sábado, 8 de fevereiro de 2014

Educação Universal


A Pampaedia (Educação Universal), um dos sete livros de obra De Rerum Humanarum Emendatione Consultatio Chatholica, de João Amós Coménio, (1592-1670), terminada em 1666, retoma as grandes questões da educação já patentes na obra homérica, discute-as, apresenta caminhos concretos e deixa um lastro para o futuro.

Assim, este, como outros escritos do grande pedagogo checo, continuam a ser fundamentais na reflexão que há a fazer sobre a educação na actualidade.

Dois pequenos extractos ilustram isso mesmo:

"É fácil educar uma criatura racional a servir-se da razão. 

  (…) Mas não faz coisa inútil aquele que aconselha que todos os homens se apliquem àquilo a que todos podem e querem aplicar-se, desde que o saibam. En-sine-se, portanto, para que saibam; e eles saberão, quererão e poderão. Ensinem-se os homens a usar bem as coisas. É já suficientemente sabido que a verdadeira sabedoria e a nossa verdadeira felicidade consistem no conhecimento, compreensão e utilização das coisas. Ensine-se, por isso, a todos os homens a conhecer e a compreender bem as coisas e ele facilmente aprenderão também a fazer bom uso das coisas (…)

Eduque-se toda a espécie de barbárie. Não se requer para isso nenhuma arte especial; basta apenas arrancar o homem da barbárie, isto é, das ocasiões de embrutecimento, e transferi-lo para onde ele tenha possibilidades de aprender com os sentidos vários objectos e de os perscrutar com o raciocínio e, se se trata de coisas colocadas fora do seu alcance, de as conhecer historicamente; e ver-se-á imediatamente os brutos transformarem-se em homens e, mesmo na Cítia, surgirem Anacharses. Que é que nos impede de estender este método a todos os povos? Na verdade quem é capaz de conduzir rectamente um homem por desertos e pelas sendas de um labirinto, é capaz de conduzir dois, três, dez, mil e até todos, se eles se apresentarem. Por consequência, se nós, ou não importa quem, conseguirmos mostrar, ainda que seja a um só homem o recto caminho da sabedoria, da virtude e da salvação, esta arte apenas ou esta prudência será suficiente para conduzir o mundo inteiro das trevas à luz, dos erros à verdade, da ruína à salvação, porque, nas mesmas coisas, enquanto são as mesmas, o método é o mesmo".

João Amós Coménio, 1666/1971, 56-58.

(Introdução, tradução e notas de Joaquim Ferreira Gomes, Edição da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra/ Instituto de Estudos Psicológicos e Pedagógicos)

1 comentário:

  1. O negro sotaque da razão8 de fevereiro de 2014 às 19:22

    "É fácil educar uma criatura racional a servir-se da razão. "
    A prova disso é o direito currículo do prof. Dr. Eduardo Vera-Cruz.

    "Eduque-se toda a espécie de barbárie."
    Agora deu-me uma branca.



    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.