sábado, 18 de janeiro de 2014

OS ANOS DEVASTADORES DO EDUQUÊS - UMA PROVA

Artigo de Guilherme Valente saído ontem no DN:

Sim, foi o que previmos, e andámos a dizer há mais de 20 anos, o que era óbvio para quem olhasse com espírito livre, que está escrito nos inúmeros artigos que publiquei, registado no meu livro com um título, Os Anos Devastadores do Eduquês*,que não podia ser mais expressivamente convergente com os resultados do estudo agora divulgado. Quanto mais tempo na escola que temos tido, pior. Como sempre gritei, o resultado destes anos de domínio da ideologia e das práticas educativas que tenho designado com a palavra «eduquês» está diante de nós, em manifestações na escola e já na sociedade, manifestações que cada vez nos deixam mais perplexos e angustiados.

 A solidariedade, o seu sentimento e necessidade, a felicidade, porventura, só podem assentar nos grandes valores e nas manifestações mais elevadas da cultura, do conhecimento, do altruísmo, da generosidade humanos. Da literatura à arte, da ciência, da religião, etc. Valores, conhecimento e manifestações culturais que, pelo contrário, foram desvalorizados, durante todos estes anos, por esta escola, dita moderna, mas posmoderna, das «ciências» da educação. Escola dos «chavões» da «aula como continuação do recreio», do «aprender a aprender», do «poder aprender sem esforço», das avaliações a fingir, cujos resultados, mesmo assim, esconderam ao País enquanto os deixámos; do «ensino centrado no aluno», que, como demonstrámos, não queria dizer «ao serviço do aluno», como devia ser, mas sim «o ensino definido pelo aluno», imagine-se». Escola, até José Sócrates, registe-se, do estigma do ensino técnico, da mentira da «inclusão» - é preciso «lata» para terem apregoado isso, quando se viu logo que as crianças mais desfavorecidas cada vez fugiam mais dela.

Aqueles que, durante todos estes anos, ignorando a prova da realidade, teorizaram e impuseram o ensino que temos tido - isto é, um ensino que expulsou ou foi desvalorizando a memória, a história, a grande literatura e com ela o ensino da língua e a expressão do pensamento, a filosofia, o conhecimento que conta; um ensino sem exames, sem exigência, sem emulação, sem a valorização do mérito, sem regras; um ensino permissivo, com os jovens abandonados ao «instinto reptiliano», e mesmo encorajados a manifestá-lo - um ensino que, disseram, e continuam a dizer, tornaria os portugueses mais tolerantes, solidários, participativos e cooperantes, criativos e empreendedores, mentiram ou falharam. Aconteceu o contrário. E, claro, não tornou os Portugueses mais informados, nem mais cultos. E quanto mais anos neste ensino, pior. Mais instruídos? Não. Apenas com mais anos na escola errada.

Como este estudo da Universidade Católica parece ter já podido verificar. Essa ideologia e essa prática "educativa" roubaram as crianças, deixaram que perdessem os valores tradicionais que transportavam, que fossem substituídos, chegando até, de algum modo, a valorizá-la, pela lei da selva. Que tem, porventura, a sua expressão mais imediata e vísivel na violência contra os professores e entre os alunos, e o seu lugar natural na anomia anti-educativa dos hiperespaços escolares. Violência que cresceu sempre, em número e em grau. Mas mesmo que se actuasse já no ensino, num grande movimento nacional que tudo indica ser impossível verificar-se -- e ainda que resultados dessa boa mudança se manifestassem no ambiente das escolas e no aproveitamento dos alunos -- a alteração do perfil dominante dos portugueses que o estudo da Universidade Católica revela só no longo prazo, como se compreende, se verificaria. E Portugal, entretanto, pagará essa factura.

Há de resto muitos outros indicadores desta realidade. Por exemplo, no domínio da leitura, que é determinante. A escritora Alice Vieira referiu que há dez anos ia às escolas apresentar e discutir os seus livros com miúdos de 12 anos. Hoje vai à escola apresentar e discutir os mesmos livros com jovens...do 12º. ano!

Finalmente é urgente divulgar e pensar uma situação terrível que terá consequências dramáticas para o País, situação de que, estou certo, todos os editores terão a consciência e a experiência: os grandes livros que veiculam o conhecimento universal estão já a deixar de ser publicados em português. Por falta de leitores. Do número mínimo de leitores que viabilize os custos da sua edição.

 O que o estudo da Universidade Católica - que é também, curiosamente, uma tese de doutoramento em «ciências» da educação; vamos a ver como o doutorado o interpreta... - parece provar é, pois, o que sempre disse, e que não era, aliás, difícil de prever. "Tudo é igual a tudo" é, afinal, a expressão pós moderna que melhor traduz a ideologia e a pedagogia que também à nossa escola foram impostas durante todos estes anos de devastação. O resultado aí está, documentado agora por um estudo que parece ser insuspeito e merecer, numa primeira aparência, credibilidade. Mas não era preciso estudo nenhum para o provar, basta a vida. As gerações mais qualificadas que Portugal teve? Como sempre pensei, vejo e tenho tido a coragem de dizer... tretas. Mas mudar está, claro, ao nosso alcance, depende apenas da nossa vontade. Mas é preciso querer ver a verdade.

Guilherme Valente

*Os Anos Devastadores do Eduquês, Lisboa, Presença, 2012.

2 comentários:

  1. "Faz o que quiseres" - acho interessante esta psicologização educacional do liberalismo. Diz que a liberdade torna os seres mais responsáveis e felizes. Se a escola é um problema social, há que torná-la num espaço de recreio onde todos possam ser felizes. Porque a felicidade é feita muito natural mente. E é necessária. Para que as pessoas sejam felizes e cumpram os seus sonhos. Tiremos pois os estrados do conservadorismo, reptiliemo-nos por lá até que a alma nos doa e ultrapassemos os nossos próprios limites não-diretivos para que a nossa vocação de pedreiro, cozinheiro, mecânico se aposse de nós irreversivelmente, pois de todos precisamos. Que importa Camões no absurdo curriculum de um ente que há de ser a penas funcional, se possível, no estrangeiro?
    Francamente, Guilherme Valente!

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  2. Senhor Guilherme Valente:
    Como o post «Polémica: O Magala» já está muito abaixo, e os seus argumentos são sempre os mesmos, aqui lhe deixo a resposta àquele post mas que se aplica também a este.
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    Senhor Guilherme Valente:
    Fique lá com a Taça do Eduquês.
    Eu para mim não a quero.
    Só se pode discutir com quem o quer fazer, esse é um princípio básico em todas as situações da vida.
    Como senhor não quer discutir com ninguém, antes impor a sua visão mirabolante da realidade, que fazer?
    Pior: agora nos tribunais se alguém ousar contrariá-lo, chamando-lhe o que o senhor lhe chama.
    Desde o 25 de Abril, entre os vários aspectos que hoje, a quase 40 anos de distância, podemos claramente identificar como negativos, um deles é a degradação do conceito (e da aplicação prática) de autoridade.
    Por reflexo condicionado contra o trauma da irracional imposição da autoridade autoritária (passe a redundância) do Estado Novo, contestou-se toda a autoridade, mesmo a democrática, nas ruas, nas empresas, nas instituições, até no Parlamento. E tudo em directo, acessível ao universo dos portugueses e à distância de um click no botão da rádio ou da televisão, à hora das refeições, hoje todo o dia.
    Insultou-se os 1.os Ministros, os Ministros, o Presidente da República, toda a gente.
    E o senhor vem dizer que a culpa do desrespeito dos alunos pelos professores e pela autoridade em geral é do eduquês.
    Não abuse da nossa inteligência.
    Tenha pena de nós.

    P. S. Disse: «Vou tentar explicar, então, o que não terá sido claro para o comentador.»
    Para mim o seu pensamento é claro (nunca tive dúvidas sobre o que o senhor anda a escrever há 30 anos, contra toda a evidência, considerando os resultados globais, como é evidente, não ignoro os problemas reais), isto é, uma fantasia.
    Admoeste o Prof. Carlos Fiolhais pelo que disse no Prós e Contras, o Dr. Luís Portela, o Prof. António Coutinho, o Prof. Sobrinho Simões, enfim, todos os que conhecem a realidade, vivem com as pessoas (não vivem fechados em 4 paredes cheias de livros em Campo de Ourique), os quais enaltecem a qualidade dos «filhos da geração eduquesa» que dão cartas no estrangeiro. O fruto das 4 centenas de milhar de universitários (em 2010/11) contra os 25 mil nos «seus bons tempos», em 1965, quando só alguns podiam ser chamados «Dr.» Esse é outro dos seus problemas.
    Ao contrário da geração bem formada antes do eduquês, que ia trabalhar nas minas de carvão da Bélgica ou na beterraba da França, esses sim, esses sabiam Literatura e tratavam os clássicos por tu.
    Admoeste também Angela Merkl e o Governo da Noruega, entre outros, que estão a contratar ignorantes aos milhares.
    Costuma dizer-se que a ideologia cega. E as ideias pré-concebidas de matriz ideológica, fundamentalistas, cegam completamente.
    O senhor não tem a noção do ridículo?

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