THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

domingo, 31 de Março de 2013

Um comentário em que se confundem as coisas "para a posteridade e mais além" (1)

(Fachada da ex-Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque de Lourenço Marques)

“O Homem pensa como o corpo todo” (Ernest Kerstchemer, psiquiatra alemão e “doutor honoris causa”em Filosofia).

Muito hesitei em responder ao autor do comentário aqui publicado, como o título “Para a Posteridade e mais Além” (31/03/2013), ao meu post ”Sobre a Ordem dos Professores e ‘In Memorian’ de João Boaventura’” (29/03/2013).Mas  para que não subsista a menor dúvida ou suspeita sobre o respeito que dedico a quem se valorizou cultural, profissional e eticamente pelo antigo ensino técnico sem necessidade de novas oportunidades ou licenciaturas e mestrados de puro oportunismo. Ou seja, quando o fez com  “sangue, suor e lágrimas” de um ensino exigente que não atribuía diplomas como quem distribui um bodo aos pobres.

Decidi-me a esta resposta, ademais, por não ser homem de virar a cara a ditos de humor grosseiro (ao invés de uma ironia subtil e inteligente).Exemplifico com este seu naco de prosa: ´”(…) é com este bauptista que acha que um pai é responsável por toda a inculcação educacional de um filho e deve sentir vergonha  quando ela falha”. Afincadamente procurei, neste post, onde teria dito tal coisa que me é atribuída. Debalde! Restou-lhe, portanto, a fidelíssima e castrense metáfora de me crismar de bauptista com o pensamento na história da revolução cubana.

Mas vamos ao cerne da questão que pouco abona pelo desrespeito dos seus comentários a um colega meu  que me levou a  escrever: “Na sua carta [de João Boaventura, a transcrever por mim brevemente]  subjaz o espírito de uma prosa suportada por uma cultura invejável (e como lhe assenta como uma luva o provérbio supracitado: ‘Cada velho que morre é uma biblioteca que arde’). Escreveu, por seu lado,  Abel Salazar, notável médico  e professor universitário do Porto : “Um médico que só sabe de Medicina, nem isso sabe”. “Mutatis mutandi”, um professor de Educação Física e Desporto que só sabe de desporto nem isso sabe. Mas João Boaventura, não se quedou pela matéria da sua vida profissional. Foi sócio fundador da Sociedade de Língua Portuguesa como prova da sua competência no domínio da língua materna, dominando-a com a destreza de quem bem  sabe escrever ( forma) e argumentar ( conteúdo).

Só uma mente apegada à dicotomia cartesiana de um ser pensante (“res cogitans”) a dominar um corpo escravo (“res extensa”) pode chegar à conclusão de que os músculos estão na razão inversa da inteligência, como costumo criticar. Um conceito enraizado em santa ignorância, ou mesmo em indivíduos que rescendem a falsa intelectualidade. Ignorantes para quem a destreza e a força físicas continuam a viver em resquícios de euzebiozinhos  retratados pela crítica social do imortal  Eça , em “Os Maias””. Por seu turno, Ramalho Ortigão  dedicou uma vastíssima obra de inegável valor literário  em defesa das práticas corporais, por ele próprio seguidas, quando, por exemplo,  escreveu: “Creio que nasci  para homem de forças, para Hércules de feira”. Em tempos mais chegados, Almada Negreiros, tido por Bigotte Chorão, “talvez, como a personalidade mais completa e complexa e fascinante da cultura portuguesa do século XX”, escreveu: “É preciso criar a adoração dos músculos". E os exemplos estão bem longe de esgotados.

Em paciência de Job, “last but not least”, cito, ainda, este seu naco de prosa em que, pelo andar da carruagem,  me  deseja incluído no  rol “de tipos que acham que os professores licenciados ou douturados  são superiores como professores a um mestre relojoeiro ou um electricista dum colégio de salesianos há umas décadas atrás”. Nem por sombras, e para o desdizer, nesse seu engano, ou simples precipitação, transcrevo, por comungar do ponto de vista, de Gustave Le Bon: “Grande número de políticos ou universitários, carregados de diplomas, possuem uma mentalidade de bárbaros e não podem, portanto, ter por guia na vida senão uma alma de bárbaros”.

Entendo que a este respeito, não devo, nem quero,  ser juiz em causa própria, limitando-me, como reforço,  a apresentar um testemunho  que mostra o meu respeito por diplomas do antigo ensino técnico. Escrevi, então  neste blogue, o seguinte post intitulado “A Mística da Escola Industrial de Lourenço Marques" (05/05/2012). Por acreditar, a exemplo de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1855), que “em todas as decadências o primeiro sintoma é o da decadência do sentimento da amizade”, reproduzo-o abaixo:

Como me competia, enviei um mail ao aluno Augusto Martins, que subscreve a mensagem que será reproduzida no fim deste texto. Nela solicitava-lhe autorização para a publicação de um valioso testemunho seu, sobre a “nossa” Escola Industrial de Lourenço Marques, prova viva de uma perfeita sintonia de amizade e respeito entre professores e alunos.

Clima este que não é demais enaltecer num período em que os  académicos, os políticos, os professores, os pais e o próprio homem comum, discutem a forma de inverter o que se passa de mal nas nossas escolas sem, por vezes, terem em  devida conta serem elas o  cadinho em que a sociabilização da juventude encontra um dos esteios mais sólidos  num mundo em declarada decadência de valores ancestrais e em plena convulsão em que, para utilizar uma imagem desgastada pelo (ab)uso, “ o ter se sobrepõe ao ser”.

O testemunho deste aluno transmite-nos a mensagem de que a  “Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque”, de Lourenço Marques, foi um alforbre de valores caldeados na sã e constante  convivência estabelecida entre professores e alunos, para além do estrito cumprimento de horários (a toques estridentes de campainhas), de regras ditatoriais, obrigação em  debitar matéria e servidão a funções meramente burocrática, etc. Aliás, princípios teorizado por  Serras e Silva (1868-1965), professor catedrático de Medicina da Universidade de Coimbra, ao defender:

”A convivência dos mestres e alunos, fora das aulas, pode fornecer elementos valiosos, no sentido da formação moral, muito mais úteis que as noções repetidas pelos compêndios, durante as lições. Quantas vocações têm sido determinadas por esta convivência, de que os nossos mestres são avaros por costume, por falta de tempo e ocasião. O mestre digno deste nome, que se isola e se furta ao convívio dos discípulos, é valor que se perde, capital que não produz. Dar ao estudante o gosto das coisas nobres e delicadas, das coisas grandes, de grandeza moral, como o sacrifício, a invenção, a utilidade geral, é fazer obra patriótica, verdadeiramente nacional. A melhor influência do mestre não é a que se exerce nas aulas, não é a que incide na matéria do exame, é  a que forma o bom senso, o carácter, a que faz respeitar a lei moral”.

Devido à minha ignorância informática (hoje dá-se-lhe um nome bem menos agreste de iliteracia!) não chegou esse mail ao seu destino. A insistência minha, obtive a autorização para a sua publicação com interesse, para além de tudo o mais, que bem pouco não é, pela referência que faz à  mística de uma saudosa e sempre presente escola na vivência do nosso dia-a-dia. 

Sem mais delongas ou comentários que possam deslustrar por não estarem à altura da mensagem,  depois de obtida hoje essa autorização,  aqui estou eu, jubilosamente, a dela dar o devido destaque transcrevendo-a na íntegra:

“Prezado Professor Rui Baptista:

Quero começar por lhe endereçar os meus sinceros agradecimentos pela sua presença na nossa confraternização de sábado passado. Foi com particular emoção que tive o prazer de lhe dar um respeitoso abraço, com a consideração que lhe devo, pelo facto de o ter tido como meu professor. Um desses verdadeiros professores de antanho. Daqueles que, além da matéria prevista pelo respectivo programa escolar, tinham a capacidade de nos mostrarem os verdadeiros caminhos que nos estavam reservados pela vida. Acho que este almoço foi mais uma das ocasiões em que se provou o real valor da camaradagem e do reconhecimento dos alunos ao seu mestre. Desejo-lhe muita saúde e a força necessária para continuar a servir-nos de exemplo.
Peço que aceite os meus mais respeitosos cumprimentos.

Augusto Martins”.


E se a vida de amanhã é o que for a escola de hoje, como nos legou  António José Saraiva – segundo  Eduardo Lourenço, “uma referência  chave da cultura portuguesa"-  o exemplo dos alunos da“nossa”  Escola Industrial  comprova essa realidade pelos exemplos colhidos neste testemunho. Bem hajam, portanto, os alunos de um estabelecimento de ensino que formou gente que faz da gratidão um dos grandes  valores dos seus diplomas”.

Ponto final parágrafo sem antes, porém, não poder deixar de lhe pedir que leia com atenção, e sem qualquer “parti pris”, a carta de João Boaventura sobre a Ordem dos Professores por mim a transcrever brevemente.A partir dela melhor poderá ajuizar da injustiça de comentários por si feitos.

sexta-feira, 29 de Março de 2013

100 pessoas

Uma maneira intuitiva de representar dados estatísticos é falar apenas de 100 pessoas, em vez de percentagens. Se o mundo tivesse apenas 100 pessoas, quantas falariam português, por exemplo? A resposta é 3:

12 falariam chinês
5 falariam espanhol
5 falariam inglês
3 falariam árabe
3 falariam hindi
3 falariam bengali
3 falariam português
2 falariam russo
2 falariam japonês
e 62 pessoas falariam outras línguas

Outras estatísticas apresentadas deste modo intuitivo encontram-se no site 100people.org.

Sobre a Ordem dos Professores e "In Memoriam" de João Boaventura (1)

“Cada velho que morre é uma biblioteca que arde” (provérbio árabe).

Sobre o malfadado tema da Ordem dos Professores, haja esperança e optimismo. Recorde-se que as “obras de Santa Engrácia”, iniciadas em 1681  só foram terminadas em nossos dias!
E talvez porque me fiz personagem autoral da publicação do livro “Do Caos à Ordem dos Professores" (subsidiado pelo Sindicato Nacional dos Professores Licenciados), de numerosos artigos de jornais e de post’s neste blogue, enquanto presidente da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL), e mesmo antes e depois, assumo-me teimosamente como defensor de uma organização profissional de direito público dos professores.  Como diria Eça, com o “odiozinho e cicuta servida às colheres” pelos seus opositores, embora sem razões sustentadas.

Mas vamos ao assunto que me traz à presença do leitor. Por António Mouzinho (que tem colaborado com o DRN em valiosos  temas educativos) foi enviado a Carlos Fiolhais um mail que , por sua vez,  mo endereçou. Nele, o seu remetente “entende que a Ordem dos Professores é complicada de estatuir, mas é indispensável”. E formula, também, a pergunta: “Sabe em que param as modas da nebulosa Ordem dos Professores?”

Cumprindo  o amável endosso de Carlos Fiolhais, aqui vai uma resenha da odisseia do SNPL para que permaneça na memória dos seus opositores (v.g., Fenprof e sucessivos ministros da Educação) e para que os seus outros detractores se não possam enfeitarem com penas de pavão que lhes não pertencem. Em nome do seu a seu dono e porque como diz o povo, “o futuro a Deus pertence”, atenho-me, portanto, a uns tantos acontecimentos devidamente documentados. Isto é,  não suportados  por palavras ocas que passam de boca em boca a belo prazer de conveniências ocasionais.

“Ipso facto”, remetendo-me,  apenas, a matéria probatória, reporto-me a uma peça do jornalista João Costa Dias, publicada no “Correio da Manhã” (17/07/1992) com o sugestivo título “Professores Querem Ordem”. Pela sua extensão, transcrevo-a parcialmente:

"Para reflectir sobre a situação actual no ensino, o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados deu ontem uma conferência de imprensa em Lisboa, onde defendeu a necessidade da criação imediata de um Ordem para a Classe.
(…) Para o SNPL, a existência de professores, sem as devidas qualificações científicas, que conseguem em pequenos cursos de actualização, o grau de licenciatura em escolas privadas de credibilidade duvidosa, são um ultraje à credibilidade duvidosa, são um ultraje às  universidades, pelo que urge dignificar não só o estatuto da carreira docente mas dignificar o próprio ensino ministrado nas universidades”.

A propósito, chamo a atenção para o facto da docência do 2.º ciclo do ensino básico, até então a cargo exclisivo de professores licenciados por universidades, ter passado a ser facultada também a antigos professores diplomados pelas Escolas do Magistério Primário, através de pequenos cursos de actualização obtendo aí o grau de licenciatura em escolas privadas de “credibilidade duvidosa”. Ou seja, coadjuvados por ideias  de cérebros da 5 de Outubro que congeminaram que diminuindo a formação dos professores do 2.º ciclo do básico melhoravam o rendimento escolar dos respectivos alunos.

Mesmo antes de uma medida que passou a igualizar desiguais, grande contingente de antigos diplomados pelas extintas escolas do Magistério Primário apressaram-se em criar a Associação Nacional de Professores do Ensino Básico, génese da actual Associação Nacional dos Professores de que foi presidente o actual secretário de Estado dos Ensinos Básico e Secundário, João Granjo, habilitado com o diploma do  antigo Magistério Primário e o Curso Superior Especializado em Administração Escolar pelo Instituto de Ciências Educativas.

Da Associação Nacional dos Professores, de que retenho notícias publicadas sobre o que se ia passando entretanto, neste verdadeiro calvário de Heródes para Pilatos,  menciono  a “Cerimónia de Encerramento do Encontro Nacional de Professores” (03/02/2005). Nela,  João Granjo, então seu presidente,".em contas suas disse:“No prazo máximo de dois anos o processo deverá estar concluído”.

Aliás, a “Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores” (1997), da minha autoria e de Maria José Iria e Carlos Sarmento (com apoio logístico e financeiro do SNPL) prestigia os presidentes dos respectivos Colégios da Especialidade  pela exigência do grau de doutor (respectivo artigo 62.º). Esta proposta, impressa em pequeno livro, foi entregue em mão pelos dirigentes do SNPL ao presidente da Assembleia da República, João Mota Amaral.

E para que a panóplia das associações socioprofissionais, que se assumem em defesa de uma Ordem dos Professores, fique completo refiro a existência da Associação Sindical Pró Ordem dos Professores, em cujo logótipo o corpo das letras impressas que designam  “Ordem dos Professores” têm tamanho bem maior do que o das letras “Associação Sindical Pró”. Este facto tem dado azo, por vezes, à confusão da existência (inexistente!) de uma Ordem dos Professores.

Mais tarde, o SNPL apresentou na Assembleia da República  uma petição com  7857 assinaturas que seria aí debatida (25/02/2004) com o parecer favorável do CDS/PP e desfavoráveis das restantes bancadas do hemiciclo.  Reza a declaração do deputado Abel Baptista, em representação do CDS/PP, o seguinte: “Ao contrário do que diz o Partido Socialista, entendo que a criação da Ordem dos Professores acrescentaria, desde logo, a dignificação da actividade docente que, ultimamente, tem andado muito mal e sido  criticada pelo actual Governo”. E acrescentaria, ainda: “Nesta medida, julgamos que a Ordem dos Professores pode e deve ser criada”.

Sintomaticamente (ou não) o relator do parecer do Partido Socialista  foi o deputado João Bernardo, vice-secretário geral do Sindicato Nacional e Democrático dos Professores (SINDEP), sindicato pouco receptivo à criação da Ordem dos Professores, e professor do antigo ensino primário (actual 1.º ciclo do básico). Os factos que aqui relato, estão documentados num artigo meu de opinião publicado no “Jornal de Notícias” (08/03/2006), a página inteira.

É natural que aqui chegado o leitor se interrogue sobre  a referência no título deste post a João Boaventura, meu companheiro de estudo,  colega de Curso e de percurso nas lides jornalísticas, em terras de Moçambique onde ambos exercemos a docência no ensino secundário na  então Lourenço Marques, hoje Maputo. A resposta será dada em meu próximo post em que transcrevo na íntegra uma sua carta ao director do “Diário de Coimbra” (02/03/2006), intitulada: “A petição da Ordem dos Professores pela negativa”.

Na sua carta, subjaz o espírito de uma prosa suportada  por uma cultura invejável ( e como lhe assenta como uma luva o provérbio supracitado: “”Cada velho que morre é uma biblioteca que arde”). Prosa denunciada em post’s da sua autoria publicados  neste blogue e em inúmeros textos que publicou pela vida fora, uma vida plena de oito decénios que não me permite deslustrar com pinceladas desastradas  um valiosíssimo currículo. Nem a sua modéstia em vida, por maior que fosse o meu estro prosador, permitiria tal atrevimento.

Por isso,  passados escassos dias do seu falecimento (26/03/2013), a minha saudade e a minha sentida e singela homenagem de gratidão (que  lhe dispensei apenas em pensamento em vida ) pela sua análise mordaz e premonitória sobre a Ordem dos Professores que irei transcrever na esperança de que a respectiva criação, contras ventos de má vontade e marés de desesperança,  há-de chegar mesmo num país sebastianista por mau fado e tradição secular. Já em finais do século XIX bem nos avisou Antero: “A nossa fatalidade é a nossa história”!

P.S.: Em próximo e brevíssimo  post será transcrita integralmente a carta de João Boaventura

Acordo ortográfico (AO) luso-francês


O ensino português anda agitado por tiques nervosos. Bate os braços, para fingir que nada; boia sofrivelmente, para fingir que navega; usa o acrónimo e o acordo, entre outros mimos literários, e vai progredindo na insanidade.
Os acrónimos, quase invariavelmente, tornam obscura a designação clara. O acordo, ufano, cria insuperável distância na aproximação. Tudo isto é encarado como conveniente, note-se.
Tenho seguido com algum interesse o debate público (DP) e alguns privados (AP) sobre o acordo ortográfico (AO). Estou, nessa matéria, em posição acrobática: como professor do ensino secundário público (ESP, o mesmo que extrasensory perception), vejo-me compelido a praticar o acordo (PA); como leitor de «Acordo ortográfico: a perspectiva do desastre», de Vasco Graça Moura (Lisboa: Alêtheia, 2008), vejo-me inclinado a mandar o acordo às urtigas (MAU); como preguiçoso habitual, vejo-me tentado a usar uma única grafia (UUUG); como cidadão responsável, não sei de todo o que fazer, pelo que vou assinar a iniciativa legislativa de cidadãos (ILC) porque sim (PS).
Sinto, no entanto, que alguma coisa há de aproveitável no acordo: sou o feliz proprietário de um Kindle, o que me permite passear por todo o lado com uma biblioteca no bolso. Quando deste retiro o apetrecho, até posso trocá-lo pelas mãos — que ficam quentinhas —, já que consigo passar páginas com o nariz (evito, quando estou constipado). Ora, um dos textos que tenho no meu Kindle, reza assim:
O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival. No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro. E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora. Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em Paris, nos Campos Elyseos, n.º 202.
 (Porto, Livraria Chardron de Lello & Irmão, editores, 1901)
Onde é que entra o acordo? Aqui: fui a Paris, há uns anos, para me confrontar com o 202, e Franceses maus e iletrados tinham removido o prédio. Nada no texto acima me provoca a menor comichão, exceto (excepto, para algum Leitor Angolano) que Eça de Queirós não pode ser devidamente apreciado sem um tipo qualquer de uniformização de endereço.
Por consequência, julgo que se impõe a atualização ortográfica (actualização, para algum Leitor Moçambicano) de «A cidade e as serras»: ao auctor não fará diferença, que é homem de sossego, os Parisienses entenderão melhor a versão para francês, e os turistas Portugueses não passarão por tolos a procurar o 202 na Av. de la Grande-Armée. Como o homem é escritor, penso que o 152 serve: está lá a Montblanc, sempre haverá tinta à discrição.
António Mouzinho
P.S. (não de «porque sim», mas de «post scriptum»): julgo, com isto, poder ter contribuido para a resolução de uma das questões fundamentais do debate sobre AO («adresse optionnelle», no caso).
AM

Activismo e honestidade intelectual

O activismo político é incompatível com a honestidade intelectual, ou pelo menos o convívio entre os dois é difícil. Tudo começa com a necessidade de apresentar raciocínios e factos de um modo que sejam realmente persuasivos para as pessoas, tal como elas são, e não tal como deveriam ser. 

Quando defendemos ideias correctamente, num contexto académico, fazemo-lo, pelo menos idealmente, tendo em mente um leitor imparcial, atento, inteligente e capaz de objectivamente e com cuidado analisar os raciocínios e factos que apresentamos. Infelizmente, a maior parte das pessoas estão longe de ter estas qualidades, deixando-se mais facilmente persuadir por uma tirada memorável do que por um raciocínio cuidadoso, por um factóide caricatural, do que por um facto complexo. Ora, o objectivo do activismo não é a verdade, nem o debate sobre o que é ou não verdadeiro, mas antes a mudança política, social, económica ou outra. O objectivo do activismo é engrossar as fileiras dos que gritam em prol de algo, pois sabe-se que quando muita gente grita em prol de algo, os bananas dos políticos vão logo atrás dizer que sim, que é isso mesmo que querem (porque é isso que dá votos). Ora, não se engrossa fileiras com raciocínios complexos e factos difíceis de apreender. Daí que a ciência e o activismo, a honestidade intelectual e o activismo, tenham um convívio difícil, para dizer o mínimo.

O mais recente caso de atropelo da verdade e conduta intelectualmente reprovável por parte de um cientista em prol do seu activismo foi o de Jane Goodall, figura simpática que ninguém quer criticar nem pôr em causa. Do muito que já se escreveu sobre o caso, o mais honesto e informativo foi o artigo de Michael Moynihan, no The Daily Beast. Vale a pena ler, discutir e reflectir. 

quinta-feira, 28 de Março de 2013

Incompetência, descoordenação e irresponsabilidade

Vale a pena ler o documento que Vasco Teixeira, director da Porto Editora, entregou na Assembleia da República e disponibilizado aqui. Dificilmente se pode afirmar que a Porto Editora tem objecções de fundo à nova ortografia; na verdade, é até acusada por algumas pessoas menos informadas de pertencer ao grupo dos conspiradores que querem ganhar dinheiro com novos dicionários. Parece-me, pois, que mesmo os defensores do Acordo Ortográfico (AO), terão de reconhecer todos os pontos sublinhados por Vasco Teixeira, e concluir que, no mínimo, o AO precisaria de profunda revisão. E isto por duas razões muito simples. 

Primeiro, o texto do acordo é uma manta de retalhos amadora, mal feita, pior pensada, incoerente, tecnicamente vergonhosa e que desunifica as ortografias em vez de as unir. Porquê? Porque se guia pelo critério da fonética, o que significa que a maior parte das palavras que antes se escrevia da mesma maneira em Portugal e no Brasil, como "aspecto", agora se escrevem de maneira diferente (com c no Brasil, sem c em Portugal). Além disso, ao mexer no que não precisava de mexida porque já era igual (os hífenes), e porque o texto do acordo é infantil, introduz as arbitrariedades interpretativas ilustradas por Vasco Teixeira: o resultado óbvio do acordo é que cada pessoa, cada livro, cada país, acaba por usar ou não hífen consoante lhe der na telha. 

Segundo, o próprio AO já é ilegal do seu próprio ponto de vista. Pois o AO era entendido meramente como um documento técnico de trabalho (péssimo começo, mas paciência) para se fazer um vocabulário universal da língua portuguesa. Ora, a primeira coisa que aconteceu assim que o Brasil adoptou o AO foi fazer o seu próprio vocabulário, à sua maneira, sendo que depois Portugal desatou a fazer outro e agora temos por isso dois vocabulários: e não temos, pois, como os castelhanos, um só vocabulário da língua portuguesa. 

O AO é ilegal. Está tecnicamente errado. É educativamente um desastre. É culturalmente uma perversão. É economicamente desvantajoso para Portugal, e politicamente um suicídio. Deve ser imediatamente abandonado. Faça a sua parte: assine a Iniciativa Legislativa de Cidadãos, defenda a sua língua.

David Deutsch On Artificial Intelligence

David Deutsch On Artificial Intelligence
http://www.aeonmagazine.com/being-human/david-deutsch-artificial-intelligence/
It is ironic that mainstream psychology has largely renounced behaviourism, which has been recognised as both inadequate and inhuman, while computer science, thanks to philosophical misconceptions such as inductivism, still intends to manufacture human-type cognition on essentially behaviourist lines.
(via Instapaper)

Anonymous Comments, Gutless Trolls, and Why It's Time We All Stop Drinking This Digital Poison

"Reading a book over Christmas about the Nazi rise to power in Germany, I found that many NSDAP (Nazi party) threats in the thirties did read like web insults."

http://www.commondreams.org/view/2013/01/11-7

quarta-feira, 27 de Março de 2013

HUMANISMO, DIÁSPORA E CIÊNCIA NO PORTO


ANA EIRÓ CONVERSA AO FIM DA TARDE NO RÓMULO


PORTUGAL EM QUEDA



Meu artigo de opinião no "Público" de hoje:

Habituados como estamos às más notícias já nem reagimos quando surge mais uma. A notícia vinda das Nações Unidas devia ter provocado ondas de choque, mas deixou-nos indiferentes. No relatório que acaba de ser publicado, baseado em dados de 2012, Portugal caiu dois lugares no Índice de Desenvolvimento Humano, estando agora na modesta 43.ª posição, na cauda da primeira liga e quase a ser despromovido para a segunda. Essa queda soma-se às quedas dos anos anteriores: no relatório de 2011 tínhamos caído um lugar e no de 2010 tínhamos caído seis lugares. Já basta de tanto cair!

O referido índice classifica os países com base não apenas na riqueza, medida pelo PIB, mas também na saúde, medida pela esperança média de vida, e na educação, medida pelo número de anos na escola. Se o PIB português está dolorosamente a cair (segundo os cálculos das Nações Unidas, está a descer desde 2007, estando hoje abaixo do valor de 2000), o progresso na longevidade é apenas ligeiro (actualmente a esperança média de vida é de 79,7 anos) enquanto na escolaridade há estagnação (nuns confrangedores 7,7 anos de escolaridade média na população adulta). No global, e devido ao declínio económico, o nosso índice está desde o início desta década praticamente imóvel após décadas de crescimento. E, em contraste connosco, a maior parte dos países estão a desenvolver-se, alguns ultrapassando-nos. O relatório chama precisamente a atenção para a acentuada subida de numerosos países, principalmente do hemisfério sul. Em todo o mundo, os “campeões” da descida, em valor absoluto, são a Grécia e a Líbia, com Portugal logo a seguir, com quedas semelhantes às de Chipre, Barbados, Zimbabwe e Madagáscar. Repito para que conste: à escala planetária, em 186 países há apenas sete nações a descer e a portuguesa é uma delas.

Quem são os responsáveis? A principal culpa é, obviamente, dos maus governos que temos tido. Os professores Daron Acemoglu e James Robinson, do MIT e de Harvard respectivamente, no seu livro “Porque Falham as Nações” (Temas e Debates, 2013) informam-nos, com abundantes e eloquentes exemplos, que a falta de prosperidade dos países não tem a ver nem com a geografia nem com a cultura, mas sim com o funcionamento das instituições políticas. Os nossos “anos perdidos” no passado recente não eram uma fatalidade, atribuível à nossa situação no mundo ou à nossa particular tradição, mas sim uma consequência dos nossos erros políticos e económicos. Acrescem, claro, os erros alheios, pois a Europa não está bem: vão longe as expectativas de crescimento da Estratégia de Lisboa no ano 2000.

Os governos que elegemos nos últimos anos têm rostos. Independentemente das responsabilidades que não são poucas dos governos anteriores (António Guterres já assumiu uma quota parte), elas são de José Sócrates, que governou de 2005 a 2011, e de Pedro Passos Coelho, que governa desde 2011. O primeiro – os números não enganam – governou mal e o segundo – os números voltam a não enganar - está a governar mal. Não interessam nesta altura a não ser ao próprio as justificações de Sócrates em penosas prédicas televisivas. Ele já foi afastado por eleições de um modo claro. Uma vez que o governo anterior já foi mudado, resta-nos mudar o actual governo. As próximas eleições autárquicas vão ter uma leitura política nacional, ao revelar nas urnas a grande angústia das pessoas. E, como Passos Coelho já afirmou querer que se “lixem as eleições”, será provavelmente feita a sua vontade nas legislativas de 2015, que ele com grande antecedência já vê perdidas.

Poderá Passos Coelho fazer alguma coisa para evitar a sua queda, que decorre da queda do país? Sim, pode ainda mudar alguns dos seus ministros e secretários de estado. Não podendo alterar a troika externa, que nos manieta a todos, pode mexer nessa troika interna que o assessora, formada pelo inefável Miguel Relvas, pelo desacreditado Vítor Gaspar e pelo desorientado Carlos Moedas. Sendo Passos Coelho político desde que nasceu deveria saber que está a ser arrastado para  mais fundo pelos seus colaboradores mais próximos. Neste momento, os seus eleitores não estão com ele, o seu partido dificilmente está com ele (é público e notório que os “barões” não estão, multiplicando-se em comentários televisivos) e o seu parceiro de coligação só finge que está com ele (Paulo Portas, matreiro, deixa que os outros digam o que ele pensa).

E a oposição? Que diz António José Seguro? Se não há confiança no governo, menos há na oposição. O líder da oposição vê o país em queda, vê o governo em queda e nada mais lhe ocorre do que esperar que um e outro caiam mais. Não oferece solução nenhuma. Eleições agora para quê? Não esqueçamos, como mostram os dados das Nações Unidas, que a queda do país não é de hoje e que o maior partido da oposição é co-responsável por ela.

O AVANÇO DA CIÊNCIA E O RECUO DE DEUS


Primeira parte do prefácio de Álvaro Balsas, coordenador do livro com o título de cima que acaba de sair na editora Fonteira do Caos: 

"Fé e Ciência – neste volume, Ciência é entendida no sentido exclusivo de ciência dos fenómenos naturais – têm constituído na história do pensamento humano, desde há muito, dois pólos de uma carregada e extenuante tensão. E ainda hoje, embora essa tensão adquira, agora, novos contornos.

De facto, os recentes avanços e êxitos da ciência, bem como a sua omnipresença no dia-a-dia das sociedades contemporâneas – onde as novas tecnologias vão introduzindo novos hábitos e estilos de vida; novas formas de comunicação, de pensamento e de aquisição de conhecimentos; novas concepções da economia, da arte, da ética, etc. –, parecem desafiar as concepções religiosas estabelecidas no passado e, nomeadamente, a concepção cristã de Deus.

Perante este coetâneo quadro cultural em que vivemos, no qual a ciência invade cada vez mais os diversos âmbitos da experiência e do pensamento humanos, especialmente em áreas que no passado eram reservadas à filosofia e à teologia, a Deus não parece restar outra alternativa senão a da perda do direito de cidadania e a consequente retirada para o baú das velharias, porque sobra e está a mais. xxxxxx Segundo os mais prestigiados arautos do chamado “novo ateísmo”, a ideia de Deus é nociva para a humanidade, impedindo mesmo o seu desenvolvimento e contribuindo para fazer aumentar o ópio do povo. Entre tais arautos, têm-se destacado, os chamados “quatro cavaleiros” do novo ateísmo – Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett e Christopher Hitchens – que têm travado uma intensa batalha contra o que eles consideram ser a ignorância, a superstição e os mitos religiosos, com o objectivo de “provar” que apenas as visões do mundo puramente naturalistas e ateias são necessárias e benéficas para o desenvolvimento das sociedades.

 Para eles, só o conhecimento científico permitirá, finalmente, desterrar a “ilusão de Deus” – como propõe, aberta e radicalmente, Richard Dawkins na sua recente e amplamente divulgada obra A Desilusão de Deus –, ou, simplesmente, “desterrar as sombras da magia e do mistério que, no passado, envolveram o conhecimento [do mundo e] de nós mesmos” – como defende, de maneira mais suave, Francisco Mora, autor de Neurocultura: Uma Cultura Baseada no Cérebro, cultura essa que, segundo ele, compreende um conjunto tão diversificado de áreas como a neuroética, a neurosociologia, a neuroeconomia e a neuroarte. O movimento neo-ateísta tem-se difundido amplamente até chegar a invadir o espaço público. São conhecidas as manifestações recentes da colocação de frases nos autocarros ingleses afirmando que “There’s probably no God. Now stop worring and enjoy your life” – em resposta a idênticas frases propagandísticas colocadas por cristãos evangélicos, onde se prometia o inferno para os não crentes –, iniciativa que rapidamente se alastrou por outras cidades do mundo; ou as manifestações ocorridas nos últimos meses em vários campus universitários espanhóis, onde grupos de estudantes tentaram impedir a realização do culto católico dentro das capelas universitárias. Além disso, tem também aumentado o número de sítios na internet de movimentos ateístas e de portais ateus, nos quais se veicula a ideia de que a Religião, e o Cristianismo em particular, promove a ignorância, da qual as pessoas só podem ser salvas por meio da ciência.

 A serem verdadeiras as teses do novo ateísmo, que pintam Deus em franca retirada e em inevitável recuo, surgem, de imediato, no nosso espírito várias questões que reclamam ser aclaradas e debatidas: Para quê Deus, se já temos Ciência? A Ciência tem, realmente, razões que tornam a fé em Deus obsoleta? A crescente extensão da esfera da explicação científica a domínios que outrora pertenciam ao âmbito da teologia e das “humanidades” implica necessariamente o abandono definitivo da ideia ou hipótese de Deus? A Ciência dá respostas a todas as perguntas sobre o mundo que nos rodeia e sobre o lugar que ocupamos nele? A explicação científica é mesmo omnicompreensiva e pode abranger todos os âmbitos da experiência humana no mundo? Toda a argumentação não científica é irracional? A Ciência esgota o campo da racionalidade e do pensamento crítico? Há limites ao poder explicativo da Ciência? A explicação teológica é criticamente fundamentada ou assenta em dogmas irracionais? Que possibilidades existem para um encontro real entre Ciência e Fé em Deus: Conflito intransponível? Inimizade irreconciliável? Independência? Diálogo? Integração? Contributos mútuos? A Fé em Deus traz ou não benefícios para as sociedades? Estas questões não têm resposta simples, e menos ainda simplista, dada a complexidade, a amplitude, as ramificações e, até, as subtilezas, inerentes às matérias envolvidas.

 Foi sobre estas relevantes questões que diversos intervenientes, todos académicos e investigadores de profissão, aceitaram reflectir e debater num encontro que teve lugar em Braga, em 18 de Outubro de 2008, sob os auspícios da Faculdade de Filosofia, da Universidade Católica Portuguesa. E fizeram-no com singular competência e mestria. O resultado das suas reflexões e pontos de vista passa, agora, a transcender, pela presente publicação, os muros da academia para ser disponibilizado ao grande público, sobretudo, aos leitores mais interessados nestas temáticas. Os estudos e ensaios que se reúnem neste volume – e que passamos a descrever – evidenciam diferentes perspectivas e pontos de vista, apesar de algumas serem bastante convergentes."

terça-feira, 26 de Março de 2013

Audiência de Vasco Teixeira, director da Porto Editora

http://ilcao.cedilha.net/?p=10262

«Uma fervente sopa de letras» [Nuno Pacheco, "revista 2", 24.03.2013]

Depois de tanta esperança e de tanto esforço

Nas últimas duas décadas tem sobressaído um certo tipo de discurso sobre a educação para a cidadania, além de que se encontra invariavelmente representado nas orientações internacionais para a educação formal e, em sequência, nas directrizes curriculares nacionais.

A cidadania tornou-se um tema de tratamento obrigatório em todas as escolas, por todos os educadores e professores, desde o jardim-de-infância até ao ensino secundário e também no ensino superior.

As áreas disciplinares e disciplinas foram reconvertidas para abordar na perspectiva da educação para a cidadania os temas que lhes são específicos, ou pelo menos alguns deles. Além disso, a cidadania foi estabelecendo os seus próprios temas, que não param de se desdobrar: educação para a saúde, rodoviária, para a paz, para a convivência, para a multiculturalidade, para a diferença, etc, etc, etc,

A educação para a cidadania tornou-se o centro do currículo escolar.

Isto no pressuposto de que seria a (única) solução para acabar com os males da humanidade: poluição, racismo, obesidade, violência, desigualdade, comportamentos de risco e tudo o mais que impedisse a harmonia e a felicidade na terra...

Depois de tanta esperança e de tanto esforço, eis que um sujeito ainda jovem, com pelo menos doze anos de aprendizagem da cidadania, saiu-se, em público, com uma expressão simples de entender e, seguramente, representativa do modo de pensar vigente. A expressão foi "peste grisalha". O sujeito ainda jovem integra o governo da nação. A nação, deixou breves apontamentos, mas não estremeceu. E tudo já foi esquecido.

Mas não devia. Porque este tristíssimo caso é (mais) uma evidência do falhanço do caminho que trilhamos na educação para a cidadania.