sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Portugal e a República Portuguesa

No ano passado integrei uma missão empresarial que acompanhava a visita oficial do Presidente da República ao reino da Suécia. Na primeira manhã em Estocolmo, a missão empresarial tinha uma sessão com contrapartes suecos para se entender dos interesses mútuos de fazer negócios.

Passamos uma manhã inteira a explicar aos suecos que Portugal é muito mais que o óbvio: um país de praia, vinho e pessoas muito simpáticas. Tentei explicar que Portugal é também a casa de algumas das mais sofisticadas empresas do mundo, com mercados que muito poucos países sonham lá chegar, como a banca, o retalho ou as telecomunicações. Expliquei-lhes o que fazíamos na empresa de modelos matemáticos e as tecnologias que desenvolvíamos. Aquilo que as nossas universidades produziam e que vamos aproveitando. Os meus colegas faziam o mesmo e, como nestas coisas os interlocutores vão rodando, todos tivemos oportunidade de ver o ar impressionado e surpreendido dos suecos, muitos incrédulos daquilo que ouviam. Até que chegou a delegação oficial, leia-se os políticos e respetiva comitiva de jornalistas, seguranças, e deputados que acompanhavam o presidente da república portuguesa e o rei da Suécia(o dobro ou mais do numero de empresários, mas pronto..). E a tragédia aconteceu.

Começam os discursos oficiais. Duas empresas de tecnologia portuguesa, as mesmas de sempre e duas empresas suecas, e começam os políticos a falar de Portugal, esse país de sol, vinho e gente simpática. Porque é que os suecos deveriam estar a investir, importar ou trabalhar em Portugal? Por causa do Sol, do vinho e das gentes simpáticas. E tivemos gente feliz porque, curiosamente, as autoridades suecas corroboraram aquilo que as autoridades portuguesas afirmaram. É mesmo um país de praia, vinho e  gente simpática.

Isto para dizer havia um enorme hiato entre a representação de Portugal e a representação da república portuguesa. Tanto que dava para perceber a péssima opinião que esta tem do país ao ponto de não conseguir encontrar nada de melhor para dizer sobre nós que aquilo que nos calhou em sorte e para o qual contribuímos muito pouco.

Hoje leio nas notícias que há uma representação da república portuguesa no reino do Canadá. E o que dizem as noticias do discurso oficial? Sol, vinho e pessoas simpáticas, ao qual foi acrescentado o adjectivo de credível. É admirável quando alguém sente a necessidade de se afirmar como credível... Por isso, quero enviar daqui a minha solidariedade àqueles que foram em representação de Portugal e que devem ter passado a manhã a convencer os canadianos daquilo que é a realidade, que Portugal é um país moderno, sofisticado, que desenvolve tecnologia e ciência como qualquer país europeu. E que viram o seu esforço eliminado pelo discurso oficial. Sei que parece ter sido uma perda de tempo, mas vai chegar o dia em que até a república portuguesa se vai convencer daquilo que Portugal é.

PS: uma palavra deve ser dada ao ministro Pires de Lima (se calhar por ter estado deste lado) e aos técnicos locais do AICEP, que sempre tentaram contrariar aquilo que é a ideia propagada pelos políticos.

12 comentários:

  1. JPC:
    Deve ser por causa do persistente discurso oficial que os representantes oficiais do Estado português estão a fazer regredir a ciência e a investigação aos tempos de há 40 anos atrás.
    Assim deixa de haver discrepâncias entre um e outro dos dois discursos e eles passam a sentir-se mais confortáveis na sua «pele natural».

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    1. Ainda se está para perceber se é assim ou não. Aquilo que pode dar como certo é que há investigação que vai deixar de ter subsídios estatais e que se vai deixar de enterrar os putos em buracos legais. De resto, ainda se está por saber.

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    3. O senhor Pires da Cruz é mestre em «lapalissadas».
      Em relação a tudo o que fazemos (excepto as coisas banais do dia-a-dia) só vemos os resultados no futuro.
      Mas podemos prever por comparação com o que de bom ou de mau aconteceu aos outros.
      Manuel Sobrinho Simões (em entrevista à revista Única, do Expresso de 1/3/14, certamente por ignorância e com pérfidas intenções) dá o exemplo do rumo da investigação na Argentina, semelhante ao que estamos a trilhar, com os resultados conhecidos.
      Tal como se sabe hoje ao que conduzirá a política na Educação básica e secundária por comparação com os resultados de políticas semelhantes na Suécia, por exemplo (a partir da década de 90, que eles já estão a reverter, porque sabem avaliar e corrigir trajectórias).
      Há coisas que não é preciso experimentar para saber os resultados no futuro, basta ver o que aconteceu aos outros.
      Mas a cegueira ideológica e o preconceito sempre foram das qualidades humanas mais perniciosas que habitaram o Homem.

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    4. Então vai ser a ciência do prof. Sobrinho Simões que vai sofrer uma regressão, não vai ser a ciência portuguesa. A ciência portuguesa vai ter ou não. Em boa parte daquilo que chama de ciência portuguesa nem se vai notar diferença nenhuma. Na ciência do Sr. Pires da Cruz, que não se faz de subsídios estatais, até vai haver mais investimentos. Não é uma questão de lapalissada, é rigor.

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    5. Sr. Pires da Cruz:
      Sobre Sobrinho Simões não desconverse.
      E sobre a sua ciência e a dos privados não receber subsídios, não nos faça rir.
      É como os colégios privados, também não recebem subsídios, pois não.
      Nem as universidades privadas.
      Os privados é que nos têm safado, a começar no BPN, passando pelo BPP e acabando no BANIF, ou mudando de ramo, na EDP e seu monopólio protegido da concorrência, ou retomando a advertência do Tribunal de Contas, nas rendas excessivas e garantidas na privatização das Águas, ou ainda nas PPP das estradas, etc., etc., etc..
      O senhor, de facto, é um lírico... ou então gosta de gozar connosco.

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  2. Muito bom. Infelizmente é isto mesmo que acontece; mas tem a realidade por trás de que, para além de tecnologia, ciência, e gente competente, Portugal na sua maioria é mesmo sol, vinho e gente simpática (e futebol).

    Por isso mesmo os portugueses, quando são competentes, costumam ser mesmo muito competentes: têm que trabalhar com condições envolventes muito mais difíceis do que na Suécia, e portanto aprendem mais.

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  3. Na política, em Portugal, reina a ignorância e a estupidez.

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  4. Quem ainda tiver dúvidas sobre o crime que está a ser perpetrado (com a cumplicidade de alguns e o silêncio de outros) que leia a entrevista a Sobrinho Simões, na Revista Única, do jormal Expresso.
    O exemplo que dá da Argentina é terrível.

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  5. Quem pagou as viagens, estadias e tudo mais? Quanto investimento sueco em Portugal resultou daí? Isso é que me interessa. O resto é o resultado de uma classe política ignorante e que tem na falta de investimento em ciência e tecnologia o garante que vão continuar a eleitos sem deixarem que ser ignorantes. Aliás, adivinho que terá sido que os suecos compreenderam no final.

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    1. A minha viagem paguei eu. A dos políticos, jornalistas, etc pagamos nos. E sim, os suecos ficaram a saber aquilo que faz a república portuguesa, não o que faz Portugal. Seria engraçado se a nossa imagem da Suécia fosse resultado daquilo que faz a coroa e não a ericsson, a ikea, a tetra, etc... Era mesmo muito engraçado....

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  6. Vocês, missão empresarial têm de dar uns cursos aos políticos, coitados, eles nem sabem oque há em Portugual e como têm de falar muito e só o podem fazer através de chavões, estavam á espera do quê? Acho que o erro é vosso, a menos que os políticos não estejam abertos a estudar novos chavões para apresentar, "upgrade", "upgrade"...

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