Facts about the FCT/ESF science evaluation: the story so far

terça-feira, 30 de Abril de 2013

UMA VISITA POLITICAMENTE INCORRECTA AO CÉREBRO HUMANO

Recensão publicada primeiramente na imprensa regional.

«Será a mente humana capaz de descobrir qualquer coisa que a transcenda» questiona o eminente neurocientista Alexandre Castro Caldas na introdução do seu mais recente livro “Uma visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano”.
Publicado em Fevereiro de 2013 pela editora Guerra & Paz, este livro apresenta e desvenda as novidades do conhecimento que as neurociências têm alcançado sobre esse órgão, o cérebro, que o leitor está a usar para entender o que está a ler agora mesmo.

«Quem somos então, o que somos nós, o que é que o cérebro e as suas funções?» pergunta-nos Alexandre Castro Caldas, para logo responder que as “páginas deste livro não pretendem ser resposta, mas pretendem abrir portas para a reflexão”.

No panorama actual da literatura de divulgação científica portuguesa em geral, e das neurociências em particular, este livro destaca-se pela sua actualidade científica, pela sua simplicidade rigorosa e pela sua utilidade para o leitor que com ele se compreende melhor.

Os diversos casos clínicos que ajudam a entender melhor como o nosso cérebro funciona, são apresentados despedidos de jargões técnicos, para que qualquer um de nós os entenda e logo entenda melhor como o seu próprio cérebro funciona. As notas e as referências bibliografias são dispensadas nesta visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano, o que torna fluida a leitura deste livro. 


A propósito do autor, diga-se que Alexandre Castro Caldas começou a sua vastíssima e relevante carreira de investigação científica de excelência com António Damásio, em 1970, e que ficou a dirigir o Laboratório de Estudos de Linguagem, quando, em 1975, Damásio saiu de Portugal.

Mas voltemos ao livro. Está estruturado em dez capítulos que o leitor pode ler pela ordem que entender, eventualmente movido pela sua maior curiosidade, ou interesse por um dado aspecto do nosso cérebro.
No 1.º capítulo “reflecte-se sobre a forma como acreditamos nas coisas”.
No 2.º discute-se como a consciência humana pode ter começado “num sonho”.
Conhece-te a ti mesmo” é o título do 3.º capítulo, no qual de descreve “como o cérebro interage com o sensível”.
No 4.º, intitulado “quem fui eu, quem sou eu”, Castro Caldas discute a questão da identidade.
“Quem és tu? Que casa é esta”, intitula o 5º capítulo que apresenta casos em que o cérebro processa mal a informação sobre o que lhe está próximo, como sejam as pessoas da sua família e os locais que lhe são habituais.
O 6.º capítulo é dedicado a aspectos marcantes da personalidade: “quando se faz aquilo que se não quer fazer” e sobre “o livre-arbítrio”, levando-nos a reflectir sobre a questão da vontade própria.
Abordando aspectos anatómicos, mas funcionais, o 7.º capítulo apresenta ao leitor a realidade da “Dominância Cerebral” e discute-se sobre qual manda, se o hemisfério esquerdo se o direito e quando.
O género sexual e a sua influência sobre o cérebro, um “tema que tanto estimula a imaginação”, é tratado no 8.º capítulo.
Numa época em que vivemos sob a influência de uma nova e globalmente esmagadora tecnologia de informação, Castro Caldas descreve no 9.º capítulo como “Manter o cérebro em forma” numa aproximação aos desafios modernos da “interacção entre o natural e o artificial”.
Por fim, o 10.º capítulo, o qual, como os outros, pode ser lido em primeiro lugar: “Experiências de quase-morte” é o seu título e nele se desmistificam as fantasias, as ilusões geradas pelo cérebro sobre a memória de experiências traumáticas na “fronteira abrupta” entre a vida e a morte.

A leitura deste livro é uma experiência rica em que o autor nos ajuda a compreender melhor o mundo em que vivemos ao explicar à luz do conhecimento actual como é que o cérebro compreende e funciona no mundo em que vive.

António Piedade

Saber do coração

Pela importância que tem nas sociedades, a educação formal sempre polarizou (e há-de continuar a polarizar) perspectivas pedagógicas diversas. Em finais do século XIX estruturou-se um conflito, mais ideológico do que científico e prático, entre duas perspectivas muito latas (a tradicional e a nova), que ainda não conseguimos superar. Só assim se pode entender que continuemos a discutir se o mais importante é que os alunos memorizem ou que compreendam, de resto, um dos maiores pontos de conflito entre essas duas perspectivas.

Trata-se de uma antinomia artificial, sem qualquer sentido, pois as capacidades de memorização e de compreensão não se excluem: articulam-se e complementam-se, entre si e com outras capacidades de nível cognitivo mais avançado, como sejam a aplicação, a análise ou a criatividade.

Recentemente, os jornais portugueses, debruçando-se sobre as alterações curriculares em curso, voltaram a dar expressão a essa antinomia, sinal de que ela ainda tilinta nas nossas convicções mais profundas e, nessa medida, sentimo-nos impelidos a ler as notícias.

Numa "Carta à directora" (do Público), uma professora de piano, escreveu um texto cujo título é "Sim, à memorização" que, pela sua ponderação e alusão às belas palavras de Steiner, que me são particularmente caras nesta matéria, aqui tomo a liberdade de reproduzir.
A "memorização está de volta como um dos motores da aprendizagem", leio no PÚBLICO. Mas esta tem de ultrapassar a disciplina da Matemática.
Reconheceu-se, "mais vale tarde que nunca" - esperemos que para ficar, que a memorização faz parte da aprendizagem.
A repetição tem de voltar a ser uma prática na aprendizagem. E os professores devem explicar aos alunos a importância da memorização. Enquanto professora de piano é isso que "professo" em todas as aulas.
A libertação que vem de saber de cor, saber do coração, uma passagem, uma obra musical. É, portanto, um tema que me é caro.
George Steiner, professor e pensador incontornável do nosso tempo, escreve, em qualquer dos seus livros, sobre a importância de memorizar: "Mas a memória - a "Mãe das Musas" - é precisamente o dom humano que possibilita a aprendizagem. (...) Aquilo que sabemos de cor amadurecerá e desenvolver-se-á dentro de nós. O texto memorizado interage com a nossa existência temporal, modificando as nossas experiências e sendo dialecticamente modificado por elas. Quanto mais vigoroso for o músculo da memória, melhor [sic] protegido estará o nosso ser integral. (...) Por tudo isto, a rejeição da memória no actual sistema escolar é de uma flagrante estupidez" (As Lições dos Mestres, Gradiva, 2003).
Mas sem repetição, não há memorização. ("Mas é chato", dizem.) Escreve Erwin Schorödinger, o Nobel da Física em 1933: "A perda gradual da consciência reveste-se de primordial importância para o conjunto do processo de aquisição de prática através da repetição. (...) Uma simples experiência que nunca mais se repita torna-se biologicamente irrelevante."
Para aprender seja o que for, é necessária a repetição, várias vezes, em numerosos casos, periodicamente, requerendo sempre a mesma resposta, para que o organismo se mantenha firme (O Que É a Vida?, Fragmentos). É preciso ensinar toda a relevância da memorização, do saber de cor. E para terminar, novamente Steiner: "Tudo o que não aprendemos e não sabemos de cor - adentro dos limites das nossas faculdades sempre imprecisas - é aquilo de que verdadeiramente não gostámos."
Céu Mota, Santa Maria da Feira
PS. Espero que das palavras que acima escrevi e das palavras desta professora o leitor não deduza, como acontece frequentemente, que defendemos que os alunos devem "decorar", "só decorar" e "nada mais do que decorar". Não defendemos tal, mas defendemos que é fundamental desenvolver essa capacidade preciosa que se designa por memorização.

segunda-feira, 29 de Abril de 2013

Lançamento do livro dos Cientistas de Pé (menos as partes chatas)

A sessão de lançamento do livro dos Cientistas de Pé "Toda a Ciência (Menos as Partes Chatas)" é esta terça-feira na FNAC Colombo.

"As pessoas estão dispostas a trocar a privacidade pela conveniência"

Recupero parte de uma entrevista feita por Joana Amaral Cardoso e publicada há uns anos (talvez uma década... lamentavelmente não identifiquei o recorte de jornal) na Pública (a revista do Público) a Howard Rheingolg, um dos grandes pensadores do impacto das tecnologias digitais no funcionamento das sociedades e nas decisões pessoais.

Poderão estas inovações tecnológicas, estes programas, tornar-se movimentos sociais em vez de produtos comerciais?
Claro! Tal como escrevi em Smatr Mobs, as próximas verdadeiras inovações não estão tanto no "hardware" ou no "software", mas serão nas práticas sociais (...)  Se pensarmos nas coisa que a revolução Gutenberg capacitou as pessoas para fazer - derrubar monarquias e criar democracias constitucionais, para transformar a ciência de uma coisa arriscada que só um punhado de génios fazia num empreendimento colectivo -, quão poderosas serão as mudanças sociais que poderão resultar do uso de tecnologias muito mais poderosas que a imprensa?

Para o bem e para o mal...
As pessoas usam a tecnologia para fazer coisas boas e más, construtivas e destrutivas, por muitos, muito anos. A imprensa permitiu às pessoas imprimir bíblias e o Mein Kampf (...) O mesmo é válido para o telefone, a rádio, a televisão e para a internet. A minha crença é o fundamento do racionalismo esclarecido de que é melhor saber mais do que não saber. Se mais pessoas tiverem mais conhecimento, é possível para elas pelo menos tentar tornar a sua vida melhor, apesar de isso também permitir que as pessoas  façam coisas mais destrutivas ao mesmo tempo. Penso que é muito importante que não percamos de vista o potencial destrutivos das tecnologias (...).

Outra questão que a partilha de dados na internet levanta é a da privacidade. Milhões de pessoas despejam diariamente dados pessoais na "web", o que torna, por um  lado, o sonho dos "marketeers" e, por outro, um problema de segurança. isto é inevitável ou pode prevenir-se?
Penso que é inevitável se se tem tecnologias que são tão poderosas, tão sensíveis que sejam alvo de abuso pelas pessoas no poder. A protecção contra isso tem de ser política. E também tem a ver com a literacia. A maior parte das pessoas não sabe que quando entra na internet, as suas acções estão a ser seguidas. A maior parte das pessoas está disposta a trocar a privacidade pela conveniência.

Qual é o maior perigo?
No último capítulo do Smart Mobs falo do "Panóptico sempre ligado", no qual o Estado terá imenso poder simplesmente porque sabe. Vi no noticiário que o governo britânico vai monitorizar toso os veículos. Eles t~em tantas câmaras e eles conseguem reconhecer as matrículas e cruzá-las com bases de dados que agora são capazes de seguir, literalmente, todos os automóveis e saber onde todos estão a diferentes horas e podem manter esses registo durante anos. É importante que, se as democracias vão continuar a permitir ao povo ter as suas liberdades, haja limites legais na forma como o Estado pode usar essa informação sobre as pessoas (...) A ligação eléctrica do mundo não está completa, mas há câmaras em todas as esquinas. Ainda. Essas câmaras não são todas digitais e não estão todas ligadas entre si. Ainda. O "software" de reconhecimento facial, que permite escolher uma cara num vídeo de uma multidão e identificá-la, não é completamente eficaz. Ainda. Por isso, acho que temos mesmo de pensar, agora, em leis, em restrições. os governos terão de ter mandatos, motivos para poderem espiar indivíduos. está na altura de os cidadãos acordarem e perceberem que se confiam nos seus governos para proteger as suas liberdades, não faz sentido que o façam retirando-lhes as suas liberdades.

As mudanças tecnológicas e (des)emprego


O desemprego é hoje uns dos maiores flagelos sociais. Taxas de desemprego superiores a 50% entre camadas mais jovens são hoje comuns em muitos países. Podemos culpar os partidos  – que certamente têm culpas - ou a globalização, mas existe um outro culpado silencioso e não menos importante: a tecnologia. Estamos a atravessar mudanças tecnológicas de impacto e abrangência talvez superiores a todas as revoluções anteriores.

Há que admitir que as máquinas retiraram, e vão continuar a retirar, muitas pessoas do trabalho. Desde a robotização das fábricas até tarefas rotineiras como conduzir um carro, são ou serão em breve realizadas por máquinas.

As novas tecnologias estão a destruir imensos postos de trabalho. Cada novo programa de computador está basicamente a realizar alguma tarefa que antes era feita por uma pessoa. Mas o computador normalmente fá-lo mais rápido, por menos dinheiro e sem quaisquer custos extra para as empresas. Isso não são boas notícias para os desempregados.

Para alguns a resposta para este problema consiste em aumentar a formação e o nível educacional. Por exemplo, o trabalhador  da cobrança de portagens poderia ser treinado para programar os equipamentos da Via Verde. Mas existem aqui dois problemas. Primeiro as escolas não estão a preparar em número suficiente os alunos com as competências adequadas para este tipo de novas tarefas quantitativas em áreas de engenharia e programação. Em segundo lugar, o saldo é raramente compensatório: o número de postos de trabalho perdidos é maior daqueles que são ganhos.

A criação de emprego tornou-se o karma que orienta as decisões políticas e algumas opções de investimentos públicos. Independentemente da eficácia destes investimentos, a pergunta que temos de fazer é: será o desemprego realmente um problema? Não nos teremos de adaptar a uma nova realidade com  taxas de desemprego persistentemente elevadas? Não estaremos a perseguir um objectivo impossível?

Tal como na revolução industrial, na era digital a tecnologia é usada para aumentar a eficiência, despedir  mais gente e aumentar os lucros das empresas. Isso é ruinoso para trabalhadores e sindicatos, mas será realmente mau para as pessoas? A questão de fundo deveria ser reformulada "podemos organizar uma sociedade sem usar termos como emprego, carreira e empregabilidade?"

É assumido que os salários, provenientes dos empregos, são a única forma de trocar trabalho por dinheiro. Mas esta associação é no mínimo redutora. O emprego deve estar associado ao aumento da produtividade e existem muitas outras formas de distribuir os ganhos de produtividade por todos. A associação trabalho–emprego é um conceito relativamente recente (algumas centenas de anos) e originária de uma realidade com escassez de produtos. Porém o problema hoje não é o ter produtos a menos mas o da falta de meios para tornar estes produtos disponíveis para todos - é um facto que a desigualdade da distribuição da riqueza tem-se vindo a agravar consistentemente.

O que falta é uma nova forma de distribuir “adequadamente” os ganhos gerados pela tecnologia. Existem várias propostas, como a de Jaron Lanier que sugeriu um modelo alternativo baseado num mercado de partilha de bens digitais. É que, ao contrário da Era Industrial, a produção digital pode ser feita a partir de casa de forma independente e até mesmo em formato peer-to-peer, sem passar por empregos em grandes empresas. Jogos, livros, código software podem ser criados, partilhados e distribuídos sem necessidade de intervenção de dinheiro.

Se este modelo parece ainda demasiado utópico o tempo o dirá, mas certamente precisamos ver além do umbigo e perceber que a desaceleração económica e as alterações tecnológicas irão destruir um número crescente de empregos e acelerar a criação de um novo padrão de distribuição de riqueza. Nunca devemos porém esquecer que o que a tecnologia destroi a tecnologia também cria. Uma reflexão sobre novos mecanismos de distribuição e troca de valor numa realidade digital será muito bem-vinda. Não podemos usar modelos de organização do trabalho do século XIX para uma sociedade do século XXI.

domingo, 28 de Abril de 2013

... porque os velhos não querem morrer.

José Cunha Rodrigues, ex-Procurador-Geral da República e ex-Juiz do Tribunal de Justiça da União Europeia, foi entrevistado, a vinte deste mês, por António José Teixeira no programa A Propósito da SIC.

Nessa entrevista, num determinado momento, para explicar melhor o "pensamento societal" que tomou conta do pensamento colectivo, contou um episódio singelo de que tinha tido conhecimento: uma professora pediu aos seus meninos para dizerem o que, no seu entender, justifica a crise de que toda a gente fala.

Um dos meninos respondeu: "porque os velhos não querem morrer".

O menino, na sua inocência, deu tal resposta como poderia ter dado outra resposta qualquer que pairasse no ar, mas, insinuando-se esta de modo forte, ele não podia deixar de a apreender; depurou-a dos artifícios de que os adultos se socorrem para ficarem sempre bem vistos e verbalizou-a, certamente, num sorriso.

Dizem os psicólogos sociais que uma boa forma de aferir estereótipos é inquirir crianças porque, sem terem aprimorado a filtragem da desejabilidade social, captam-nos e reproduzem-nos na sua forma mais genuína.

Devem, por isso, as suas respostas fazer-nos pensar naquilo que, como adultos, pensamos.

What Do Scientific Studies Show?


http://opinionator.blogs.nytimes.com/2013/04/25/what-do-scientific-studies-show/

John Ioannidis, in a series of highly regarded analyses, has shown that, in published medical research, 80 percent of non-randomized studies (by far the most common) are later found to be wrong.  Even 25 percent of randomized studies and 15 percent of large randomized studies — the best of the best — turn out to be inadequate.

(via Instapaper)

sábado, 27 de Abril de 2013

CONVERSAS COM OS REIS DE PORTUGAL (HISTÓRIAS DA TERRA, DA VIDA E DOS HOMENS)

Texto introdutório retirado do livro de Galopim de Carvalho, Conversas com os reis de Portugal - Histórias da terra, da vida e dos homens, a editar pela Âncora Editora, com prefácios do Prof. Carlos Fiolhais e do Dr. Manuel Branco.
Imagem retirada de nunopeb.wordprees.com
Mais de quatro dezenas de anos de convivência muito próxima e assídua com os professores das nossas escolas básicas e secundárias, mostraram-me que, salvo algumas honrosas excepções, os que ensinam nas áreas das “Ciências” sabem muito pouco da nossa História e que os das áreas das “Letras” sabem igualmente muito pouco ou quase nada de Geologia.

Esta constatação no que respeita o binómio “Ciências” versus “Letras” está, aliás, dentro do panorama nacional da parte da população que teve oportunidade de estudar.

E só me refiro a esta parte dos portugueses porque a restante, infelizmente demasiado numerosa, não beneficiou dessas oportunidades e revela um desconhecimento confrangedor e preocupante em quaisquer destas duas áreas.

Mas sabe tudo ou quase tudo sobre o mundo do “pontapé na bola”. Este tema do “desporto” tem público assegurado e vende bem. O que não falta são jornais e tempos de antena na rádio e na televisão a manter, inteligentemente, esta alienação.

Incluindo num vasto domínio habitualmente referido por humanidades, a economia, gestão e finanças, a sociologia e as ciências políticas, o direito, a história, as artes plásticas, as do espectáculo e das letras, verifica-se que, neste nosso panorama e salvo as sempre honrosas excepções, os portugueses que desenvolveram a sua preparação escolar, incluindo a de nível superior, numa ou mais vertentes deste importante domínio, não se interessam e sabem muito pouco ou nada do outro grande domínio do conhecimento que abarca as ciências exactas e naturais e as tecnologias.

A vida profissional permitiu-me, ao longo de décadas, conviver, muitas vezes e de muito perto, com as mais altas figuras nacionais, dos chefes de estado aos responsáveis dos governos central e autárquicos, com parlamentares e figuras gradas dos partidos políticos, com os mais prestigiados jornalistas, politólogos e outros comentadores da rádio, da televisão e dos jornais, na grande maioria gente ilustre do domínio das humanidades, e pude constatar esta realidade.

Na situação contrária, verifica-se que a cultura humanística dos profissionais das ciências e tecnologias, meus pares no mundo do trabalho, ainda deixa muito a desejar mas é maior o número daqueles que olham com interesse a literatura, a música, as artes plásticas e a história. São muitos os homens e mulheres da medicina, da física e química, da biologia e geologia e das engenharias, com actividade reconhecida e prestigiada nestas vertentes.

Esta bipolaridade vem de longe. Logo na adolescência, rapazes e raparigas aspirantes ao ensino universitário definiam e definem as suas vocações, escolhendo logo aí, sem qualquer fundamento válido, “ciências” ou “letras”, como uma das duas áreas mais procuradas para prosseguimento dos seus estudos. Hoje, não, mas no meu tempo de liceu, “ciências” era, no geral, uma opção de rapazes. Para as meninas, diziam muitos pais, o mais apropriado eram as “letras”.
- Eu vou para ciências. Gosto de matemática e de físico-química. – Afirmava um dos meus colegas de liceu.
- Não me fales nos Maias, no Camilo, no Garrett, nem nos outros gajos que somos obrigados a ler. – Insistia ele.
- Pois, olha, eu, é o que mais gosto. – Contrapunha uma colega, de outra turma. 
- A Matemática, nem vê-la, a Química vá que não vá, mas a Física é uma seca. Já escolhi. Vou para letras. 

Era assim a conversa ente nós, sem nos darmos conta de que a escolha que julgávamos corresponder a uma vocação nata era, no geral, fruto do sistema e, não raras vezes, o resultado da competência ou incompetência dos respectivos professores. O que a realidade mostra é que nas boas escolas, com bons professores, os melhores alunos são bons em todas as disciplinas.

E aí, sim, a escolha que fazem é consciente.

Conversas com os reis de Portugal - Histórias da terra, da vida e dos homens é um projecto concebido, em especial, a pensar nos professores de Geologia, a quem só faz bem recordar a História de Portugal que já esqueceram, e nos professores de História, que viram passar ao lado a longa caminhada do planeta que nos deu vida e para os quais a História, praticamente, só começa com a aparição da escrita.

A estes e a muitos outros cidadãos, professores ou não, é preciso lembrar que a nossa verdadeira história começou há uma eternidade avaliada em cerca de 13.700 milhões de anos com o nascimento do Universo.

Por um lado, este projecto afirma-se como uma proposta de divulgação especialmente focada em domínios das Ciências da Terra e do Ambiente, de forma avulsa e, tanto quanto possível, agradável. Por outro lado, evoca as personagens e os episódios que ditaram a nossa História e lembra o que de mais importante foi acontecendo além-fronteiras.

O texto, ficcionado na medida do necessário, desenvolve-se em estilo de diálogo informal entre o narrador e as aparições dos nossos monarcas, em situações e locais escolhidos de acordo com os temas a desenvolver. Na liberdade que a ficção consente, os personagens trazidos a esta prosa são, por assim dizer, imagens virtuais dos reis e rainhas que traçaram os nossos destinos ao longo de quase nove séculos. Alguns deles carregam consigo um fardo de defeitos, outros, uma auréola de virtudes e outros, ainda, ambos os predicados ao mesmo tempo. Alguns viveram de costas viradas para o conhecimento científico como, aliás, é apanágio de muitos dos nossos políticos do presente. Outros, pelo contrário, revelaram grande abertura para esse mesmo conhecimento.

Nesta ficção, as ditas aparições, como num sonho, vêem, ouvem, pensam e falam como se fossem gente de verdade. Sendo imateriais, não têm volume nem massa e são indiferentes à gravidade, ao calor e ao frio. Libertos das necessidades fisiológicas que tiveram em vida, têm o dom de aparecer quando e onde querem. São ubíquos, intemporais e o seu mundo é a totalidade do Universo.

Na sua condição de alma ou fantasma do que foram em vida, acompanharam a história nacional e universal que se desenrolou para cá do seu tempo, sem limites de fronteiras e, curiosos do passado, pesquisaram os tempos que os antecederam. Sem que ninguém dê por eles, entram nas livrarias e nas bibliotecas de todo o mundo, de dia ou de noite, sem precisar de chaves nem de iluminação, e frequentam as aulas dos mestres que melhor satisfazem a sua ilimitada ânsia de saber, quaisquer que sejam as línguas que eles falem. Só não prevêem o futuro.

Libertos da vida terrena e dos interesses e compromissos inerentes a essa condição, tornaram-se os mais sinceros e rigorosos críticos do que foram e fizeram na sua passagem pela Terra. Têm agora, todos eles, uma curiosidade especial por temas de ciência, escolhem com quem lhes interesse conversar e só essas pessoas os vêem e ouvem.

O narrador é um jovem geólogo, a concluir uma tese de doutoramento, alentejano pelo nascimento e pelo coração. Aprendeu a amar e defender os valores da natureza nos campos do Alentejo e foi aí, também, com os seus conterrâneos, que começou a ser gente e formou as bases de uma consciência social e política com a qual se assumiu como cidadão. Tem, em casa, montes de livros desta e de outras especialidades, legadas por homens e mulheres que, “tijolo a tijolo”, ajudaram a erguer o grande edifício do conhecimento que ilumina os nossos dias.

Nesta ficção, o narrador conversa com todos os monarcas, a começar por D. Afonso Henriques, de Borgonha, e a terminar em D. Manuel II, de Bragança, e vê-os nas vestes e nas poses mais divulgadas nos retratos e esculturas que deles nos ficaram. Curioso da História, aproveita estes encontros para relembrar o que lhe foi ensinado na escola e aprender muito mais. Como cidadão interventor na sociedade em que vive, não perde, nestas conversas, a oportunidade de comentar os acontecimentos ou temas que preocupam, sobremaneira, os portugueses do presente.

Os temas científicos, imaginados nas preocupações de cada um dos monarcas, procuram, sempre que possível, ter algo relacionado com as suas vidas ou com a época e os lugares em que viveram. Nas conversas que travam com o narrador aludem aos principais acontecimentos ocorridos no seu tempo, analisam algumas atitudes e decisões que tomaram, evocam as personalidades que marcaram as suas vidas e também tecem as considerações que entendem oportunas acerca da actualidade social, política e cultural deste país que continuam a considerar como seu.
Galopim de Carvalho

Uma notícia má e boa

Aqui já ao lado, em Espanha, a (re)atribuição do estatuto de "componente fundamental" do currículo escolar às Línguas e Cultura Clássica ocupa o centro do debate político.

É uma notícia má e boa.

É uma notícia má porque está em curso uma reforma educativa que lhes retira protaganismo. Sendo aprovada, tal como se apresenta, em Maio próximo, a Ley Orgánica para la Mejora de la Calidad Educativa (LOMCE), o Latin e o Grego passam de disciplinas obrigatórias a optativas, entre muitas outras, sendo que as escolas não têm necessariamente de as oferecer.

É uma notícia boa porque associações disciplinares, academias e investigadores têm feito tudo menos calar-se e, assim, conseguiram envolver grupos políticos (não interessa a orientação partidária) que mais do que se dizerem sensíveis ao assunto, têm-se movimentado para que, neste particular, não sejam feitas mudanças no currículo.

Encontramos em Espanha, neste momento classicistas e políticos a falar a uma só vós contra a maré de pensamento e contra o tempo...

A Sociedad Española de Estudios Clásicos (SEEC) não tem parado e entre as iniciativas da sua responsabilidade conta-se uma carta ao chefe do governo, onde se classifica a aprovação da Lei, tal se encontra redigida, uma «desgracia cultural» pois seria "una pérdida de la capacidad de reflexión lingüística de los alumnos y de toda su percepción y representación verbal, lo que implica una notable merma de sus posibilidades de adquirir conocimientos".

Na mesma linha, o político Eugenio Nasarre, baseado no que dizem os especialistas, defende abertamente o Latim como disciplina obrigatória:"ayuda al conocimiento de la lengua castellana, aporta un bagaje cultural enorme, desarrolla la capacidad para un razonamiento claro y bien estructurado – porque obliga a un procedimiento deductivo muy importante para el alumno – y mejora la redacción y expresión." 

O esforço conjunto parece estar a dar frutos pois a Comisión Permanente del Consejo de Estado emitiu, no passado dia 18, uma recomendação onde consta o seguinte:
1) Se recomienda que la Cultura Clásica sea de obligada oferta (p. 96).
2) Las específicas de 4.º de ESO (incluido el latín, por tanto), deberían ser de obligada oferta (p. 99). 
4) Las específicas del Bachillerato deberían ser de obligada oferta (p. 109). Eso asegura la oferta obligada del griego.

Nessa recomendação salienta-se, ainda, que: El mundo clásico reúne los elementos básicos de la identidad europea. Sin latín y griego, pensamiento griego e historia romana no se entiende nuestra posición en el mundo...

Se demos atenção a este assunto é porque pensamos que em Portugal, onde as Línguas e a Cultura Clássicas têm uma presença optativa e menos do que residual no currículo das escolas públicas, requer-se, tal como em Espanha, uma sensibilização da sociedade e dos políticos no sentido de os levar a perceberem o valor deste conhecimento. É um passo que tem de ser dado com urgência e muita determinação para que tal conhecimento volte a ser proporcionado a todos os alunos.
Maria Helena Damião e Alexandra Azevedo

Texto redigido a partir da informação recolhida principalmente aqui e aqui.

Um mero telemóvel não é um mero telemóvel

Em finais de 2009, Tiago Videira, à altura professor de Música e estudante de PhD em Digital Media, enviou-nos um pequeno texto como "repto, provocação, ou ponto de partida para um debate neste blogue". Agradecemo-lhe a amabilidade, guardámos o seu texto algures e lamentavelmente perdemo-lo de vista. Encontrámo-lo agora. Pedindo desculpas pelo lapso, aqui o disponibilizamos, pois em nada a reflexão que ele veicula perdeu actualidade; pelo contrário, está na "ordem do dia" em diversos sectores da educação formal. Esperamos a contribuição dos nossos leitores para a ampliação desta reflexão.
Na sociedade actual é impossível escamotear a nova realidade que se vive: os meios digitais transportáveis já são um prolongamento da identidade dos jovens. Um mero telemóvel não é um mero telemóvel. Não é um acessório dispensável. Não.
É um instrumento que prolonga os sentidos, as disponibilidades e a mente de quem o controla. É parte do jovem, é um orgão artificial, mas tão concreto como os outros. É indispensável para comunicar e partilhar.
Será uma remediação de boca, de olhos, de ouvidos. E nele se contém memórias e músicas e fotos.
É também uma remediação de memória cerebral. E faz parte do indivíduo, da sua identidade, de quem ele é.
Pensar hoje num jovem sem o seu telemóvel é pensar numa criatura que se vê e acha despida, despojada, violentada numa das suas ferramentas mais profundas. É como pensar num leitor sem óculos, num pianista sem piano, num cozinheiro sem faca. É algo que não sendo vital, é absolutamente indispensável para o normal funcionamento dos processos funcionais, cognitivos e emotivos do quotidiano.
Têm noção que hoje em dia os jovens tocam à campainha com o polegar? Só por si isto demonstra a importância que tal tecnologia leva nos processos até fisiobiológicos e motores dos infantes.
Por isso, a escola, a sala de aula onde os alunos deverão permanecer atentos e imóveis e destelemobilizados é um atentado à sua identidade. Se todas as razões e mais algumas haveria a levantar contra o actual sistema de ensino (claustrofóbico, sendentário), mais uma se levanta: auto-destruidor da identidade, amputador dos membros digitais dos jovens.
Na África subsariana neste momento os telemóveis disseminaram-se epidemicamente. São um meio, provavelmente o único, de muitas crianças, de poderem comunicar e aprender. São uma tecnologia inclusiva delas na sociedade e absolutamente fulcral ao seu desenvolvimento. E nesse ponto temos de convergir.
Não é possível pensar no ensino hoje em dia separado das tecnologias digitais. Telemóveis, iPhones, Mp4, não são ameaças à atenção dos alunos. São ferramentas digitais altamente potentes que eles manuseiam, compreendem e com os quais interagem como ninguém. E deviam ser incluídas no ensino e não hostilizadas.
Há a necessidade urgente e premente de criar conteúdos interactivos, de criar ligações e estímulos, de fazer a ponte e canalizar os conteúdos também para as plataformas móveis.
Potenciar o seu uso de uma forma pró-activa e reactiva ao conhecimento e ao saber. E nunca, mas nunca comprar uma guerra, ou estaremos condenados ao fracasso.
Temos de nos adaptar aos jovens e à sua realidade se os queremos atingir e ter sucesso. Não são eles quem se tem de adaptar a modelos arcaicos e contra-identitários.
Muito obrigado,
Tiago Videira 

Primeiro aniversário do Museu Quartzo

Informação recebida pelo De Rerum Natura.

sexta-feira, 26 de Abril de 2013

Memória, doce e vibrante

É uma obra muito interessante este livro de Memórias da Eugénio Lisboa (Acta Est Fabula, Memórias I - Lourenço Marques, 1930-1947. Guimarães, Opera Omnia, 2012), dedicado tão sentidamente à cidade de Lourenço Marques que chega a agradecer-lhe o «ter existido para eu ter podido nascer nela», como diz no fim dos iniciais “Agradecimentos”.

Chegado a uma certa idade, como diz Eugénio Lisboa, sentiu uma vontade irresistível de escrever as suas memórias mais recuadas, para seu gosto pessoal, pelo puro prazer de o fazer e sem outros intuitos que este seu deleite, considerando, por isso, que poucos ou nenhuns se interessarão por este trabalho.

Penso que se engana.

Primeiro, porque é difícil ceder às memórias quando elas, com o tempo, se vão decantando, ganhando tanta nitidez que têm que se expressar de alguma maneira, de tal modo sentimos que, nelas, está mais do que a nossa vida, somos nós mesmo que pelas memórias se redime de qualquer coisa que toda a vida nos apelou, mas que acaba quase sempre por nos escapar. E, portanto, o sentimento que o levou a revivê-las será compreendido por todos os que passaram uma certa etapa da vida, e isso é já uma boa razão.

E em segundo lugar, porque elas acabam frequentemente por ser muito mais do que simples revivências pessoais, como é manifestamente o caso. Todos terão as suas, importantes e de muito interesse para a vida de cada um, mas algumas adquirem valor maior, ou pela riqueza própria ou pelo modo como são contadas. De facto, há muitos livros de memórias, mas mais do que o valor delas para o próprio, interessa a qualidade que alcancem. Felizes os que são capazes de as traduzir em formas de beleza ou de interesse suficiente para proveito próprio e alheio.

É certo que não se sente uma grande preocupação formal em Eugénio Lisboa, mas, mesmo que aqui e ali sejam algo coloquiais (em expressões a propósito, diga-se), sempre prevalece a qualidade e a riqueza a que nos habituou, o seu estilo rico, dinâmico, enredado e cativante. E que acaba por casar muito bem com o que nos quer contar, ganhando assim uma segunda razão a publicação delas.

Imagem retirada daqui
É que as suas memórias são vivas, sentidas, luminosas, quentes, por um lado, e, por outro, cheias de referências que, só por si, são motivo de meditação nos tempos que correm, além de poderem servir de proveito e exemplo para muitos distraídos.

Há um primeiro aspeto que vale a pena referir.

Eu não vivi na Lourenço Marques daqueles tempo (nem depois; nunca lá estive) mas consegui sentir e “ver” muito daquilo que nos relata: o clima, as cores, os cheiros, os mercados indígenas, o Índico e suas praias, os baldios do futebol, os dias imensos das férias, em suma, essa sedução de África, que sentiram todos os que por lá passaram, ou lá nasceram, e que lhes ficou para sempre na alma. Assistimos, por outro lado, ao seu despertar para a vida, ao nascimento da sua consciência crítica, às primeiras evidências da estratificação social, que ele (e família) sentiram, pertencentes a um estatuto algo ambíguo entre os africanos do musseque e os brancos da Polana, entre o povo e os snobs, sentindo-se por isso um pouco estrangeiro entre os meninos do liceu, algo tolerado pela sua modéstia económica.

Mas honrado e demasiado inteligente para ouvir o ímpeto da sua vontade e perceber a sua superioridade em relação a quase todos os colegas. Capaz, portanto, de desenvolver a força do seu sonho de futuro, intelectual, cultural e científico, numa Europa longínqua e então mítica, empolgado pela ideia de uma missão muito pessoal, embora indefinível, coisa corrente entre os adolescentes mais dotados.

Assim, a sua condição de branco com poucas posses, vivendo longe da zona fina da cidade, acabou por lhe proporcionar a sorte de uma multiculturalidade, intercultural e transcultural, digamos assim, com todos os ingredientes de uma formação vivida, e estruturante, porque sem ressentimentos nem invejas, que a própria inteligência e sucesso escolar impedem, proporcionando, ao mesmo tempo, a capacidade de tirar dos dois lados o melhor que cada um tinha e assim superar a ambos.

Mais interessante ainda é acompanharmos o itinerário humano e cultural de Eugénio Lisboa, até pelo grande ensinamento para hoje. Sobretudo seguir a galeria das suas personagens e a ordem de aparecimento dos autores da sua formação, e que, para sempre, lhe serviram de referência. Os personagens, para além de alguns familiares, que ele fotografa bastante bem em ângulos afetivos e críticos, os exóticos ou típicos, aqueles que habitam a nossa juventude e que, ao fim de muitos anos, nos parecem quase irreais, como se nunca tivessem existido.

Mas também, e sobretudo, a galeria dos seus professores. O rigor com que os descreve, mas de um modo muito humano e compreensivo chega a ser comovedor. E mostra-nos - como se o não soubéssemos ainda – como os grandes professores marcam a nossa vida de uma maneira indelével e são os esteios de muito do que de bom e de valioso podemos vir a ser mais tarde.

Há ali páginas muito belas, de ternura e agradecimento para alguns dos seus melhores professores da instrução primário e do liceu. E também outras muito críticas para com os maus, os balofos e os pérfidos, que também os havia, como se sabe.

Finalmente, é muito interessante seguir a descrição que nos faz do seu itinerário literário, o gosto pelos livros e o pouco dinheiro para os comprar, o “namoro” das montras das livrarias, a “Minerva Central”, a “Progresso” (ah, como eu o compreendo!) o aparecimento dos autores e as marcas que iam deixando numa personalidade em formação: Herculano, Garrett, Júlio Dinis, e depois e sobretudo Stendhal, e a perturbação dos americanos, Mark Twain, Hemingway, Faulkner, Sorayan e de novo os europeus, Óscar Wilde, Gide, Proust, Roger Martin du Gard, George Eliot, Dickens, Charlotte Brontë, e José Régio, claro! E doutros mais ligeiros, (por que não?) algum Emílio Salgari, Júlio Verne, Condessa de Segür, etc. E sempre novos autores, novas experiências e a consciência crescente desse campo riquíssimo, contraditório e inesgotável que é a grande literatura.

Eugénio Lisboa levou-me a sentir de novo, embora por outras paragens e a uma geração de distância, a sedução dos autores, o cheiro dos livros, certas palavras mágicas como “Portugália Editora”, “Editorial Gleba”, “Livros do Brasil”,“Editorial Inquérito”, “Romances Universais” e a perturbação de certas obras, a experiência funda e fecunda que causam numa personalidade em formação.

Por tudo isto é muito interessante ver como ele reconhece a importância determinante que os grandes autores tiveram na sua formação. Pudera! Todo o livro é a veemente afirmação disso.

Cito, a propósito (p. 142): «O 6. º ano do liceu começou, como de costume, em Setembro (de 1945). Encontrava-me mais forte, mais desenvolto. Ter passado incólume pelas tragédias de O’Neill tinha-me fortalecido. “Atravessar” aquilo, sem ficar chamuscado, pelo contrário, sentir que algo dentro de mim se “lavara” e me purificara e fortalecia - dava-me uma sensação de confiança e de força».

Diz-me o que lês (ou leste) dir-te-ei quem és”, é uma das maiores verdades que se pode dizer sobre educação e formação em geral. Estranho é que haja gente, com responsabilidades educativas, que não o saiba.

A profundidade humana, a riqueza e a complexidade das pessoas e das situações, os dramas, a experiência condensada que proporcionam, a libertação pela imaginação, a fruição da beleza e a plenitude que as grandes obras proporcionam, como é que se pode formar um ser humano sem tudo isto?

E como é que esta riqueza inesgotável e esta experiência se podem substituir por resumos, súmulas, sinopses e outros miseráveis sucedâneos que por aí andam? E que até podem dar para tirar boas notas, mas que deixam pelo caminho seres planos, sem profundidade nem densidade, eternamente “inocentes”, mas convencidos, imaturos mas desde logo cediços, e acima de tudo indiferentes à beleza e sem perceberem o tudo que perdem.

Nada substitui a leitura dos grandes mestres, como é possível que tanta gente “responsável” o não saiba e o não pratique?

Como é possível que no nosso ensino se estejam a substituir os grandes autores pelos simulacros?
João Boavida

quinta-feira, 25 de Abril de 2013

Voltando a nós próprios

O problema da liberdade, e da educação moral que lhe é correlativo, ou, inversamente, a educação moral que aponta à autonomia do juízo e, portanto, à liberdade, tende a rodar no vazio.

E descontrolada por ausência de pontos de fixação, quer no que diz respeito a princípios, quer quanto a fins, ou seja, nos pontos onde devia haver segurança e estabilidade reina a indeterminação e o vazio.

Daqui a necessidade de assumir (de novo) a educação como dever.

É a única via, se querermos homens livres, isto é, moralmente responsáveis.

Mas, onde ir buscar a convicção, que falta, se há uma fragilização dos princípios e um desaparecimento das grandes finalidades?

Estamos numa situação de impasse por via da diluição dos princípios consumada numa pós modernidade cuja subjectivização levou ao «politeísmo axiológico», de que fala Cortina (1995) e que fez perder a crença nas finalidades salvadoras, quer teológicas, quer político-sociais.

Como encontrar as forças suficientemente mobilizadas para a recuperação?

Voltando a nós próprios. Não há outra solução.

Se a liberdade se cumpre em cada acto concreto, porque é uma possibilidade em cada acto e só nele, solicita uma ideia, decorre de uma inteligência. E isto tem que ser percebido por nós, (re)aprendido e exercitado e equilibrado por nós, para a podermos proporcionar às novas gerações.

João Boavida

The real Karl Marx


http://www.nybooks.com/articles/archives/2013/may/09/real-karl-marx/?pagination=false

Partly no doubt because it now seems in some respects embarrassingly reactionary, positivism has been neglected by intellectual historians. Yet it produced an enormously influential body of ideas. Originating with the French socialist Henri de Saint-Simon (1760–1825) but most fully developed by Auguste Comte (1798–1857), one of the founders of sociology, positivism promoted a vision of the future that remains pervasive and powerful today. Asserting that science was the model for any kind of genuine knowledge, Comte looked forward to a time when traditional religions had disappeared, the social classes of the past had been superseded, and industrialism (a term coined by Saint-Simon) reorganized on a rational and harmonious basis—a transformation that would occur in a series of evolutionary stages similar to those that scientists found in the natural world.

(via Instapaper)

60º ANIVERSÁRIO DA DUPLA HÉLICE DO ADN


Comemora-se hoje, 25 de Abril, o 60.º aniversário da publicação do artigo seminal de Watson e Crick na Nature sobre a estrutura em dupla hélice para o ADN.

A estrutura tinha sido desvendada a 7 de Março de 1953, a partir dos trabalhos experimentais de Rosalind Franklin de difracção de raios x sobre em sais cristalizados do ácido desoxiribonucleico (ADN). 

Este acontecimento deu início a uma das maiores revoluções científicas dos tempos modernos, influenciando decisivamente a nossa compreensão mais íntima sobre a vida.



António Piedade

quarta-feira, 24 de Abril de 2013

O Romper das Cordas


Início do livro de Lee Smolin, "O Romper das Cordas", que acaba de sair na Colecção Ciência Aberta na Gradiva. O subtítulo é "Ascensão e queda de uma teoria física e o futuro da Física":

Pode ou não existir um Deus. Ou deuses. Ainda assim, há algo de dignificante na nossa busca do divino. E também algo humanizador, que se reflecte em cada um dos caminhos que as pessoas descobriram para nos conduzir a níveis mais profundos de verdade. Alguns buscam a transcendência na meditação ou na oração; outros procuram-na auxiliando os seus semelhantes; e ainda outros, os felizardos que têm talento, procuram a transcendência na prática de uma arte.

Uma outra forma de abordar as questões mais profundas da vida é através da ciência. Não quero com isto dizer que todos os cientistas investigam as respostas a essas perguntas; a maioria não o faz. Todavia, dentro de cada área científica, existem aqueles que são movidos pelo ímpeto de saber qual é a verdade mais essencial acerca do seu objecto de estudo. Se forem matemáticos, querem saber o que são os números ou que tipo de verdade a matemática descreve. Se são biólogos, querem saber o que é a vida e como ela surgiu. Se são físicos, querem saber o que são o espaço e o tempo, bem como o que deu origem ao mundo. Estas questões fundamentais são as mais difíceis de responder e o progresso para a obtenção das respostas raramente é directo. Apenas um punhado de cientistas tem paciência para esse trabalho. É o mais arriscado, mas também o mais gratificante: quando alguém responde a uma pergunta sobre os princípios por trás de um
assunto, pode estar a alterar tudo o que sabemos.

Visto que o trabalho dos investigadores é acrescentar algo ao nosso crescente conhecimento, os cientistas passam os seus dias a enfrentar o que não entendem. E os cientistas que trabalham nos elementos basilares de um determinado domínio estão plenamente conscientes de que os blocos de construção do conhecimento nunca são tão sólidos como os seus colegas tendem a julgar.

Esta história fala de uma busca de compreensão da natureza no seu nível mais profundo. Os seus protagonistas são os cientistas que se esforçam por alargar o nosso conhecimento das leis básicas da física. O intervalo de tempo que irei abordar — aproximadamente desde 1975 — é o do meu próprio percurso profissional como físico teórico. Poderá ser também a mais estranha e frustrante época na história da física desde que Kepler e Galileu iniciaram o nosso ofício, há quatrocentos anos.

A história que escrevo poderia ser lida por alguns como uma tragédia. Falando muito francamente — e deixando-me de rodeios —, nós falhámos. Herdámos uma ciência, a física, que tinha vindo a evoluir tão rapidamente, e durante tanto tempo, que muitas vezes era tida como exemplo do modo como as outras ciências deviam ser feitas. Há mais de dois séculos, até ao momento actual, a nossa compreensão das leis da natureza cresceu rapidamente. Mas hoje, apesar dos nossos esforços, o que sabemos com absoluta certeza sobre estas leis não é mais do que já sabíamos na década de 1970.

Será comum passarem-se três décadas sem que tenha havido qualquer progresso revolucionário na física fundamental?

Mesmo se recuarmos mais de duzentos anos, época em que a ciência era uma preocupação quase exclusivamente de amadores ricos, este fenómeno é inédito. Aproximadamente desde o final do século XVIII, foram alcançados progressos significativos em questões cruciais a cada quartel de século.

No ano de 1780, quando as experiências químicas de carácter quantitativo de Antoine Lavoisier mostraram que há conservação da matéria, já as leis do movimento e da gravidade de Isaac Newton estavam em vigor há quase cem anos. Mas, enquanto Newton nos deu um enquadramento para compreender a natureza como um todo, as fronteiras do conhecimento estavam bem abertas. As pessoas estavam apenas a começar a aprender as noções básicas de matéria, luz e calor, e alguns fenómenos misteriosos como a electricidade e o magnetismo estavam a ser esclarecidos.

Ao longo dos vinte e cinco anos que se seguiram foram feitas grandes descobertas em todas estas áreas. Começou-se a compreender que a luz é uma onda. Descobriu-se a lei que regula a força entre partículas electricamente carregadas. Conseguiram-se enormes avanços na compreensão da estrutura da matéria com a teoria atómica proposta por John Dalton. Foi introduzido o conceito de energia, os fenómenos de interferência e difracção foram explicados a partir da teoria ondulatória da radiação, a resistência eléctrica e a relação entre a electricidade e o magnetismo foram exploradas e estabelecidas.

Vários conceitos fundamentais subjacentes à física moderna surgiram no quarto de século seguinte, entre 1830 e 1855. Michael Faraday introduziu o conceito das forças que são transmitidas através de campos, uma ideia que utilizou para incrementar consideravelmente o nosso entendimento da electricidade e do magnetismo.

Durante o mesmo intervalo de tempo, a conservação da energia foi proposta, bem como a segunda lei da termodinâmica. No terceiro quartel do século XIX, as noções pioneiras de Faraday sobre campos foram desenvolvidas por James Clerk Maxwell na teoria moderna do electromagnetismo. Maxwell não só unificou a electricidade e o magnetismo, mas também caracterizou a radiação como uma onda electromagnética. Em 1867 explicou o comportamento dos gases com base na teoria atómica. Na mesma época, Rudolf Clausius introduziu o conceito de entropia.

O tempo compreendido entre 1880 e 1905 foi o da descoberta dos electrões e dos raios X. O estudo da radiação térmica foi desenvolvido em várias etapas, conduzindo à descoberta de Max Planck, em 1900, da fórmula correcta das propriedades térmicas da radiação — uma fórmula que desencadearia a revolução quântica.

Em 1905 Albert Einstein tinha 26 anos. Não conseguira encontrar um emprego académico, apesar de os seus trabalhos iniciais sobre a física da radiação térmica terem vindo mais tarde a ser considerados grandes contributos para a ciência. Mas isso foi apenas uma amostra. Einstein cedo se concentrou nas questões fundamentais da física: primeiro, como poderia o movimento relativo ser conciliado com as leis de Maxwell da electricidade e do magnetismo? Respondeu a essa pergunta com a sua teoria da relatividade restrita. Dever-se-ão considerar os elementos químicos como átomos newtonianos? Einstein provou que sim. Como se pode conciliar a teoria da radiação com a existência de átomos? Einstein explicou como e ao longo do processo mostrou que a radiação pode comportar-se como onda ou como partícula. Todas estas respostas foram dadas no ano de 1905, nos tempos livres do seu emprego como examinador de patentes. A estruturação das ideias de Einstein inspirou o quarto de século seguinte. No ano de 1930, a teoria da relatividade geral já era conhecida, era uma teoria revolucionária que postulava que a geometria do espaço não é constante, mas evolui acoplada ao tempo. A dualidade onda-partícula proposta por Einstein em 1905 já se tinha tornado parte da teoria quântica, que fornecia uma compreensão pormenorizada dos átomos, da química, da matéria e da radiação. No mesmo ano de 1930, já era do conhecimento científico que no universo há um enorme número de galáxias como a nossa, sabendo-se ainda que estas se afastavam entre si. As implicações destas observações não eram claras na época, mas já se sabia que vivemos num universo em expansão.

Com o estabelecimento da teoria quântica e da teoria da relatividade geral como parte da nossa compreensão do mundo, a primeira fase da revolução da física do século XX tinha terminado. Muito físicos, pouco à vontade com as reviravoltas nas suas áreas de especialidade, ficaram aliviados por se poder voltar a fazer ciência da forma usual, sem que houvesse a necessidade de questionar constantemente os pressupostos científicos basilares. Mas o seu alívio era prematuro.

Einstein morreu no início do terceiro quartel do século XX, em 1955. Nessa época já se sabia como combinar de uma forma coerente a teoria quântica com a teoria da relatividade restrita; foi esse o feito da geração de Freeman Dyson e Richard Feynman. Já se havia descoberto o neutrão, o neutrino e centenas de outras partículas aparentemente elementares. Também se compreendeu que a imensidão de fenómenos naturais é estabelecida unicamente por quatro forças: electromagnetismo, gravidade, força nuclear forte (que mantém os núcleos atómicos coesos) e força nuclear fraca (responsável pelo decaimento radioactivo). Mais um quarto de século volvido e somos conduzidos ao ano de 1980. Nesta época já se tinha estabelecido uma teoria que explicava os resultados de todas as experiências realizadas até à data com partículas elementares e forças — uma teoria designada modelo-padrão da física de partículas. O modelo-padrão explicava de uma forma precisa, por exemplo, como os protões e os neutrões são formados de quarks, sendo estes unidos por gluões, os transportadores da força nuclear forte. Pela primeira vez na história da física fundamental, a teoria acompanhara a experimentação. Ninguém desde então realizou uma só experiência que não fosse coerente com este modelo ou com a teoria da relatividade geral.

Do muito pequeno ao muito grande, o nosso conhecimento de física estende-se agora à nova ciência, a cosmologia, em que a teoria do Big Bang se tornou a visão mais consensual. Percebemos que o nosso universo contém não só estrelas e galáxias, mas também objectos exóticos como estrelas de neutrões, quasares, supernovas e buracos negros. No ano de 1980, Stephen Hawking já havia feito a fantástica previsão de que os buracos negros emitiam radiação. Além disso, os astrónomos tinham indicações de que o universo possui imensa matéria negra — isto é, matéria que não emite nem reflecte radiação electromagnética.

Em 1981, o cosmólogo Alan Guth propôs uma perspectiva dos momentos iniciais do nosso universo designada por inflação. Expondo-a de modo aproximado, a sua teoria afirma que o universo, extraordinariamente cedo, passou por um curto intervalo de expansão colossal, factor que explica porque parece o universo idêntico em qualquer direcção de observação. A teoria da inflação originou previsões que aparentavam ser duvidosas até, na última década, terem surgido indícios que a sustentavam. Apesar de à data de produção deste livro alguns enigmas ainda persistirem, a esmagadora maioria dos indícios abona a teoria da inflação. Assim, em 1981, a física desfrutara de duzentos anos de crescimento explosivo. Cada nova descoberta aprofundou a nossa compreensão da natureza porque, em todos os casos, a teoria e a experiência andaram de mãos dadas. Foram testadas e confirmadas novas ideias; as novas descobertas experimentais foram explicadas com base nas teorias estabelecidas. Com o passar do tempo, no início de 1980, as coisas ficaram praticamente paralisadas.

(...)
Lee Smolin

Toda a Ciência (menos as partes chatas)


Prefácio de Carlos Fiolhais ao livro "Toda a Ciência (menos as partes chatas)", dos Cientistas de Pé, que acaba de ser publicado pela Gradiva: 

O romancista Arthur Koestler, de origem húngara mas fixado na Grã-Bretanha, escreveu em 1964 um livro notável sobre a criatividade no humor, na ciência e na arte — The Act of Creation — em que analisou as ligações profundas entre o cómico e a ciência, por um lado, e a literatura, por outro. A sua tese pode resumir- -se na seguinte citação:

 O padrão lógico do processo criativo é o mesmo nos três casos: consiste na descoberta de semelhanças escondidas. Mas o clima emocional é diferente [...]: o símile cómico tem um toque de agressividade; o raciocínio por analogia do cientista é emocionalmente desligado, i.e., neutro; a imagem poética é compreensiva ou admirativa, inspirada por uma espécie positiva de emoção. Em qualquer dos casos, existe aquilo a que ele chamou «bissociação», uma ponte inesperada entre dois quadros de referência aparentemente incompatíveis. 

Numa anedota, há um efeito de surpresa, conseguido em regra por um final surpreendente, um punch, tal como na descoberta científica há um momento de eureca, quando se unem dois quadros conceptuais que se julgavam distintos, tal como na arte há uma visão amplificadora, conseguida, por exemplo, com uma metáfora, que permite a justaposição de duas visões antes independentes. O ensaio de Koestler, que foi, além de escritor de ficção, um grande divulgador de ciência (o seu The Sleepwalkers: A History of Man’s Changing Vision of the Universe, de 1959 é um clássico da divulgação da astronomia), insere-se em toda uma tradição filosófica de uma teorização do humor, de uma tentativa de fazer uma «filosofia do humor», que poderá remontar a Aristóteles («o riso pertence à categoria do horrível, vem de algo feio mas que não causa dor nem desastre, como a máscara cómica que é grotesca mas não dolorosa »), que passa seguramente por Kant («o riso é a afectação que surge da transformação súbita de uma expectativa tensa em coisa nenhuma») e por Schopenhauer («dois ou mais objectos são pensados usando um conceito, tornando-se manifesto da enorme diferença entre eles que esse conceito só se pode aplicar com uma visão unilateral»), para chegar até Wittgenstein («uma obra filosófica séria e de qualidade pode consistir inteiramente em anedotas»).

A ligação entre humor e ciência pode-se também estabelecer no domínio linguístico. Na língua alemã, a língua de Kant, Schopenhauer e Wittgenstein, Witz (dito humorístico, piada, anedota) tem uma raiz que é, afinal, a mesma de Wissen (saber) e Wissenschaft (ciência). No alemão antigo, a palavra Witze significava, para além de humor, inteligência, compreensão e sabedoria. O humor é, portanto, uma forma de inteligência. O escritor e filósofo setecentista alemão Gotthold Ephraim Lessing afirmou que «die schoenen Wissenschaften and freyen Kuenste das Reich des Witzes ausmachen» («as belas ciências e as artes livres compõem o reino do humor»).

Talvez David Marçal e a sua trupe de Cientistas de Pé tenham lido Koestler, ou, remontando no tempo, Aristóteles, Kant, Schopenhauer e Wittgenstein. Talvez dominem as subtilezas da etimologia da língua germânica. Ou talvez não. Mas o certo é que a presente colecção de escritos de humor, com base em temas científicos, abona a tese de Koestler e dá razão a Lessing. Um elemento de surpresa está omnipresente na comédia, tal como na ciência e nas artes. E, neste livro, há uma surpresa para além das surpresas, uma metassurpresa, já que os autores usam na sua escrita humorística ingredientes de ciência, um domínio geralmente considerado sério, muito sério, desmesuradamente sério. E a conclusão não pode deixar de ser a mesma de Lessing: as ciências e as artes são parte do reino do humor. Com esta obra, além de ficarmos a saber mais sobre alguns aspectos das multifacetadas ciências modernas, as ciências que tão fortemente moldam o mundo de hoje, ficamos também com uma imagem mais verdadeira da ciência e dos cientistas. Estes são capazes de não se levar demasiado a sério. Tal como estes Cientistas de Pé, os melhores cientistas são capazes do melhor humor. Uma das anedotas de ciência mais engraçadas que conheço é aquela em que alguém pede a Einstein para fazer uma conta simples, passível de ser feita mentalmente por um físico laureado com o Nobel,  este dá uma resposta surpreendente: «Julgam que sou algum Einstein?» 

O grupo dos Cientistas de Pé foi das iniciativas mais originais que surgiram na cultura científica em Portugal nos últimos anos. Tal como as numerosas pessoas que viram os seus espectáculos, ri-me muito. Com a publicação de Toda a Ciência (menos as partes chatas), a sua criatividade chegará mais longe. Muito mais gente se vai rir. Tenho a certeza de que, como a audiência dos seus espectáculos, os leitores inteligentes se vão sentir ainda mais inteligentes no fim da leitura.

Carlos Fiolhais

MARIANO GAGO NO RÓMULO

Mariano Gago esteve recentemente à conversa no Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra:

terça-feira, 23 de Abril de 2013

Com novas íris te universo

Poema publicado primeiramente na revista Papel




Com novas íris te universo.
Vejo-te para além do ar,
Até onde não sabia que ainda começas.
Com novas íris despojo-te das poeiras cósmicas,
Descubro-te onde não tens cor,
Com novas íris alianço-me nos deuses antigos,
E redesenho a abóbada celeste com mitos modernos,
Cegos de contemplação e de tanto espanto.
Com novas íris volto a ser criança a olhar o céu
E tento apanhar as estrelas num gesto, num salto.
Com novas íris me visto de ti,
Num novo cosmos invisível à nudez dos meus olhos.
E pinto no céu um arco-íris, que começa nos raios gama,
E acaba nas ondas do meu rádio.

António Piedade

Coimbra, 09 de Abril de 2013

Fwd: Concurso "Ciência" – Festival do Minuto

FESTIVAL DO MINUTO lança concurso com o tema "Ciência"

 

Os melhores vídeos concorrem a R$ 10 mil em prêmios 

As inscrições vão de abril a 30 de agosto

São aceitos vídeos de qualquer formato e que tenham até 60 segundos de duração

 

"Ciência". Nos deparamos com ela nas mínimas coisas do dia a dia – da lâmpada elétrica ao telefone celular, do banho quente aos tratamentos de saúde, da conservação ambiental ao uso da internet. Por isso, o termo pode trazer inúmeras ideias! É nisso que aposta o concurso do Festival do Minuto, que conta com o apoio da FAPESP e está em sua segunda edição.

Para participar, nada melhor do que deixar a imaginação fluir sobre qualquer ciência, seja ela exata, humana ou sobre a vida. Ciência da computação, engenharia, física, matemática, química, zootecnia, botânica, biologia, antropologia... E, como sempre, valem vídeos de até 60 segundos em qualquer formato: filmes de animação, vídeos feitos com câmeras digitais, celular, ipad etc. O que importa, mais uma vez, é a criatividade. O concurso segue aberto até o dia 30 de agosto. Ao todo serão entregues R$ 10 mil em prêmios.

Os interessados - de todas as idades e de qualquer parte do mundo – podem inscrever seus vídeos. Regulamento e informações, além do envio do vídeo, estão disponíveis no site www.festivaldominuto.com.br.

Lembrando que quem tem até 14 anos deve se inscrever pelo Minuteen - www.minuteen.com.br, espaço dedicado a crianças e adolescentes que estão começando a familiarização com equipamentos digitais.

E há ainda o www.escoladominuto.com.br que dá dicas de como realizar um vídeo de 1 minuto. Trata-se de um portal que, após o preenchimento de um cadastro simples e rápido, exibe depoimentos de realizadores e dicas do curador e diretor de cinema Marcelo Masagão. Ele fornece dicas para a pesquisa de temas, de softwares de imagem e som, de iluminação, entre outros tópicos importantes para a produção e orientação dos vídeos.

Sobre a FAPESP, apoiadora do concurso

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) é uma das mais importantes agências brasileiras de apoio à pesquisa científica. Criada em 1962, a FAPESP, ao longo dos seus 50 anos, concedeu cerca de 105 mil bolsas de pesquisa – da graduação ao pós-doutorado – e apoio a mais de 92 mil auxílios para pesquisadores do Estado de São Paulo. O apoio é dado a pesquisas em todas as áreas das ciências, bem como tecnologia, engenharia, artes e humanidades. A FAPESP também apoia pesquisas em áreas consideradas estratégicas para o País, por meio de programas em grandes temas, como biodiversidade, mudanças climáticas e bioenergia.

Para saber mais, acesse www.fapesp.br.

Sobre o Festival do Minuto

O Festival do Minuto foi criado no Brasil, em 1991, e propõe a produção de vídeos com até um minuto de duração. É, hoje, o maior festival de vídeos da América Latina e também o mais democrático, já que aceita contribuições de amadores e profissionais, indistintamente. A partir do evento brasileiro, o Festival do Minuto se espalhou para mais de 50 países, cada um com dinâmica e formato próprios. O acervo do Minuto inclui vídeos de inúmeros realizadores que hoje são conhecidos pela produção de longas-metragens, como os diretores Fernando Meirelles (Ensaio Sobre a Cegueira e Cidade de Deus,), Beto Brant (O Invasor, Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios) e Tata Amaral (Antônia e Hoje).

Para saber mais, acesse www.festivaldominuto.com.br

David Soares subscreveu a ILC


A língua, na verdade, muda – isso é evidente -, mas não evolui. Evoluir pressupõe sempre a existência de um desígnio para o qual se caminha e se vai abandonando versões toscas do objecto a aperfeiçoar até apurar-se a forma final. Ora, não há desígnio nenhum por trás das mudanças das línguas, logo não evoluem – e, nesse sentido, o AO90 não é o corolário dessa busca pela perfeição que os seus bonzos nos querem fazer acreditar. A língua muda, mas não muda tanto na rua, por influência da tal oralidade, como muda por acção da grafia, graças às palavras inventadas pelos escritores: o nosso léxico contemporâneo foi todo inventado por escritores, filósofos e cientistas, desde a Idade Média para cá. Quem muda a língua de modo natural e harmonioso não é quem a fala – nem quem acha como ela deve ser escrita -, mas quem, com efeito, trabalha com ela. De todas as mudanças impressas pospelamente sobre uma sociedade derivam consequências que só não são imprevisíveis na sua tragicidade. Ignore-se, pois, a história, mas que não se finja surpresa quando essas consequências erguerem a cabeça. Contudo, mantenho o meu optimismo: é por mantê-lo que subscrevi a ILCAO e a divulguei por todos os meus contactos para que também o fizessem. Fi-lo enquanto escritor e enquanto cidadão. Sobretudo, fi-lo enquanto amante da língua portuguesa, cujo espírito já está moribundo por culpa da convivência com este desacordo espiritocida.


segunda-feira, 22 de Abril de 2013

O que é a tolerância?

Vale a pena ler este texto de Carlos Pires, professor de filosofia da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa, que explica muito bem o que realmente é a tolerância. Várias vezes tenho sido acusado neste blog por alguns comentadores de ser relativista, quando na verdade não o sou; o que acontece é que não sou um ditadorzinho de meia-tijela, que quer impor aos outros o seu modo de ver as coisas. Ser relativista implica aceitar que toda a gente tem razão, o que é incompatível com a tolerância, pois tolerar é dar às pessoas o direito de não terem razão. E de nada adianta ser tolerante se isso não se traduzir em medidas legislativas que acolham na nossa sociedade as pessoas que têm crenças completamente erradas, anticientíficas, pseudocientíficas, etc.

domingo, 21 de Abril de 2013

Sociedade Portuguesa de Autores rejeita nova ortografia

A Sociedade Portuguesa de Autores continuará a utilizar a norma ortográfica antiga nos seus documentos e na comunicação escrita com o exterior, uma vez que o Conselho de Administração considera que este assunto não foi convenientemente resolvido e se encontra longe de estar esclarecido, sobretudo depois de o Brasil ter adiado para 2016 uma decisão final sobre o Acordo Ortográfico e de Angola ter assumido publicamente uma posição contra a entrada em vigor do Acordo.

Mais informação...

Mães e esposas

A notícia é do Público on line e foi escrita pela jornalista Sandra Rodrigues.

Imagem tirada daqui
Os leitores devem lembrar-se de um grupo de senhoras auto-nomeadas Mães de Bragança, que deu brados na comunicação social. Como que saídas de um livro de Jorge Amado, mas a precisarem de sofisticação e maquilhagem, tomaram a vigorosa iniciativa de expulsar as prostitutas da sua cidade, essas pecaminosas, filhas do demo, que desviavam os seus legítimos, os pais dos seus filhos, coitados!

Pioneiras da moral e dos bons costumes na era da comunicação social presa ao fait divers, ganharam seguidoras que, com a mesma determinação, mas usando meios mais sofisticados, querem salvar da perdição aqueles a quem um dia juraram fidelidade eterna, nos bons e nos maus momentos. É bonito!

Estas seguidoras também se auto-nomearam, mas, provavelmente, para destacarem o seu papel e deixarem os filhos de fora, a auto-nomeação incidiu na sua qualidade de esposas, Esposas de Viseu. E de que se lembraram as senhoras (com todas as letras, já se vê) para os seus maridos não se porem com ideias?

Nada mais nada menos do que denunciarem num blogue anónimo (uma coisa "maravilhosa" em democracia) os "porcos... que enganam as conterrâneas" (à parte a linguagem grosseira, o apelo ao espírito regional fica sempre bem). Não percebi como procedem... mas li que nesse blogue aparecem "as matrículas e marcas de viaturas de pessoas que recorrem ao serviço de prostitutas". Em poucos dias já vão nas centenas de "denúncias" (outra coisa "maravilhosa"), são, portanto, eficazes.

Alguém, entretanto, falou, de invasão da privacidade... mas que importância é que isso tem perante a salvação da harmonia do lar!?

sábado, 20 de Abril de 2013

Entrevista a Aldous Huxley

Agradecendo ao leitor Ari a indicação de uma entrevista feita por um senhor que se chamava Mike Wallance, ao autor do Admirável mundo novo, Aldous Huxley. Dessa entrevista, muito elucidativa sob o ponto de vista do controlo social, destaco uma passagem relativa ao papel da educação na consciencialização dos sujeitos para o exercício da liberdade.

Entrevistador: A questão que continua presente na minha cabeça é: obviamente a política em si não é má, a televisão em si não é má, a energia atómica não é má mas você parece temer essas coisas sejam usadas de forma perversa. Por que é que as pessoas certas, em sua opinião, não vão usá-las? Porque é que as pessoas erradas usarão estes vários dispositivos e por motivos errados?
Aldous Huxley: Bem, eu acho que uma das razões é que esses são todos instrumentos para a obtenção de poder e a paixão pelo poder é uma das paixões que mais movimenta as pessoas. Afinal de contas, todas as democracias se baseiam na proposição de que o poder pode ser muito perigoso e que é extremamente importante não deixar qualquer homem ou qualquer pequeno grupo ter poder demais por muito tempo (...) e todos estes novos dispositivos são extremamente eficientes para a imposição do poder por grupos pequenos sobre grandes massas.
Entrevistador: Bem, você fez a pergunta a si mesmo e Inimigos da Liberdade, vou colocar-lhe a sua própria pergunta. Você perguntou isto: numa época de acelerada super-produção, de acelerada super-organização e de meios de comunicação mais eficientes do que nunca como podemos preservar o valor da pessoa humana? Você colocou a questão, tem a possibilidade de, aqui e agora, responder, Sr. Huxley.
Aldous Huxley: Bem, isso é obviamente... antes de tudo, uma questão de educação. Eu acho que é muito importante insistir nos valores assumidos pelo indíviduo (...) há uma tendência, como você deve ter lido num livro de Whyte, The organization man, um livro muito interessante e valioso, onde ele fala sobre o novo tipo de moralidade de grupo, a ética do grupo, fala sobre o grupo como se ele fosse de alguma forma mais importante do que o indivíduo (...) E eu acho extremamente importante enfatizarmos os aspectos educacionais da nossa vida (...) ensinar as pessoas a estar em guarda contra todo o tipo de armadilhas verbais em que estão sempre a ser conduzidas, a analisarem o tipo de coisas que lhes são ditas. Bem, eu acho que há todo esse aspecto educativo e que existem muitas outras coisas que se podem fazer para fortalecer as pessoas e torná-las mais conscientes do que está a ser feito.
Primeira parte aqui; segunda parte aqui; terceira parte aqui. Entrevista completa aqui.

Pois, quantificar...

Um passo aqui outro ali, a retórica da "avaliação-total-formalizada-burocrática-a-todo-o-momento-como-forma-de-caminhar-em-direcção-à-excelência-com-consequências-para-o-bem-de-todos-e-quicá-da-humanidade-etecetera" ganha terreno nos mais diversos campos profissionais e instala-se como prática.

Chamam-se especialistas com curriculo vitae de alto gabarito, contratam-se empresas com nomes pomposos em inglês para dar a entender uma inequívoca credibilidade e põem-se técnicos executores (que são apenas isso ou que têm de parecer apenas isso) no terreno. O toque final é dado por uma multiplicidade de procedimentos e, claro está, de instrumentos para apurar, tratar (de preferência com programas informáticos complexos) e cruzar e descruzar a informação.

No final, pode-se descomprimir, respirar fundo e ir beber uma cerveja: afinal foi garantido o rigor e a objectividade e deu-se mais um passo no sentido da justiça, da igualdade, e de outros valores maiores que fica sempre tão bem invocar, mesmo que (quando a cerveja começa a fazer efeito e as amarras às imposições se começam a quebrar) se diga que eles, os valores, são todos relativos e subjectivos e por isso, "cada um tem a sua verdade" e "quem sou eu para julgar os outros"...

Esqueçamos este parágrafo e voltemos ao anterior para dizer que na "função pública" tem-se feito da avalição do desempenho profissional a "bandeira de qualidade". Ufanamente, afirmam aos quatro ventos, sem mostrarem reservas ou entraves de qualquer espécie investigadores, responsáveis institucionais e muitíssimos profissionais que "agora, com essa avaliação, é que vai ser"...

Estas considerações são a propósito da decisão do director de informação da RTP em se avaliarem diariamente (sublinho diariamente) os jornalistas. Isto, explicou, numa tentativa de quantificar o seu trabalho... pois, quantificar... uma palavra central da retórica que acima me escapou.

NOTA: Este texto foi redigido a partir do artigo "Director quer jornalistas avaliados diariamente", da jornalista Filomena Araújo, publicado no Diário de Notícias (em papel) de 19 de Abril passado, página 51.

quinta-feira, 18 de Abril de 2013

DAR VALOR ÀS PALAVRAS OU CHAMAR PÁ A UMA PÁ

Com abraço de gratidão pelo envio e o prazer de sempre colhido na sua leitura, de Eugénio Lisboa reproduzo este belo e oportuníssimo texto publicado no “Jornal de Letras” de ontem:

 Vivemos enterrados numa sopa de mentiras. Num notável artigo publicado no Público de 23 de Fevereiro, José Pacheco Pereira, em clave de assumido panfleto, desabafava nestes termos: “Pode ser porque eu dou valor às palavras – uma sinistra manifestação da condição suspeita de intelectual – que me repugna, enoja, irrita, indigna, encanita, faz-me passar do sério, a sua sistemática violaçãopelo governo. Violação, exactamente como as outras violações. Devia haver uma lei não escrita para punir a violação feita com as palavras e pelas palavras, como há com a violação contra os mais fracos, o abuso do poder. Devia haver uma lei não escrita para punir o envenenamento das palavras pela desfaçatez lampeira, a esperteza saloia.” Não peço desculpa pelo alongado da citação, porque ela vale a pena: vem certeira, na hora certa.

Esta preocupação com o estupro das palavras, com o uso calculado e mentiroso que se faz delas, dizendo uma coisa, para querer dizer outra, tem afligido uma classe especial de gente: os escritores. De Gaulle, que foi, por necessidade, e numa fase adiantada da sua vida, um político, mas que foi sempre, e sobretudo, uma grande vocação de escritor, notava: “Uma vez que um político nunca acredita naquilo que diz, fica sempre muito surpreendido, quando os outros acreditam nele.”

Há outra maneira, particularmente irritante, de se praticar este “estupro”: é falar na coisa, precisamente quando ela está ausente (o político que fala de rigor, no meio da bagunça; ou de honestidade, no centro do esbulho; ou de coragem, quando arreia nos fracos e se encosta aos fortes e aos ricos).

 Montherlant, com o fulgor assassino do seu grande estilo, punha já na boca de um personagem da sua bela peça, La Reine Morte, isto: “É quando a própria coisa falta, que se deve propiciar a palavra.” Quando Hitler falava de “paz”, queria, invariavelmente, dizer “guerra”. A coisa, tornada sistemática – e, com frequência, torna-se – leva à descredibilização dos políticos e da política e ao sarcasmo incomplacente e perigosamente generalizador dos humoristas de serviço (Will Rogers: “Se injectarmos verdade na política, acabamos com a política”).

Outra forma de enganar com as palavras é fazer, com elas, o que faz o nosso Ministro das Finanças: construir um discurso circunvoluto, retorcido e infinitamente nebuloso, que tem, para ele, a vantagem de calar, sem apelo, o adversário ou interpelador: é que este nem sequer sabe se o que o ministro disse está certo ou errado – na realidade, está além ou aquém da categoria de “certo” ou “errado”. Com efeito, as suas explicações embrulham muito mais a dificuldade do que ajudam a esclarecê-la (“I wishhecouldexplainhisexplanation”, dizia Byron, que era lord, mas era também bruto). Neste caso, não se cala o adversário, com a força dos argumentos; tira-se-lhe o pio, com a perplexidade em que o mergulha o arrazoado fúnebre. Em Portugal, tem-se sempre muito medo de não achar “inteligente”  o charabia pomposo e o seu tanto sinistro dos tecnocratas de serviço. O estilo “profundote” intimida e, hélas!, faz que deslumbra... O poeta inglês Wordsworth, de quem Fernando Pessoa traduziu um poema, acusava os sonetos de Shakespeare (tu quoque!) de chafurdarem numa “elaborateobscurity” , que pode muito bem ter-se tornado (sabe-se lá!) uma influência dominante no discurso de não poucos literatos lusíadas e, seguramente, nas ejaculações do nosso singular Ministro das Finanças. Aos que não pensam, raramente faltam as palavras, dizia alguém não muito conhecido.

Seja como for, o que eu aqui hoje gostaria de trazer, para iluminar um pouco melhor a irritação de Pacheco Pereira, era um testemunho esclarecedor e pungente. Trata-se de uma carta escrita, em 1937, no dia de Ano Novo, em Zurique, pelo escritor Thomas Mann, e dirigida ao deão da Faculdade de Filosofia da Universidade de Bonn, que acabara de retirar ao autor de A Morte em Veneza o título de Doutor Honoris Causa, anteriormente atribuído. Thomas Mann, como se sabe, abandonara a Alemanha logo a seguir à ascenção de Hitler ao poder, para salvar a sua liberdade e a sua vida. A Universidade, cobardemente, alinhara com os cães do poder.

Nessa carta, que é um monumento admirável e imperecível, o autor de Tonio Kröger diz, com clareza e veemência, que ainda pensou em permanecer na Alemanha, calando-se: “Quando a Alemanha caíu nas mãos deles [Hitler e apaniguados], eu queria calar-me: pelos grandes sacrifícios que tinha consentido, julgava ter adquirido um direito ao silêncio, um direito que me permitisse conservar o que tinha por mais caro: o contacto com os meus leitores da Alemanha.” Apesar destas razões, que o puxavam para ficar, Thomas Mann decidiu sair. Porquê? A razão dá-a, nessa mesma carta e é digna de estudo e divulgação: “Eu não teria podido [aí] viver e trabalhar. Teria sido, para mim, um verdadeiro envenenamento, se não tivesse podido, de tempos a tempos, «lavar o meu coração», como dizem os antigos, se não tivesse podido exprimir, sem reticências, o meu nojo por esses discursos miseráveis, que ribombam pelo meu país, e pelos actos ainda mais miseráveis que nele se cometem. Com ou sem razão, o meu nome está ligado, para o mundo, à noção de uma Alemanha que ama e que honra. Vi-me, pois, na obrigação de denunciar abertamente as mutilações selvagens que infligiram a essa Alemanha. E essa obrigação perturbava todos os meus sonhos de artista, aos quais eu me teria tão voluntariamente abandonado. Mas a essa obrigação, eu não podia subtrair-me, porque me foi sempre permitido exprimir-me, libertar-me pela linguagem. A vida não se acha, para mim, realizada, a não ser nessa constante criação da linguagem que purifica a emoção e a conserva.” (O sublinhado é meu)

Eis o sentido profundo desta carta: todo o escritor se exprime, isto é, se liberta, pela linguagem. É ela que lhe dá as maiores razões de felicidade, nesta terra. Assim sendo, o escritor contrai, pelo seu lado, uma obrigação: retribuir esse dom imenso que lhe dá o uso da linguagem – a libertação, a expressão - , com a garantia solene de que nunca dará um mau uso – um uso perverso, mentiroso –ao instrumento que lhe abriu as portas da felicidade. “A linguagem”, diz ainda Mann, nessa carta, “está carregada de um grande mistério. Somos responsáveis pela sua pureza. E essa responsabilidade é simbólica; não é somente do domínio da arte, é propriamente moral. É a responsabilidade humana na sua essência mesma; compromete-nos com o nosso próprio povo, obrigando-nos a conservar pura a sua imagem aos olhos da humanidade.”  É assim que pensa e sente um escritor digno desse nome. A linguagem não é, para ele, algo que se manipule com leviandade. Não é este, porém, quase nunca, o caso dos políticos. Julgo que o fino Goethe estaria também a pensar neles, quando observou: “Quando uma ideia não comparece, pode sempre achar-se uma palavra que a substitua.” Pior ainda : quando uma ideia é, de momento, inconveniente, pode, em vez dela, dizer-se o contrário, com palavras suficientemente fluidas para, num futuro mais ou menos próximo, se poder desvelar, por actos, o sentido originalmente visado... Em quem estaria a pensar Maurice Barrès, também escritor, como Thomas Mann, quando escreveu: “O político é um acrobata: mantém o seu equilíbrio, dizendo o oposto daquilo que faz”? Não sei em quem estaria a pensar, mas sei a quem pode aplicar-se o que disse, neste “reino cadaveroso” em que me coube vir acabar os meus dias.

P. S. – Como gosto, às vezes, de recordar os macedónios, essa gente “rude e apalhaçada”, que, segundo Plutarco, teimava em chamar pá a uma pá!

Eugénio Lisboa