The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

sexta-feira, 31 de Maio de 2013

Com os males dos outros não podemos ficar contentes

O jornal Público de hoje reproduz uma notícia do jornal The Independent que nos podia fazer suspirar de alívio: "não são apenas os nossos alunos que denotam uma ignorância confrangedora!" 

Diz-se na notícia que, no Reino Unido, foi passado "um inquérito a dois mil alunos (...) para testar [o seu] conhecimento histórico, encontrou dados surpreendentes. A maioria, entre os 11 e os 16 anos, baralhou as personagens históricas e contemporâneas e fez associações erradas". Nem Shakespeare foi devidamente reconhecido.

É claro que este tipo de dados não pode (ou, não deve) deixar de suscitar pelo menos duas interrogações:

1) Estamos, na Europa, a cumprir o dever de ensinar as gerações mais jovens no que é essencial que aprendam para serem conscientes como pessoas, para terem um papel livre e responsável na sociedade, para, elas próprias, transmitirem o legado civilizacional a outras gerações que venham ao mundo?

2) Os estudos internacionais que medem as literacias "essenciais", "fundamentais", tão caros a entidades supra-nacionais e a cada vez mais sistemas educativos, bem como as avaliações internas em que esses sistemas apostam, sem esquecer as avaliações externas e internas de escolas que se realizam com regularidade, para, diz-se, garantir-se a sacrossanta "qualidade", "escondem mais do que revelam"?

Notei que esse inquérito é da responsabilidade de "uma cadeia de hotéis". Não percebi a razão de uma empresa deste tipo se interessar por tal estudo. Porque a sociedade, no seu sentido mais geral, não confia nas entidades mais credenciadas para tanto, sejam elas políticas, técnicas, ou académicas? Ou teria sido por outra razão?

quinta-feira, 30 de Maio de 2013

São Tomás de Aquino e a defesa da Educação para a Sabedoria

Tomás de Aquino, também conhecido como o doctor angelicus, é universalmente considerado como o maior dos mestres escolásticos.

Nasceu em Aquino, no reino de Nápoles, no seio de uma família nobre. Em 1230, com cinco anos, foi entregue aos cuidados do tio Sinnibaldi, abade do mosteiro de Monte-Cassino, onde deu os primeiros passos na cultura. Em 1236 ou 1239 ingressou na Faculdade de Artes da Universidade de Nápoles onde, provavelmente, contactou pela primeira vez com a Filosofia aristotélica. Por volta de 1243/44 vestiu o hábito dominicano, o que lhe facultou a possibilidade de estudar e ensinar, em várias Universidades da Europa. A sua missão foi incorporar o legado aristotélico no saber cristão. Nesse trabalho “descobriu na razão uma «terra sagrada» destinada a cultivar no seu recinto, por direito próprio, a árvore da ciência” (Galino, 1981, p. 551).

Defendeu a autonomia da razão pela recusa da tese da “iluminação divina” advogada pelos franciscanos e da tese do “intelecto único” defendida pelos árabes. Contrariamente à convicção de que existiria apenas um intelecto agente, Deus ou Inteligência, São Tomás considerava que cada homem possui um intelecto particular, sendo que daí decorre a dignidade humana.

A sua vasta obra revela o génio que o caracterizou. Dessa obra, destacamos aqui a Suma contra os Gentios e a Suma Teológica, como referência para quem quiser iniciar um contacto com o seu pensamento pedagógico. Aí percebemos o destaque que deu à moral como dimensão fundamental no aperfeiçoamento do ser humano que, assim, deve consistir no fim último da educação: “a moral é o ser do homem, doutrina sobre o que o homem é e está chamado a ser” (Lauand, 1998, p. 285),

É pela educação que o homem pode alcançar a sabedoria, que, nessa medida, está intimamente ligada à responsabilidade e liberdade. Os imperativos dos mandamentos (farás X, não farás Y) são enunciados sobre a natureza humana, uma vez que a felicidade e a realização do homem implicam que se pretenda X numa atitude de incompatibilidade com Y (Lauand, 1998, p. 286).

Numa carta - “De modo Studenti” - endereçada a um dominicano “irmão João” que, "como iniciado e desejoso de alcançar a sabedoria, escreveu ao mestre no sentido de este o aconselhar sobre os atalhos que deveria seguir”, apresenta os princípios para que o estudo se efective de modo adequado e com sucesso. Frisa “que não há atalhos, mas caminhos”, que “pelos riachos é que se chega ao mar” e que o “difícil deve ser atingido a partir do fácil” (Lauand, 1998, p. 300).

No sentido de mostrar que a obtenção do conhecimento é uma tarefa que não se alcança de uma só vez, emprega o gerúndio – acquirendo – , "adquirindo”, como que a indicar que a formação intelectual é mais um contínuo processo do que pacífica posse decorrente de uma acção que se perfaz de uma vez.

Significativo, nesse sentido, é o uso do verbo (…) caminhar, marchar. Com efeito, já na primeira questão da Suma, referindo-se à busca pela razão humana da verdade mais elevada, São Tomás diz que “só depois de muito tempo e com mistura de muitos erros se pode lá chegar".

No De modo Studenti reflete uma concepção de educação que pode parecer estranha aos olhos de um pedagogo de hoje que, preocupado com o modo de estudar ou com a forma de adquirir conhecimentos, apresentaria uma panóplia de princípios programáticos e motivacionais. Isto acontece porque pensamos o conhecimento separado da existência humana, enquanto que para São Tomás o saber faz parte dessa existência , não decorre de um “estudo frio” mas é algo que se experimenta e saboreia. Isto diz ele também claramente na primeira questão da Suma Teológica.

Destaca o facto de, na sua língua latina, “sapere" significar tanto "saber" como "saborear". Assim, o verdadeiro sábio é aquele que sabe porque saboreou. A sabedoria não pressupõe apenas uma dimensão intelectual, antes é intrínseca ao sujeito.

Esta ideia está presente nos seus conselhos para estudar: “a exortação ao silêncio, à vida de oração, à humildade, à pureza de consciência, à santidade” (Lauand, 1998, p. 302). É nesse sentido que se compreende o alcance semântico da palavra studium, que envolve uma maior abrangência do que a palavra estudo. “Studium significa amor, afeição, devotamento, a atitude de quem se aplica a algo porque ama e, não por acaso”, o que hoje designamos por “dedicação aos estudos” (Lauand, 1998, p. 302).

Efectivamente, São Tomás propõe uma dedicação integral aos estudos, uma consagração à vida intelectual, um estilo de vida ascético que propicie uma relação com Deus, com os outros e consigo próprio. No De modo studendi é muito claro: “alguém dedicado ao estudo deve, antes de mais, cuidar das atitudes da alma” (Lauand, 1998, p. 302).

A aquisição do tesouro do conhecimento exigirá, diz no “De modo studendi”, uma ordenação interior do sujeito que estuda, bem como uma ordenação exterior: “do mais fácil para o mais complexo, do riacho para o alto-mar”. Nesta articulação entre o interior e o exterior, Tomás apresenta em De Magistro,  a aprendizagem intelectual como um movimento gradual, que faz com que a aquisição da ciência (saber) seja uma passagem progressiva de potência a acto.

A aprendizagem não é entendida como anamnesis (já que Tomás não admite a preexistência da alma), mas sim como a aquisição de verdades até então desconhecidas. O saber que o discípulo possui antes de receber os ensinamentos do mestre, é apenas um saber “inicial”, fruto de uma adaptação espontânea da inteligência, contudo, falta-lhe todo um caudal de conhecimentos, que serão adquiridos pela ajuda da do mestre, que o guia por “caminhos seguros até à obtenção de conclusões certas” (Galino, 1981, p. 559).

Para São Tomás existem dois modos de adquirir a ciência: por si próprio, o modo natural, e por intermédio do mestre. Apesar de o homem poder adquirir conhecimentos por si próprio, a acção do mestre é sempre fecunda e insubstituível na busca da ciência.

Assim, para além do exercício da inteligência realizado pelo aluno, a acção do mestre condiciona a instrução de tal modo que, na sua ausência, pode faltar (falhar) a aprendizagem, até porque, em muitos casos, o mestre tem de proceder à remoção de tudo o que pode ser obstáculo ou entrave ao reto exercício das faculdades do discípulo (Galino, 1981).

Dulce Silva e Maria Helena Damião

Referências bibliográficas:
GALINO, María Ángeles. Historia de la educación - Edades Antigua y Media. Madrid: Editorial Gredos, 1981.
LAUAND, Jean Luiz. Cultura e educação na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes Editora Lda., 1998. 

VILHENA, Vasco de Magalhães. Panorama do pensamento filosófico. Vol. III. Lisboa: Edições Cosmos, 1960.

Robert C. Bishop em Lisboa

Nos próximos dias 12 e 14 de Junho, Robert C. Bishop, físico e filósofo da ciência norte-americano, especialista nas questões da complexidade, não-linearidade, determinismo e emergência, fará duas conferências na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, a convite do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. Mais informações:



DO CRISTAL-PEDRA DE TEOFRASTO À FÍSICA DO ESTADO SÓLIDO

SEGUNDA PARTE: SÉCULOS XIX E XX
(A primeira parte pode lida aqui)


Na Alemanha, o mineralogista e cristalógrafo Christian Samuel Weiss (1780-1856), professor da Universidade de Berlim, encontrou maneira de definir matematicamente qualquer face de um poliedro cristalino. Para tal concebeu Weiss definiu o conceito de “zona cristalográfica” como o conjunto de planos paralelos a uma direcção cristalográfica designada por “eixo de zona” e foi o autor de uma lei fundamental da cristalografia morfológica, conhecida por Lei das Zonas.

Segundo esta, também conhecida por Lei de Weiss, os planos de uma zona podem ter índices cristalográficos e espaçamentos diferentes, mas têm, em comum, o paralelismo com uma dada direcção cristalográfica. Uma zona é, pois, um conjunto de planos caracterizados pelos índices do eixo da zona. Chamou a atenção para o facto de dois planos não paralelos serem sempre planos de uma dada zona, pois ambos são paralelos à linha de intersecção dos mesmos.

Mais de meio século depois de Haüy ter concebido a sua “molécula Integrante”, o físico francês Auguste Bravais (1811-1863), desenvolveu um valioso trabalho no domínio da estrutura cristalina dos minerais e da influência desta estrutura na geometria dos poliedros cristalinos, tida durante mais de um século como um complemento indispensável na diagnose mineralógica.

Numa antecipação notável, este fundador da cristalografia estrutural viu no cristal um meio físico no qual um dado motivo se repete nas três direcções do espaço ou, como também se diz, um meio físico triperiódico. Esta sua concepção, conhecida por Teoria Reticular de Bravais, desenvolvida numa importante memória, publicada em 1847, viria ser experimentalmente confirmada, passado mais de outro meio século, com a invenção de uma via analítica por difractometria de raios X, levada a efeito pelos Bragg pai e filho.

Nesta sua inovadora concepção, Bravais concebeu que um dado motivo, entendido como um nó, numa espécie de renascimento das ideias atomistas de Leucipo, Demócrito e outros filósofos gregos da Escola de Mileto. Este nó, segundo ele, tem os seus homólogos distribuídos segundo os vértices de um paralelepípedo a que chamou “malha elementar”, que se repete por empilhamento nas três direcções do espaço, constituindo uma rede triperiódica, cuja homogeneidade é determinada por essa mesma repetição.

À semelhança do que Haüy imaginava com a sua “molécula integrante”, Bravais acreditava que era este empilhamento da “malha elementar”, que constitui o corpo do cristal.

Na teoria reticular de Bravais os elementos materiais não são as “moléculas integrantes” (os ínfimos paralelepípedos, considerados como corpos maciços, tal como Haüy os concebeu), mas sim e apenas os motivos ou nós que lhes definem os vértices e, a partir deles, a forma e a dimensão da “malha elementar”, igualmente paralelepipédica mas vazia.



Bravais mostrou ainda que há apenas 14 destes paralelepípedos, conhecidos por “módulos de Bravais”. Químico alemão pela Universidade de Göttingen, Eilhard Mitscherlich (1794-1863), trabalhou com Berzelius, na Suécia, e aí verificou, de que os fosfatos de determinados metais e os correspondentes arseniatos cristalizam com a mesma forma, comportamento que o levou a descobrir o isomorfismo e a formular a chamada “Lei do Isomorfismo”. Verificou, ainda que determinadas espécies minerais podem cristalizar em simetrias diferentes, particularidade a que deu o nome de polimorfismo. Estas descobertas, que comunicou à Academia de Berlim, em 1819, marcam o início de uma nova disciplina designada por cristaloquímica, sendo Mitscherlich o seu fundador.

Deve-se-lhe ainda a construção do primeiro polarizador.

O médico alemão, Johann Friedrich Christian Hessel (1796-1872), conjuntos de poliedros cristalinos que possuem os mesmos elementos de simetria Aquando da publicação do seu trabalho “”, em 1830, nem todas as 32 classes de simetria possíveis tinham sido observadas em cristais reais. Hessel foi professor de mineralogia na Universidade de Marburgo, onde em 1926, verificou que as plagioclases podem ser consideradas soluções sólidas de albite e anortite.

Tal como acontecera com as suas conclusões no domínio da simetria dos cristais, esta outra sua valiosa descoberta só foi conhecida em 1865, divulgada pelo mineralogista austríaco Carl Friedrich Naumann (1797-1873), geólogo, mineralogista e cristalógrafo alemão, ensinou em Iéna, Leipzig e Freiberga, três importantes centros de ensino superior onde foi professor destas disciplinas. Entre as várias obras escritas que nos deixou, destacam-se um manual de cristalografia, Matemático e professor de mineralogia em Cambridge, o inglês William Hallowes Miller (1801-1880) é, sobretudo, lembrado na cristalografia morfológica por ter desenvolvido e divulgado os índices concebidos pelo seu conterrâneo William Whewell (1794-1866) como os inversos dos parâmetros de Weiss.

Conhecidos por Índices de Miller (h=1/m, K=1/m e l=1/p), definem a correcta posição de qualquer face de um poliedro cristalino, em relação aos respectivos eixos cristalográficos, constituindo um sistema de notação dessas faces, então indispensável à identificação das espécies minerais e ainda em uso pelos cultores da geometria dos referidos poliedros. Esta via de investigação foi amplamente divulgada no seu livro Treatise on crystallography, editado em 1839, hoje reconhecido como um clássico da cristalografia morfológica.

Nesta mesma obra, Miller introduziu a projecção estereográfica e expôs a chamada Lei de Miller, que estabelece a relação angular das faces do cristal com os respectivos índices h, k, l. O mineral millerite, um sulfureto de níquel, de fórmula NiS, é uma homenagem à sua memória.

Axel Gadolin (1828-1892), militar de carreira finlandês, foi também mineralogista e cristalógrafo. e de Christian HesselGadolin deixou-nos, Mémoire sur la déduction d'un seul principe de tous les systèmes cristallographiques, publicada em 1867, uma obra de muito mérito relativamente aos sistemas cristalográficos.
A. Galopim de Carvalho

(Continua aqui)

quarta-feira, 29 de Maio de 2013

Eclipse de 1919 e a Relatividade Geral: o Universo que é um laboratório

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/37/1919_eclipse_positive.jpg
Há 94 anos, numa expedição conjunta à Ilha do Príncipe e a Sobral (na região brasileira do Ceará), foi dado um dos mais importantes passos da Ciência moderna: Albert Einstein tinha razão quanto à deflexão dos raios luminosos, nas vizinhanças de um corpo de grande massa. Nesses idos de 29 de Maio, as equipas lideradas pelo astrónomo inglês Arthur Eddington observaram um grupo de estrelas (nomeadamente, pertencentes ao enxame das Híades, na constelação do Touro) durante um eclipse total do Sol. Durante um eclipse total, a Lua ofusca o brilho solar permitindo a observação de estrelas. A faixa estreita em que o eclipse foi total atravessava a América do Sul e o continente africano, passando exactamente na Ilha do Príncipe. Em cima pode ver-se uma das fotografias tiradas durante a fase de eclipse total, no Príncipe (onde estava Eddington). Para além da coroa solar (zona branca) podem ver-se uns traços brancos que identificam as estrelas observadas.

Os resultados da expedição foram apresentados num artigo de nome "A Determination of the Deflection of Light by the Sun's Gravitational Field, from Observations Made at the Total Eclipse of May 29, 1919" escrito por F. W. Dyson, A. S. Eddington e C. Davidson, publicado em 1 de Janeiro de 1920 na revista inglesa Philosophical Transactions of the Royal Society. Os cálculos confirmaram a previsão de Einstein, baseada na Teoria da Relatividade Geral, de que a deflexão dos raios luminosos das estrelas era o dobro do que era previsto pela Teoria da Gravitação Universal de Isaac Newton.

O impacto destas notícias foi grande e passou para o grande público. Em baixo mostra-se recortes de dois jornais da época (publicados em final de 1919): em cima o Illustrated London News explica, com um esquema, a observação; em baixo o New York Times diz que ... não há razão para alarme.





 Fica a fotografia dos dois homens que deram corpo a esta importante descoberta.


Tal como em outras ocasiões as dimensões e grandezas do Universo tinham sido usadas para testar teorias, tal como se faz num qualquer laboratório. O Universo é um laboratório.

Este tema foi alvo de celebrações especiais durante o Ano Internacional da Astronomia, em 2009, por ocasião do nonagésimo aniversário das observações, e volta a ter atenção por parte do ano da Matemática do Planeta Terra 2013, reforçando que o progresso da Ciência se faz (também) pelo cruzamento de vários saberes: matemáticos, astrónomos, físicos, geólogos, biólogos, etc, etc ...

João Fernandes

PS. Para saber (muito) mais sobre eclipses, consultar a página da NASA dedicada ao tema.

terça-feira, 28 de Maio de 2013

O passo era pequeno

Imagem copiada daqui.
Há bastante tempo que o mundo sabe (ou seja, que nós sabemos) que alguns países, usam drones para espiar e para matar. Face ao argumento da segurança corroboramos a medida, resignamo-nos a conviver com ela ou, simplesmente, encolhemos os ombros, temos mais em que matutar.

Como seria bom de ver, o passo era pequeno, muito pequeno para que estes instrumentos passassem a estar para outros domínios. E ele aí está (teria havido passos anteriores que desconhecemos?): uma companhia de caminhos-de-ferro vai usá-los com o argumento da higiene ou algo parecido (reduzir os graffiti). É um argumento que também nos serve, é quase tão aceitável com a segurança. E hão-de aparecer mais... Todos eles serão apresentados a favor do cidadão comum, como forma de assegurar os seus direitos fundamentais; nunca contra ele, nunca pondo em causa a sua liberdade...

Substituiremos, por todo o mundo civilizado, as obsoletas câmaras de filmar fixas por estas maravilhas da técnica, móveis e programáveis cada vez mais pequenas, dissimuladas, sofisticadas, rápidas, eficazes... Sem lhe sentirmos a presença, elas andarão à nossa volta pelas ruas, pelos supermercados, pelos teatros, pelas prisões, pelos museus, pelos hospitais, pelos jardins, pelas repartições públicas, pelas escolas, talvez pelas nossas casas...

Acharemos normal que assim seja, pois o apertar do cerco sobre as pessoas, o controlo sobre o que fazem, pensam e sentem tem sido primorosamente acompanhado de uma educação soft, que usurpa o conhecimento e barra a conquista do discernimento. A obra tem sido de mestre! Conseguimos o "panóptico", senhor Jeremy Bentham (1791), conseguimos, mesmo, o panóptico senhor Michel Foucault (1975), perfeitinho!

A aqui vou-me permitir discordar de Albert Einstein: preocupo-me "com o futuro pois ele chega sempre cedo de mais".


CIÊNCIA NA IMPRENSA REGIONAL – CIÊNCIA VIVA

Resumo da minha comunicação ontem, dia 27 de Maio, no primeiro Congresso de Comunicação de Ciência em Portugal - SciCom Pt 2013

Créditos da foto: Roberto Keller-Perez


Resultados do programa Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva


O programa «Ciência na Imprensa Regional» é uma iniciativa da Ciência Viva - Agência Nacional para a Cultura Científica eTecnológica, com início em Agosto de 2011. O principal objectivo desta iniciativa é a divulgação da ciência e da tecnologia ao maior número de jornais regionais em todo o país, disponibilizando conteúdos C&T de grande actualidade e interesse para o comum das pessoas.

Até ao momento o programa conta com 60 jornais aderentes (continente e ilhas), 47 colaboradores regulares (cientistas, comunicadores, divulgadores e jornalistas de ciência), cerca de 350 conteúdos produzidos e disponibilizados em quase 1000 publicações.

Um número significativo de jornais aderentes ao programa já criaram uma secção permanente de ciência. Também o volume de artigos publicados atingiu recentemente o número de 90 por mês, numa média de 3 artigos por dia.

Os jornais com edição on line activa (em número de 21) apresentam hoje uma grande fidelização ao programa, publicando regularmente os conteúdos disponibilizados. Mais de 70% dos artigos publicados on line apresentam um número de visualizações superiores a 1000, tendo alguns artigos atingido mais de 8000 visualizações. Registam-se ainda centenas de partilhas efectuadas pelos leitores pelas redes sociais facebook, google + e twitter, sendo que as preferências vão para os artigos que abordam assuntos ligados à astronomia e à saúde.

Conclui-se que os objectivos inicialmente propostos para o programa foram atingidos e nalguns aspectos superados. Os jornais aderentes ao programa publicam hoje imediata e regularmente a quase totalidade dos conteúdos disponibilizados no portal. Portanto, conclui-se ainda que a não publicação de conteúdos de ciência na imprensa regional não se deve a falta de interesse de editores, jornalistas ou leitores mas, simplesmente, à pouca disponibilidade desses conteúdos e à falta de jornalistas especializados nesses meios.

Por fim, consideramos que este programa está ainda em fase piloto e que os seus resultados devem ser analisados de diferentes ângulos tendo em conta o panorama actual da imprensa regional, quer ao nível dos editores quer dos jornalistas e seus públicos. Como potenciar resultados? Como envolver cada vez mais investigadores? Haverá uma abordagem mais regional da ciência? Estas são apenas algumas das questões em aberto neste projecto com resultados muito positivos, mas que devem ser potenciados.

António Piedade

E... continuamos

Em Portugal "não há espaço político para a grandeza da natureza humana", escreveu  um procurador-geral adjunto, Alberto Pinto Correia, no jornal Público de hoje. Partiu de José Cardoso Pires que sabia muito bem do que falava quando falava deste país.

Eu tiraria a palavra "político" da frase, mas subscrevo que "não há espaço para a grandeza da natureza humana".

Na verdade, parece-me que o ar atrofiante que se respira não sopra, infelizmente, apenas dos lados da política, mas de todos os lados, ou de quase todos os lados, mesmo daqueles que seriam insuspeitos, que deviam pugnar pela  possibilidade de manter e criar espaços para que essa entidade enigmática que é a "natureza humana", pudesse engrandecer-se, voar...

Há uma espécie de atrofia que nos consome, a pouco e pouco, sem darmos conta... até que lemos isso num jornal e... continuamos...

segunda-feira, 27 de Maio de 2013

A MINHA PRIMEIRA CRÓNICA

Texto que nos foi gentilmente enviado pelo Professor Galopim de Carvalho.
Seara de trigo. Serpa. Imagem colhida em olhares.sapo.pt
Olá! Bom dia a todos!
Como diriam os brasileiros, cheguei !
Chamo-me Francisco como o actual Papa. Era para ser António, como o meu avô paterno, mas este argentino que, em boa hora tomou as rédeas de uma Igreja, em tantos domínios, afastada da palavra de Cristo, revelou-se, de imediato, como uma fonte de amor e solidariedade. Neste desgraçado mundo, em que o dinheiro domina e, tantas vezes, perverte os que escolhemos e não escolhemos para nos governarem, o papa Francisco tornou-se uma luz de esperança para muitos, católicos ou não.

Pois, é verdade. Aqui estou eu, com a minha modesta participação contra a tendência de envelhecimento da população portuguesa.

Nasci hoje, num Hospital de Lisboa, ao mesmo tempo que o Sol começava a subir num horizonte acobreado de um céu sem nuvens.

Nascer em fins de Maio é um privilégio. É o tempo das searas ondulantes, a passarem de verde a ouro, e das papoilas rubras. Os jacarandás explodem em flor e tingem de lilás o chão de jardins, ruas e avenidas da cidade.
Jacarandás. Imagem colhida em amaral-marques.blogspot.com.
É também o tempo dos pirilampos a tracejarem de luz o começo da noite.
Pirilampos. Imagem colhida em depoisfalamos.blogspot.com.
Os dias são grandes, quase tão grandes como os do solstício, amenos e luminosos.

Por decisão do médico que a acompanhou nestes meses em que tenho vindo a transformar-me em gente, a minha mãe deu entrada, neste hospital, ontem, pelo cair da tarde. A minha avó paterna, que durante estes últimos meses tem passado os tempos livres a tricotar-me casaquinhos e botinhas de lã, era constantemente assaltada pelo temor de que eu nascesse com alguma deficiência. Foi assim enquanto grávida do meu pai. E, comigo, foi o mesmo receio. Um tal temor era mais perceptível com a aproximação do dia e da hora da minha aparição no mundo e, assim, não tardou em vir para aqui, com o meu avô, claro. Quando chegaram, já cá estavam os outros meus avós. Eu acabara de entrar, com a minha mãe, na sala de partos.

O meu nascimento foi provocado, pois eu já estava na posição correcta e com todas as condições para ver a luz do dia. Colocaram na boca da minha mãe uma pastilha que lhe desencadeou as necessárias contracções e correspondente abertura da bacia, a fim de dar passagem a esta coisa, que sou eu, com os meus 2,750kg e 48cm de comprimento. Passado algum tempo deram-lhe uma injecção, porque já começava a sentir muitas dores e, a partir de então, era só esperar…Lá fora também se esperava. Liam-se os jornais do dia. O meu avô António folheava, sem muita continuidade, as páginas de um livro que trouxera para ajudar a passar o tempo, enquanto a minha avó completava sudokus uns atrás dos outros. O meu avô materno detinha-se nas páginas de “A Bola” e a outra minha avó olhava, pela janela, o alvorecer do dia. O meu pai, equipado segundo as regras do hospital, estava connosco para assistir à minha chegada a este mundo. Uns bons minutos antes do meu primeiro contacto com o ar atmosférico, já com a minha mãe posicionada e composta para me empurrar cá para fora, senti uma leve pressão. Eram as mãos do médico sobre a barriga dela, ao mesmo tempo que dizia: - Faça força! Faça agora mais força!

Foi então que deslizei, quente, por entre as pernas da minha mãe. Nesse instante, aprendi a respirar, uma entre várias funções que vou ter de cumprir ao longo da minha vida. O relógio da parede marcava 6 horas e 15 minutos.

O meu pai, visivelmente emocionado, tentava controlar a respiração a fim de não perder a compostura. A minha mãe, deitada, e já comigo em cima dela, sorria de alegria e de alívio. O meu pai saiu para dar a boa-nova aos que, lá fora, esperavam por ela. Houve abraços, sorrisos e lágrimas. Na sala de partos sucediam-se os procedimentos próprios destas situações. Por fim, vestiram-me de azul e branco e deitaram-me num daqueles berços altos e com rodas, concebidos para ficarem à altura da mãe, ainda acamada. Depois, foi o nosso regresso à enfermaria onde, pela primeira vez, soube o que era mamar. Ainda não tinha uma hora de existência e já aprendera duas funções essenciais à vida: respirar e tomar alimentos. Faltavam, por agora, outras que se não fazem à vista de toda a gente.

Lá fora, o povo deste país, assiste, por enquanto resignado, à destruição dos ideais pelos quais os meus avós tanto lutaram e que permitiu ao meu pai crescer feliz, destruição que temo venha a ensombrar o meu futuro. Daqui irei para a minha casa, a mesma onde, há muitos anos, o meu pai entrou, recém-nascido como eu. Tenho lá uma cadela cujo ladrar comecei a ouvir quando ainda estava aconchegado no ventre materno. Já gosto dela e sei que irá gostar de mim e me irá proteger de quem me quiser fazer mal.

Numa conversa que ouvi entre os meus pais (dentro da barriga materna, qualquer bebé ouve e conhece, pelo menos, a voz da mãe) fiquei a saber que irei ter um quarto para dormir e arrumar as minhas coisas. Não quero que o meu quarto seja um daqueles onde muitos meninos aprendem a viver isolados da família e do mundo. Quartos assim, com televisão só para eles, computador e jogos electrónicos, privam os filhos da convivência dos pais e tiram aos pais o prazer de verem os filhos brincar e crescer.

Galopim de Carvalho

domingo, 26 de Maio de 2013

Falou de Hegel e dos Gregos

Extracto de uma entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Eduardo Lourenço, onde o filósofo fala de uma conferência de Heidegger a que assistiu nos anos cinquenta.

O que é que foi tão impressionante?

Eu estava naquela altura em Montpellier. Heidegger estava um pouco na sombra, marginalizado no plano intelectual, na penumbra da chamada opinião pública. Estavámos em 52, 53, depois da derrota nazi em 45. Havia um contraste fabuloso entre o ar banalíssimo da pessoa Heiddeger – só reconheci um pouco do perfil, que fazia lembrar o de Cícero – e o que ele era como presença, como texto. Falou de Hegel e dos Gregos. Nunca mais esqueço essa lição. Havia mais de mil pessoas na sala, suponho que eram todos professores, grandes professores, e, de repente, estávamos reduzidos, como se estivéssemos a ouvir em pessoa Aristóteles ou Platão.

Consegue identificar esse elemento transbordante, esse algo que eu imagino que Heiddeger teria para produzir essa impressão?
Uma aura. Uma profundidade, uma singularidade, uma raridade na abordagem de uma questão já tratada por outros pensadores ao longo dos séculos XIX e XX. Hegel e os Gregos são o horizonte de todo o pensar filosófico típico europeu. Heidegger põe as perguntas cruciais de uma outra maneira. Mostra como o pensar era despensar. Era um silêncio enorme. O texto era em francês, depois em alemão, francês, alemão, francês, alemão, de maneira que pudesse terminar em alemão. Foi uma espécie de grito, um momento sacralizante, se se pode levar o termo para qualquer coisa que é do mais dessacralizante possível, que é a palavra filosófica. Não tenho nenhuma memória dessas coisas concretas, senão era romancista. Só guardo desse momento a emoção que tive. O que é o Heiddeger tinha? Um físico de alemão banalíssimo, da Baviera.

E a voz, como é que era a voz?

Ele devia ter qualquer coisa para que uma senhora como Hannah Arendt se tenha apaixonado por ele. E não se apaixonou senão pelo pensador, pela pessoa que tinha esse verbo e a iniciava na única coisa que ela própria procurava e não era capaz de formular da mesma maneira: a solução intelectual em estado puro. De outro modo, é absolutamente incompreensível. Todos os amores são incompreensíveis. Mas esse da Hannah Arendt, ela própria filósofa, judia, conhecendo uma parte do passado controverso ou mesmo suspeito do Heiddegger...

O senhor pensou nesse elemento suspeito quando o ouviu?

Falamos da aproximação do Heidegger à ideologia nazi. Se soubesse que o Heidegger era um sujeito que aplaudia uma coisa tão pavorosa como foi o holocausto, naturalmente que não ia assistir...

sábado, 25 de Maio de 2013

50 Lições de Filosofia

50 Lições de Filosofia (10.º ano) é o meu mais recente livro, redigido em co-autoria com Célia Teixeira e Aires Almeida. Foi um desafio considerável, em que tentámos conciliar o máximo rigor filosófico, apresentando a filosofia tal como realmente é, com a máxima simplicidade didáctica, adequada a alunos e alunas de 14-15 anos. Foram muitos meses de trabalho e de estudo, dedicados a escrever, apagar, mudar, deitar fora, voltar a escrever, rever, mudar de novo e de novo apagar e voltar a escrever. O manual foi testado com estudantes do ensino secundário e recebemos também muitas sugestões de professores deste nível de ensino, que nos deram preciosas sugestões — e por vezes críticas impiedosas, que nos obrigavam a voltar à estaca zero. O livro só estará à venda nas livrarias a partir de Setembro, mas está já disponível para apreciação crítica para todos os professores do país. Espero que este seja um instrumento de trabalho proveitoso, que desperte os estudantes para o fascínio que é a filosofia. No blog com o mesmo nome, eu e os co-autores do 50 Lições de Filosofia temos publicado materiais complementares e estamos abertos a críticas e sugestões. Fica aqui o convite!

sexta-feira, 24 de Maio de 2013

DO CRISTAL-PEDRA DE TEOFRASTO À FÍSICA DO ESTADO SÓLIDO

PRIMEIRA PARTE: DA ANTIGUIDADE AOS FINAIS DO SÉCULO XVIII



Aristóteles (384-322 a. C.) chamava cristal ao gelo (krystallos, em grego) e é sabido que, desde então e até ao século XVIII, se acreditou que os cristais de quartzo hialino, isto é, o incolor e transparente, eram ocorrências de água no estado sólido, num grau de congelação tão intenso que era impossível fazê-los voltar ao estado líquido. E foi assim, sob este nome, que a variedade hialina de quartzo passou aos domínios da alquimia, primeiro, e da mineralogia, depois.

Theofrasto (372-287 a. C.) distinguia o cristal-água (o gelo) do cristal-pedra (o quartzo hialino). Os romanos mantiveram este entendimento, latinizando o nome para cristallus, como se pode ler num dos 38 volumes da “História Natural”, de Plínio, o Velho (23-79 d. C.).

A expressão cristal-de-rocha, aplicada ao quartzo hialino, surgiu muito mais tarde (no séc. XIX) para distinguir o mineral do vidro de alta qualidade, produzido e comercializado sob o nome de cristal. A palavra cristal aplicou-se, depois, aos corpos sólidos, poliédricos, minerais ou orgânicos, naturais ou artificiais, e acabou por se generalizar a toda a porção de matéria sólida, limitada ou não por faces planas, cuja estrutura interna se caracteriza pela repetição periódica de um motivo (composto por átomos) nas três direcções do espaço.

O termo cristal foi, assim, usado como étimo do nome da disciplina – cristalografia – que estuda a matéria cristalina, afirmada como ciência, em finais do século XVIII, em França, com Romé de l'Isle e René-Just Haüy. Domínio de investigação nascido da mineralogia e inicialmente de cariz puramente geométrico e matemático, habitualmente referido por cristalografia morfológica, deu apoio, como complemento, tido por indispensável, à caracterização e diagnose dos minerais, até às primeiras décadas do século XX.

Alargou-se, depois, com o advento dos raios X e com o desenvolvimento da cristaloquímica, para, a partir daí, se irmanar com a física do estado sólido, com recurso às modernas tecnologias de análise. Constituiu-se, então, como um nova linha de investigação, a cristalografia estrutural, de âmbito alargado a todos os sólidos cristalinos, sejam eles inorgânicos ou orgânicos, naturais e artificiais ou sintéticos.

No século XVII, o anatomista dinamarquês Nicolau Steno (1638-1696) revelou, em 1669, que os “ângulos diedros, formados pelas faces homólogas dos cristais de quartzo, são constantes e independentes da forma e da dimensão das mesmas”. Esta sua revelação, que ainda tem um âmbito restrito, mas que alguns referem com Lei de Steno, está na base da conhecida Lei da Constância dos Ângulos (esta, sim, uma verdadeira lei), formulada um século mais tarde, pelo francês Romé de l'Isle.

Um pouco mais recente, Domenico Guglielmini (1655-1710), matemático e médico italiano, foi o primeiro a interessar-se pelos sais e pela cristalização destes, tendo chamado a atenção para a constância das formas cristalinas próprias de cada um deles, dando mais um passo no caminho do conhecimento dos cristais.

Na Rússia, Mikhayl Vasilyevich Lomonosov (1711-1765) produziu valioso trabalho de prospecção mineira e foi autor de um catálogo de minerais com várias centenas de espécies e variedades. Independentemente de Nicolau Steno, apercebeu-se da constância dos ângulos diedros entre faces homólogas de cristais da mesma espécie mineral.

Lomonosovite, um silicato complexo, co titânio, sódio e fósforo, é uma homenagem à sua memória.

Jean-Baptiste Louis Romé de l'Isle (1736-1790), antigo oficial de marinha francês, desenvolveu o gosto pela mineralogia durante um período de cerca de três anos em que, juntamente com Georges Balthazar Sage (fundador da École Royale des Mines de Paris), ficou prisioneiro dos ingleses nas Índias Orientais. Influenciado pelas ideias de Lineu, procurou estabelecer uma sistemática dos minerais em função das respectivas formas externas, em especial, dos seus cristais, tendo enunciado o conceito de “forma primitiva”. A mineralogia abriu-lhe, assim, o caminho da cristalografia. Autodidacta de génio, de l’Isle rodeou-se de colaboradores de grande craveira, como o naturalista e mineralogista francês, Arnould Carangeot (1742-1806), inventor do goniómetro de aplicação.

Servindo-se deste instrumento rudimentar, de l’Isle mediu os ângulos diedros dos cristais, o que lhe permitiu conceber a Lei da Constância dos Ângulos, que formulou com carácter genérico, na sequência dos estudos anteriores de Nicolau Steno, Domenico Guglielmini e Mikhail Lomonosov. Esta lei fundamental diz que “os ângulos diedros formados por faces homólogas são constantes para os cristais da mesma espécie mineral”.

Reforça-se, assim, o início de uma nova disciplina que, durante mais de dois séculos, como se disse atrás, constituiu um precioso complemento na diagnose mineralógica. Romé de l'Isle teve, ainda, o apoio de Swebach Desfontaines, escultor que, com base nos elementos que lhe forneceu, produziu a primeira colecção de modelos cristalográficos, em barro, num total de 448 “cristais” de referência.

O “Essai de Cristallographie”, de Romé de l'Isle, editado em 1772, teve uma segunda edição, em 1783, em 3 volumes, acompanhada de um atlas, tendo sido esta edição que o tornou conhecido e lembrado como o “Pai da Cristalografia”.

Sendo um mineralogista, celebrizou-se como cristalógrafo, distinção que lhe valeu ser eleito membro estrangeiro da Academia Real das Ciências da Suécia.

Romeíte, um antimoniato de cálcio, é uma homenagem à sua memória.

Um outro francês, seu contemporâneo, o abade René Just Haüy (1743-1822) deu grande desenvolvimento à cristalografia morfológica que caracterizou o século XIX e boa parte do XX ao enunciar, em 1784, a Lei da Racionalidade dos Índices. Também conhecida por Lei de Haüy, corresponde a uma abordagem matemática, entendida como um passo significativo no sentido da cristalografia moderna e que diz: “as relações paramétricas que definem as faces possíveis dos cristais são sempre números racionais geralmente pequenos”.

Uma outra contribuição deste pioneiro da cristalografia foi a sua concepção de “molécula integrante” que definiu como um paralelepípedo ínfimo e indivisível, característico de cada espécie mineral que, em justaposição com outros idênticos, edificava os cristais das respectivas espécies.


Esta inovação é considerada uma notável antevisão da estrutura triperiódica da matéria cristalina, estrutura confirmada mais tarde por Bravais, em 1847. Haüy foi ainda pioneiro no estudo e na compreensão da piroelectricidade. No seu “Traité de Minéralogie” descreve mais de uma centena de espécies, muitas delas conservando o nome original que lhes deu.

Haüy foi nomeado, em 1802, ao tempo de Napoleão, professor de mineralogia no Museu Nacional de História Natural de Paris, mas, em 1814, foi afastado desse lugar pelo Governo da Restauração.

Entre os seus discípulos conta-se o luso-descendente José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), um dos introdutores da mineralogia e da metalurgia em Portugal e patriarca da independência do Brasil.

Hauyna ou hauynite, um tectossilicato.
A. Galopim de Carvalho

Continua aqui.

Finalmente um país de falhados mas não um país falhado.

A propósito do estudo do D&B que refere um aumento ímpar do número de empresas criadas no primeiro semestre deste ano, tem-se debatido a onda de empreendedorismo que parece ter-se instalado em Portugal.

Durante muitos anos, o termo empreendedorismo vivia apenas em livros e trabalhos académicos. Porém, nos últimos anos, muita coisa mudou no panorama nacional. Ser-se empreendedor tornou-se quase uma moda. Foram criadas incubadoras, aceleradoras e parques de tecnologia por quase todo o país, algumas com enorme sucesso como o caso da UPTEC e o Instituto Pedro Nunes. O financiamento começou também a ser uma realidade, quer nas sociedades de business angels, quer nos programas QREN e mais recentemente no programa Portugal Ventures.

Começam a aparecer empresas lideradas por jovens talentosos e ambiciosos, que tiveram ousadia de sair da sua zona de conforto e criar projectos já com projecção  internacional, como a Modelo 3, que no Reino Unido se chama Simpletax.

Mais importante, a mentalidade mudou. Há uns anos eram raros os jovens que mostravam vontade de criar um projecto próprio. Hoje os melhores alunos já não ambicionam apenas trabalhar numa multinacional ou um lugar na carreira académica (tarefa quase impossível nos dias de hoje). Eles querem inventar os seus próprios empregos e mudar o mundo.

Muitas destas empresas vão falhar? Muitos destes empreendedores estão impreparados e vão perder muito dinheiro e tempo das suas vidas? O nosso mercado é pequeno para tantas empresas? O empreendedorismo tornou-se quase uma religião onde se criou a ilusão que qualquer pessoa com um computador pode ser milionária? Sim, tudo isso é verdade. Estatisticamente sabe-se que a maioria destas empresas falham com grandes prejuízos financeiros e morais para os empreendedores.

Mas, e este é um grande mas, este frenesim à volta do empreendedorismo é um sinal que, finalmente, o país está a sair da crise. Que há pessoas que acreditam, que lutam, que abdicam de um salário certo ao fim do mês por algo que dentro de uns anos as pode tornar milionárias. Finalmente perdemos o medo de correr riscos. Estamos a perder o medo de falhar e isso é um sinal de vitalidade e esperança.

Apenas há meia-dúzia de anos, acreditava-se que eram as grandes obras financiadas pelo Estado (com recurso a dívida) que iriam projectar o nosso país na senda da modernidade. Hoje já percebemos onde nos levou esse caminho. E nisso o povo português é extraordinário, já aprendemos rapidamente que somos capazes de atingir esses objectivos por uma outra via. Uma via orgânica e sustentada, não uma via feita de auto-estradas mas de pequenos carreiros e veredas que vão crescendo e um dia se hão-de tornar grandes. Mas por mérito próprio.

Individualmente podemos falhar, mas no seu todo o sistema, neste caso o país, vai tornar-se mais forte, mais inovador, mais dinâmico e muito mais rico. Assim como se honram os mortos em combate, devíamos nós também honrar os empreendedores que falharam nas suas lutas e fazer dessa “morte” uma força para que outros continuem a sua missão. Uma missão nobre de tornar o mundo um local melhor, de apostar nas possibilidades e não nos lamentos, de todos os dias, fazer com que a palavra impossível fique cada vez mais pequena.

Aquilino Ribeiro 50 anos depois

Os autores – os melhores, diga-se – fazem eco dentro de nós, deixam rasto. Alguns ressoam na nossa memória e acompanham-nos pela vida fora.

No meu caso, Aquilino é um deles. Dizer que comecei a interessar-me por ele em virtude da aura política que lhe veio do processo movido pelo Estado Novo, quando da publicação de Quando os lobos uivam, talvez seja exagero. É sabido como uma perseguição da PIDE salazarista dava ânimo a qualquer livro, mas Aquilino não precisava disso. A minha sedução pela sua obra é anterior.

Quando comecei a ganhar gosto pelos livros, Aquilino era então um dos maiores nomes da nossa literatura, se não mesmo o maior, e daí a obrigação de o ler, o dever de o apreciar e o alegre esforço para alcançar esse nível e, consequentemente, essa satisfação, esse puro prazer. Aquilino exigia (e exige) esforço; mas qual o grande autor (o grande amor) que o não exige?

Há quem o acuse de falta de profundidade psicológica, de uma trama pouco densa e estimulante, de falta de dramaticidade nos seus romances, e até de um formalismo já algo tardio, e, portanto, serôdio. Talvez seja verdade. Não esquecer, porém, outros da mesma época, de grande qualidade, como Tomaz de Figueiredo, João de Araújo Correia, por exemplo, onde o que se manifesta é esse gosto da forma a dar a ler uma realidade social e cultural muito forte e nítida, que se lhes impunha e que eles procuravam traduzir e recriar.

É pois o tipo de argumento que, face à obra em causa, sempre me pareceu algo deslocado, difícil de integrar na realidade sistémica que, sobretudo no caso de Aquilino, o seu estilo impunha. Porque ele não era fácil, hoje talvez ainda menos, mas o sabor da sua prosa valia (e vale) bem o trabalho de o ler, compensando-nos largamente de tudo.

Não era de pressas. A sua ação pausada, as suas lentas e gongóricas descrições, os seus largos excursos eruditos ou evocativos, as suas sintaxes envolventes e de frases longas e, sobretudo, o seu léxico rico, vastíssimo, inesperado, inventivo, amiúde extravasando o melhor dicionário, entre o popular, o regionalista e o vernáculo, nunca esquecendo os clássicos (traduzindo, vertendo), nem a latinidade, a sacralidade, a santanidade, e até a liturgia, com sua parafernália de ternos e expressões, numa mistura muito própria que a sua filigrana estilística única e inimitável exigia.

Não era fácil, não. Mas deleitava. Em Aquilino, como disse, o enredo, interessando talvez menos, não é, todavia o livro sem história à moda de alguns atuais, sobretudo da área do já antigo “novo romance”, ou do desconstrutivismo posterior. Não, o enredo existe e prende, mas é sempre submetido ao seu modo de contar, e este à exigência de uma sintaxe elaborada, frequentemente retorcida, ao seu vocabulário que não perde a oportunidade de pôr ao sol termos esquecidos, de endireitar outros, empenados pelo mau uso, de criar muitos, ali mesmo, para a necessidade do momento, e sempre sob a aba inspiradora de sabor oitocentista e setecentista, que as frases e as palavras evocam, e de uma ancestralidade que ressoa nas nossas reminiscências dir-se-ia que platónicas, se não fosse quase escandaloso dizê-lo hoje.

É pois uma escrita sempre subordinada ao classicismo da construção, à riqueza e originalidade do vocabulário, ao gosto de uma descrição que não permite uma prosa dinâmica, e menos ainda desestruturada e desconstruída que a literatura contemporânea nos veio propor.

Aquilino Ribeiro é talvez o nosso último grande clássico. Mas, passados cinquenta anos sobre a sua morte, e depois de tanta experiência, de tantos experimentalismos, artísticos e outros, ainda bem que o foi, e valha-nos isso! É pois um autor para ler devagar, que não se casa bem com a diluição atual duma certa identidade que foi tão nossa, nem com a desestruturação cultural a que se assiste, nem com muitas das regras gramaticais que a moderna literatura começou a praticar, ou a despraticar, nem com a aridez vocabular corrente, nem com a pesporrência da literatura televisiva dominante, nem com a incultura transformada em cultura, nem com o palavrório ininterrupto, embora construído com meia dúzia de palavras. Menos ainda com a moderna vertigem substitutiva dos estímulos, que tira o sabor à vida, e ainda menos com uma era de eletrónicas em que tudo desaparece no momento em que aparece, etc. etc.

Nesta sentido Aquilino é hoje uma força conta a corrente, e, portanto, uma rocha a que nos podemos agarrar. Em suma, um autor com um valor educativo hoje altamente acrescentado.

É, por outro lado, a imagem dum Portugal que existiu, e de que pouco ou nada já resta: rural, pobre, política e economicamente injusto, mas ativo, habitado e animado, demograficamente vivo, humano e humilde, mas teso, finório e boçal, afável e velhaco, troca-tintas e honrado. Disso, desta mistura donde todos descendemos, Aquilino nos dá testemunhos através de tipos humanos inigualáveis, em inúmeras histórias e situações pitorescas, cruéis, hilariantes, traiçoeiras, amenas…

Mas o melhor de Aquilino está no gosto de descrever as paisagens beirãs, as aldeias, as festas, os trabalhos, as pessoas, os bichos; o amor na procura das raízes vocabulares e sintáticas, no trabalho da língua, de sentirmos o formão e a goiva da sua marcenaria fina afeiçoando uma madeira dura e macia, que deixa, depois de bem trabalhada, obra feita. Para durar. E perfeita.

Aquilino Ribeiro é sobretudo um prosador, a gente sente-o a saborear o que escreve e a amar o que descreve e conta. E ao lê-lo, assim como mergulhamos numa portugalidade antiga que nos moldou os ossos e os sentimentos, para o melhor e o pior, e de que andamos esquecidos, ou a tentar fugir, cheios de prosápia, também usufruirmos de uma espécie de reorganização interior, uma reformulação de alma que todo o sentimento estético nos provoca e engrandece.

A grande literatura é essa forma incessante de nos reorganizarmos, de acrescentarmos ao que éramos uma outra nova e mais rica forma de ser, de sentir por nós dentro esse oxigénio que a funda enxada, cavando, fortalece e revigora.

Ler Aquilino é mergulhar nesse Portugal desaparecido, rural, duro, resistente, devoto e anticlerical, macio e cruel, atrasado e finório, que era o mundo que foi o dos nossos pais, avós e tetravós. Para os mais novos é um modo de ter notícia desse tempo perdido, de conhecer os sentimentos, as vozes, os olhares, os valores estéticos e morais de que era feito, e, ao mesmo tempo, ter a experiência de um País profundo, ancestral, resultante da acumulação de muitos sedimentos de gentes, hábitos, culturas, lugares, ocorrências, e que é, desta terra pobre e castigada, muito da sua melhor herança.

Se todos os portugueses, hoje, pudessem ler, gostar e interpretar Aquilino Ribeiro, pelo que significaria de amor à Pátria, de conhecimento dela e de sentido crítico para os seus defeitos e qualidades, que grande, que incomparável mudança nas mentalidades não sofreríamos todos.

João Boavida

quinta-feira, 23 de Maio de 2013

Jardim das Tormentas

(Em continuação: aqui)

"Tinha Deus aposentado Adão e Eva no Jardim das Delícias, onde viviam como os mais desabusados regalões. O homem era esbelto e sólido, embora nunca houvesse exercitado os tendões da marcha, nem  apurado os bíceps a colher o antílope no laço; ela um lambisco de primeira, esgalgada e especiosa, a quem os cabelos vestiam de oiro à maravilha, sem pensar na folha de parra para a nudez, num cinábrio para a boca, que de seu sinal era rubicunda.

Não sabiam de onde eram, nem como estavam ali, nem tão pouco se importavam de saber, acharam-se dentro do horto uma boa manhã, e todas as demais manhãs, na plenitude de um gozo inapreciável, porque nunca espinho, sol mais destemperado ou hora amarga lhes ensinara que aquilo era o sumo bem. Se alguma coisa soubessem desejar, o seu Senhor provê-los-ia instantânea e abundantemente como o mais solícito mordomo; mas nem desejos nem cobiças, nem necessidades picavam os seus corações inocentes; não admiravam, porque tudo era admirável; jublilos, ternuras, esperanças não sentiam que Deus gerara a vida, mas ainda não concebera a morte. No ceú, sempre azul, o sol trazia o dia, levava o dia, sem que sombras ou raios mais vivos ferissem as suas pupilas bem-aventuradas. Eram uns felizes felizardos, usufrutuários dum regalo tão sem balizas que não o sabiam avaliar, mas em que criam de boa fé porque assim lhes fora dito. De beatitude tão absorta, apenas um aviso de Deus os distraía, se a isso se chama distrair, numa punção doce, mais leve que a sombra dum reflexo de cuidado."

O extracto é do Jardim das Tormentas, um extraordinário livro de contos de Aquilino Ribeiro, publicado em 1913. Completa um século, mas as palavras são frescas como se tivessem acabado de chegar da tipografia pela primeira vez.

Carlos Malheiro Dias escreveu a pedido de Aquilino, num tom intimista e comovente, uma Carta-Prefácio que lhe é dirigida:

"(...) Porque, entre tantos que na sua estima convivem, me escolheu a mim, esquecido novelista romântico, para que as minhas palavras coubessem no mesmo livro perto das suas? Porque havemos nós dois de nos dar as mãos no átrio deste volume? Por que acidentados, sinuosos caminhos andou a nossa simpatia atrás de mim para encontrar-me neste isolamento agreste em que vivo? Que houve, que há, que haverá de comum entre os nossos destinos, aparentemente contraditórios, para que assim tenhamos de aparecer juntos, numa aliança inverosímil, perante os que o afagam e me injuriam, diante dos que o louvam e me agride, em face dos que o exaltam e me deprimem?  (...)

Dir-se-ia, a um primeiro e superficial exame, que as nossas existências, por seguirem trajectórias diversíssimas, nunca se encontrariam. E, contudo, eis-nos aqui, fraternalmente juntos - e esta fraternidade não é a de Abel e Caim. Porquê? Nenhum de nós fez às suas opiniões o mínimo sacrifício em benefício desta camaradagem. Eu me conservo fiel ás convicções em que se educou o meu espírito, e nelas venero um património familiar. O sr. Aquilino Ribeiro não necessita que eu venha servir de fiador à constância inquebrantável da sua fé de revolucionário (...)."

Maria Helena Damião

terça-feira, 21 de Maio de 2013

AÇORDAS E MIGAS

Texto que nos foi gentilmente enviado pelo Professor do Galopim da Carvalho.

«Terra de grandes barrigas
onde só há gente gorda. 
Às sopas chamam açorda,
à açorda chamam-lhe migas.» 


Foi com estas coplas que, na revista «Palhas e Moínhas», o poeta alentejano João Vasconcelos e Sá, nos começos do século passado, cantou a diferença entre os usos destas palavras no Alentejo e fora dele; hoje mais conhecidas graças à bela interpretação do seu neto, o fadista António Pinto Basto. Estreada em Évora, em 1939, esta representação musical, em dois actos, tem por tema a mais extensa província de Portugal, as suas gentes e o seu modo de estar e viver naquela época. Entre os muitos participantes, todos recrutados entre a população da cidade, figurou o meu irmão Francisco José que, logo aí, revelou as suas excepcionais qualidades como intérprete da canção.

No seu livro, “Para uma História da Alimentação no Alentejo” (1997), o saudoso Alfredo Saramago revelou-nos que, durante o período de ocupação romana, se comia no Alentejo uma sopa feita de ervas aromáticas, alho, azeite, pão e água bem quente. Esta confecção atravessou as culturas dos povos invasores que se seguiram, tendo sido os árabes que a fixaram e lhe deram a importância que teve entre eles e ainda tem entre nós. A ath thurda (açorda) é, pois uma herança antiga, valorizada pela presença muçulmana neste Garb al Andaluz, entre os séculos VII a XIII.

As açordas do pobre não têm acompanhamento. São as açordas de mão no bolso (como já escrevi noutro local) comidas pelos mais carenciados que, não tendo conduto, só precisam da mão que leva a colher à boca. São as açordas peladas, não fazem mal nem bem, é só pão e água... caem nas calças e não põem nódoas, escreveu Falcato Alves, em “Os Comeres dos Ganhões” (1994).

Mas há também, para quem pode, açordas bem temperadas, feitas com a água de cozer bacalhau, pescada ou amêijoas, e com outros produtos de grande valor nutritivo e requintado paladar, com destaque para os ditos condutos e, ainda, o ovo cozido ou escalfado, as azeitonas e, até, nalgumas famílias, os figos frescos. Açordas são quase sempre as de alho e coentros ou de poejos.

À falta destas ervas há quem as faça com pimento verde esmigalhado no almofariz (no geral, de madeira), ou graal, como nós dizemos. Mas há outras, como as de tomate e muitas mais, a ponto de o termo ser considerado sinónimo de “sopas de pão”.

Para nós, alentejanos, o termo migas designa um alimento à base de pão migado, embebido num caldo e a seguir esmigalhado e amassado. Esta confecção é aquilo que, em Lisboa e noutras regiões do país, se chama açorda. As ”açordas de marisco”, as boas e as menos boas, que se servem de Norte a Sul do país, são, na realidade, migas, pois correspondem melhor à etimologia e ao significado da palavra.

Temos ainda as migas de batata, também elas esmigalhadas e amassadas. Assinale-se aqui, porque nunca é demais saber, que migas e mica, o mineral, radicam no mesmo étimo latino, mica, que significa migalha.

As migas da minha mãe, trazidas de casa da mãe dela, eram quase sempre feitas no pingo do toucinho ou da carne de porco com mais gordura e no dos enchidos.

Ao contrário do ditado que reza «migas de pão, duas voltas e já estão», as nossas velhas migas as que ainda hoje se fazem no Alentejo são enroladas na sertã, continuamente, até tostarem levemente e ganharem uma casquinha estaladiça. Prato tradicional e frequente na mesa de ricos e pobres, com a diferença de que as migas de uns tinham mais carne magra e linguiça, e as de outros, mais toucinho e farinheira.

Galopim de Carvalho

O Pequeno Mundo



Por vezes, nos romances, surgem reflexões sobre as leis da física e surgem referências a físicos.

Em “O Pequeno Mundo” de Luísa Costa Gomes - romance que se desenrola através de missivas escritas entre as personagens- às páginas tantas, Leonardo escreve  ao amigo João Manuel:
«Por isto, já vês, não foi a morte de Camila que me assustou mas o aperceber-me, a súbitas, no que me tinha tornado; rompendo através das gordurosas do corpo os untos diversos que me corriam no cérebro, tinha que, em vez das lubrificações aéreas que eu antecipara, me apatizavam os cada vez mais ralos pensamentos de um espírito que padecia de boa-vontade e colaborativo na correnteza dela, os mortais empuxões da inércia. Que é, se bem te lembras, a lei mais funda de toda a realidade. Deixando-me levar pela correnteza dela, havia de estar hoje sentado com Esmeralda a fazer meia e a conversar do tempo frutuoso das colheitas do ano passado»

A lei da inércia aparece a Leonardo como intangível e como o estado deste mundo - isto apesar de o pequeno mundo continuar acelerado.

A estrutura e até a moral de “O Pequeno Mundo” são análogas ao romance “Boquitas Pintadas” do argentino Manuel Puig - salvo que a história do primeiro é dominada por relações amorosas e traições, enquanto a do segundo é dominada pela denúncia, por parte de um jornalista, da hipotética corrupção de um caudilho –, ambos se baseiam em epístolas e dão a imagem de um mundo sem ética, regido pela astúcia e perpassado de traições, de hipocrisia, de desejos de poder e de corrupção.

João Miguel chega a escrever a Manuela:
«Leonardo transformou-se num socialista utópico pós-catastrofista, o que, se considerarmos o processo todo com olho equânime, é um passo adiante daquelas ideias do século ΧІΧ conservador que sempre defendeu. Não perco a fé em vê-lo transitar um dia para o socialismo científico e depois à social-democracia, para se afogar nos títulos e nas acções e ir para Lisboa gesticular na Bolsa, refazendo em si mesmo o percurso da própria História.»

Esta última etapa da história é inegavelmente a que estamos agora a viver.

No término do romance Manuela escreve este episódio maravilhoso, que desconhecia, sobre Arquimedes:
«Noli turbare círculos meos, disse ele que parece que foi a forma de Arquimedes pedir a quem o vinha matar que lhe não pisasse as figuras que ele tinha desenhado na areia.»

De facto apagar a obra de um génio é um crime, e o actual governo de Portugal e o Presidente da República não têm feito outra coisa se não apunhalar a cultura e, por arrasto, a obra dos génios. Tudo o que peço a estes senhores é que tenham um pouco de atenção e poupem os círculos na areia, uma vez que a sua sede de extermínio da cultura é imparável. Contra a opinião de muitos cronistas, eu considero que a omissão do nome de José Saramago na Colômbia, por parte do senhor Presidente da República, foi propositada e vergonhosa. Mais, este senhor deveria ser obrigado a ler o único Nobel da literatura portuguesa, porque foi um prémio justo e não obra do céu. É verdade que as aparições deixam os portugueses a ver apenas branco, uma vez que são inexplicáveis, e que se perpetuam pelo tempo afora; agora esta de misturar Religião com Euros é de quem anda completamente perdido.

Não fugindo deste pequeno mundo, já vejo o senhor Cavaco Silva em peregrinação para Fátima com o actual treinador do Porto, levando algumas vitaminas na sacola, e a recitarem o Evangelho pelo caminho.

O romance acaba com uma carta de João Miguel a Leonardo:
«Duvido que voltemos a falar-nos. Lembras-me um dito do tutor de Stendhal – perdoa-me esta anedota – a quem perguntavam por que ensinava ele ainda o sistema ptolomaico, sabendo-o falso. «Senhor», respondeu o sábio, «ele explica tudo o que é preciso e ainda por cima tem a aprovação da Igreja.» É assim que eu te vejo, fincado no teu sistema ptolomaico, nem que para isso tenhas de ir espezinhando quem não te inclui no arranjo das coisas.»

É no sistema hodierno de Copérnico que os portugueses vivem divididos, porque uns se recusam a ver os seus falhanços, enquanto outros se esquivam das suas responsabilidades na crise actual. E, deste modo, tenho que revezar a imagem de José Sócrates com a de M. Rebelo de Sousa no meu televisor, e ficar com os cabelos dos braços arrepiados face à comiseração e ao catolicismo do senhor Paulo Portas.

Para mim é evidente que o neo-liberalismo é a máscara do fascismo e que o socialismo português rasgou todos os seus valores e aplicou os do neo-liberalismo. Assim, estamos prestes a regressar ao Estado Novo. Empobrecer o todo para depois, faminto e em desespero, suar de sol a Sol para o senhor da espreguiçadeira. 

segunda-feira, 20 de Maio de 2013

Mateus DOC - convite à apresentação de propostas

O Mateus DOC é um programa que tem como objectivo estimular o diálogo interdisciplinar entre jovens investigadores de diferentes áreas científicas, confrontando-os com temas de actualidade e interesse geral. Pretende-se, desta forma, encorajar os participantes a encararem os seus temas de  investigação numa perspectiva alargada, que inclua sistematicamente pontos de vista exteriores à área científica respectiva.

No seguimento de edições anteriores do “Mateus DOC”, o Instituto Internacional Casa de Mateus propõe-se este ano organizar encontros sobre os conceitos de “Fronteira” e “Código“. O objectivo é reunir um pequeno grupo de entre 10 a 15 investigadores, dispostos a discutir em conjunto durante um fim de semana na Casa de Mateus, temas comuns a cada um deste tópicos, convergindo ou divergindo perspectivas e pontos de vista de áreas diversas.



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A sua proposta de abordagem do tema é muito bem vinda: consulte o regulamento e candidate-se on-line até ao dia 18 de Junho.

O Instituto Internacional Casa de Mateus é uma associação cultural internacional que congrega universidades e sócios particulares, com sede na Casa de Mateus, e que tem por objectivo contribuir para fomentar o debate e o intercâmbio científico e cultural tirando partido das condições logísticas e operacionais da Fundação da Casa de Mateus. As suas actividades desenvolvem-se em torno de temas da actualidade científica, social e cultural contando com a participação de especialistas de uma grande diversidade de áreas e nacionalidades.

Sessão de apresentação do programa Mateus DOC e convite à apresentação de propostas para as duas próximas edições:

- Braga - 22 de Maio, 11h30 - Universidade de Braga - Sala dos Professores do CP II
- Coimbra - 23 de Maio, 12h - Rómulo - Centro Ciência Viva  da Universidade de Coimbra
- Vila Real - 23 de Maio, 17h - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Auditório de Geociências

PREFÁCIO A “DOIS DEDOS DE CONVERSA SOBRE O DENTRO DAS COISAS”


Meu prefácio ao livro de Bruno Nobre e Pedro Lind, da nova editora Frente e Verso, que vai ser lançado amanhã, pelas 18h30m, na Livraria Férin, em Lisboa:

Bruno Nobre e Pedro Lind têm em comum o facto de pertencerem à mesma geração – a geração que tem hoje trinta e poucos anos – e de terem feiro um doutoramento em Física. E têm em comum o gosto pela troca de ideias e posições. Os dois apresentam-se, nas páginas deste livro, com atitudes opostas perante o divino: o primeiro, padre jesuíta, é evidentemente crente, ao passo que o segundo se declara convictamente ateu. A conversa entre eles anda à volta das relações entre ciência e religião, da realidade dos milagres e do lugar de Deus no mundo, da origem e destino do ser humano, dos valores e do sentido da vida, da fé e do seu proselitismo, do racionalismo e do relativismo. A forma é a epistolar. Os argumentos são esgrimidos pelos dois em prosa sábia, fluida e elegante. Ao contrário do que é costume nos debates entre nós, cada um escuta o outro com atenção e responde-lhe com honestidade. É um prazer, depois da agradável leitura, escrever um prefácio, na companhia inspiradora do Doutor João Lobo Antunes.

Nas suas primeiras cartas o Bruno e o Pedro interrogam-se sobre a compatibilidade entre ciência e religião. A respeito desta questão, o físico e teólogo Ian Barbour (com obras clássicas sobre o tema, que de resto o presente livro não se esquece de citar [1]) ensaiou uma tipologia que sistematiza as diversas posições. A primeira é a visão de incompatibilidade e conflito, defendida entre outros pelo físico Francis Crick, o descobridor da estrutura do ADN, e, mais modernamente, pelo biólogo Richard Dawkins, o polemista que apoiou a ideia dos autocarros britânicos com anúncios ateus. A segunda é a da compatibilidade entre ciência e religião por estas serem “magistérios distintos”. Esta é a tese defendida, entre outros, pelo teólogo protestante Karl Barth, e pelo biólogo Stephen Jay Gould: ciência e religião perseguem objectivos diferentes, usando meios diferentes, pelo que pouco terão a dizer uma à outra. A terceira é uma visão que, afirmando ainda a compatibilidade, vai mais longe, vendo na ciência e na religião uma certa margem de sobreposição: as duas podem, por isso, ganhar ao falar uma com a outra. Defendem uma posição desse tipo John Polkinghorne, que de professor de Física passou a padre anglicano vendo conexões entre a teoria do caos e a teologia natural, ou o físico Fritjof Capra, que descortina conexões entre a física moderna e religiões orientais. Por última, a quarta, e mais temerária, procura a integração ou conciliação completa das duas actividades humanas: neste caso a compatibilidade seria  total, assegurada pela convergência. Esta é a posição do naturalista  Edward O. Wilson, fundador da sociobiologia e defensor da ideia de “consiliência”, para quem a ciência acabará de certo modo por explicar a religião, ou, num plano bastante diverso, do paleontólogo e teólogo jesuíta Teilhard de Chardin, para quem o mundo é melhor descrito por um olhar sincrético. Onde se situam, neste quadro, os nossos interlocutores?

A virtude está no meio. Estão entre a segunda e a terceira, entre a independência e o diálogo. Os dois concordam que ciência e religião são independentes, não se podendo por isso confrontar como num jogo em que só um pode ganhar.. De facto, não surge neste livro um embate frontal entre ciência e religião. Tendo os dois autores formação e experiência científica, seria aliás difícil que algum deles permitisse que a ciência saísse ferida. A compatibilidade entre ciência e religião é aliás demonstrada pela existência de sacerdotes que fazem ciência. O Bruno não vê, na fé que professa e transmite, qualquer dificuldade em cultivar a física das partículas elementares, tal como o padre católico belga Georges Lemaître, um dos proponentes do modelo do Big Bang da origem do Universo, não considerava o seu exame do céu primordial uma procura de Deus. Foi ele que afirmou:

“O investigador cristão tem de dominar e aplicar com sagacidade a técnica apropriada para o seu problema. Os seus meios de investigação são os mesmos que os do seu colega não-crente... Num certo sentido, o investigador abstrai da sua fé na sua investigação. Ele faz isso não porque a sua fé lhe poderia causar dificuldades, mas sim porque ela não tem diretamente nada a ver com a sua actividade científica. Afinal, um cristão não age de forma diferente do que qualquer não-crente, quando se trata de  caminhar ou de correr." [2]

Está aqui bem expressa a ideia do “duplo magistério”. Esta separação de águas, possível dentro da mesma pessoa, pode ser remontada a Galileu, um homem de fé que não perdeu a fé diante do Tribunal da Inquisição, quando se viu no lugar de actor principal num drama que marcou a história das relações entre igreja e ciência, hoje já resolvido após o papa João Paulo II ter admitido um erro de juízo. Para Galileu, e como ele próprio escreveu numa carta à grã-duquesa Cristina de Lorena citando o cardeal Baronius, bibliotecário do Vaticano, “a intenção do Espírito Santo é  ensinar-nos como ir para o céu e não como o céu se move” [4]. Um outro cardeal italiano, este moderno, Gianfranco Ravasi, que preside à Congregação da Cultura, considera que esta frase, mais do que digna de um cientista, é digna de um teólogo. No seu livro Breve História da Alma, numa secção significativamente intitulada “Tinha razão Galileu, o teólogo”, escreve: “Tinha razão Galileu – que, neste caso, se revelava melhor teólogo do que os seus opositores teólogos”. [4]

Por outro lado, os dois autores deste livro abordam, na sua discussão, algumas questões sensíveis na zona de contacto entre ciência e religião, às quais respondem com a sua mundividência  individual.. Percebe-se que há, ou pode haver, algum interacção entre ciência e religião. Ravasi, depois de apontar a independência entre ciência e religião, observa que há elementos que a ciência e a religião partilham: “Como aconteceu também no debate sobre a evolução, a tentação do derrube das fronteiras é sempre forte, até porque é idêntico o objecto examinado pela ciência e pela teologia ou filosofia, quer dizer, o homem.”  Tem razão, Ravasi, o teólogo. Tanto a ciência como a religião são pertença do humano, constituindo-se como dimensões diferentes do mesmo ser. É tão humano querer conhecer o mundo como aspirar ao outro mundo. E só se pode compreender o homem quando se olha para tudo aquilo que ele faz. É o facto de ciência e religião terem por origem e destinatário o ser humano que permite que as duas coloquem por vezes questões semelhantes ou mesmo idênticas, embora lhes respondam de modos diferentes, dadas as diferenças não só dos seus objectivos mas também da sua metodologia.

O diálogo entre crentes e ateus vai, claro, muito além das relações entre ciência e religião. Tal acontece quando está em causa o modo diferente de olhar a vida por pessoas que receberam o dom, ou graça, de acreditar no transcendente, quer dizer, a fé, e por outras que não o receberam. O que é a fé? Santo Agostinho disse que “fé é acreditar naquilo que não se vê; a recompensa é ver aquilo em que se acredita”.  Há decerto um hiato, um salto, entre a crença e a não crença. Pode-se tê-la ou não tê-la. Pode-se ganhá-la ou perdê-la. Mas será que só esse dom ou graça pode dar sentido à vida? Será que os valores individuais e sociais, a ética, têm de radicar apenas na religião? É óbvio, e fica mais óbvio após ler uma carta do Pedro, que não. É possível uma ética que não entronque na ideia de Deus. Ninguém poderá dizer que, por exemplo, o físico Albert Einstein, que não acreditava em Deus (pelo menos no Deus pessoal do Antigo Testamento, acreditando antes numa religiosidade cósmica à moda de Espinosa), não tivesse um sentido da existência humana extremamente impregnado de ética. Mas foi ele que afirmou, numa linha seguida aqui pelo Pedro, que a ética era um assunto puramente humano:

“Eu não acredito na imortalidade do indivíduo, e considero a ética como uma questão exclusivamente humana sem qualquer autoridade sobrehumana por trás." [5]

Foi Einstein que o disse, mas o mesmo poderia ter sido dito por alguém sem formação científica. Tal posição nada tem a ver com a ciência de Einstein.

O diálogo entre crentes e não crentes tem sido cultivado nos últimos tempos pela Igreja Católica. O papa emérito Bento XVI ainda só era cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, quando, num diálogo público no ano 2000, em Roma, com o filósofo ateu Paolo Flores d’Arcais sobre se Existe Deus?, declarou que a “fé não deve impor-se com o poder – isso é um grande pecado e um grande erro – mas propor-se à evidência da razão e do coração”, ao que o seu interlocutor respondeu que ”é possível viver sem fé: a fé não é necessária para dar sentido à própria existência, pode conferir-se sentido à existência de muitas formas” [6].  Mais modernamente, o cardeal Ravasi tem organizado o chamado Pátio dos Gentios, um lugar de discussão com toda a gente fora do templo, numa alusão ao famoso sítio no exterior do templo de Salomão, em Jerusalém, destinado aos não judeus (num episódio dos Actos dos Apóstolos, S. Paulo é acusado de ter feito entrar um grego no templo). Esses encontros disseminaram-se, a partir de Itália, no mundo, tendo chegado a Portugal. Os livros que retratam esses debates [7] e a presente obra mostram como podem ser enriquecedores os diálogos desse tipo. Revelam-se afinidades que não eram à partida evidentes. Tanto um crente como um não crente podem acreditar (uma palavra a que nenhum deles nem quer nem pode renunciar!) que o mundo de amanhã pode ser melhor, pelo menos um bocadinho melhor. Esta é uma crença que conduz à acção, que preside à acção. Podemos, de facto, tornar o mundo de manhã melhor. Se esse esforço se chama redenção, a redenção é uma vontade comum de pessoas que pareciam estar em campos diametralmente opostos. E a acção pode ser comum.

NOTAS:

[1] Ian Barbour, Religion and Science: Historical and Contemporary Issues, New York HarperCollins, 1997, e  When Science Meets Religion, Enemies, strangers, or partners, ibid., 2000. Ver também Peter Harrison (ed.), The Cambridge Companion to Science and Religion, Cambridge: Cambridge University Press, Cambridge, 2010
[2] Odon Godart and Michał Heller, Cosmology of Lemaitre, Tucson: Pachart Publishing House, 1985.
[3] Carlos  Fiolhais, “Em busca de sentido: ciência e religião”, in Secretariado Diocesano de Evagelização e Catequese, Em Busca de um sentido: Ateísmo e crença na construção da pessoa que ama, Coimbra:  Gráfica de Coimbra 2, 2012
[4] Gianfranco Ravasi, Breve História da Alma, Lisboa: D. Quixote, 2011.
[5] Alice Calaprice (ed.), The Ultimate quotable Einstein, Princeton: Princeton University Press, 2011, with a Foreword by Freeman Dyson.
[6] Joseph Ratzinger e Paolo Flores d’Arcais: Existe Deuis? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo, Lisboa: Pedra Angular, 2009.
[7] Gianfranco Ravasi et al., O Átrio dos Gentios. Crentes e não-crentes perante o mundo e hoje, Lisboa: Edições Paulinas. 2012., e Lorenzo Fazzini, Diálogos no Pátio dos Gentios. Onde os Laicos e os Católicos se encontram, Braga: Diário do Minho, 2012.