segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Ainda as infelizes declarações de Pedro Passos Coelho

As declarações de Pedro Passos Coelho sobre a ciência não só foram infelizes na forma, mas foram-no também e sobretudo no conteúdo. Contrariando o programa do seu próprio governo (alguém se lembra se ele não se lembra?) decidiu, na pior altura, romper com uma política de fomento da ciência seguida pelo menos desde 1995. Criticou em tom inusitado os cientistas por não mostrarem resultados, quando os há e substantivos, sendo até reconhecidos e admirados internacionalmente. Por último reclamou uma investigação dirigida para as empresas, esquecendo-se que é o primeiro-ministro e que lhe compete, por isso, accionar os mecanismos para esse desiderato, designadamente ordenar à FCT que passe a financiar prioritariamente projectos empresariais. Aparentemente não é isso que a FCT quer fazer com a sua política nubelosa de "excelência", uma palavra assaz repetida mas nunca explicada.  Será que "excelência" significa "ao serviço da indústria"? Não podia o governo internamente discutir o assunto e chegar a uma conclusão que fosse sua?

O primeiro-ministro tem um problema: está sozinho nese assunto, ou terá apenas com ele o ministro da Economia. Não tem os cientistas, não tem a maioria dos cientistas. Preside ao Conselho Superior de Ciência e Tecnologia, mas não encontra aí eco, como mostra o recente comunicado desse Conselho (aparentemente abafado). O primeiro-ministro quererá eventualmente uma ciência sem cientistas. mas isso não existe. Vários cientistas já abandonaram os painéis de avaliação da FCT, não gostando de ter sido corrigidos sem aviso prévio. Os Laboratórios que a FCT designa de "excelentes" acabam de tornar público o que pensam de toda esta bambochata: aqui.

Do nosso governo esperava-se, nesta matéria, um pouco mais de reflexão e de sentido do futuro. É ou não a ciência (e já agora a cultura) um elemento estratégico da nossa vida colectiva, como país europeu que se quer desenvolvido?

O que nos vai valer é que os governos passam e a ciência fica.

3 comentários:

  1. Citando as declarações de PPC:

    "Numa alusão ao anterior período de governação do PS, o primeiro-ministro afirmou que, em matéria de ciência e tecnologia, o actual Governo está gradualmente a “romper com as políticas passadas” baseadas na ideia de que “mais dinheiro público” produz “qualidade” em termos de resultados.

    “De facto, não é assim”, disse Passos Coelho, referindo-se às bolsas atribuídas pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. “Durante vários anos, conseguimos transferir mais recursos para o sistema e atribuir mais bolsas. No entanto, quando medimos depois o número de patentes que são registadas, o número de artigos científicos que são publicados, quando medimos o resultado e a qualidade desse resultado, nós passávamos de indicadores que pareciam comparar muito bem com os países com que gostamos de nos comparar para comparar muito mal sempre que olhávamos à substância dos indicadores”, sustentou."

    Precisamente onde é que elas não são correctas?

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  2. E se esse ignorante, antes de falar de ciência, aprendesse primeiro a falar Português?
    Vejam estas duas pérolas:
    1.ª pérola: «nós passávamos de indicadores que pareciam comparar muito bem com os países com que gostamos de nos comparar».
    Não será: «nós passámos de indicadores que pareciam ser bastante comparáveis com os dos países com que gostamos de nos comparar»?
    2.ª pérola: «para comparar muito mal sempre que olhávamos à substância dos indicadores»
    Não será: «para nos compararmos muito mal sempre que olhávamos à substância dos indicadores»?

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