terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O PANTEÃO NACIONAL, EUSÉBIO E O ÓPIO DO CONSENSO


“Mas a verdade é que numa época tão intelectual, tão crítica, tão científica como a nossa, não se ganha a admiração universal, ou seja, nação ou indivíduo, só com ter propósito nas ruas e pagar lealmente ao padeiro. São qualidades excelentes, mas insuficientes. Requer-se mais: requer-se forte cultura, a fecunda elevação de espírito, a fina educação do gosto, a base científica, a altura ideal” (Eça de Queiroz).


Contrariando o vate da nossa epopeia em “dar novos mundos ao mundo”, mudam-se os tempos, não se mudam as vontades. Ou seja, serviu-se descaradamente o “Estado Novo” de Eusébio como meio de propaganda política. Não com menos descaro, utiliza-se, agora, o “Novo Estado” de Eusébio numa espécie de ópio do consenso, de todos os partidos com assento nas bancadas de  São Bento, que leve os portugueses  a esquecer os verdadeiros problemas do País e limpe a má  consciência de quem permite que os vivos maldigam a má sorte  de viverem numa sociedade que só será democrática, como escreveu Jean-Jacques Rousseau, “quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém for tão pobre que tenha de se vender a alguém”.
De um montão de páginas laudatórias sobre Eusébio (da Silva Ferreira) para vender jornais ou, por exacerbado amor às coisas da bola,  em que, em idolatria popular, “o coração tem razões que a razão desconhece” ( Pascal), destaco o equilíbrio do  título de um post, publicado neste blogue (07/01/2014), da autoria de Augusto Kuttner de Magalhães, intitulado “Com todo o respeito por Eusébio, também não exageremos”.

Neste controverso contexto, não posso (e muito menos, devo) deixar de relevar o belíssimo artigo de opinião, da autoria de João Miguel Tavares, intitulado “O Panteão de chuteiras”, em título jocoso, mas em conteúdo bem sério, saído hoje no Público, que transcrevo na íntegra:

“Se me perguntarem quem é que prefiro ver no Panteão Nacional , se Óscar Carmona se Eusébio, eu voto obviamente em Eusébio.  O Panteão Nacional, embora parco em sepulturas (são apenas dez), mesmo assim consegue o prodígio de ter gente que não merecia lá estar, fruto da época turbulenta em que foi criado (1916) e de meio século de ditadura.

Mas inverter a discussão sobre se Eusébio deve ou não ir para o Panteão argumentando, em delírio hiperbólico, que ele é muito maior que a Igreja de Santa Engrácia e merece melhor companhia é, digamos, assim, uma entrada com os ‘pitons’ à frente, que não me parece que seja muito útil ao debate.

Talvez seja ingenuidade minha, mas eu simpatizo com a ideia republicana de existir um local digno e prestigiado onde homenagear os heróis da pátria, e aborrece-me quem disso desmerece. Qualquer país decente deve prestar tributo àqueles que ‘se vão da lei da morte libertando’, para citar um senhor que lá não está e merecia estar – é uma questão de identidade nacional e de respeito pela memória. E é também por isso que me faz alguma impressão imaginar o Panteão, daqui a 70 ou 80 anos, cheio de homens do futebol. Para o ano é o Eusébio. E num futuro que se quer distante hão-de ser Cristiano Ronaldo e José Mourinho, que hoje em dia têm uma projecção internacional como Eusébio nunca teve.

A existência de um critério compreensível é muito importante, e a lei n.º 28/2000, que regula as honras do Panteão Nacional, define-o com bastante clareza: ele destina-se ‘ a homenagear e a perpetuar a memória de cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade’.

A não ser numa muito vaga definição de ‘expansão da cultura portuguesa’, tenho muitas dúvidas que Eusébio caiba com facilidade naqueles critérios. E ainda bem que não cabe. Não me entendam mal: eu adoro futebol, sou sócio do Benfica e tenho consciência da importância de Eusébio na história do desporto português. Mas recuso terminantemente equivaler tudo, numa espécie de terraplanagem estética e ética, que coloca um futebolista, por mais brilhante que ele seja, no mesmo patamar simbólico, enquanto herói de uma pátria, em que estão os artistas, os cientistas ou os defensores da liberdade. Eusébio não é Aristides de Sousa Mendes, que não está lá. Jogar bem à bola não tem o mesmo valor de salvar milhares de vidas.Eusébio não é Salgueiro Maia, que não está lá. Jogar bem à bola não tem o mesmo valor de derrubar uma ditadura e recusar todas as prebendas. Eusébio não é Amália, que está lá. Jogar bem à bola não tem o mesmo valor que elevar a única criação artística genuinamente portuguesa – o fado – a patamares até hoje inultrapassados.

Panteão, em grego, significa o conjunto de todos os deuses (pan+theos). E, se fomos guiados pela etimologia, talvez faça sentido no século XXI, enchê-lo de figuras ligadas ao futebol, essa verdadeira religião dos tempos modernos. Mas não consigo aceitar essa opção sem sentir que algo de fundamental se está a perder. Não é nada contra Eusébio. É tudo contra o relativismo da contemporaneidade, ainda que sob o alto patrocínio da Assembleia da República”.

15 comentários:

  1. Devem os títulos dos artigos expressarem devidamente os respectivos conteúdos. Daqui o ter eu ampliado o título deste meu post, inicialmente, "O ÓPIO DO CONSENSO", "tout court", para: "O PANTEÃO NACIONAL, EUSÉBIO E O ÓPIO DO CONSENSO".

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  2. Jogar bem à bola não tem o mesmo valor de derrubar uma ditadura e recusar todas as prebendas~.

    SEM SOMBRA DE DÚVIDA!

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    1. Têm que haver regras, principios, e formas de o fazer ser democratica mas razovalmente seguidos!

      ...................dar tempo ao tempo sem esquecer a história!! e a Memória!!!

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    2. Por lapso de transcrição do artigo "O Panteão de chuteiras", de João Miguel Tavares, de que me penitencio severamente, omiti nela a seguinte frase (3.ª linha do penúltimo §): "Eusébio não é Salgueiro Maia, que não está lá". Com o pedido de desculpas ao autor do texto e aos leitores, irei proceder, de imediato, ao devido acrescento.

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    3. Algumas questões de português. Peço ao professor Rui Baptista que esclareça.
      "Devem os títulos dos artigos expressarem devidamente os respectivos conteúdos. " Parece-me duvidosa a forma "expressarem" penso que "expressar" seria melhor. O infinito pessoal dá muitas dores de cabeça.
      "Têm que haver regras, principios,..." de augusto kuettner magalhaes. Aqui não tenho dúvidas. É um erro horrível, infelizmente tornou-se muito frequente maltratar o verbo haver. Há tanta gente a falar assim, incluindo pessoas com elevada formação académica, que começo a pensar que o que é correcto é pôr o verbo haver no plural. Até já pus a hipótese de eu próprio começar a utilizar essa forma. Mas ainda não tive coragem.
      Agradeço observações sobre este asunto.

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  3. Excelente Tio Rui, Parabéns vou partilhar sim? beijinhos ;)

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  4. Em complemento:
    Afigura-se-me de mau gosto o "panteão" do senhor Vieira.
    http://tempoderecordar-edmartinho.blogspot.pt/2014/01/aberracao.html

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  5. Prezado anónimo (15 de Janeiro de 2014 às 13:45): Comungando das sua dúvidas sobre a correcção da redacção da minha frase por si questionada,"agradeço observações sobre este assunto".

    Cordialmente,

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  6. Têm que haver?? Também achei estranho, será, certamente, uma gralha.

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  7. Não é gralha. É asneira.

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    1. Anónimo é designação admitida neste blogue.
      "Porque ser mais um "anónimo"????" Outra asneira gramatical grave. Deve escrever "por que". Com os anónimos é possível aprender. E também é possível acabar com eles em blogues. Não depende da minha vontade.

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  8. Caro Colega Anónimo: não se assute. Como não gostou da mensagem, o senhor magalhaes trata de atacar o mensageiro.

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