domingo, 2 de fevereiro de 2014

A humanidade das letras


Início do 1.º capítulo do novo livro de George Steiner, "Linguagem e Silêncio", que acaba de sair na Gradiva: 

Ao olhar para trás das costas, o crítico vê a sombra de um eunuco. Quem seria crítico se pudesse ser escritor? Quem poderia insistir em sublinhar a intuição mais subtil em Dostoiévski se fosse capaz de produzir meia dúzia de linhas dos Karamazov, ou em discutir a arrogância de Lawrence se fosse capaz de dar forma livre ao vento vivo de The Rainbow? Le dur désir de durer, o ardil feroz que o espírito opõe à morte, a esperança de superar o tempo através da força da criação, é a fonte de onde irrompe toda a grande escrita. Brightness falls from the air: cinco palavras e um jogo de sons que se apagam*. Mas que duraram três séculos. Quem escolheria ser crítico literário se pudesse fazer com que os versos cantassem, ou compor, a partir do seu próprio ser mortal, uma ficção viva, um personagem capaz de durar? A maior parte dos homens tem a sua sobrevivência poeirenta em velhas listas telefónicas (que por sorte são conservadas pelo British Museum); no facto literal da sua existência há menos verdade e colheita de vida do que em Falstaff ou Madame de Guermantes. Quem pudera imaginá-los!

O crítico vive em segunda mão. Escreve sobre. O poema, o romance, ou a peça de teatro têm de lhe ser dados; a crítica existe graças ao génio de outros homens. O estilo pode transformar a crítica em literatura. Mas geralmente tal só acontece quando o autor age como crítico da sua própria obra ou em defesa da sua própria poética, quando a crítica de Coleridge continua a sua obra ou a de T. S. Eliot se prolonga na sua própria apologia. Haverá alguém além de Sainte-Beuve que pertença à literatura enquanto simples crítico? Não é a crítica que faz viver a linguagem.

Estas são verdades simples (e o crítico honesto di-las para consigo no cinzento do amanhecer). Mas corremos o perigo de as esquecer, porque o tempo presente sofre de uma sobrecarga peculiar de energia e prestígio de uma crítica autónoma. As revistas críticas expandem-se em dilúvios de comentário e de exegese; na América há escolas de crítica. O crítico torna-se uma personagem por direito próprio; os seus pareceres e as suas querelas têm um papel público. Os críticos escrevem sobre os críticos, e o jovem brilhante, em vez de considerar a crítica como uma derrota, como um desanimado reconhecimento da exaustão e escassez do seu próprio talento, encara-a como uma carreira de primeiro plano. Esta situação poderia ser simplesmente cómica; mas tem um efeito corrosivo. Como nunca antes, o estudante e a pessoa interessada pela literatura lê recensões e críticas de livros mais do que livros, ou antes de fazer o esforço de formar um juízo pessoal. A apreciação do Dr. Leavis sobre a maturidade e a inteligência de George Eliot faz parte dos lugares-comuns da sensibilidade actual. Quantos dos que a repetem leram de facto Felix Holt ou Daniel Deronda? O ensaio de Eliot sobre Dante é um lugar-comum da educação literária; da Commedia conhecem-se, quando muito, alguns excertos (o canto XXVI do Inferno ou um Ugolino faminto). O verdadeiro crítico é um servidor do poeta; hoje, age como seu mestre, ou toma-se por tal. Esquece a última e mais decisiva lição de Zaratustra: «Agora, continuai sem mim.» 

Há precisamente cem anos, Matthew Arnold detectou um fôlego e proeminência análogos no impulso crítico. Reconheceu que esse impulso era secundário por comparação com o do autor, que a alegria e a importância da criação pertenciam a uma ordem radicalmente superior. Mas considerou o período de agitação crítica como prelúdio necessário de uma nova época poética. Nós vimos depois, e é esse o aspecto decisivo da nossa condição. Depois de uma ruína sem precedentes dos valores e das esperanças humanos causada pela bestialidade política do nosso tempo.

Esta ruína é o ponto de partida de toda a reflexão séria sobre a literatura e o lugar da literatura na sociedade. A literatura lida, essencial e constantemente, com a imagem do homem, com a forma e os motivos do comportamento humano. Hoje não podemos agir, nem como críticos nem simplesmente como seres racionais, como se nada de vitalmente importante tivesse ocorrido no nosso sentido da possibilidade humana, como se o extermínio pela fome ou pela violência de cerca de setenta milhões de homens, mulheres e crianças na Europa e na Rússia, entre 1914 e 1945, não tivesse 22 alterado, em profundidade, a qualidade da nossa consciência. Não podemos fingir que Belsen é qualquer coisa de irrelevante para a vida consciente da imaginação. O que o homem infligiu ao homem, num período muito recente, afectou a matéria-prima do escritor - o conjunto e as potencialidades do comportamento humano - e carrega o seu cérebro de novas trevas.

Além disso, põe em questão o conceito fundamental de uma cultura literária e das humanidades. A barbárie política extrema irrompeu do coração da Europa. Dois séculos depois de Voltaire ter proclamado o seu fim, a tortura tornou-se de novo um processo normal de acção política. A difusão geral da literatura e dos valores da cultura não só revelou a sua nulidade como barreira ao totalitarismo, mas, mais ainda, há casos notórios em que os centros de ensino mais destacados das humanidades e das artes efectivamente saudaram o terror e o secundaram. A barbárie prevaleceu no próprio solo do humanismo cristão, da cultura do Renascimento e do racionalismo clássico. Sabemos que alguns dos homens que conceberam e administraram Auschwitz tinham aprendido a ler Shakespeare ou Goethe, e continuaram a fazê-lo.

Tudo isto é de uma importância evidente e esmagadora para o estudo ou para o ensino da literatura. Obriga a que nos perguntemos se o conhecimento daquilo que de melhor foi pensado e dito, segundo a fórmula de Matthew Arnold, expande e aperfeiçoa de facto os recursos do espírito humano. Força a que nos perguntemos se aquilo a que o Dr. Leavis chamou «a humanidade central» educa, de facto, no sentido de uma acção humana, ou se não existirá antes entre o teor da inteligência moral desenvolvida no estudo da literatura e a requerida pela escolha social e política uma oposição e um fosso alargado. Esta última possibilidade é particularmente perturbante. Há certas indicações de que um envolvimento exercitado e persistente na vida da palavra impressa, a capacidade de identificação profunda e crítica com personagens ou sentimentos imaginários, diminui o carácter imediato, as arestas ásperas das circunstâncias do presente. Acabamos por reagir mais intensamente à dor literária do que à desgraça da porta ao lado. Também a este propósito, os tempos recentes nos confrontaram com evidências cruéis. Homens que choravam ao ler Werther ou ao ouvir Chopin moviam-se, como que sem darem por isso, no interior de um inferno literal.

Isto significa que quem ensina ou interpreta literatura que quem ensina ou interpreta literatura - e as duas coisas são exercícios que procuram construir perante o autor um corpo de resposta viva e de inteligibilidade - deve interrogar-se sobre o que está a fazer (orientar, guiar alguém através do Rei Lear ou da Oresteia é tomar nas mãos as nascentes do seu ser). A proclamação do valor de uma formação literária nos termos da percepção moral do indivíduo e da sociedade era uma exigência óbvia para Johnson, Coleridge e Arnold. Hoje esse valor está posto em causa. Devemos examinar a possibilidade de o estudo e a transmissão da literatura serem uma actividade de importância marginal, um luxo como a preservação de coisas antigas.
Ou, pior ainda, de nos afastarem de um emprego do tempo e das energias do espírito mais urgentes e responsavelmente atentos. Não creio que estas duas hipóteses correspondam à verdade. Mas a questão tem de ser posta sem subterfúgios. Nada é mais preocupante, quando consideramos a actual situação dos estudos ingleses nas universidades, do que o facto de esta interrogação ser posta de parte como extravagante ou subversiva. Porque é essencial.
(...)

Georges  Steiner

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