terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A "utopia revolucionária" da FCT

O físico Pedro Bicudo do Técnico sugere que a massa da FCT foi para programas doutorais. Duvido que isso dê conta da totalidade das massa desaparecida. Mas há duas questões nestes programas doutorais:

1) As Universidades não foram praticamente nem ouvidas nem achadas. Foi como se não existissem, limitando-se a ser "barrigas de aluguer" dos programas.

2) A avaliação dos programas doutorais não foi séria. Propus um programa de duas universidades no domínio da História da Ciência e a resposta veio de quem não fazia ideia nenhuma o que era o assunto. Pior: tendo reclamado, recebi uma resposta meramente burocrática. Nem sequer examinaram as alegações.

Sobre a "mudança de paradigma": só se for a de transformar crescimento em decréscimo. A actual FCT herdou um sistema científico-técnico que, no seu conjunto (público e privado),  estava a crescer, e a herança que vai deixar é a de um sistema a descer. Estava a subir, está agora em queda. Transcrevo, com a devida vénia, a fim de lhe aumentar a difusão, o artigo de Pedro Bicudo,

Carlos Fiolhais

 

A utopia revolucionária da Fundação para a Ciência ea Tecnologia


PEDRO BICUDO
As áreas científicas que a fundação decidiu apoiar nos novos programas de doutorais, cujos primeiros resultados foram divulgados em 2013, são “subsubáreas” da ciência e da tecnologia.
 
Sou totalmente adverso a esta mania revolucionária (que estranho surgir num Governo PSD/CDS) de destruir o que existe e de fugir para uma utopia mirabolante. Os países mais desenvolvidos são aqueles que constroem de forma sólida e rigorosa sobre uma base que já exista. Que preservam o que já têm. E que, passo a passo, de forma clara e bem planeada, avançam em direcção ao futuro.
O problema das bolsas (ou falta delas) da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) não surgiu há uns dias, começou nos programas doutorais, com orçamentos milionários, que são os flagships da FCT na era de Miguel Seabra. Quem quiser saber quais foram as “subsubáreas” da ciência e da tecnologia que a FCT de Miguel Seabra decidiu financiar com estes programas de doutoramento milionários, estão todas aqui
É claro nesta listagem e nos resultados dos concursos de bolsas recentes que os temas que ganharam a lotaria dos programas de doutoramento da FCT são claramente minoritários, que estes programas doutorais minoritários são a aposta para os próximos anos em detrimento das bolsas de mérito individual, como o próprio primeiro-ministro foi levado a defender no Parlamento, que em todos os outros temas ficou um deserto de bolsas, pois a FCT gastou a maior parte do seu orçamento nestes programas e noutros projectos de âmbito muito restrito, e que os temas que foram excluídos correspondem à maioria da ciência e da tecnologia.
Concluímos assim que a estratégia para bolsas de doutoramento do Governo/FCT não vai desenvolver a economia nacional, nem agora nem no futuro, nem vai aproximar a ciência das empresas, mas vai atrofiar a maioria das áreas tecnológicas – que são todas igualmente importantes – e, como tal, vai fazer regredir a economia nacional.
Num caminho reformista (que seria o que se esperaria de um Governo PSD/CDS), saliento que as universidades portuguesas, pelo menos as melhores, já têm todas cursos de doutoramento, há dezenas de anos, ligados aos seus departamentos. Esses cursos de doutoramento é que são a base da tecnologia portuguesa, e estão naturalmente associados aos melhores centros de investigação. Funcionam bem e todos cumprem os critérios para funcionarem com qualidade. Poderiam ser melhorados? Claro que poderiam, principalmente se tivessem estabilidade e tivessem um número mínimo de alunos, que teriam se a FCT e instituições privadas atribuíssem bolsas aos alunos dos cursos de doutoramento das universidades – e não a estes enxertos que são os programas doutorais da FCT.  E poderiam ser guiados pela FCT no sentido que o Governo achasse estratégico.
Mas esta “revolução” de Miguel Seabra, esta “lotaria”, é um desperdício dos (excessivos) impostos pagos pelos contribuintes.
Pedro Bicudo

Professor e físico do Instituto Superior Técnico

6 comentários:

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  3. Os muçulmanos ocuparam a Península Ibérica durante 500 anos.
    Não nos deixaram a burka física, é verdade, mas deixaram-nos uma burka mental que floresce em dadas circunstâncias políticas e sociais: como as de agora.
    Não percebem o que eu quero dizer?
    Ouçam este curtíssimo (e inacreditável) vídeo:
    http://videos.sapo.pt/EfSfUWF4yUGibmLa3Oeu

    Por sua vez, Maria da Graça Carvalho, numa entrevista no jornal Expresso, dia 25/1, tem uma posição completamente contraria a estes talibãs.
    Mas eles é que determinam esta agenda política de terra queimada que temos presentemente.

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  4. Efectivamente o que vivemos em Portugal pode ser chamado de Neo-liberalismo mas qualquer extremismo torna-se no seu oposto, por isso soa tanto a mentalidade revolucionária.

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  5. Quando as mudanças de paradigma vêm do governo Passos Coelho toda a gente entende que não há paradigma - há até quem suponha (mal intencionados!) que eles não aprofundaram o que seja isso de paradigma, agitam-lhe o ramalhudo, a palavra é fixe, ficam como a mulher de saltos altos, com a ilusão da altura. Portanto, não podendo haver paradigma, a mudança a haver é mesmo um corte, uma ruptura. Rompem com o que vale.
    Sempre ouvi que os novos paradigmas se geram dentro da própria ciência, fortes o suficiente para rejeitar os anteriores, porque mais se aproximam da verdade. Mas ouvimos as universidades, os professores, os bolseiros a queixarem-se de não ter sido consultados; a exporem as suas razões (as verdades que existem) para a continuidade dos trabalhos....a afirmarem que estamos a afastar-nos da aplicabilidade da investigação científica à dinâmica empresarial e aos sectores da vida activa na ajuda que o país precisa.

    E isto que nome tem?

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  6. Em 1947 também foi assim, fizeram uma purga do melhor da intelectualidade portuguesa (Bento de Jesus Caraça, M. Azevedo Gomes, Ruy Luís Gomes, Francisco Pulido Valente, Fernando Fonseca, Peres de Carvalho, Dias Amado, Celestino da Costa, Cândido de Oliveira, Adelino da Costa, Caseão de Anciães, Mário Silva, Torre de Assunção, Flávio Resende, Zaluar Nunes, Remy Freire, Cabrée Rocha, Manuel Valadares, Armando Gibert, Lopes Raimundo, Laureano Barros, José Morgado, Morbey Rodrigues, A. Pereira Gomes, A. Sá da Costa, Virgílio Barroso, Aurélio Marques da Silva).
    Apenas por razões ideológicas.
    Os resultados viram-se:
    - A débil ciência que tivemos nas décadas seguintes;
    - Os baixíssimos níveis de frequência do ensino superior (em 1965 tínhamos 25.000 alunos, em 1980 cerca de 80.000, em 2010/11 tivemos 403.455.
    - Os vergonhosos índices de analfabetismo que mantivemos até demasiado tarde:
    [1890: 75,9%;
    1900: 74,5%;
    1911: 70,3%;
    1920: 66,2%;
    1930: 61,8%;
    1940: 49%].
    Estes números [1890 a 1940] servem apenas para se perceber de onde viemos e como progredimos.
    1950: 40,4%;
    1960: 30,3%;
    1970: 25,7%;
    1981: 18,6%;
    1991: 11%;
    2001: 9%;
    2011: 5,2%.
    (Fontes: até 1960 in António Nóvoa, Nova História de Portugal – Portugal e o Estado Novo (coord. Fernando Rosas), p. 475; de 1970 a 2011 in Pordata).
    Dir-me-ão, o que é que isto tem a ver com a ciência? Faz parte do mesmo paradigma obscurantista, movido por cegueira ideológica, por ideias pré-concebidas, pelo «talibanismo» radical que nos domina.
    Os muçulmanos ocuparam a Península Ibérica durante 500 anos.
    Não nos deixaram a burka física, é verdade, mas deixaram-nos uma burka mental que floresceu em dadas circunstâncias: como a de agora.
    Este vídeo é bem elucidativo:
    http://videos.sapo.pt/EfSfUWF4yUGibmLa3Oeu
    Contudo, Maria da Graça Carvalho, numa entrevista ao jornal Expresso, 25/1, tem uma posição completamente contraria a estes talibãs.
    Felizmente há pessoas de valor e sensatas na área do Governo, é pena o seu (quase) silêncio.
    Mas quem determina a agenda política são os talibãs.

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