é a minha mãe branca e negra". Um abraço.

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  4. "Penso que esse modelo foi a nostalgia. O homem enternecido e desterrado que rememora possibilidades felizes, vê-as sub specie aeternitatis, com o esquecimento total de que a execução de uma delas exclui ou adia as outras."

    Jorge Luís Borges, "História da eternidade", págs 33, 34
    (1899-1986)

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  5. Sr. Dr. Rui Baptista:
    Gostei particularmente destas duas frases:
    «…reconhecimento da sua valorosa folha de serviços quer em cargos militares…»
    «…enquanto ele respeitava meticulosamente as mais simples normas da democracia”…»
    Que se articulam perfeitamente com seis palavrinhas apenas:
    Campo de Concentração de S. Nicolau.
    (Do qual o senhor foi competente e esmerado director, como era seu timbre no desempenho das funções que lhe eram confiadas).
    Para quem não souber o que era, direi que se tratava de um campo de «férias» para os «terroristas» dos movimentos independentistas, agora chamados dirigentes irmãos dos nossos países irmãos da CPLP, com os quais se fazem negócios em bardo, certamente em favor do interesse nacional, na medida em que é gente eticamente irrepreensível, especialmente os angolanos.
    P. S. Espero que não retirem o meu comentário, porque é baseado nos factos e não ofende ninguém.
    É causticamente crítico, mas a realidade que se vive em Portugal, para a esmagadora maioria dos portugueses, também é cáustica.
    Ao menos que reste a liberdade de expressão, única liberdade que ainda vamos tendo, não sei até quando.

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    1. Caro Manuel Silva Pedro: Respigo do seu comentário o derradeiro comentário: "Ao menos que reste a liberdade de expressão, única liberdade que ainda vamos tendo, não sei até quando".

      Espero e faço votos que essa liberdade (e a democracia que lhe subjaz) nunca se desvaneça por não passar, por vezes, de uma espécie de ópio do povo que encontra lenitivo em desabafar publicamente sobre as agruras de uma vida desgraçada.

      Claro que não me refiro aquela”liberdade” que guilhotinou Madame Roland (1973) e que a levou, breves momentos antes da morte, a pronunciar a célebre frase: “Liberdade, liberdade, quantos crimes não se cometem em teu nome”. Ou, de uma maneira mais “soft”, a liberdade que leva, nos dias de hoje, a sacrificar os velhos, reformados e os que menos têm em nome de um equilíbrio de contas públicas que nunca se equilibram por estarem ao serviço das gorduras do Estado, como sói dizer-se .

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    2. No meu comentário (3 Fev., às 13:30), onde escrevi, início da 2.ª linha do 1.º §, a palavra "comentário, rectifico para parágrafo.

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