The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

domingo, 30 de Junho de 2013

ALENTEJO E ALENTEJANOS

Imagem colhida in: estounasesta.blogs.sapo.pt
Há uma trintena de anos trouxe do Alentejo interior uma comadre de visita a uma filha residente em Almada – a velha Almada anterior à, tantas vezes, desumanizada explosão urbanística. Viemos por Setúbal e, durante a subida da serra da Arrábida, esta minha comadre, que aqui vinha pela primeira vez, dava mostras de um certo mal-estar.
– Não sei o que tenho, sinto-me apertada. Falta-me a lonjura do nosso Alentejo. Isto aqui é só cabeços.

E que cabeços! E foi assim até ao alto da capelinha de Nossa Senhora das Necessidades. A partir daí, na descida para Azeitão, foi-se-lhe diluindo a aflição e, quando passámos à planura, ouvi-a exclamar:
– Aqui, sim, já a gente respira!

Em sua opinião, voltáramos ao Alentejo. E tinha razão! Administrativamente integrada na Estremadura, a península de Setúbal só a ela se liga pela Ponte 25 de Abril e pelo grande fluxo de cidadãos, que, de uma e de outra banda do chamado Gargalo do Tejo, o atravessam diariamente nos dois sentidos, a caminho do trabalho e no regresso a casa. Como geólogo contactei de muito perto com os terrenos e também com as gentes desta região, tendo tido oportunidade de constatar aqui a continuidade territorial e cultural do Alentejo.

São as fábricas de cortiça e de transformação de carne de porco, são os mercados, onde não faltam o pão e o queijo alentejanos, os poejos, os cardinhos e as beldroegas, são os restaurantes, as tabernas e as vendas à moda antiga, as colectividades culturais e recreativas. O substrato geológico e os condicionalismos climáticos que caracterizam o Alentejo foram favoráveis à vegetação que aqui se desenvolveu, parte dela indígena e outra parte introduzida, bem como à ocupação animal, também ela autóctone e importada. O montado e o porco preto dele dependente, a vinha, o olival e a seara de pão, a tetralogia mediterrânea, no dizer de Alfredo Saramago, constituem elementos maiores tradicionalmente referidos nesta paisagem.

Mas não são menos alentejanos, quase sempre esquecidos, os campos de arroz da bacia do Sado, o extenso areal e os alcantilados da linha de costa ou os densos pinhais da franja litoral. Mediterrâneo por natureza e atlântico por posição, como nos ensinou Orlando Ribeiro, os seus parâmetros marcaram as populações que aqui viveram, do mesmo modo que continuam a marcar o alentejano dos dias de hoje.

Os vestígios mais antigos da presença dos nossos antepassados em terras alentejanas remontam ao Paleolítico e estão representados, em especial, por utensílios em pedra lascada encontrados, em abundância, nos terraços fluviais de alguns dos seus rios, e por não menos importantes gravuras rupestres, como as trazidas às primeiras páginas dos jornais, na sequência dos trabalhos na barragem de Alqueva. Primeiro como recolectores, apanhando bolotas nos então muito mais cerrados montados, pescando e caçando, estes nossos longínquos avós acabaram por se tornar pastores e agricultores. Tal fixação levou à construção dos primeiros povoados nas colinas sobranceiras aos principais cursos de água. A densidade de construções megalíticas (antas, menhires e cromeleques), característica ímpar desta região, testemunha a importância da sociedade agropastoril que aqui teve berço há mais de 5000 anos.

Aqui se instalaram, durante mais ou menos tempo, ou por aqui passaram ligures e celtas, fenícios, gregos, cartagineses e romanos, uns nas suas rotas comerciais e outros em busca do ouro, da prata, do cobre e do estanho, com relevo particular para os romanos. Estes, chegados no século III a.C., deixaram-nos importantes marcas civilizacionais da sua ocupação e domínio político de, pelo menos, meio milénio. Antes de serem Alentejo, estas terras constituíram parte da Hispania Ulterior, na sequência da divisão administrativa criada na Península pelo invasor. Estas mesmas terras foram, mais tarde, a metade sul da Lusitânia, a mais ocidental das três províncias ibéricas do Império Romano.

Outra importante presença, que ainda hoje se faz sentir, foi a islâmica, iniciada no século VIII com a conquista de Mértola, por Muçá ben Nusayr, pondo fim à dominação visigótica, a última das invasões levadas a efeito por povos do norte da Europa, habitualmente referidos como bárbaros. A ocupação muçulmana teve aqui uma longa permanência, cerca de cinco séculos, que só terminou com a reconquista cristã, no século XIII Com a islamização, estas terras fizeram parte do Garb, que quer dizer Ocidente, designação naturalmente usada pelos que vinham de oriente, neste caso, os invasores árabes.

Mais precisamente, o seu nome foi al Garb al-Andaluz, que significa o ocidente da Hispânia, que incluía, não só o Alentejo, como também, o Algarve e a Andaluzia, do outro lado do Guadiana. A civilização muçulmana deixou aqui muito dos seus saberes, não só os tidos por eruditos, como os do melhor aproveitamento da terra, numa das regiões mais áridas do território que é hoje o nosso. À unidade de coabitação entre a Andaluzia, o Alentejo e o Algarve, durante mais de um milénio, criada pelos invasores romanos e continuada pelos conquistadores islâmicos, seguiu-se a separação, delineada ao sabor da reconquista e das disputas fronteiriças entre o reino de Portugal e o de Castela e Leão, ao longo do Guadiana. Não é, pois, por acaso, que há bastantes traços comuns entre nuestros hermanos andaluces e os alentejanos, por um lado, e entre estes e os algarvios, por outro. Após a reconquista, concluída por D. Afonso III, no século XIII, e na sequência da reorganização territorial, foi criada a comarca de Antre Tejo e Odiana (Entre Tejo e Guadiana), designação antiga que resistiu ao tempo através da poética de Bernardim Ribeiro, na Écloga de Jano e Franco, e que corresponde grosso-modo, ao actual Alentejo, tendo por limite meridional as alturas definidas pelas serras de Caldeirão e de Monchique. Anteriormente, o termo Alentejo, como nome de região, não existia.

Com o significado de para além do Tejo, foi criado pelos conquistadores vindos do norte, do jovem reino de Portugal. O Ultra Tagum, no latim dos eruditos de então, deu Além do Tejo, no dialecto romance, que era o que se falava aí, ao tempo dos nossos primeiros reis. Tendo este grande rio por fronteira natural, as terras que lhe ficavam a sul estavam, pois, para além dele. De todos estes povos, os que por aqui passaram e que aqui viveram, herdámos genomas e culturas. O alentejano é, pois, o produto desta longa e complexa história e, naturalmente, da que se lhe seguiu, marcada sobretudo por um regime de propriedade de “muita terra a dividir por poucos” (Mattoso e Daveau, 1997), ou de “Terra pouca para muitos, terra muita para poucos”, como cantou Manuel Alegre (1996), num longo percurso condicionado pela paisagem física em que se desenrolou.

A diversidade fisiográfica do Alentejo determina que, dentro de uma certa unidade, como é muitas vezes apresentada, haja diferenças sensíveis de local para local. Há um Alentejo interior, a oriente, semi-árido, dominado pela azinheira, e um outro, a ocidente, menos seco, influenciado pelos ventos húmidos do Atlântico, onde o montado de cortiça impera. Por outro lado, a escarpa de falha da Vidigueira, um acidente tectónico que limita, a sul, a serra de Portel, marca igualmente, como um degrau, a separação entre duas superfícies bem assinaladas pelos geógrafos, a de Évora, a norte, mais elevada e acidentada, e a de Beja, mais rebaixada e de mais vastas planuras.

São alentejanos os madeireiros serranos de Portalegre e os seareiros das planícies que se estendem para Sul. São alentejanos os cultivadores de sequeiro, os regadores do vale do Caia e os que vivem dos arrozais alagados dos campos aluviais dos seus grandes rios. São ainda alentejanos os pescadores e todos os que habitam a longa faixa litoral, que se estende da restinga de Tróia às falésias atlânticas do Algarve. Fala-se do falar alentejano, da cozinha alentejana, dos cantares do Alentejo e contam-se divertidas anedotas, visando os seus habitantes. Alentejanos são todos os da margem esquerda do Tejo e se o nome nada tem de especial, quando dito por alguém da margem norte, constitui um paradoxo sempre que são os próprios alentejanos que assim se autodenominam, uma vez que, sendo e estando do lado sul do Tejo (para eles o lado de cá, e, portanto, aquém do Tejo) se estão a afirmar além dele, como bem lembrou José Mattoso.

Alentejano é, pois, o nome pelo qual esta comunidade se auto-identifica sem se dar conta que, em rigor, o termo só faz sentido quando dito por estremenhos, beirões, minhotos ou transmontanos. Nunca por eles próprios e, muito menos, por algarvios. Nestas condições dever-nos-íamos considerar “aquentejanos”, sugestão, aliás, já avançada no século XIII, mas que não fez vencimento. Com efeito, dois documentos assinados em Beja, em 1284, auto-situam-se no “Aaquem Tejo”. No Alentejo de hoje, as aldeias e as pessoas estão a urbanizar-se mercê, sobretudo, de dois factores determinantes: - a facilidade dos transportes, que as põe a escassos minutos das cidades vizinhas, e a televisão, que tudo uniformizou.

Estes dois veículos da modernidade puseram fim ao isolamento de séculos, situação que é uma realidade, não só aqui, como por todo país. Porém, não obstante esta modernização, a cultura dos alentejanos, enraizada ao longo de gerações, e a persistência de uma condição ancestral por demais conhecida, fizeram e continuam a fazer deles aquilo que gostamos que digam de nós e que Manuel Alegre tão bela e rigorosamente cantou na linguagem universal dos poetas, em “O Estilo”, 1996: «Incapaz de ser senão diferente / há um modo de calar e um falar claro / um olhar cara a cara e frente a frente / um viver devagar que tudo é raro / e único e só assim urgente».

A. Galopim de Carvalho

(Texto adaptado de “…Com Poejos e Outras Ervas”, Âncora Editora, 2004)

sábado, 29 de Junho de 2013

Olhe que não, senhor governador. Olhe que não...

Em entrevista recente, o governador do Banco de Portugal afirmou que a recapitalização dos bancos com dinheiro público era no interesse da economia e dos depositantes. Permita-me discordar, senhor governador. A recapitalização dos bancos com dinheiros públicos não favorece ninguém, nem depositantes, nem nenhuma métrica geral da economia, pelo contrário. Eu explico.

Sem entrar em grandes detalhes mais técnicos, vamos imaginar que quero fazer um banco. Pego em 10 euros e abro um banco( não, o senhor governador não me deixaria abrir um banco com 10 euros). O Zé vem ter comigo e eu empresto-lhe os 10 euros. Diz-se que tenho um rácio de capital de 100% . Vem o Zé outra vez e pede-me mais 10 euros para somar aos 10 que já tinha levado. Como só tinha 10 peço emprestado mais 10 aos meus depositantes e o meu rácio de capital desce para 50%. O Zé, que anda enrascado com um negócio de calcetaria marítima precisa de mais 10 e eu vou buscar mais 10 aos depósitos e o meu rácio baixa para 33% e assim sucessivamente enquanto vou alimentando o Zé com os depósitos dos outros. Tempos houve em que os bancos centrais resolveram que nalgum ponto eu teria que parar de emprestar ao Zé e, depois de cada um definir um valor para o rácio, juntaram-se todos no Bank of International Settlements em Basileia e definiram que 8% é o mínimo.

Intuitivamente, consegue-se perceber que assim que eu baixei dos 100%, os depósitos já estão em risco. O problema é saber se o Zé paga ou não. A protecção que os bancos têm é arranjar muitos Zés com pequenos empréstimos para que quando um não paga, os juros dos outros cobrem o dinheiro que o Zé Silva ficou a dever e não pagou. Onde é que entram os 8% nesta história? Pois,  em lado nenhum. O valor vale pelo facto de impedir os bancos de se alavancarem ad infinitum, isto é, continuar a emprestar ao Zé sem parar. Mas qualquer valor é bom para este efeito.

Os 8% fariam sentido como contribuição de todos os bancos para um fundo de falência. Isto é, se um dos outros falir, os bancos remanescentes podem absorver a carteira e salvar os depositantes. Mas, outra vez, 8% porquê? A verdade é que ninguém sabe porquê são 8%. Sabe-se que os 8% têm funcionado mas ninguém sabe porque é que 8% é melhor que outro valor qualquer.

E qual é o problema de serem 8%, perguntará o leitor? Isto significa que ninguém consegue abrir um banco sem ter 8% do dinheiro que quer vir a emprestar. Ou seja, para conseguir aquele efeito de carteira em que muitos Zés pedem emprestado, o ponto de entrada para a existência de um banco é muito alto e o mercado fica reservado aos grandes bancos e aos grandes capitalistas, formando-se uma oligarquia por efeito da regulação. Aliás, a história está repleta de exemplos deste tipo, como o mercado da auditoria por efeito do SOx act.

O descrito no parágrafo anterior é particularmente grave por outra razão. Lembram-se do facto da economia ser um sistema sempre a crescer! Pois, isso gera um tipo de geometria chamado rede livre de escala em que a distribuição de métricas associadas à rede segue uma distribuição de Pareto. Ou seja, a tendência natural do sistema é formar bancos gigantescos, como bancos grandes, com bancos menores e assim sucessivamente até termos bancos infinitésimais. Mas se imponho um limite abaixo do qual não podem existir bancos, o número de bancos no sistema vai ser reduzido aos grandes (too big to fall).  Não havendo a almofada dos bancos pequenos para absorver a falência dos grandes, os 8% não só são completamente inúteis, como são altamente contraproducentes.

E agora, senhor governador, quer-me convencer que defende a recapitalização dos bancos para defender a economia e os depositantes? Não lhe chegavam os 8% agora estamos a colocar 10% por imposição da troika? Eu admito que acredite nisso, como boa parte dos seus colegas europeus que também estão errados. Não tenho a menor dúvida de que está a dizer isso de boa fé. Mas está matematicamente errado. E só há uma maneira séria de defender os depositantes e essa maneira é impedir os bancos de emprestar ao Zé que não paga: a república portuguesa. E acabar com essa parvoíce do capital mínimo.

A química de um pastel de feijão



Texto que acabou de sair na revista da Escola Secundária Henriques Nogueira de Torres Vedras com o singular super-título de Singularidades da Ciência que me recordou um conto de Eça de Queirós. É um prazer colaborar com os óptimos projectos que são desenvolvidos nas nossas escolas. Além disso, graficamente a revista está muito bonita.

Na presença de um pastel de feijão, o olhar e o olfacto originam informações químicas que, ao chegarem a cérebro, vão desencadear recordações e a libertação de neurotransmissores que provocam reacções fisiológicas como a salivação. O trincar do pastel é acompanhado por sons subtis que evocam memórias e pela solubilização das moléculas que vão impressionar as papilas gustativas. Em simultâneo, chegam, pelo interior da boca, moléculas de cheiro agradável ao receptores olfactivos, desencadeado mais memórias e a libertação de endorfinas.

Quando comemos estão presentes todos os nossos sentidos. E a química é importante em todos eles porque é fundamental na transmissão e interpretação dos impulsos nervosos. O paladar e o olfacto são, no entanto, sentidos químicos de forma directa, pois reagem às moléculas que se solubilizam na saliva e às moléculas que, passando ao estado gasoso, vão excitar o sentido do olfacto. Estes dois sentidos funcionam de forma complementar (muito do sabor é perdido a comer com o nariz entupido), estando o olfacto muito ligado à química das memórias. No caso da visão, o mecanismo é também químico: a luz que chega à retina vai provocar reacções fotoquímicas que envolvem pigmento biológicos, sendo a informação enviada ao cérebro de forma química.

A maior parte dos doces é pouco equilibrada em termos nutricionais devido a excesso de açúcares ou de gorduras, mas o seu consumo moderado e ocasional é uma fonte de alegria que contribui para o equilíbrio emocional. Em particular os pastéis de feijão, embora metade da sua composição seja açúcar (sacarose), são muito saborosos e têm aspectos nutricionais interessantes. Na sua receita entra, além da sacarose, farinha, feijão, amêndoa, gemas de ovo e gorduras. O feijão e a amêndoa são misturas complexas de glúcidos, proteínas e lípidos (entre outras substâncias) que, em conjunto com a farinha e as gemas de ovo, criam alguma variedade nutricional. A sacarose é também uma substância natural, obtida pela purificação da mistura natural desta substância com outros compostos presentes na cana de açúcar. Trata-se de um dos materiais naturais mais puros a que temos acesso no nosso dia a dia e o seu consumo moderado é provavelmente muito mais saudável do que o consumo massivo de edulcorantes artificiais (agora de mais baixo custo que a sacarose) em doces e refrigerantes industriais. 
 
Para fazer os pastéis, o feijão é demolhado, retiram-se as suas cascas e finalmente é cozido. Durante o decorrer desses processos, uma boa parte dos oligossacarídeos, solúveis em água, é eliminada. Estes compostos são açucares, presentes nos feijões, couves e outros vegetais, que não são digeridos pelos seres humanos, mas existem bactérias perto do final do intestino que os adoram, provocando, quando comidos em excesso, os incomodativos gases.

Estão actualmente registados (www.cas.com) mais de setenta milhões de compostos químicos e todos os dias são descobertos, ou inventados, mais alguns milhares. Muitos dos compostos que são descobertos são de origem biológica e alguns deles poderão estar na origem a novos medicamentos, quem sabe, vindos de humildes legumes como o feijão. A verdade é que nas bases de dados de artigos científicos tem, nas ultimas décadas, aumentado visivelmente a referência à química do feijão, existindo muito mais referências à química deste legume que à da amêndoa.

Confeccionar e saborear pastéis de feijão tem muita química, assim como tem química o mundo que nos rodeia, basta estarmos atentos.

sexta-feira, 28 de Junho de 2013

O prazer da leitura e os mestres libertadores

«Sentado na borda do tanque, que uma figueira toldava de deleitável sombra, instruía-me o senhor padre Ambrósio da latinidade. Homem de muitas letras, já ruço, mas ainda de bom garbo nos seus setenta anos, sãos de alma e de corpo, antes de abrir Horácio, aprazia-lhe lembrar, num doce tom de iluminado:
- Neste sítio, Libório, descansou o grande padre S. Francisco de jornada para Compostela. Reza a história que o servo de Deus vinha trilhado do caminho…»
Assim começa a Via sinuosa de Aquilino Ribeiro, um dos meus mais antigos mestres na arte da degustação literária. Imaginem uma sala de uma casa na Beira, aí pelos finais dos anos 50 começos de 60 do século passado. Uma sala grande, teto em madeira com pranchas alternadas, duas janelas de guilhotina, semiabertas, e portadas interiores altas, meio cerradas contra a luz que vem da rua. Anda lá por fora um Agosto de brasa que até dói.

Pelas ruas, àquela hora, poucos se atrevem. Num cadeirão de braços, com a luz coada, por detrás da cabeça para que não falte nas páginas, vou-me embrenhando pelo romance de Aquilino Ribeiro. Ou nas aventuras e desventuras de Libório Barradas, filho dos caseiros do Convento de Caria, mais tarde de S. Francisco, a iniciar-se no latim do padre Ambrósio, sem “amado mestre”, e nos amores, castos de Celidónia, uma das filha dos Violas, e nos pecaminosos, com Dona Estefânia, esposa do Malafaia, diplomata, do solar de Santa Maria das Águias.

É aquela edição que foi imagem de marca da sua obra: capa creme, sem ilustração, badanas com informação discreta, formato de 15x20, frontispício austero. Tipo equilibrado, talvez “Times”, bem impresso, página folgada para a mancha de texto, margens largas, enfim uma edição que, sem ser de luxo, era muito digna e bem feita, boa de ler e de manusear, honrando os tipógrafos e a editora Bertrand. São as férias grandes, os dias são enormes, tenho o tempo todo por minha conta e posso alongar-me por aquelas páginas, saborear as palavras, mesmo quando as não compreendo e tenho que reler, viajar por lugares, pessoas, acontecimentos e paisagens daquele Portugal profundo, nesse tempo ainda vivo.

É o que se chama o prazer puro da leitura, o literário na sua especificidade verbal, que ninguém como Aquilino consegue dar, com ritmo próprio, sabor único, cor pessoal, enfim, a qualidade soberana dos seus textos, intraduzíveis noutras linguagens estéticas. E, portanto, a sensação estimulante de entrar num português da melhor água, e num processo em cadeia de que intuo a grandeza, e de que beneficio, apesar de ser o elo mais fraco: eu, pela mão de Aquilino, este, à sombra do seu bom padre-mestre, por sua vez na esteira de Horácio, Catulo, Cícero e de muito da cultura antiga de que ele ficou bem rico, e de que os seus livros tanto beneficiaram.

Dessas lições da juventude Aquilino guardou toda a vida uma devoção e um amor pelo seu «amado mestre», ou pelo «senhor padre-mestre», como sempre o designava, que chega a comover-nos. Não só na Via sinuosa, mas também em Uma luz ao longe e em Lápides partidas são muitas as ocasiões em que ele se refere, com respeito e profunda amizade, quase veneração, a quem lhe deu as bases da formação e do gosto. E que depois continuou no Colégio Roseira, em Lamego, onde, segundo um belo texto evocativo do livro Arcas encoiradas, «aprendeu a ser gente».

Aquilino Ribeiro, que em Lisboa se embrenhou nas ações republicanas contra a Monarquia e os Braganças, em atos mais ou menos revolucionários, é preso por posse de dinamite, consegue evadir-se, emigra, enfim, entra numa linha de aventuras mais ou menos rocambolescas e algo românticas. Mas, passados anos, a evocação que fez dos seus primeiros professores, o seu “amado mestre”, ainda em casas dos pais, na Casa dos Terceiros do convento de S. Francisco, e depois os professores do Colégio de Lamego, são comovedores, pelo que neles reconhece de qualidade humana, cultural e até científica (na matemática, por exemplo).

o professor de Matemática diz ele: «dos meus professores é o de matemática, Alfredo Vieira Cardoso, pequenino de corpo, mas de inteligência tão lúcida como discursiva, que conservo a mais grata lembrança. O jogo dos números com ele tornava-se uma prática agradável de compreensão, pelo que, não me acobardo de dizer, foi a claridade do seu pensamento, conjugado como rigor da linguagem algébrica, que me ensinou a pensar».

O que nos leva a reconhecer, mais uma vez, como se fosse preciso, o valor dessas tríades educativas hoje desvalorizadas, mas indispensáveis: um bom mestre, a qualidade do aluno e um ambiente que favorece a aprendizagem e a assimilação de valores sólidos. Que depois podem ser revistos e reformulados e até alterados em aspetos menores ou periféricos, mas que se mantêm para toda a vida no que diz respeito ao essencial.

Ali, naquele colégio, e sobretudo pela ação de alguns professores, diz ele, «aprendi ainda a ser livre e a amar a liberdade, uma vez que nas próprias disciplinas em que bebia a ciência dos valores e das proporções, conforme a definição de Descartes, se me iam desenvolvendo as faculdades do raciocínio e da positividade, imunizadoras do indivíduo em matéria de preconceito».

São páginas de evocação respeitosa e até doce de vários professores desse colégio – quase todos padres. E é curioso como um homem que depois foi um declarado inimigo do regime salazarista, crítico da cleresia, muitas vezes de modo ácido, estrangeirado arejado e vivido, mantenha, muitos anos depois, o reconhecimento da qualidade humana e em muitos casos científica e cultural daqueles esquecidos clérigos do remoto colégio de Lamego, nos princípios do século XX. «Este colégio impunha-se como estabelecimento admirável e quero confessar que as minhas rémiges, pequenas como são, cresceram ali à medida do seu porte e do seu tamanho natural. Ninguém mas aparou nem se armou de tesouras para o fazer. Também não me contrafizeram a alma à mentira e à hipocrisia. Honra lhes seja. Saíamos direitos com aprumo ibérico…».

E quanto ao ambiente social, é também interessante ler o que diz de um colégio de padres no Lamego «afonsino» de 1900, dirigido pelo discreto e «modestíssimo» padre Alfredo: «No colégio não se cultivavam fanatismos, nem forneciam títulos a precedências, fidalguias ou altitudes sociais. Era um internato são e democrático. Mas também não se anarquizava ninguém. Deixavam a personalidade vingar no seu vero ser. Ao sabor da tradição, sem a planta dar conta».

Ao ler isto apanho-me a pensar, com alguma perturbação, no quanto todos nós, afinal, ficamos a dever a esses obscuros mestres do interior profundo de um Portugal perdido no tempo e na geografia, uma vez que foram eles que lançaram os caboucos dessa extraordinária herança que deixou à cultura e à literatura portuguesa a obra de Aquilino. Homem sólido, no verdadeiro sentido da palavra, mas com sensibilidade bastante para apreender a variedade do mundo e dos homens e capacidade suficiente para transformá-la em formas de grande beleza, por si só a sua obra fala dos seus educadores, ou, pelo menos, de alguns. Trabalho que não funcionou só com ele mas também com muitos dos seus colegas, como ele próprio reconhece no mesmo texto. Uma boa educação não dispensa os grandes modelos e os elevados exemplos.

Como diz Georges Gusdorf, nesse excelente livro que é o Professores, para quê? «o verdadeiro mestre reconhece-se a si mesmo como servidor e discípulo da verdade; convida os seus alunos a procurá-la pelo seu lado e segundo os seus próprios meios». Se alguma dúvida houvesse Aquilino Ribeiro, cuja obra há de sobreviver a marés e marinheiros, é disso um caso exemplo.

João Boavida

INQUÉRITO SOBRE COIMBRA NO "PREGUIÇA MAGAZINE"

O "Preguiça Magazine" é um novo jornal on-line, dedicado a música, cultura e artes em geral,  sediado em Coimbra. Tem uma secção de inquérito sobre a cidade intitulada "Largo da Portagem". Respondi a ele:

http://coimbra.preguicamagazine.com/2013/06/26/carlos-fiolhais/

Mandar o euro às urtigas?

(a famosa nota de cem triliões de dólares zimbabweanos acessível na Amazon por 0,58USD )

Um dos sinais mais anedóticos de pseudo-Economia (aproveitando o post do David) é a longa conversa que assistimos desde a insolvência práctica do estado português sobre a saída do euro. Aviso os nossos mui exigentes leitores que não farei qualquer inventariação exaustiva das várias opiniões sobre as razões pelas quais deveremos sair do euro. Primeiro porque para mim são igualmente estúpidas, apesar de as haver sem grandes erros de fundo e de as haver que são imbecilidades completas(a maior parte de ilustres académicos). Depois porque ao contrário do que alguns do leitores mais exigentes pensam, tenho outros sítios para mandar papers que não blogues e se não sou um cientista profissional, também não tenho que levar com os "coisos" dessa vida.

Voltando ao tema, devemos sair do euro ou não? Bem, diria eu que uma opinião sobre o tema parte primeiro de compreendermos para que serve o dinheiro e o que é. Dinheiro é trabalho enlatado. Como economia é troca de trabalho, nalguma altura da história se decidiu que essa troca teria que ser assíncrona senão o homem não sairia da caverna onde morava. Primeiro deve ter recorrido à troca de bens, produzia uma ponta de flecha, e outra,e outra e ficava à espera que os demais sujeitos produzissem algo de que ele precisava para dar vazão às pontas de flecha. Mas, a dada altura deve ter decidido dar fiado, toma lá a ponta da flecha e ficas-me a dever uma hora do teu trabalho. A coisa não fica particularmente bem feita porque se não dava vazão às pontas de flecha agora estava a acumular horas de trabalhos de sujeitos que só sabiam fazer coisas que ele já tinha. Então deve ter começado a comprar trabalho com as horas de trabalho dos outros e adquirir serviços de substancial importância económica, como rachar cabeças para conquistar território. O "papel" (não era papel, obviamente) que ele entregava representando o trabalho dos outros é aquilo que hoje chamamos de dinheiro. Vamos, por conveniência, pensar que era um lindo papel verde.

Com a dinâmica de trocar dinheiro por trabalho, cada lindo papel verde passava a representar uma quantidade de trabalho num dado instante do passado. Como o trabalho feito no passado não tem a mesma utilidade hoje, porque o trabalho do passado resultava de  uma necessidade que foi satisfeita, isto significa que o primeiro lindo papel verde não consegue comprar hoje a mesma quantidade de trabalho que comprava. Portanto, se o trabalho feito hoje teve a mesma utilidade que o primeiro trabalho que foi trocado por lindo papel verde, a quantidade de lindos papeis verdes gastos hoje foi muito maior. Ou seja, o valor da unidade de papel verde foi decrescendo à medida que as trocas de trabalho foram ocorrendo e aquela primeira hora de trabalho foi perdendo a sua utilidade. Quanto vale, hoje, então a unidade de lindo papel verde? Fácil, vale a média do valor que tem hoje o trabalho todo feito no passado que foi trocado por lindos papéis verdes, ou seja, vale "não faço a mais pequena ideia".

No entanto, as comunidades foram vivendo mais ou menos isoladas umas das outras e cada uma foi dando um nome aos seus lindos papéis verdes para representar trabalho do passado e que se foi acumulando na sua comunidade. Uns chamaram-lhe escudo, outros dólares, outros florins(cujo nome resulta de uma moeda florentina do sec. 13), outros marcos. Todos eles com nomes diferentes, todos eles definidos a menos de uma constante aditiva e representando algo completamente abstracto(ou seja, isto para os físicos é pão com manteiga). Mas a dada altura o sujeito com escudos quis comprar trabalho de sujeitos que usavam florins porque as suas economias começavam a cruzar-se, o que fez com que o sujeito com escudos tivesse que comprar florins para comprar trabalho ao sujeito que usava florins. E vice-versa, o que fez com que, mesmo não se conhecendo o valor absoluto de nenhuma das moedas envolvidas, elas tinham um valor relativo - um câmbio. Daqui para a frente, se não houver economistas a meter o bedelho, é uma questão de oferta e procura de trabalho de gente que usa florins pela gente que usa escudos e vice-versa. Essa oferta e essa procura vai fazer a flutuação do câmbio.

Falta uma coisa. Se só havia um lindo papel verde, de onde apareceram os outros? Pois, à medida que a economia vai crescendo é preciso que apareça mais papel porque o sistema é divergente (lembram-se?). Então os bancos imprimiam moeda para que o novo trabalho fosse remunerado a crédito, isto é, na esperança que esse trabalho fosse incorporado no valor do papel que emitiam. Portanto, se essa esperança não se verifica, o papel vale menos que se a esperança se verificar, porque incorpora mais trabalho. Logo, se a esperança não se verifica, a quantidade de papel dessa economia para comprar uma hora de trabalho vai ser maior. Mas a quantidade de papel de outra economia necessário é a mesma porque representa a mesma quantidade de trabalho. Ou seja, o câmbio subiu (na perspectiva da primeira). A moeda passou a comprar menos trabalho futuro porque representa menos trabalho passado.

Vamos meter economistas no barulho? Ok. Agora aparece um sujeito da primeira economia que diz "vamos imprimir mais papel porque sim". Por palavras politicamente mais correctas, "porque imperativos nacionais permitidos por termos independência". Como não foi feito mais trabalho que aquele que existia(tirando pela máquina rotativa), o resultado será que a compra de novo trabalho vai necessitar de mais papel. 

Mas como se, na verdade, ninguém sabe se foi feito ou não? O economista pode fazer aquilo às escondidas sem ninguém saber, afinal o papel tem um valor perfeitamente abstracto e definido a menos de uma constante aditiva. Como é que os outros burros vão saber?

Sabem porque não tendo um valor absoluto, tem um valor relativo! Como as economias estão em comunicação, a quantidade de moeda estrangeira vai ser igual para pagar o trabalho pelo que a referencia desse trabalho vai ser a moeda estrangeira e vai passar a ser remunerado por mais papel eliminando o efeito da desvalorização. A moeda estrangeira vai servir de referencial externo, independentemente da esperteza saloia do político. Porque o que tem valor de facto, não é o papel, é o trabalho.

Quando é que desvalorizar vale a pena? Quando há trabalho que não vale o dinheiro que recebe. Como isto é possível? Se as pessoas pagam pelo trabalho dos outros livremente não haverá problema, como quem avalia a utilidade do trabalho são os outros o dinheiro entregue corresponde ao valor do trabalho recebido em troca, senão a transacção não se dá. E nas sociedades modernas é isso que acontece. Em todos os casos tirando um, quando as pessoas são obrigadas a pagar porque essa venda de trabalho é IMPOSTA pela violência. Isto acontece nos trabalhos medidados pelos estados, os detentores do monopólio da violência legal.

Ou seja, na realidade se saíssemos do euro reduzíamos quase imediatamente o salário real de todos aqueles que recebem dinheiro dos impostos. Pensionistas, funcionários públicos e demais situações em que o estado se comprometeu com uma quantidade de euros para um trabalho que ainda se vai realizar (Não, as PPPs de autoestradas são créditos, não funcionaria...). Mas a existência de uma nova moeda traria para o comércio um factor de incerteza adicional que faria florescer os bancos de investimento novamente e reduzir o comércio pela ocorrência deste novo imposto escondido. Também, os compromissos do estado (e nao só) com o estrangeiro não desapareceriam o que quer dizer que por mais dinheiro que imprimisse a dívida não desapareceria. As desvalorização faria o ordenado mínimo tender para zero, o que faria reduzir o desemprego mas não os problemas de estar desempregado.

Concluindo, a única vantagem que se teria saindo do euro resolver-se-ia cortando simplesmente os custos do estado, leia-se salários. Aqueles montantes que segundo alguns critérios valorimetricos de escolha livre são considerados inconstitucionais. Claro que, saíndo do euro, a constitucionalidade não se coloca(*) porque passa a ser tudo automático e ampliado. Não só os salários são cortados da percentagem que seriam no euro, como levam um imposto escondido de risco cambial. Porque na economia, como em qualquer outro sistema natural, as alternativas são todas aparentes e nunca existirá um substituto a fazer as coisas bem feitas. E isto admitindo que não aparece um político daqueles que acha que desvalorizar moeda é vender mais, afinal no Zimbabwe as coisas correram tão bem...


(*) futurologia de risco, atendendo que já se decidiu pela igualdade na primeira derivada... 

"O FUTURO ESTÁ NOS GENES" EM SEVER DO VOUGA

Resumo de aula que dei recentemente em Sever do Vouga no quadro de "O Mundo na Escola".

quinta-feira, 27 de Junho de 2013

BREVE PRÉ-HISTÓRIA DA FICÇÃO CIENTÍFICA

Excerto de um artigo que publiquei na revista on line Adn80 (revista para quem gosta de ler online e sem distracções).



«O termo “ficção científica” surge pela primeira vez nos finais do século XIX. Mas podemos balizar o percurso de uma pré-história da ficção científica como tendo tido início depois do nascimento da ciência experimental moderna. E esta aconteceu com Galileu Galilei e Johannes Kepler no início do século XVII.
Se Galileu é reconhecido como figura principal na revolução científica, a Kepler, astrónomo e matemático alemão, devemos as três leis sobre o movimento dos planetas, que recebem o nome em sua homenagem e que foram base de partida para a formulação, por Isaac Newton, da lei da atracção universal.
O curioso é que grandes divulgadores da ciência e da cultura humana, como Carl Sagan, identificam num destes gigantes da ciência o autor da primeira obra da pré-história da ficção científica. Como disse o poeta cientista, “eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida”. E de facto parece ter sido pelo sonho de uma viagem à Lua que a pré-história da ficção científica começou. (…)»
(o restante artigo encontra-se aqui)
A ilustração faz parte de uma série da artista Bettina Forget inspirada na obra “Somnium”. ©Bettina Forget

António Piedade

SILÊNCIO: TRÊS POEMAS DE REGINA GOUVEIA

Transcrevo três poemas de Regina Gouveia, com o tema comum do silêncio, do livro "Entre margens" que hoje vou apresentar, às 18h, no Rómulo em Coimbra:

SINAL DISTORCIDO

O meu silêncio é prenhe de memórias
em permanente interferência e difração.
Bem tento eliminar todo o ruído
mas o sinal persiste distorcido
por entre a realidade e a ficção.

A BARREIRA DO SILÊNCIO

Tal como as ondas do mar
ao embater nos rochedos da praia
se refletem, se refratam,
interferem, se difratam
e se agigantam revoltas,
também as minhas memórias,
quando embatem na barreira do silêncio
se espargem e multiplicam, soltas.

O SILÊNCIO DAS PEDRAS

Gosto do silêncio das pedras
Mudas, falam através de testemunhos
de estratos e fissuras, de formas e de cor,
que permitem chegar ao seu passado
de muitos milhões de anos -
aos ventos que as fustigaram,
às águas que as arrastaram,
às elevadas pressões e temperaturas
que suportaram na epopeia da sua formação.
Gosto do silêncio das pedras que, mudas,
conservam na memória
os seres vivos com quem coabitaram
dos ínfimos, aos poderosos, passando pelos humanos
que ao longo de toda a história
tantas vezes as moldaram com lágrimas e com suor.

Gosto do silêncio das pedras
tantas vezes pisadas no chão,
pedras que não choram,
ao contrário dos meus olhos que nelas se demora,.
O coração, mudo como as pedras,
não encontro outra forma de falar.

Regina Gouveia

COSMOS E CORDAS

Minha coluna "Longemira" saída no último JL:



Com dois livros muito actuais de dois físico-matemáticos que trabalham nas fronteiras do conhecimento do Universo, a colecção Ciência Aberta chegou ao fim das duas centenas de títulos. Uma colecção que foi moderna logo no início, há cerca de 30 anos, com Um pouco mais de azul de Reeves e Cosmos de Sagan, continua moderna trazendo-nos o Universo em primeira mão. Estou a falar de Ciclos do Tempo e Romper das Cordas, respectivamente de Penrose  e Smolin.

O britânico Roger Penrose tem quase 82 anos mas continua, tal como a colecção Ciência Aberta novo. Ciclos do Tempo, o n.º 198 da Ciência Aberta, é o seu primeiro livro depois do extraordinariamente volumoso e não traduzido entre nós The Road to Reality, que tentei, com êxito apenas parcial, ler quando saiu há dez anos e eu estava a recuperar de uma arreliadora pneumonia. A nova obra contém uma tese extraordinária, como tinha acontecido antes com A Mente Virtual, n.º 93 da referida colecção. A ideia desta vez é que o Universo não é semi-eterno, isto é, eterno apenas a partir do Big Bang inicial, mas sim completamente eterno, existindo uma sucessão infinita de Big Bangs e prolongadas expansões cósmicas. Descansem os que se inquietam com a possibilidade de novo mundo para breve: Há que esperar muito até ao próximo Big Bang, pois toda a matéria terá que desaparecer para o interior de buracos negros e estes têm de se evaporar para radiação por um processo quântico. Só num cosmos a longuíssimo prazo, constituído apenas por fotões e gravitões insensíveis ao tempo, poderá haver, por artes da física-matemática, o pasmo inesperado de um novo cosmos. O autor cogitou esta saída confrontado com a sua dificuldade em entender à escala cósmica a 2.ª lei da termodinâmica, que manda a entropia  aumentar em sistemas isolados. Apesar de Penrose escrever bem, o seu novo livro, tal como anterior, não tem leitura fácil, por conter jargão astrofísico e alguma matemática. Não haverá entre nós muitas pessoas que consigam entender em toda a sua amplitude a mensagem revolucionária de Penrose. Mas, mesmo que não se perceba toda a letra (a culpa não é da tradução, mas das subtilezas do tema), vale a pena desfrutar da música. E, tal como eu impressionei o pessoal médico e de enfermagem com The Road to Reality, o leitor poderá impressionar os seus amigos, andando com o novo livro de Penrose na mão. Ficarão ainda mais impressionados do que se lhes disser que anda a ler o difícil Finnegans Wake, de  Joyce, onde os físicos foram buscar a palavra quark talvez para mostrar aos literatos que liam literatura.

O volume seguinte da colecção, o n.º 199, tem leitura bem mais fácil. Também contém uma tese, embora esta seja mais metodológica. O livro O Romper das Cordas, com o subtítulo Ascensão e queda de uma teoria física e o futuro da Física, do canadiano Lee Smolin, invectiva o paradigma vigente da teoria de cordas, ou supercordas, como solução para o problema da unificação das forças legado por Einstein e, consequentemente, para a explicação do início do Universo. Smolin, embora tenha sido praticante do jogo da física das cordas, abandonou a modalidade, por entender que ela não levou a avanços significativos da Física. E agora critica-a. A teoria é demasiado matemática e abstracta e, pior do que isso, não pode ser confrontada, como é obrigação de uma boa teoria, com a experiência ou a observação (já agora é também esse o problema da ideia de Penrose). Pela minha parte estou inteiramente de acordo. Causa-me uma certa impressão ver tantos jovens brilhantes a enveredar por uma teoria onde já tantos outros falharam. Não poderão aspirar a um Prémio Nobel, pois este é dado normalmente a físicos que façam descobertas com conformação empírica. Não há nem vai haver aceleradores que permitam o teste da teoria das cordas, da qual existem várias versões (a sua unificação, a teoria M, permanece envolta em mistério: o M deve ser de Mistério), e  a sua confirmação astrofísica parece remota. Smolin põe o dedo na ferida ao discutir a sociologia da ciência: a congregação dos teóricos das cordas, unidos pela crença na sua superteoria, tomaram conta dos melhores lugares da física teórica. O resultado é a supressão de ideias alternativas, como a da gravidade quântica em loop (o mundo da Física é pequeno: esta teoria está também associada ao nome de Penrose). Smolin, que propôs com o português João Magueijo uma “teoria da relatividade restrita deformada”, queixa-se que os sacerdotes do templo o consideram herético. Os tempos actuais na astrofísica são de intenso debate, o que significa que a ciência está viva e se recomenda. Com os dois novos livros da Ciência Aberta, o leitor é convidado a entrar nesse debate, fazendo jus ao título da colecção.

- Roger Penrose, Ciclos do Tempo. Uma visão nova e extraordinária do Universo, Gradiva

- Lee Smolin,  O Romper das Cordas. Ascensão e queda de uma teoria e o futuro da Física, Gradiva.

quarta-feira, 26 de Junho de 2013

Entre Margens


No próximo dia 27 de Junho de 2013, pelas 18 h, no RÓMULO– Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, no piso térreo do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, terá lugar a apresentação do livro de Regina Gouveia “Entre margens” título que corresponde a um dos “livros” de poesia ali contidos. O outro é “Poemas no espaço-tempo”.

Regina Gouveia é uma autora singular, cujo exemplo marca a literatura que continua a resistir à união clara da escrita com a ciência. Ao ler as suas obras verifiquei que, ao contrário dos outros autores de “experiências pensadas”, a autora não procura ficcionar, educar, ou exorcizar o conhecimento científico através da literatura, mas antes dar-lhe a paradoxal correcta incerteza das palavras, através do seu conhecimento da poesia criadora da ciência... (Carlos Vaz)

                                                                                                       “Entre margens, os rios, entre margens os textos nas páginas. Uns e outros galgam-nas por vezes. Os textos desta colectânea, agora entre margens, já as galgaram ao longo das suas vidas, por vezes com alguns anos. Aqui se incluem não só textos actuais mas também outros que não foram incluídos nos livros anteriormente publicados. Todos foram sendo organizados em projectos, entre eles Poemas no espaço-tempo e Entre margens”.

“Todos os fenómenos que ocorrem no mundo sejam naturais, sociais, políticos ou económicos, têm lugar no espaço e no tempo. Na Física clássica o espaço e o tempo são entidades independentes mas Einstein deu-nos uma nova visão do mundo com o espaço e o tempo interligados. O tecido do Universo, deste universo a que pertencemos, é o espaço-tempo. E foi neste espaço-tempo que a espécie humana nasceu e com ela a poesia e a lira de Orfeu”.

A sessão é aberta ao público em geral. A convidada será apresentada por Carlos Fiolhais, Director do Centro.

UNIVERSIDADE "VERSUS" POLITÉCNICO


"Além do ensino universitário há ainda o ensino politécnico, mas aí temos um problema de definição de objectivos, que deveriam ser distintos dos do ensino universitário” (Carlos Fiolhais, revista “Visão”, 20/06/2013).

 Escreveu Paul Ricoeur: “A história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico”. Nesta perspectiva, transcrevo, em teimoso dever de cidadania, ainda que descrente da vox populi que nos ensina que “água mole em pedra dura tanto dá até que fura”, um meu artigo de opinião, com o mesmo título deste meu post. Nele escrevi:

"Começo por esclarecer que o ensino politécnico (que veio substituir o antigo ensino médio) esteve para se chamar inicialmente ensino superior curto. Esta mudança ficou-se a dever ao novo-riquismo que se apoderou da sociedade portuguesa e que atingiu o léxico: mudando o nome às coisas pensou-se que se alterava a substância dessas mesmas coisas. Paredes-meias, surgiu a massificação do ensino superior. Segundo o sociólogo e académico António Barreto, em meados de 90, no ensino superior privado, para além dos 500 cursos existentes e criados apenas em dez anos, estão depositados, nos serviços respectivos, pedidos de reconhecimento para mais 55 universidades, institutos e escolas superiores, assim como para 190 novos cursos. A idêntico fenómeno se assiste no ensino oficial com o crescimento metastático das Escolas Superiores de Educação (ESEs).

 Valter Lemos, docente da ESE de Castelo Branco, revelou recentemente que se formaram, nos últimos 10 anos, nestas escolas, mais de 10.000 professores: destes, 5810 obtiveram a licenciatura e 3837 o bacharelato. Se tivermos em conta que nelas, nos seus primeiros anos de existência, só se formaram bacharéis, esta ‘décalage’ prenuncia, para muito breve, a extinção catastrófica de docentes habilitados para o ensino das crianças portuguesas. Sei, de fonte oficial, que na ESE de Santarém não se encontra a frequentar o 1.º ano do curso de professores do 1.º ciclo do ensino básico nenhum aluno. É voz corrente que o mesmo sucede nas outras escolas espalhadas pelo país de lés-a-lés.

 Por isso, não posso deixar de ter como irónica a justificação que Ana Maria Bettencourt, dá para a continuação do funcionamento das ESEs: “Os 45 mil educadores de infância que falta formar ou os docentes do 1.º ciclo que se suspeita venham a ser necessários depois da vaga de aposentações que se aproximam” (“Público”,  4 de Junho de 1996). Ocorre-me perguntar: uma mera suspeita será fundamento bastante para a planificação do sistema educativo?

 Tempos atrás [sendo eu na altura presidente da Assembleia Geral do SNPL], preocupado com a possibilidade que constava destes licenciados poderem passar a ter acesso ao magistério do 3.º ciclo do ensino básico, em reunião havida com a secretária de Estado da Educação e Inovação, Ana Benavente, levantei o problema evocando o facto da Lei de Bases do Sistema Educativo obrigar a que a habilitação para a docência do 3.º ciclo do ensino básico fosse uma licenciatura universitária. Obtive, em lacónica resposta, que essa legislação poderia vir a ser revogada. A confirmar esta medida, o Público, do passado dia 26 de Maio, noticiava que “a intenção do Governo é que as Escolas Superiores de Educação passem a formar professores para leccionarem até ao 9.º ano de escolaridade”, num sector de ensino que já em 87 se encontrava saturado.

Que medidas foram tomadas para debelar esta situação que levou os recém-licenciados pela Faculdade de Letras de Coimbra a nem sequer terem acesso ao respectivo estágio pedagógico, desencadeando uma crise académica que ameaçou a sobrevivência da própria instituição?

 “Eureka!”! Foram criadas, pelo país fora, inúmeras ESEs (ainda mesmo em cidades já com ensino universitário) , com variantes que competem, na docência do 2.º ciclo do ensino básico. Variantes, com menor exigência curricular e, consequente, saída de diplomados em catadupa com classificações mais elevadas, relativamente a licenciaturas em ensino das faculdades.

 Com o costume bem nacional de trocar leis justas e boas por outras injustas e más, serão os professores de posse de uma licenciatura universitária, espartilhados nos três escassos anos do ensino secundário, enquanto os diplomados pelo ensino politécnico se pulverizam pelos 9 anos do ensino básico obrigatório (a que há a acrescentar, ainda por cima, os anos de docência destinados ao ensino infantil.).

 Quando, por hipótese (não tão remota quanto isso), o ensino obrigatório se estender até ao 12.º ano estarão as ESE´s autorizadas, por simples despacho de uma qualquer vontade política ou sindical, a formar professores com esse destino, num país pobre que se dá ao luxo de querer aumentar o número de professores desempregados quando já alberga um excesso de licenciados universitários com habilitação própria para este tipo de ensino? E o que pensar de escolas privadas que concedem, a antigos professores primários, diplomas de licenciatura para o ensino do 2.º ciclo do ensino básico com a duração de dois escassos semestres?

 Ninguém pode, e muito menos deve, encontrar coerência e seriedade num sistema educativo permissivo para uns e draconiano para outros e que, com finalidades estatísticas (para consumo da Comunidade Europeia e aumentar o ego dos nossos governantes), passa diplomas de licenciatura como quem fabrica moeda falsa, fazendo tábua rasa da ironia de George Canning: “Posso demonstrar qualquer coisa mediante estatísticas, excepto a verdade!”

 Apresento como exemplo draconiano, a dificuldade no reconhecimento de diplomas das mais reputadas universidades estrangeiras. Só agora, e finalmente, como escreve António Barreto, “os diplomas europeus, eventualmente, os americanos, vão passar a ter valor em Portugal sem que seja necessário fazer júris nacionais para os reavaliar, como se Portugal fosse um paraíso científico com receio da poluição de Cambridge ou Princeton”. Em colunas deste jornal (Agosto de 92), chamava eu a atenção para o facto de “a educação portuguesa teimar em manter estas e outras mazelas (que nem a época gonçalvista teve a coragem ou o tempo necessário para sancionar!). Mazelas para as quais os nossos governantes tardam em encontrar a terapia adequada."

 De lá para cá, pouco ou nada mudou para melhor. Por exemplo, António Barreto, conhecedor profundo da vida académica universitária, mostra-se preocupado com as exigências cada vez maiores dos politécnicos. Escreveu ele: “Prepara-se nova ofensiva dos politécnicos. Por motivos perfeitamente eleitoralistas, alguns socialistas e sociais-democratas, rápidos na demagogia, vão tentar transformar em universidades os politécnicos de Bragança e Viseu, a que se seguirão todos os outros. Se ceder, o Governo dirá claramente que está disposto a tudo, pela facilidade”.

 Esta ofensiva tem sido bem clara, embora feita na escuridão da noite e de baionetas caladas, Inicialmente, as ESE´s, como refereri acima, destinavam-se a ministrar o ensino politécnico, com a atribuição do grau de bacharel, para educadores de infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico. Daqui decorre ter havido uma evolução, que eu aplaudi com ambas as mãos, por estes docentes serem preparados, até então, em escolas do ensino médio: Escolas do Magistério Primário e de Educadores de Infância. Depois assistiu-se a uma insólita involução, aos serem criadas as variantes de professor do 2.º ciclo do ensino básico que passaram a conceder diplomas de estudos superiores especializados, medida reprovável a todos os títulos por neste grau de ensino leccionarem, em esmagadora maioria, professores portadores duma licenciatura universitária. Pouco depois, viriam a ser atribuídos diplomas de licenciatura politécnica.

 Desunham-se, agora, os alunos das ESE´s e de outras escolas politécnicas para que os seus diplomas e os do ensino universitário passem a ser designados simplesmente por diplomas de ensino superior “tout court”, como se a simples mudança de nome alterasse a identidade das coisas. A serem levados avante estes desígnios igualitários de direitos (sem correspondência de deveres) não se correrá o perigo do ensino politécnico se transformar num péssimo ensino universitário e o ensino universitário num óptimo ensino politécnico?

 Por que motivo não exigir, como coisa boas e justa, a excelência de ambos sem qualquer resignação da dignidade do ensino universitário que passaria a ser nivelado por baixo? Em princípios desacreditados de ancestral alquimia, em Portugal, em fim de século e virar de milénio, procura-se um ensino de qualidade pela diminuição de exigência formativa dos respectivos professores.

  Nunca para aqueles que gostariam que a ofensiva dos politécnicos não encontrasse um baluarte que impedisse o seu avanço como, por exemplo, Ana Maria Bettencourt, do corpo docente de uma escola superior de educação, quando escreve, sem rebuço, que “em matéria de formação dos professores, o pensamento dos reitores é pré-histórico”, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas faz-se ouvir em hora corajosa. Assim, em “dossier”, com o título “Repensar o Ensino Superior”, defende “a consolidação de um sistema dual, politécnico e universitário”, sendo da opinião que se torna necessário proceder “rapidamente à análise das funções das Escolas Superiores de Educação”.

 Este documento do Conselho de Reitores, deve ser tido como o rufar de tambores de quem se mostra disposto a defender princípios de Cultura secular e o clarim de revolta de homens de Ciência perante o clima de desastre que se pode abater sobre a Universidade Portuguesa.

 (“Correio da Manhã”, 16 de Junho de 1996).

terça-feira, 25 de Junho de 2013

«A Última Fronteira» e os livros!



A Última Fronteira, a rubrica astronómica semanal televisiva (RTP1 e RTP Informação) que tenho o prazer de coordenar e apresentar aos sábados de manhã geralmente a partir das 9:40h e inserido no programa Bom Dia Portugal, regressou no passado mês de Abril para uma segunda temporada e fruto de uma renovada aposta da RTP neste tipo de conteúdos; como nunca me canso de salientar, o entusiasmo e vontade com a que RTP encara a divulgação astronómica neste tipo de registo é algo a louvar e a merecer um agradecimento e sublinhado muito forte em alturas em que se discute a definição de serviço público e como o mesmo deve ser entendido e praticado numa estação pública. Pessoalmente, e como também sempre fiz questão em salientar, ao nível da divulgação científica conta muito mais a mensagem do que o mensageiro, pelo que o que deve ser aplaudido e reconhecido é a aposta de conteúdos da televisão pública e não de quem os apresenta.

Entretanto, por minha sugestão e com a concordância da direcção da RTP, foi incluído um novo "ponto de interesse" nessa mesma rubrica: desde a passada edição que, sempre que se justifique em termos de quantidade e qualidade, será feita a divulgação de livros da área da divulgação científica e ficção científica publicados por editoras portuguesas em língua portuguesa, preferencialmente novidades.

A literatura de divulgação e ficção científica não tem tradicionalmente (sim, há mesmo más tradições!) grande destaque na nossa comunicação social, na nossa crítica literária mas também nas grandes cadeias livreiras, grandes superfícies ou até mesmo nas mais modestas livrarias do nosso país. Sejam quais forem a razões para tal realidade (não interessa neste momento discuti-las), penso que o exercício de democracia passa também pela promoção da sua Ciência e dos seus pensamentos, práticas, história e veículos de transmissão - neste caso, os livros! E tendo em conta a umbilical relação entre Ciência e Ficção Científica (que é substancialmente diferente de literatura de Fantasia), este último género literário também será contemplado nesta nova "sub-rubrica" do A Última Fronteira. Acredito mesmo que apresentar tais livros e tais géneros literários é também um acto de cidadania, de contribuição para uma maior literacia científica, de serviço público e, como tal, para uma mais saudável democracia. 

Nesta última edição foram apresentados os livros O Céu nas Pontas dos Dedos, de Guilherme de Almeida (Plátano), Astrofotografia, de Miguel Claro (Centro Atlântico), e Ciência e Liberdade, de Timothy Ferris (Gradiva).

Sendo este nosso De Rerum Natura também um espaço de editores e editoras, fica aqui o desafio para os mesmos e para um novo espaço para premiar e divulgar as vossas apostas nestes géneros literários! 

Todos os pedidos de informações deverão ser enviados para o email aultimafronteira@rtp.pt 

Mentiras, mentiras do caraças e estatística



Parte inicial do prefácio do Prof. Dinis Pestana ao livro "Como mentir com Estatística", de Darren Huff, que acaba de ser publicado como n.º 201 da colecção "Ciência Aberta" da Gradiva, agora dirigida por Carlos Fiolhais:

«Dantes não havia Estatística, tinham que se contentar com mentiras
STEPHEN LEACOCK

«Eh pá, tortura esses dados, que eles confessam
R. COASE

Pode um livro sobre Estatística tornar-se um bestseller? Sem dúvida, Como Mentir com Estatística tornou-se quase de imediato um êxito de vendas (sendo, porventura, a exceção que confirma a regra...). Muitos factores explicam esse fenómeno: um título apelativo, ilustrações humorísticas muito bem escolhidas (e estrategicamente mais abundantes nos primeiros capítulos), exemplos quase sempre referindo questões amplamente divulgadas nos meios de comunicação social, um perfume a escândalo — uma disciplina considerada científica é afinal constantemente usada para enganar o público —, pouco volume, e escrita quase terra-a-terra, de uma simplicidade e clareza notáveis. E, por outro lado, as instituições científicas de Estatística elogiaram a obra, que assim se torna respeitável e séria, mesmo quando faz sorrir (frequentemente!).

Mais de meio século volvido sobre a data de publicação continua a ser um livro cheio de ensinamentos úteis, numa roupagem divertida. Não admira por isso que a prestigiada revista Statistical Science tenha dedicado um fascículo do volume de 2005 a comemorar o cinquentenário da primeira edição, com uma colecção de artigos cuja leitura será menos amena do que a de Como Mentir com Estatística, mas que vale a pena ler, pois claramente demonstram que usar Estatística continua a ser, frequentemente, abusar da Estatística.

Uma parte substancial do livro denuncia que uma boa dose de divulgação de factos e conclusões, envolvendo-se em roupagem respeitável de ciência (e, em particular, usando a Estatística para conferir uma aparência de rigor), usa maus dados. O primeiro capítulo — que continua actual, e é porventura o mais útil, por ir ao cerne de numerosas fraudes feitas com uma aparente respeitabilidade estatística — discute pormenorizadamente as implicações de erros de amostragem, designadamente os que se devem a amostras não representativas — comentando também que mesmo operações de amostragem planeadas com rigor facilmente se afastam do padrão de excelência que pretendem, indo as respectivas causas de simples intervenção do acaso à má prática de agentes amostrais ou à tendência de os entrevistados fornecerem respostas «correctas» em vez de verdadeiras.

Por outro lado, muitas vezes as informações destinam-se a proteger interesses de quem as dá, em vez de pretenderem agradar a quem as ouve. Há muitos anos (andava eu nos meus 18 anos, estando longe de pensar em Estatística) li no Diário de Notícias a deliciosa história de uma «senhora» de Viena que aceitou uma bem intencionada boleia, mas, quando o carro se dirigia ao local onde recompensaria o motorista por tão gentil comportamento, ocorreu um acidente, que obrigou a senhora a internamento hospitalar durante alguns dias. E não é que a ingrata levou o solícito condutor a tribunal, exigindo desmedida indemnização por perdas no exercício da actividade, estimada a valores de artigo de muito luxo! E ganhou, ficando a rir-se, mas não por muito tempo, porque as autoridades fiscais austríacas depressa lhe enviaram uma intimação para pagar impostos, com multas e coimas devidas à não declaração do início de actividade e consequente pagamento dos correspondentes impostos, baseando-se na estimativa que ela tinha apresentado ao tribunal. Esta historieta ilustra bem que, numa questão aparentemente trivial,  interessado muda de interesses conforme as circunstâncias e se, nuns casos exagera os seu proventos, noutros (e especialmente nos contactos com o fisco), há a enorme tentação de os depreciar.

Amostragem inadequada é húmus para o crescimento de ciência da treta. Se eu disser que pedi a dois colaboradores para entrevistarem 200 cidadãos interrogando-os sobre como iriam votar no referendo sobre liberalização da lei sobre interrupção voluntária da gravidez que na altura ia ocorrer, e que um deles reportou que 99,5% eram favoráveis à alteração legislativa, ao passo que o outro que apenas 11% tinham declarado ser favoráveis a essa alteração, a Estatística parecerá muito pouco fiável; mas, se juntar que os primeiros foram entrevistados num jantar de homenagem à Dr.ª Odete Santos (uma deputada que se envolveu fortemente na campanha a favor da liberalização da lei) e que a segunda «amostra» foi recolhida à saída de missas no Mosteiro dos Jerónimos, facilmente se perceberá que não é a Estatística que é pouco fiável, mas antes que as pessoas que tomaram a decisão de recolher essas amostras enviesadas, em sentidos opostos, usaram mal a Estatística.

Há muitos anos dei-me ao trabalho de coleccionar pequenas notícias na revista do «Expresso», sobre «progressos» na Ciência, numa secção intitulada «Antes do Tempo», se não me falha a memória. A maior parte dessas notícias seguia o tipo matricial:

Uma equipa da universidade de... pediu a 46 voluntários que usassem a mesma roupa durante 24 horas, e que, ao tirá-la, a colocassem num saco de plástico hermeticamente fechado. O saco era depois dado a cheirar a cada um dos outros 45 indivíduos, pedindo-se que cada um deles classificasse o cheiro de 0 (abominável) a 10 (agradável, inebriante, despertando todos os desejos, mesmo os mais secretos e inconfessáveis), concluindo-se que...

Este tipo de estudos (ciência da treta, como muito bem são cada vez mais frequentemente qualificados) enferma de vários males, designadamente o facto de o uso de voluntários muito provavelmente recrutar indivíduos que têm um comportamento ou opções diversas dos da população em geral (por exemplo, em muitas situações são «exibicionistas» os que se oferecem), e o facto de a dimensão da amostra não ter sido cientificamente determinada4 para os fins em vista (e, infeliz mente, nem sempre há fins em vista a orientar um planeamento experimental, há antes muita ciência da treta que resulta de «andar à pesca» do que possa parecer interessante). Este tipo de colecções de dados quase nunca podem ser consideradas representativas e, por isso, não servem para estabelecer progressos no conhecimento. E, por outro lado, a graduação usando aquela escala ordinal é muito subjectiva, não tendo cada número o mesmo sentido para todos os respondentes.

O uso de amostras de voluntários (amostras de conveniência —que muitas vezes são muito inconvenientes para a seriedade do estudo que se está a realizar) é comum, mas tirar dessas colecções de dados (repugna-me chamar-lhes amostras) conclusões para uma população é ilegítimo.

Só por mera sorte essas conclusões serão acertadas. Alguns anos atrás, um dos telejornais nacionais noticiou a introdução de uma cirurgia em Portugal destinada a aumentar, por recolocação, o «micropénis», causa de infertilidade indesejada em muitos casais. A equipa médica que tinha introduzido essa técnica cirúrgica afirmava que 18% dos portugueses (de sexo masculino, suponho, embora isso não estivesse especificado) têm micropénis — uma estimativa cuja validade parece fortemente contestável, pois não temos conhecimento de nenhum estudo sério sobre o assunto na população portuguesa, e aquela percentagem é tanto mais estranha quanto a estimativa internacionalmente aceite é 0,6%. Provavelmente este erro era muito vantajoso para justificar pedidos de subsídios, mas era tão grosseiro — percentagem 30 vezes maior do que a estimada internacionalmente! — que não duvidamos que nenhuma agência de financiamento se compadeceu dos mais de meio milhão de diminuídos que se afirmava existirem em Portugal. A estimativa baseou-se decerto numa amostra de indivíduos observados em consultas de infertilidade, e não numa amostra aleatória de portugueses adultos, o que leva a que a indução dessa amostra, que não é representativa, para a população em geral careça de qualquer significado. E, os leitores que acharam descabido o meu parêntesis acima «(de sexo masculino, suponho, embora isso não estivesse especificado)» reparem que, se a amostra fosse contituída por infantes, poderia obter-se aquele número.

É por estas e por outras que, numa investigação científica séria, se começa por estabelecer, face ao enunciado dos propósitos, um protocolo pormenorizado do modo como os dados vão ser recolhidos.

O tamanho do pénis é uma fonte abundante de estudos tolos. Uma das histórias mais saborosas sobre essa questão tem que ver com um estudo de antropologia biológica que provava que os bosquímanes do sul de Angola tinham sido mais bem apetrechados pela natureza do que os bosquímanes sul africanos. Mas a diferença estimada era tão elevada que ocasionou dúvidas e, quando a chefe da equipa exibiu a anotação dos dados que tinha recolhido, um conhecedor da geografia humana de Angola disse estupefacto: «A colega recolheu uma amostra maior do que a população!»

Quando se foi aclarar o assunto, percebeu-se que:

• a «amostra» recolhida era de conveniência, e ainda por cima «comprada», no sentido em que tinham andado veículos do exército português equipados com autofalantes a berrar pelo deserto de Moçâmedes que os membros da população que fossem à cidade seriam recompensados com uma galinha;

• para que a senhora não entrasse em contacto visual com uma parte tão resguardada da anatomia masculina, foi decidido que dois pobres magalas estariam de plantão com um lençol entre a observadora e o que ela ia medir. O modus faciendi foi: a senhora antropóloga com uma mão segurava essa parte da anatomia, com a outra o instrumento de medição, e usando o tacto em vez vista lá ia medindo (os erros de aproximação assim cometidos eram irrelevantes face ao erro sistemático que adiante se descobre, nesta história tão escondida);

• alguns bosquímanes tiveram a excelente ideia de ir esconder a galinha e voltar para receber uma segunda galinha, terceira galinha, etc. Com certeza esse exemplo foi seguido por todos os que se aperceberam que podiam assim alegremente enriquecer o seu património. Mas, quando voltavam, já sabiam ao que vinham, e para muitos deles estas medições ulteriores não eram em repouso. Julgo que me entendem: não era só o património galináceo que aumentava.
(…)”

Dinis Pestana
Universidade de Lisboa, Departamento de Estatística e Investigação Operacional
CEAUL — Centro de Estatística e Aplicações da Universidade de Lisboa1


PSEUDOCIÊNCIA HOJE

Está, desde ontem, com grande destaque no sítio Ciência Hoje um texto acerca de intolerâncias alimentares. Não é uma notícia (não cruza fontes, não tem actualidade, não é objectiva) e também não está claramente identificado como opinião. Considerando que a autora, Paula Henriques, “especialista em nutrição” e responsável de uma clínica que oferece o serviço que é o tema do artigo, somos levados a concluir que é publicidade. Um verdadeiro “product placement” no meio dos artigos do Ciência Hoje.

O texto apregoa os benefícios de um inovador teste (a inovação tem costas largas) que alegadamente permite detectar intolerâncias alimentares. Esta detecção é feita através da colocação de dois eléctrodos nas pontas dos dedos e é designada por biorressonância:
“Esta é uma inovadora técnica através de bioressonância. São enviados estímulos ao cérebro através de dois meridianos ou terminais nervosos situados na ponta de dois dedos e na consequente quantificação da energia de cada alimento, também chamada de frequência vibracional. A análise é repetida da mesma forma, até serem “visitados” os 32 grupos de diagnóstico que englobam os 520 alimentos testados.”
Não há outra maneira de o dizer: isto não significa absolutamente nada. A energia de cada alimento é a contida nas suas ligações químicas, ou seja nos electrões que ligam os vários átomos entre si. É a quebra dessas ligações químicas e a transferência dos respectivos electrões para o oxigénio que permite às células obterem energia para os seus processos. Mas nada disto tem alguma coisa a ver com intolerâncias alimentares. Um electrão é um electrão! Quanto à frequência vibracional também não é para aqui chamada. É verdade que as moléculas podem vibrar se forem sujeitas a radiação de uma determinada frequência. Por exemplo, a molécula de dióxido de carbono vibra quando é irradiada com raios infra-vermelhos de uma determinada frequência. E isso permite quantificar o dióxido de carbono na atmosfera. É até verdade que poderíamos identificar, através de espectroscopia de infra-vermelhos, alguns tipos de alimentos, como por exemplo o álcool ou o vinagre. Agora, frequência vibracional de alimentos, medida na ponta dos dedos, que vai ao cérebro através de meridianos (o que é isso?) não significa absolutamente nada. É simplesmente jargão científico usado para fazer parecer ciência uma coisa que nada tem de científico. Mas, para nos convencer mesmo que a coisa é mesmo séria, até nem falta um gráfico com os resultados de um “teste”:


Como é que sabemos que isto nada tem de científico? Quais são as características da ciência? A ciência assenta nas provas. E quando há provas, demonstrações de que um determinado método de diagnóstico é valido, elas são publicadas em revistas científicas. Outros grupos de investigação podem repetir as experiências e confirmar ou não os resultados obtidos. Tudo isto pode ter falhas, mas se são encontrados erros, corrigem-se. Só depois deste processo é que podemos ter confiança num determinado método de diagnóstico. Que provas a autora do texto do Ciência Hoje apresenta em abono da validação do teste? Artigos científicos publicados de demonstração da validade do método, que se possam encontrar em bases de dados da literatura médica, como o PubMed? Nenhuns. O que apresenta em vez disso? O habitual da pseudociência: argumentos de autoridade.

O primeiro argumento de autoridade é a identificação da própria autora como “especialista em nutrição”. É natural que em determinados contextos as pessoas se apresentem com a sua designação profissional. Como, “olá, eu sou o João e sou pescador”. Já “olá, eu sou o João e sou especialista em pesca” é mais suspeito, já que a designação “especialista” contem em si uma força de autoridade que vai muito para além da mera identificação de actividade profissional ou área de formação. Outra designação deste tipo, muito na moda, é “guru”. Mas estas denominações de autoridade não bastam para validar cientificamente o que se diz. Aliás, não só não bastam como são absolutamente irrelevantes.

A ciência não assenta em figuras de autoridade. Assenta em provas. É uma marca da falsa ciência evocar figuras de autoridade, tais como cientistas da NASA, especialistas ou gurus, em vez de provas. Neste caso, tal como em muitos outros, a figura de autoridade é reforçada pela utilização de linguagem com uma aparente sofisticação científica que, como já vimos, não significa nada. Mas o que seria desta aparente sofisticação científica sem um bonito gráfico? Fazer um gráfico é fácil. Eu por exemplo, apliquei a técnica de biorresonância à detecção de aldrabices pseudo-científicas. Um resultado típico de banha da cobra segue em baixo:
À volta disto, das figuras de autoridade e de linguagem aparentemente científica, podem-se formar grandes comunidades de pessoas que agem como se isto tudo fizesse sentido, o que também serve de argumento de autoridade. Podem-se organizar conferências, encontros, formações, passar certificados e ganhar dinheiro à volta do sexo dos anjos. Nunca faltam testemunhos de clientes satisfeitos e de pessoas a quem a descoberta desta nova coisa mudou a vida. Só que testemunhos, por si só, de nada adiantam. Do ponto de vista científico, para demonstrar a validade de um tratamento ou de um método de diagnóstico, é necessário realizar experiências em condições controladas e que elas sejam confirmadas por grupos independentes. Sem isto, podemos ter o circo que se quiser, que não torna o tratamento ou método de diagnóstico válido.

Infelizmente os testes para detectarem intolerâncias alimentares são um pouco mais complicados do que dois eléctrodos na ponta dos dedos. Normalmente são necessárias análises do sangue para detectar a presença de quantidades anormais de determinadas imunoglobulinas ou testes genéticos para estudar os genes relacionados com intolerâncias alimentares habituais. 

No final do texto, é apresentada uma ligação para uma clínica que comercializa o teste de biorressonância, de cuja equipa a autora faz parte. Se dúvidas havia de que se trata de um texto publicitário, ficam esclarecidas.

Segundo o seu estatuto editorial o “CIÊNCIA HOJE é uma publicação on-line que visa oferecer uma informação completa sobre toda a actividade científica desenvolvida em Portugal e no estrangeiro. Pretende ser um meio de contribuir para a cultura científica nacional, divulgando a investigação de qualidade que se produz no País.”

Este texto não faz nada disso. Promove a ignorância e o obscurantismo e não há nenhum principio de pluralidade jornalística que o justifique. Aliás, do ponto vista jornalístico também falha em toda a linha. Publicar um texto publicitário não identificado como tal é um péssimo principio.

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NOTA: Entretanto o texto do Ciência Hoje que é aqui referenciado deixou de estar disponível. Seria óptimo que isso significasse que irá haver um melhor critério científico e jornalístico em futuras publicações do Ciência Hoje. As justificações delirantes acerca da bioressonancia podem ser encontradas em muitos outros sítios, como aqui ou aqui.