domingo, 9 de fevereiro de 2014

Sobre as críticas de Passos Coelho à ciência e aos cientistas

Estas foram ipsis verbis as recentes declarações de Passos Coelho sobre a ciência em Portugal:

"Durante vários anos, conseguimos transferir mais recursos para o sistema e atribuir mais bolsas. No entanto, quando medimos depois o número de patentes que são registadas, o número de artigos científicos que são publicados, quando medimos o resultado e a qualidade desse resultado, nós passávamos de indicadores que pareciam comparar muito bem com os países com que gostamos de nos comparar para comparar muito mal sempre que olhávamos à substância dos indicadores."

"Temos, portanto, de aprender a medir os resultados e temos de garantir que as bolsas que nós usamos para financiar os doutoramentos, os pós-doutoramentos, que a investigação que é feita não corresponde meramente a uma política de recursos humanos de empregar os melhores, mas que possa resultar em ter mais gente do lado das empresas, altamente qualificada, a desenvolver investigação e a fazer a translação de conhecimento que traga valor para essas empresas e para a economia."

Eis as resposta que dei ao Público a propósito dessas declarações:

P- Como comenta o que disse Passos Coelho sobre os indicadores de ciência em Portugal por comparação com outros países? Os números sustentam o que diz sobre número de artigos científicos e as patentes registadas? E a "qualidade" do trabalho? E como é que avaliada essa qualidade?

CF- Infelizmente, o primeiro-ministro não sabe do que está a falar, pelo que não consegue transmitir uma mensagem com sentido. Podia e devia preparar uma declaração sobre ciência em vez de falar de improviso num português rudimentar.

Factos são factos. De 1995 a 2011 as actividades relacionadas com a investigação e desenvolvimento (I&D) conheceram em Portugal um extraordinário incremento, que nos devia orgulhar. O investimento nessa área passou de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), um valor muito inferior ao da média da União Europeia (UE) a 27 países (que era de 1,8% em 1995), para 1,5%, um valor bem mais próximo da média da UE, que é de 2,1%. Embora haja que descontar uma inflação nas declarações para efeitos estatísticos devida a benefícios fiscais, o investimento das empresas também aumentou no período indicado: entre 1995 e 2011, o peso do I&D das empresas passou de 0,1% para 0,7% do PIB. O número de novos doutorados por cem mil habitantes aumentou de 5,7 para 17,5 entre 1995 e 2011. Este investimento traduziu-se num significativo aumento da produção científica, medida pelo número de publicações: passou de 24 por cem mil habitantes em 1995 para 162 por cem mil habitantes em 2011. Os investigadores portugueses não só aumentaram, como passaram a produzir mais. A qualidade, que pode ser medida pelo número de citações dos artigos, aumentou também. Quanto aos registos de patentes também subiram de 4 para 11 por milhão de habitantes de 2000 para 2010, embora sejam reduzidos em comparação com a média europeia (112 por milhão de habitantes). Passos Coelho fala em patentes, mas esquece-se que há indicadores melhores para saber o impacto da ciência na economia: número de novas startups,  capital de risco e exportações de produtos e serviços com ciência incorporada. Apesar de faltarem estatísticas fiáveis, tudo indica que estes indicadores têm crescido.

Convergimos com a Europa. Não podemos, porém, embandeirar em arco pois tanto o total do PIB investido em I&D, como a parcela associada a empresas, como o número de novos doutores e o número de publicações (aferidos à população) são ainda inferiores às respectivas médias europeias. Por exemplo, o Por exemplo, o número médio de novos doutores na UE em 2011 por cem mil habitantes foi de 22,9. Portanto, se queremos continuar o caminho de aproximação à média europeia, a convergência terá de continuar e isso só se consegue continuando a investir ao mesmo ritmo e não quebrando o investimento que se estava a fazer. Precisamos, em particular, de mais bolsas de doutoramento. Partimos de uma posição muito baixa e temos de continuar o esforço de vários governos anteriores se queremos aspirar a ser como os países mais desenvolvidos. Aliás, os outros países também têm em geral crescido, pelo que temos de andar mais para os apanhar.

P- Como comenta as declarações sobre as bolsas de doutoramento e pós-doutoramento não servirem para empregar os melhores, mas deverem antes resultar em ter mais gente qualificada nas empresas a criar valor para a economia? A ciência resume-se a isto?

CF- O primeiro ministro está equivocado. O problema real que temos de algumas debilidade na ligação entre a investigação e a actividade empresarial não se resolve com menos ciência mas sim com mais ciência. Ele está a tentar justificar um injustificável corte nas bolsas e doutoramento e pós-doutoramento e ninguém percebe - decerto nem ele se pensar um bocadinho - em que é que o corte agora feito pode beneficiar a ligação da ciência com as empresas. Se houver menos pessoas qualificadas, decerto haverá menor qualificação das empresas. A menos que ele esteja a pensar que o dinheiro público agora poupado em bolsas vai ser entregue a empresas privadas para estas fazerem a investigação que lhes interessa. Isso seria um mau uso de dinheiros públicos. Eu não quero o dinheiro dos meus impostos entregue a empresas privadas!

Além do mais ele não sabe que o retorno económico, sem dúvida enorme, da ciência não é directo e imediato. Desconhece, por exemplo, que um professor-investigador forma melhor os seus estudantes do que um professor que não investigue, o que tem óbvias repercussões na economia. E também desconhece que hoje em dia não há aplicações da ciência sem ciência básica. A inovação exige conhecimento. Com o actual garrote na ciência o governo está a matar a galinha dos ovos de oiro. Acima de tudo Passos Coelho está a esquecer o papel cultural da ciência. A ciência é cultura: torna-nos mais ricos intelectualmente. Como afirmou um grande matemático do século XIX o grande objectivo da ciência é honrar o espírito humano
("honrez l'esprit humaine").

P- O número de doutorados nas empresas portuguesas anda pelos 2,5%. Mas se as empresas portuguesas não contratam mais investigadores e não consideram a investigação científica importante, esse é um problema do sistema científico ou será, antes, um problema do tecido empresarial e, em última análise, das políticas para o país.
 
CF- É um problema de todos os parceiros. Será um problema dos cientistas mas é também - e talvez sobretudo- um problemas dos nossos empresários. Com algumas honrosas excepções eles não estão a contratar doutorados, sendo estes obrigados a emigrar. Muitos deles vão para empresas estrangeiras dirigidas por gestores mais inteligentes. E as empresas nacionais que não investiram em recursos humanos qualificados irão falhar na competitividade internacional.

Passos Coelho está, de resto, a cometer um erro ao não incentivar os cientistas portugueses, que têm trabalhado com entusiasmo em condições por vezes difíceis. Eles sentem-se abandonados pelo governo que devia saber, para usar a jargão que alguns governante tanto gostam, que eles são os nossos melhores "activos". A riqueza hoje das nações reside no conhecimento que conseguirem produzir. E o conhecimento produz-se mais e melhor num ambiente em que há reconhecimento do esforço científico. A FCT, com o alto patrocínio do primeiro ministro, tornou-se inimiga dos investigadores, quando devia ser exactamente ao contrário.

2 comentários:

  1. Compreendo que estes cortes orçamentais se traduzam em maléficas consequências para as universidades... Menos estudantes... E se os doutoramentos são caros! Alguns limitam-se a recriar o que já foi descoberto, não é verdade?

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    1. Não. Um doutoramento explicado em imagens: http://matt.might.net/articles/phd-school-in-pictures/
      E o posdoc pode continuar a aumentar o perímetro do conhecimento...

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