THE PORTUGUESE RECTORS ON THE EUROPEAN SCIENCE FOUNDATION EVALUATION

quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013

Quatro novas publicações da Classica Digitalia

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Quatro novas publicações da biblioteca Classica Digitalia, uma das quais de parceria com a Imprensa da Universidade de Coimbra

Série “Varia” (Estudos)

- Walter de Medeiros, O canto das fontes – Hélade e Roma. Luzes e afetos de uma vida. Vol. I (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2012) 165 p. PVP: 20 € / Estudantes: 16 € [capa dura]

- Walter de Medeiros, O canto das fontes – Hélade e Roma. Luzes e afetos de uma vida. Vol. II (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2012) 164 p. Hiperligação: : 20 € / Estudantes: 16 € [capa dura]

Série “Mito e (Re)escrita” (Estudos)

- Maria de Fátima Silva & Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa (coord.), Ensaios sobre Mário de Carvalho (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, Classica Digitalia) 303 p.  PVP: 16 € / Estudantes: 12 €

Série “Humanitas Supplementum” (Estudos)

- Aurora López, Andrés Pociña & Maria de Fátima Silva, De ayer a hoy: influencias clásicas en la literatura (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2012). 594 p. PVP: 35 € / Estudantes: 27 € [capa dura]

Nota: Todos os volumes são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço direto é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso.

HUMOR: A EVOLUÇÃO DO ZÉ POVINHO


HUMOR: Guia prático da ciência moderna

Disciplinas da Ciência:

1. Se mexer, pertence à BIOLOGIA;
2. Se cheirar mal, pertence à QUÍMICA;
3. Se não funcionar, pertence à FÍSICA;
4. Se ninguém entende, pertence à MATEMÁTICA;
5. Se não faz sentido, pertence à ECONOMIA ou à PSICOLOGIA;
6. Se mexer, cheirar mal, não funcionar, ninguém entender, não fizer sentido, é INFORMÁTICA.

Lei da Procura Indirecta:

1. O modo mais rápido de se encontrar uma coisa é procurar outra;
2. Encontramos sempre o que não estamos a procurar.

Lei do Telefone

1. Quando te ligam:
   - se tens caneta, não tens papel;
   - se tens papel, não tens caneta;
   - se tens papel e caneta ninguém te liga;
2. Quando ligas para um número errado, esse número nunca está ocupado.

Parágrafo único: Todo o corpo mergulhado numa banheira ou que se encontre debaixo de um chuveiro faz tocar o telefone.

Lei das Unidades de Medida:

Se estiver escrito 'Tamanho Único' é porque não serve a ninguém, muito menos a ti.

Lei da Gravidade:

Se conseguires manter a frieza quando todos à tua volta estão a perder a
cabeça, provavelmente é porque não estás a perceber a gravidade da situação.


Lei dos Cursos, Provas e Afins:

80% da prova final será baseada na única aula a que não foste e no único livro que não leste.

Lei da Queda Livre:

1. Qualquer esforço para se agarrar um objecto em queda provoca mais destruição do que se o deixássemos cair naturalmente;
2. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo é proporcional ao valor da carpete.

Lei das Filas e dos Engarrafamentos:

A fila do lado anda sempre mais rápido.

Parágrafo único: Não adianta mudar de fila. A outra é sempre mais rápida

Lei da Relatividade Documentada:

Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual de instruções.

Lei da Vida:

1. Uma pessoa saudável é aquela que não foi suficientemente examinada;
2. Tudo o que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda.

Lei da Atracção de Partículas:

Toda a partícula que voa encontra sempre um olho aberto

quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013

Era uma vez... com Ciência

Vale a pena ler

Era uma vez... com Ciência, de A. M. Galopim de Carvalho com  ilustração de Francisco Bilou da Âncora Editora.


Todas iniciadas pela tradicional “Era uma vez…”, as sete histórias que integram o presente livrinho, utilizam a ficção, ao estilo dos contos infanto-juvenis, falam com simplicidade, mas sem perda de rigor científico, de temas de geologia, mineralogia e paleontologia, de grande utilidade no dia-a-dia do cidadão. O autor escreve, desta vez e em especial para os mais jovens, numa linguagem que não desmerece os mais crescidos, interessados em ler o que se procura ensinar.

Gás Cianeto (o mesmo usado nas câmaras de gás nazistas) na tragédia de Santa Maria?

Um pedido de doação de medicamento, feito pela diretora de enfermagem do Hospital Universitário de Santa Maria, Soeli Terezinha Guerra, 50, ajudou a esclarecer a natureza dos sofrimentos impostos aos jovens feridos e mortos no incêndio da boate Kiss. 

 Hidroxocobalamina é o nome do medicamento solicitado. Serve para combater a intoxicação causada pelo gás cianeto, o mesmo usado nas câmaras de gás nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Era o princípio ativo do tristemente famoso Zyklon B dos campos de extermínio.
Segundo o pesquisador Anthony Wong, diretor médico do Ceatox (Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP) trata-se de um dos venenos mais letais, por sua capacidade de paralisar os mecanismos de produção de energia das células, matando-as. 

Pois o cianeto apareceu junto com a fuligem e o monóxido de carbono dentro da Kiss, como consequência da combustão dos materiais usados no revestimento acústico. 

"Não tem cheiro nem cor e é capaz de matar em um prazo curtíssimo, de quatro a cinco minutos", explica Wong. 

 A detecção do cianeto é feita por análises químicas. Mas essa suspeita já existia mesmo antes da confirmação laboratorial. "É que o gás é subproduto da combustão de materiais como espuma de poliuretano, usada em revestimentos baratos com finalidades acústicas", diz Wong.
Revestimentos acústicos de boa qualidade são antichamas e não inflamáveis, portanto não produzem o cianeto. 

A enfermeira Soeli disse ontem à Folha que o Hospital Universitário de Santa Maria já recebeu doações da hidroxocobalamina em quantidade suficiente para o tratamento dos pacientes lá internados (até ontem em número de 11). 

Mas o toxicologista da USP considera inaceitável que o principal hospital público da cidade tenha de ter contado com doações. "Na França, todos os serviços de pronto-socorro estão equipados com a hidroxocobalamina para tratar intoxicações por cianeto." 

Ele explica que, no Brasil, o medicamento (comercializado sob o nome de Rubranova) é de difícil acesso porque o laboratório que importava o sal parou de fazê-lo, e o país não o produz. Nas farmácias, o sal também não é vendido. 

No Hospital Universitário, três pacientes ainda necessitam de ventilação mecânica, para conseguir respirar. E ainda há o risco de sequelas causadas por lesões nas células nervosas, fruto da falta de oxigênio. Esse é um resultado possível da intoxicação por cianeto, uma vez que o veneno mata as células que entram em contato com ele. 

O mais cruel do veneno é que, sem cheiro nem cor, muitos jovens acabaram intoxicados, achando que estavam protegidos por máscaras improvisadas com roupas molhadas enroladas no rosto. Se conseguiu barrar boa parte das partículas de fuligem, diz Wong, esse expediente foi absolutamente inútil contra o cianeto.( Autora LAURA CAPRIGLIONE :Publicado na  Folha de São Paulo em 30/01/2013)

O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), que deixou pelo menos 238 mortos na madrugada do dia  (27/01/2013), foi o segundo incêndio mais mortal e a quinta maior tragédia da história do Brasil.O maior incêndio brasileiro aconteceu no Gran Circo Americano, em 17 de dezembro de 1961, que deixou 503 mortos em Niterói (RJ)

Ácido cianídrico ou ácido prússico é o veneno de ação mais rápida que e conhece.

A toxicidade do íon cianeto (HCN) é conhecida há mais de dois séculos; porém, os compostos que contém cianeto são tóxicos somente se liberarem HCN numa reação. Sem dúvida alguma, o ácido cianídrico ou ácido prússico é o veneno de ação mais rápida que e conhece.


Muitos autores e histórias policiais têm utilizado, em suas obras, os cianetos de sódio ou potássio para provocar mortes misteriosas de alguns personagens. Na literatura de espionagem, por exemplo, que esteve muito em moda a partir da 2a Guerra Mundial até o fim da Guerra Fria, os espiões tinham uma cápsula desses sais embutida em cavidades dentárias. Quando presos pelo inimigo, os espiões deveriam ingerir a cápsula, a fim de evitar, pela própria morte, a revelação dos segredos durante o interrogatório.

Quando a cápsula atinge o estômago, o sal reage com o ácido clorídrico presente no suco gástrico:
NaCN(s) + HCl(aq) ⇒ HCN(g) + NaCl(aq) 

Por ingestão, a dose capaz de provocar a morte é de 1 mg por quilograma de massa corpórea. Por inalação, uma concentração de 0,3 mg por litro de ar mata entre 3 e 4 minutos.

Veja também a publicação:

Resumo da publicação:

O presente trabalho visa comparar assentos automobilísticos feitos de manta de fibra de coco com látex (MFCL) em relação à espuma de poliuretano (EPU), avaliando a possibilidade do primeiro substituir o segundo, devido ao fato da fibra natural ser biodegradável e renovável. Esses materiais foram submetidos à análise termogravimétrica (TGA), pirólise e análise dos produtos de pirólise por cromatografia gasosa acoplada ao espectrômetrode massa. Verificou-se que a pirólise a 800oC apresentou grande número de gases tóxicos, e comparando os materiais observou-se que a EPU emitiu gases mais tóxicos na combustão que aqueles produzidos pelos outros materiais sob as mesmas condições, tais como o cianeto de hidrogênio e compostos de nitrila. Quanto às análises de TGA, verificou-se que acima de 270oC inicia-se a degradação térmica de todos materiais.

http://www.abes-dn.org.br/publicacoes/engenharia/resaonline/v10n02/v10n02a07.pdf 










terça-feira, 29 de Janeiro de 2013

A tragédia de Santa Maria:As tragédias têm sempre causas técnicas e humanas!

Nós já sabíamos que a tragédia de Santa Maria iria acontecer. Nós já sabíamos que choraríamos centenas de mortes, que ficaríamos chocados diante dos aparelhos de TV, ouvindo o rádio, buscando mais informações nas redes sociais na Internet. Nós já sabíamos que passaríamos dias falando, chocados, sobre a tragédia, comentando, analisando, opinando.

Nós já sabíamos quem seriam os culpados. Nós já sabíamos que faltaria precaução, que a segurança seria analisada de forma superficial e burocrática. Nós já sabíamos que ninguém se perguntaria antes “e se acontecer um acidente, estaremos preparados? Teremos como salvar as vidas?” Nós já sabíamos que ninguém pensaria nas consequências, coletiva ou individualmente. Nós já sabíamos que ninguém examinaria seriamente os riscos envolvidos. Nós já sabíamos que todos tomariam decisões insensatas, assumiriam riscos inaceitáveis, deixariam de olhar para a frente e para as pessoas.

Nós já sabíamos que continuaríamos desperdiçando vidas jovens, recursos vitais e criativos críticos para o nosso futuro. Nós já sabíamos que ninguém levaria em consideração o valor humano e social daquelas quase duas mil pessoas, como grupo e como indivíduos. Nós já sabíamos que o espírito fraternal, a solidariedade, a identificação de cada um de nós com nossos semelhantes, só se manifestaria, como choro e revolta, depois da tragédia acontecida.

Nós já sabíamos que aceitaríamos como aceitáveis instalações inaceitáveis para eventos públicos. Nós já sabíamos que ninguém examinaria o conjunto e a interação entre suas partes: risco de incêndio; uso em excesso de material inflamável e tóxico, capaz de exalar vapores fatais em grande quantidade e pouco tempo; falta de sistemas adequados e bem dimensionados de exaustão do ar; falta de planejamento de segurança para a circulação das pessoas em circunstâncias extremas (são muitas as circunstâncias extremas muito prováveis, em eventos de massa, inclusive pânico sem razão forte. No caso o pânico era real e a circunstância, fatal.); superlotação, a mesma que vemos nos ônibus, metrôs e trens do país e que, em um acidente, aumenta o número de fatalidades inevitavelmente; pessoal de segurança treinado para a finalidade errada, não para assegurar a segurança das pessoas.

Nós já sabíamos que tudo seria tratado de forma burocrática e com descuido e desmazelo, antes da tragédia. Nós já sabíamos que ninguém assumiria a responsabilidade pela tragédia. Nós já sabíamos que enterraríamos nossos mortos em choque e com raiva.

Nós já sabemos, que daqui a algumas semanas esqueceremos nossos mortos, talvez porque estaremos chorando outros mortos nossos também, vítimas de outras tragédias que já sabemos que acontecerão. Ou talvez porque nenhuma tragédia aconteça no curto prazo, sabemos que esqueceremos tudo até a próxima, que sabemos que virá. Voltaremos à nossa rotina, à nossa vida diária, que não é fácil para a maioria de nós. Ela nos absorverá, até a próxima tragédia. Nossa indignação se esvairá como aquelas estrelinhas de bolo de aniversário. Resistentes ao sopro, mas não ao tempo breve da matéria que as anima a queimar. E esperaremos pela próxima tragédia.

Nós já sabíamos que a tragédia de Santa Maria aconteceria. Só não sabíamos que seria em Santa Maria, na boite Kiss, na madrugada do último domingo. Pusemos a culpa nos responsáveis diretos e todos tivemos dificuldade de dormir no dia seguinte. Mas não nos perguntamos sinceramente, não consultamos nossos corações para saber porque nossa indignação dura tão pouco tempo e não se manifesta de forma mais efetiva. Não nos olhamos no espelho, ao lavar o rosto e escovar os dentes para ir correndo ler os jornais do dia, ver e ouvir o noticiário que já sabíamos seria dominado pela tragédia e não nos perguntamos por que continuarmos a tolerar o intolerável por tanto tempo. As tragédias têm sempre causas técnicas e humanas. Mas são tragédias somente por causa do encontro entre a ocorrência e o comportamento humano. Tragédia nunca é destino, fatalidade, acaso. Tragédia é sempre o resultado das escolhas que fazemos.(Texto  de autoria de Sérgio Abranches)

A cada dois dias uma tragédia das proporções de Santa Maria se repete no Brasil!Será que para que seja feito algo precisamos que estas 111 mortes ocorram no mesmo local e hora?Essa série histórica mostra que o número de mortes está diretamente ligado às políticas públicas de segurança viária.Como disse o Sergio Abranches em seu texto As tragédias têm sempre causas técnicas e humanas. Tragédia é sempre o resultado das escolhas que fazemos.


When false dichotomies are neither false, nor dichotomous

When false dichotomies are neither false, nor dichotomous
http://rationallyspeaking.blogspot.com/2013/01/when-false-dichotomies-are-neither.html

When you prove, say, the Pythagorean theorem, you don't go around measuring a bunch of triangles, you begin with certain axioms and background conditions (e.g., declaring that you are working within Euclidean geometry), and then logically deduce the theorem. What's empiricism got to do with it?

Here Quine, to put it boldly, just cheated his way out of the problem. He began by saying that math was really a type of science, after which he argued that he was primarily concerned with applied math, which clearly makes contact with science and the empirical world. Yes, but most math is not applied, and even the part that is, isn't derived from science, it applies to science. Then he argued that math as a whole is justified by the fact that a part of it makes contact with the empirical world. That would surprise the hell out of mathematicians and philosophers of mathematics, and frankly, amounts to a lot of handwaving to save an extreme form of holism about knowledge that is ultimately untenable. Mathematics remains a very good example of analytic truth, pace Quine. And so does logic, by the way.

(via Instapaper)

segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

A "ração diária das crianças e dos adolescentes"

Uma colega, psicóloga e professora de psicologia, com quem costumo partilhar apreensões sobre as consequências da educação que estamos a proporcionar às novas gerações um pouco por todo o Ocidente, enviou-me um artigo de opinião da autoria do médico psiquiatra Pedro Afonso. Vindo a lume em 2012, no jornal Público, estará um pouco desactualizado em virtude da deterioração das condições económicas, mas, no essencial, traduz o que observamos de modo cada vez mais acentuado na universidade.
Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas (...) assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que a violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes.
Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária (...)
Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios (...).
Entretanto, [os governates] com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva (...) luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente

Em 2011 a China aplicou 4000 penas de morte!


Para Quando o Reconhecimento Integral das Qualificações Académicas no Ensino Básico e Secundário?



Texto recebido de  Maria Barros:
 
Durante anos, criou-se um hiato entre o Ensino Superior (Universitário/ Politécnico) e o Ensino Secundário (Básico/Secundário) com base no argumento de que o Ensino Superior era para investigadores e/ou professores – investigadores, a quem era requerida a prestação de provas académicas para obtenção de graus, e o Ensino Secundário era para os licenciados ou bacharéis profissionalizados que não tinham outra ambição senão a de lecionar. A estes não era pedido, como hoje ainda não é, qualquer grau académico acima de Licenciado na área disciplinar de docência, embora o Ministério da Educação (ME) coloque à disposição dos seus quadros concursos regulares para Equiparação a Bolseiro para efeitos de Doutoramento. 

O Estado fez, na última década, um considerável investimento na qualificação do pessoal docente integrado nos quadros. Ao abrigo do Estatuto de Equiparação a Bolseiro, o ME dispensou temporariamente alguns dos seus funcionários, a quem pagou regularmente o vencimento, a fim de desenvolver um projeto de investigação para o ensino, adquirir um grau académico de topo na área das Ciências da Educação ou na área disciplinar de docência, tendo previamente considerado a sua relevância para a construção de uma escola pública de sucesso. Ao abrigo do mesmo Estatuto, o ME dispensou igualmente, para formação avançada, embora sem vencimento, funcionários a quem fora atribuída uma bolsa de investigação para Doutoramento e Pós-Doutoramento pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), resultado de verbas comunitárias e nacionais. A par do investimento na qualificação dos seus quadros, o ME reconhecia o mérito do funcionário através de uma bonificação na mudança de escalão remuneratório, facto que hoje já não se verifica.

O princípio da mediania (mediocritas), que nivela os professores a partir do grau de Licenciado, a que acresce a sobrevalorização do critério da antiguidade, serviu, nomeadamente, para justificar diferenças de carreiras e salários entre o Superior e o Secundário, mas também, e de forma incompreensível, para alimentar um fosso salarial e uma desproporção de horas de trabalho dentro do próprio Ensino Básico e Secundário: os professores mais velhos auferem de redução letiva e de melhores remunerações (a maioria encontra-se no topo da carreira, ou próximo), independentemente das suas qualificações e do trabalho que desempenham dentro da instituição; por sua vez, os professores mais novos têm horários letivos sem qualquer redução, piores turmas, piores salários e são, em muitos casos, mais qualificados cientificamente, dado que são o produto do investimento do Estado na qualificação e modernização dos quadros da administração pública.

Se é verdade que, ao longo de muitos anos, a dicotomia entre o Superior e o Secundário bem como o fosso geracional no Ensino Básico e Secundário não eram problema, dada a exiguidade de docentes com os graus de Mestre e Doutor nos níveis de ensino não superior, hoje, a diferença tornou-se obsoleta porque não representa com fidedignidade a situação de uma parte substancial dos professores em Portugal. Este facto é tanto mais paradoxal se pensarmos que os quadros dispensados pelo ME para efeitos de qualificação avançada, aqueles justamente que poderiam inovar, argumentar ou liderar numa escola de sucesso, são os que ficam sistematicamente excluídos de qualquer reconhecimento profissional.

Pese embora algumas vozes que, ao longo destes últimos anos, se têm erigido em defesa do reconhecimento integral das qualificações académicas no que diz respeito às habilitações para a docência, foi necessário que o relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) descrevesse o sistema de ensino português para que, na opinião pública, se começasse finalmente a ouvir falar de um funcionalismo público anquilosado e pouco produtivo, em grande parte, porque se funda em critérios estritos de antiguidade e não valoriza o mérito, nomeadamente, por aquisição de qualificações académicas de topo dentro da área disciplinar em que o docente leciona, participações em projetos científicos de excelência e congéneres.  

Assim, por exemplo, imaginemos o caso de um professor Doutorado em Literatura Portuguesa, com uma Tese sobre Fernando Pessoa, eventualmente publicada, e tida como essencial para a compreensão do autor no âmbito dos Estudos Pessoanos. Imaginemos ainda que o titular da obra é docente numa Escola Básica e/ou Secundária e, por contingência, é o professor mais jovem do seu grupo disciplinar. Recordo, a este propósito, que a seriação dos docentes nos grupos e para efeitos de concurso é calculada com base numa média profissional (média de Licenciatura + média de Profissionalização), a que acresce um ponto por cada ano completo de serviço prestado após o estágio, e meio ponto se tiver sido antes da profissionalização. Admitamos que o nosso pessoano tem uma média profissional de 17 valores (17 de Licenciatura + 17 de Estágio), vinte anos de serviço pós-profissionalização, e até nos vamos esquecer de que o ME nunca solicitou, para efeitos de ingresso na Função Pública e concurso, que as universidades usassem um critério universal para o cálculo das médias (com ou sem arredondamento final). A sua média será, portanto, de 37 valores, e com ela concorrerá, ficando deste modo sujeito à obtenção ou não de vaga. Por outro lado, imaginemos que, no cume da pirâmide etária do grupo disciplinar em que o nosso pessoano se insere, está um professor Licenciado e Profissionalizado, que não é Mestre nem Doutor, e possui uma média de 12 valores (12 de Licenciatura + 12 de Estágio), a que acrescem 29 anos de serviço. O sénior terá, portanto, uma média de 41 valores e ficará à frente do pessoano para a obtenção de vaga no concurso. Na pior das hipóteses, imaginemos que, por razões de vária índole, deixa de haver horários disponíveis para todos os professores da escola a quem ambos pertencem. Nesto contexto, será fácil prever qual dos dois cairá na posição de horário-zero que, segundo dizem, é a antecâmara do quadro de excedentários. 

A ser verdade, deverá o Ministério da Educação e Ciência (MEC) dispensar o mais qualificado? A ser verdade, deverá o MEC dispensar aquele em cuja qualificação apostou, subsidiando-lhe a investigação com fundos públicos e com o argumento da absoluta relevância do seu estudo para o ensino?

Imaginemos agora que o nosso Professor Doutor está numa escola em que, como é prática comum, os professores se reúnem por hierarquia etária, qual consílio de deuses, a fim de escolher os níveis a lecionar para o ano seguinte. Configuremos agora a seguinte hipótese: ambos aspiram a uma turma de 12º ano. O sénior, porque gosta do programa e prefere alunos de uma faixa etária mais avançada; o pessoano, porque vê neste nível de ensino uma extraordinária oportunidade de ensinar Fernando Pessoa, tópico do programa em vigor, prosseguindo a sua investigação e dando a conhecer aos discentes o estado dos Estudos Pessoanos. Embora paradoxal do ponto de vista das qualificações, percebe-se facilmente que, à luz da sobrevalorização do critério da antiguidade no ensino público, a turma do 12º ano fique para o professor mais velho. E se imaginarmos que o critério da escolha da faixa etária mais avançada se expande a todos os professores do grupo, vemos o nosso Professor Doutor lecionar turmas de 5º ano, enquanto outros, não pessoanos, são designados para ensinar o que de melhor se pensa e faz nos Estudos Pessoanos.

Podemos em bom rigor afirmar que se trata do melhor serviço público? Estará o MEC a otimizar os recursos humanos de que dispõe em benefício de professores, alunos e famílias? Estará o MEC a reconhecer profissionalmente os recursos em que o Estado investiu com bolsas de investigação pagas pelo erário público e fundos comunitários em prol de uma escola de sucesso?

Imagino um eco de vozes a insurgirem-se, clamando: “Também há excelentes professores no Ensino Básico / Secundário que são apenas Licenciados, e não é demérito lecionar o 5º ano”. Estou absolutamente de acordo, mas o ponto da minha argumentação é outro: precisamos de valorizar os recursos humanos na integralidade das suas qualificações, abdicando definitivamente de nivelar todos os professores com base numa qualificação mínima, a Licenciatura, acrescida de pontuação por antiguidade
.
 Num tempo em que se premeia a excelência e o desempenho, tendo sido, alias, criada uma rigorosa legislação para o efeito, continuamos a sentir a supremacia do critério da antiguidade neste campo: Por que razão ficaram excluídos da bolsa de avaliadores externos os Professores Doutorados na área disciplinar em que lecionam? Será que, uma vez mais, o critério etário justificou a sua exclusão? Teremos de novo, paradoxalmente, Licenciados a avaliar Doutores, só porque os primeiros servem o Estado há mais anos? Seria isto possível no Ensino Superior?

Presume-se, talvez, que a investigação pertença a um domínio totalmente extrínseco ao Ensino Secundário e, ante um trabalhador sobrequalificado, ouve-se comummente este gemido plangente: “Coitado! Estuda tanto, mas de nada lhe serve, não há vagas nas Universidades!”. Este argumento, de cariz estritamente utilitário e totalmente desgarrado do mundo contemporâneo, repetido ad nauseam nas escolas do Estado, mostra quão exíguo é o valor profissional concedido às qualificações académicas e científicas, ao mesmo tempo que perpetua, e aprofunda, o hiato entre o Superior e o Secundário.

Por todas estas razões, parece-me razoável concluir que Ensino Universitário / Politécnico é francamente mais justo do que o Ensino Básico e Secundário: funda-se numa lógica de mérito por aquisição de graus académicos, participação em projetos de excelência, publicações em revistas científicas conceituadas e afins. A Universidade percebeu há muito a sua função.

Para quando o reconhecimento integral das qualificações académicas no Ensino Básico e Secundário?

Lisboa, 25 de Janeiro de 2013
Maria Barros

Teoria e realidade


Uma das características da pseudociência é a irrefutabilidade, e foi nesta base que Popper tentou explicar o que demarcava a ciência da pseudociência. Popper pensava que a irrefutabilidade se devia às próprias teorias pseudocientíficas, que eram feitas de maneira a nunca serem refutadas pela experiência. Assim, quando um homeopata afirma que o produto x cura a doença y e afinal não cura, ele diz que outro factor explica a ineficácia naquele caso, mas que noutros o produto é eficaz. E faz isto sempre que as coisas não funcionam.

Mesmo com este exemplo deveria ser óbvio que Popper se enganou, pondo a ênfase nas teorias, em vez de a pôr nos investigadores, nas pessoas. Como é evidente, qualquer teoria tem exactamente os mesmos recursos que tem a homeopatia para que continuemos a insistir que a teoria está correcta face aos dados experimentais em contrário. Os cientistas comuns fazem isso o tempo todo; as pessoas não deitam fora uma teoria de cada vez que há um resultado que não bate certo. Isto foi o que Kuhn viu na história da ciência e o que o levou a defender posições relativistas, de que depois tentou afastar-se sem sucesso.

Assim, nada nas teorias pseudocientíficas nos impede de ser virtuosos e de abandonar teorias face aos dados experimentais em contrário. E nada nas teorias científicas nos impede de ser viciosos e continuar a sustentar uma teoria face aos dados experimentais em contrário. A diferença está na atitude epistémica: de um lado, estamos realmente a tentar descobrir a verdade, do outro estamos apenas interessados em confirmar as nossas esperanças e crenças e tudo isso.

Vem isto a propósito de uma atitude epistémica viciosa muito comum entre intelectuais e típica da atitude das pseudociências: a insistência numa ideia que a experiência mostra ser pelo menos duvidosa. Quando se é epistemicamente vicioso e se tem uma ideia que parece colidir com o que a experiência nos diz, acrescenta-se uma adenda à ideia que tínhamos para que deixe de colidir. O homepata diz que x cura y, quando se vê uma vez e outra que isso não acontece, ele inventa um factor F que é responsável pelo falhanço: se eliminarmos F, tudo corre bem.

Muitos intelectuais nunca saíram à rua, mergulhados que estão no seu mundo de fantasia. Não conhecem as pessoas reais, só ouviram falar delas ao longe. Fazem então das pessoas uma imagem completamente falsa: que toda a gente é igual a eles mesmos. Toda a gente se interessa pelas coisas do espírito, pela ciência e pela literatura, pela filosofia e pelo pensamento, pelas artes sofisticadas e pela conversa inteligente e culta. A humanidade recomenda-se!

Depois, o intelectual olha casualmente para fora da sua fantasia e apercebe-se que a dura realidade é algo diferente: qualquer Justin Bieber é apreciado por milhões de fãs; qualquer Paulo Coelho é mais lido do que Eça de Queirós, qualquer inanidade televisiva é vista com mais agrado do que um documentário científico.

A experiência contradiz a teoria.

E é aqui que entra o homeopata das ideias. Inventa então a conspiração: os capitalistas, os políticos, os extraterrestres ou as almas dos mortos é que conspiram para fazer as pessoas gostar mais de Britney Spears do que de Bach, e para gostarem mais de Harry Potter do que de Marguerite Yourcenar. Não fosse a conspiração, e isto era só malta a ler Shakespeare no metro, pessoal a fazer bicha à porta das exposições de pintura e documentários de ciência non-stop nas televisões.

Tudo isto é mentira, claro. A experiência europeia e norte-americana mostra que, quase um século depois da educação universal, os gostos das pessoas são o que seria de esperar para quem conhece melhor a humanidade: uma desgraça completa. A maior parte das pessoas sofre de frivolite aguda: a frivolidade é a sua característica mais saliente. Não têm paixão por coisa alguma, nada levam a sério, são incapazes de sair do seu horizonte limitado e privado, entregam-se ao prazer boçal e divertem-se com isso. É assim que as pessoas são, na sua grande maioria. E temos de saber aceitá-las.

As pessoas têm o direito de ser boçais e frívolas. Desde que não prejudiquem ninguém de forma clara e inequívoca. Eu também preferiria que a humanidade fosse diferente. Mas se para fazer essa humanidade de ouro precisamos do Admirável Mundo Novo com que sonham tantos intelectuais desde Platão, prefiro-a tal como está porque não quero as minhas mãos sujas de sangue.

Hoje damos às pessoas inúmeras oportunidades para descobrir a ciência, a literatura e outras artes, a filosofia e outras áreas de estudo. Oportunidades como as pessoas nunca tiveram. É tudo o que é virtuoso da nossa parte fazer. Se lhes enfiarmos essas coisas pela goela abaixo e se desatarmos a inventar teorias da conspiração, conspurcámos o que de outro modo teria sido um trabalho virtuoso.

domingo, 27 de Janeiro de 2013

Os Superficiais - o que a internet está a fazer aos nossos cérebros

PALESTRA
por António Piedade

CASA DA ESCRITA - Coimbra| 29 de janeiro | 10h30
Entrada livre

"Quais as influências e consequências que a tecnologia subjacente à internet tem sobre a forma como estamos a moldar a nossa aprendizagem e a estruturar a nossa maneira de pensar?", é uma das perguntas a considerar.

Apesar de abrangente, esta questão resume o objectivo da palestra: a partir do livro - com o mesmo título da palestra - da autoria de Nicholas Carr (livro finalista do prémio Pulitzer e publicado entre nós pela Gradiva), propõe-se uma reflexão e discussão numa abordagem ao actual pensamento "distraído" e "superficial" que as novas tecnologias da informação baseadas na internet parecem estar a causar aos seus utilizadores.

Pela divisão de poderes

Como devem os cientistas lidar com o poder político? Se a história nos ensina alguma coisa é que é uma má ideia haver uma ligação muito estreita entre o poder político e os cientistas. Geralmente, o resultado é mau: socialmente mau, cientificamente mau, humanamente mau. E porquê? Uma das razões é que a ciência e a política se regem por princípios inconciliáveis.

O princípio central da política é a mentira, a manipulação e o paternalismo sobranceiro. Os políticos sentem-se na posse da verdade, e sentem que em prol das suas convicções (muitas vezes bem intencionadas, mas de boas intenções está o inferno cheio) toda a mentira e manipulação se justifica. Isso faz-se com meias-verdades, manipulação verbal e encenação teatral na televisão. Os consensos políticos nada têm a ver com a vontade de boa-fé de chegar ao que imparcialmente é melhor para todos, mas antes aos jogos de bastidores de quem tem mais poder económico, social, religioso ou partidário.
O princípio central da ciência é a verdade, a transparência e a autonomia humilde. Errar é de esperar e é normal em ciência, e todo o cientista honesto sabe que erra. Daí a importância dada ao controlo mútuo de erros, ao peer-review, à procura explícita de falhas e erros, imprecisões e ilusões. Quando um cientista honesto não sabe se é X ou Y, diz que não sabe se é X ou Y. Nunca um político admite não saber: eles fingem saber sempre tudo, e para eles é sempre tudo a preto e branco.

Já se está a ver que quando se formam painéis governamentais ou intergovernamentais de cientistas, comissões científicas e relatórios científicos, o desastre está sempre prestes a acontecer. Para fazer o que os políticos querem, os cientistas terão de mentir, simplificar, pôr tudo a preto e branco e fingir que sabem tudo. Se fizerem ciência honesta, os políticos deitam o relatório fora e fazem o que queriam desde o início fazer. Além disso, a probabilidade de este género de comissões atrair os piores cientistas não é desprezível: os cientistas sem criatividade, ávidos de poder, que já não têm realmente entusiasmo pela ciência e que descobriram tarde de mais que teriam ganho mais dinheiro e prestígio noutras profissões.

A ironia é que precisamos cada vez menos de relatórios e comissões desse género. Com a Internet e os livros baratos, com a facilidade de comunicação e a liberdade de expressão, os cientistas podem comunicar directamente com as pessoas que lhes pagam o ordenado por meio de impostos. Não precisam do estado como intermediário. Podem alertar as pessoas para os perigos, instruí-las, ensiná-las, divulgar ideias e resultados, explicar ideias complexas de maneira simples (mas não simplória, como querem os políticos). Se os cientistas estão preocupados com o aquecimento global ou o arrefecimento local, a extinção do lobo ibérico ou a queda de cabelo nos homens com mais de 50 anos, a ejaculação precoce ou a falta de erecção nos homens saudáveis com mais de 95 anos, não precisam do poder dos políticos. Podem limitar-se a falar directamente com as pessoas, usando os meios de comunicação ao seu dispor — e deixar aos processos normais de tomada de decisão política a responsabilidade de tomar decisões políticas. Se essas decisões políticas não forem informadas cientificamente porque os políticos e seus algozes não se deram ao trabalho de ler o que é informação científica pública de qualidade, então os próprios eleitores — que têm acesso a essa informação — saberão penalizá-los, se considerarem que devem penalizá-los. E se considerarem que não devem penalizá-los, é porque também não querem saber se as decisões políticas são tomadas com o conhecimento científico relevante ou não. Caso em que também não seria do seu interesse a formação de comissões de cientistas mandatadas pelo estado para tomar decisões.

Assim, defendo uma separação cuidadosa de poderes. Tal como a separação do poder legislativo, executivo e judicial é uma solução inteligente para os perigos da concentração de poder (e a concentração de poder não é só perigosa devido às más intenções, mas também devido às boas intenções erradas), precisamos da mais completa separação que conseguirmos imaginar entre o poder científico e os restantes poderes. A ideia é que cada cientista pode e deve comunicar por si com o público; o público e os políticos que decidam o que querem fazer com a informação científica disponibilizada.

Eis duas vantagens desta posição: primeiro, não é preciso que os cientistas mintam às pessoas, fingindo saber o que de facto não sabem, adoptando os tiques dos políticos; segundo, teremos vozes discordantes, cientistas que discordam de outros cientistas, coisa que é fundamental para a educação da população para a autonomia, para que compreendam a importância de se informarem adequadamente, para que possam formar uma opinião abalizada, e para que saibam que por vezes é tão difícil saber o que queremos, que pessoas igualmente qualificadas, igualmente inteligentes e de boa-fé, não conseguem chegar a consenso.

Em contraste, quanto mais a ciência se politizar, mais os cientistas irão mentir e enredar-se em mentiras políticas. Além disso, irão assumir o discurso paternalista, tratando as pessoas como débeis mentais, e irão fingir que sabem o que não sabem e que podem tomar decisões seguras pelos outros, quando na verdade não podem porque há muitas incertezas e muitos desconhecidos. E mesmo quando não há incertezas e desconhecidos, impor politicamente aos outros as verdades científicas contribui para um dos piores males da humanidade: a falta de autonomia, o respeito pela autoridade, a infantilização. 

A nossa vida pode não estar condenada à mediocridade

Aqui deixei o meu grande pesar pelo desaparecimento do programa radiofónico de Questões de Moral, "escrito e realizado" por Joel Costa.

Soube hoje que Joel Costa iniciou a escrita de um blogue. O estilo é o mesmo. Falta a música, mas ganha-se a imagem. E, o mais importante, é que cada linha traz de volta a inconfundível voz do autor, as pausas, as entoações, a ironia...

Caso os leitores entendam visitar este blogue (aqui), não esperem encontrar breves notas lineares que nada mais solicitam do que um breve passar de olhos para, de seguida, se esquecerem. Terão, antes de se preparar, para ler textos profundos e luminosos, onde cada ideia é explorada em múltiplas vertentes, onde o conhecimento tem primazia, onde a interrogação marca presença.

A exemplificar, eis um extracto do primeiro texto:
"Noutro dia ouvi dizer que não há alunos nas faculdades de Letras, que o ensino das Humanidades está pela hora da morte. Sendo a música dos tempos aquela que indubitavelmente é, tais licenciaturas serão passaportes para o desemprego. Seja como for, quanto mais consciência se tiver da vida que se vive menos bem se suportam as realidades que nos são impostas, e menos a sério se levarão os políticos, os jornalistas, os magistrados, os professores, os dirigentes, a propaganda. Os governos não podem permitir ao cidadão uma consciência excessiva – ou seja, verdadeira, rigorosa – da realidade. Para tanto usam os media. Os poderes sabem o quanto um estudo de Filosofia pode mudar o pensamento de um cidadão, pode despertar uma consciência individual. A Filosofia ensina a pensar, o que é coisa posta fora de moda, porque há que consumir e acreditar no que se vê na televisão. E se o pensar ficou fora de moda por alguma razão superiormente determinada foi. Pensar pode ser um perigo. Até para as instituições. Um perigo para a credibilidade das hierarquias decisórias. Disciplina que ensine a pensar é um incómodo para os poderes. Se ensina a pensar, até pode ensinar a falar, a escrever. É factor de desenvolvimento mental. Desmascara as pesporrências, coisa proibida em Portugal. E não só… o que é pior… A Filosofia pode até, calcule-se, ensinar a viver. Se ensina a pensar, a falar e a escrever, ensina seguramente a viver. Sim, penso que é tudo o mesmo, cumprido com maior ou menor habilidade. Pois é, a vida de cada um pode não estar condenada à mediocridade a que cada um se acomodou."

GEOLOGIA SEDIMENTAR

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho, com os agradecimentos do De Rerum Natura. 
Barreiro da Fábrica de Cerâmica Pereira Campos, Aveiro, nos anos de 1960 
(Foto Carlos Romariz)
Em termos de ciência moderna e numa fase inicial, a meados do século XIX, o estudo das rochas sedimentares era estritamente descritivo e revelava, no máximo, uma preocupação de sistematização vinda do século XVIII e, ainda, em grande moda na primeira metade do século XX. Foi a fase embrionária da petrografia sedimentar, preocupada com a descrição e classificação destas rochas e de outros materiais resultantes da sedimentação ainda que não litificados.

Primeiro no terreno, macroscopicamente, em amostras de mão, depois no laboratório e, em particular, pelo recurso ao microscópio petrográfico, introduzido, em 1850, pelo inglês Henry Clifton Sorby (1826-1908), a petrografia sedimentar teve um papel importante na inventariação deste vastíssimo conjunto de produtos da crosta terrestre. A partir de então ganhou corpo uma outra atitude de pesquisa, progressivamente mais abrangente, visando as origens dos materiais, as condições ambientais em que foram gerados, as transformações que sofreram e, ainda, os processos geológicos e biológicos que lhes estiveram associados.

Nasceu assim a sedimentologia, conforme lhe chamou Hakon Wadell (1895-1962), em 1932, com o significado de petrologia sedimentar, disciplina que abarca o estudo das formações geológicas de origem sedimentar, antigas e recentes.

Por outras palavras, a sedimentologia estuda os processos que antecedem (meteorização, erosão e transporte) e presidem à sedimentação. Investiga ainda, a evolução subsequente ao depósito que, via de regra, conduz à litificação ou petrificação do material sedimentado ou seja, à diagénese, um conceito introduzido, meio século antes, em 1886, pelo geólogo alemão Karl Wilhelm von Gümbel (1823-1898).

Uma importante via de investigação associada às rochas sedimentares assenta no estudo dos fósseis que nelas frequentemente ocorrem. Aprisionados na respectiva sedimentação, os seres, animais ou plantas, que lhes correspondem, foram contemporâneos da génese dessas rochas, permitindo-nos não só conhecer as faunas e as floras do passado mas, também, identificar os ambientes correlativos e localizar essas rochas no tempo, isto é, determinar-lhes a idade. Esta outra via de investigação traz para o âmbito da sedimentologia duas importantes disciplinas das Ciências da Terra: a estratigrafia e a paleontologia.

A sedimentologia presta particular atenção às variações laterais (ao longo dos estratos) e verticais (em estratos sucessivos) e investiga, ainda, as sequências ou séries sedimentares que constituem o registo geológico, procurando ler neles todos os testemunhos (mineralógicos, texturais, paleontológicos e outros) que permitam desvendar as condições e os ambientes em que foram gerados e, assim, procurar conhecer a história do planeta.

É, por isso, parte grande de uma disciplina fulcral das Ciências da Terra, que alguns autores têm designado por Geologia Sedimentar, expressão que parece tanto mais correcta quanto é certo que uma tal abordagem ao estudo das rochas sedimentares nasceu com a moderna geologia na primeira metade do século XIX, nomeadamente com a obra, em três volumes, «Principles of Geology», editada entre 1830 e 1833, de Charles Lyell (1797-1875), o grande divulgador e continuador da obra do seu conterrâneo James Hutton (1726 - 1797).

Os avanços registados noutras áreas da ciência foram determinantes nos progressos registados na sedimentologia. A dinâmica da atmosfera, a hidrologia, a geoquímica, a física dos isótopos, as ciências do espaço e a pedologia figuram entre as disciplinas que, a cada passo, são chamadas para a resolução dos problemas que se colocam ao sedimentólogo.

Para alguns autores, a sedimentologia devia limitar-se ao estudo das acumulações sedimentares actuais, nomeadamente os depósitos não consolidados de cascalho, areias, siltes e argilas e, assim, incluir a sedimentação e os respectivos processos, mas excluir a diagénese. Neste contexto surgiu e desenvolveu-se a dinâmica sedimentar focalizada, sobretudo, na mobilização e deposição das partículas sedimentares, incluindo eventuais remobilizações e redeposições.

Assim encarada, a sedimentologia beneficiou bastante com os estudos dos oceanos e é hoje uma das principais disciplinas de apoio a este outro grande domínio das Ciências da Terra.

Neste ponto, é oportuno recordar o conceito de sedimento.

Com origem no latim (sedimentum), sedimento significa partícula sólida em suspensão num fluido e que assenta, por gravidade, quando em repouso. Abarca não só as partículas detríticas de origem terrígena (cascalho, areia, silte, argila) como, por extensão, as partículas de origem orgânica (restos esqueléticos ou bioclastos). Após transporte, menos ou mais prolongado, por agentes naturais (águas pluviais, de escorrência e fluviais, correntes marinhas, gelo, vento), estas partículas depositam-se e acumulam-se, via de regra, sob a forma de estratos ou camadas.

Mas o termo sedimento tanto designa a partícula individual sujeita à dinâmica sedimentar, como a população de partículas envolvidas nesse processo, mesmo que ainda em trânsito, como também o corpo sedimentar depositado e imobilizado, isto é, o próprio depósito, no seu conjunto. Por outras palavras, sedimento tanto é o material detrítico transportado como o depósito do mesmo. Dado o seu carácter não coeso, um sedimento, neste outro sentido, é um corpo geológico instável, temporário, passível de ser remobilizado.

É, pois, um depósito dinâmico e, nesta perspectiva, alguns autores têm-lhe dado o nome de rocha móvel. Destituído de coesão entre os seus constituintes, este tipo de depósito sedimentar escapa ao conceito vulgar de rocha, tal como ele é normalmente usado (o de pedra), quer na linguagem corrente, quer na dos profissionais da construção civil. Para estes, é a rocha firme (o bedrock, dos ingleses), na óptica dos trabalhos de fundações.

Fala-se, com efeito, de sedimentos em suspensão, sedimentos remobilizados, sedimentos transportados eolicamente, sedimentos consolidados, sedimentos litificados, etc. Sedimento é, pois, um termo abrangente e impreciso, podendo definir-se como um conjunto de partículas sujeitas ao processo gravítico, de alguma forma relacionadas entre si.

O uso do termo foi proposto, em 1875, pelo alemão Arnold Lasaulx (1839-1886), na sua classificação geral das rochas, ao estabelecer a classe “sedimentos puros”, na qual incluiu cascalheiras fluviais e de praia, areias de rio, de praia e de duna, e ainda, os Löss, termo vulgar alemão, que adoptou para indicar os sedimentos mais finos, isto é, os siltes e as argilas.

Turbidito (Foto de Brian Romans)
O estudo comparativo dos sedimentos actuais com as rochas sedimentares (entendidas como depósitos sedimentares antigos) constitui o pilar da interpretação destas rochas sob os mais variados aspectos. Com efeito, partindo do princípio que, tanto hoje como no passado, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos (1), é viável reconhecer tipos de ambientes geológicos, mais ou menos remotos, comparando as características das respectivas rochas com as dos materiais actualmente em formação nos diversos ambientes que conhecemos à superfície da Terra, e que temos a possibilidade de ver “funcionar”.

Os sedimentos detríticos revelam quase sempre, de maneira mais ou menos evidente, a natureza das rochas de onde provêm, isto é, a respectiva filiação. Podem ainda, para uma dada região, reflectir as características do relevo e do clima existentes à altura da sua formação, os agentes de erosão e transporte que os actuaram, bem como o ambiente onde, finalmente, se depositaram.

Nestes termos, é muitas vezes possível correlacionar as rochas sedimentares com a geologia, a morfologia e o clima seus contemporâneos e procurar decifrar, na sucessão dos estratos ou camadas, a correspondente sequência dos acontecimentos geológicos e, portanto, a evolução geológica correlativa.

É, pois, com base neste pressuposto que pudemos tomar conhecimento da existência de glaciações no Pré-câmbrico e no Carbónico, de desertos no Devónico da Grã Bretanha e da América do Norte, de florestas húmidas e quentes no Carbónico da Europa (incluindo Portugal) e da América do Norte, de lagunas evaporíticas no Triásico europeu, etc.

Em termos de sistemática petrográfica, as rochas sedimentares abarcam não só os materiais coesos, como arenitos, calcários, silicitos, entre muitos outros, como também os sedimentos recentes, móveis, nos termos em que assim os designamos. Não sendo, propriamente rochas, no sentido vulgar do termo, os combustíveis fósseis são produtos naturais que, por definição, se podem incluir entre as rochas sedimentares.

Se não nos choca aceitar, neste domínio, a hulha ou a antracite (a expressão carvão de pedra, de uso popular, assim o comprova), o mesmo não sucede com o petróleo bruto (crude oil) ou com o gás natural. Embora estes materiais não se transformem em “pedra”, sabemos, todavia, que satisfazem as condições definidas na petrogénese sedimentar, inclusivamente as que cabem no âmbito da diagénese.

Para além dos aspectos científicos fundamentais, do saber pelo saber, como os atrás mencionados, existem os aspectos práticos, visando a utilização das rochas sedimentares. Surgiu, assim, a sedimentologia aplicada, uma disciplina científico-tecnológica que, pelas suas ligações directas ou indirectas às actividades económicas, dispõe, normalmente, de melhores e mais desafogados meios de investigação. Destas melhores condições materiais de trabalho, muito tem beneficiado a sedimentologia pura.

A investigação na área da sedimentologia aplicada à prospecção do petróleo, por exemplo, contribuiu decisivamente para o progresso do conhecimento científico na área da geologia sedimentar no seu todo.

Em Portugal, à semelhança do que aconteceu nos países pioneiros (Alemanha, França, Inglaterra, EUA), a petrografia microscópica iniciou-se, na segunda metade do século XIX, pelo estudo das rochas ígneas (eruptivas, como então se dizia). Só mais tarde esse tipo de estudo foi usado relativamente às rochas metamórficas, primeiro, e, só depois às rochas sedimentares. A bibliografia geológica portuguesa mostra que assim foi, de facto.

Só a partir de meados do século XX começaram a aparecer os primeiros trabalhos relativos ao estudo das rochas sedimentares com recurso a técnicas laboratoriais então criadas. Estiveram na vanguarda destes estudos: Soares de Carvalho, Fausto Pureza e Ferreira Soares, em Coimbra, e Carlos Romariz e Galopim de Carvalho, em Lisboa. Anteriormente a esta fase, por exemplo, as Notícias Explicativas das Cartas Geológicas de Portugal, na escala de 1/50 000, dos então Serviços Geológicos de Portugal , dedicavam, quase sempre, um capítulo final às rochas ígneas, da autoria de especialistas nesse domínio da petrografia, atenção que nunca foi dada às rochas sedimentares, não obstante a sua significativa e, muitas vezes, maioritária presença e importância nas áreas cartografadas.

Nestes textos, de construção muito própria, num discurso de índole estratigráfica, falava-se dos materiais constituintes destas rochas, usando termos petrográficos muito gerais, baseados em observação expedita, em amostra de mão, isto é, macroscopicamente, e sem recurso a quaisquer técnicas laboratoriais de análise. Falava-se, assim, por exemplo, de argilas brancas ou vermelhas, de calcários compactos, pulverulentos ou fossilíferos, de margas, de grés ou arenitos, de conglomerados, etc.

No que se refere o ensino, a disciplina de Sedimentologia surge em 1964 com a reforma que cria a licenciatura em Geologia (em substituição da antiga licenciatura em Ciências Geológicas).

Sob as mais diversas designações, o estudo petrográfico e petrológico das rochas sedimentares é hoje uma constante ao nível do ensino superior, sendo já significativo o número de docentes e investigadores com obra realizada neste domínio da investigação científica. Foram vários os colegas estrangeiros que ombrearam connosco nestes primeiros passos. Entre eles é justo recordar os franceses P. Yves Berthou, Jacques Rey e Christian Palain, cujas publicações (nas Memórias dos então Serviços Geológicos de Portugal, nova série) são outros tantos marcos na caminhada percorrida.

NOTA:
[1] - “Princípio das Causas Actuais”, de James Hutton.
A. Galopim de Carvalho

ENTRE O TAÍGETO E O FUJI, VENHA O DIABO E ESCOLHA

Apontamento de João Boaventura a texto antes publicado.


Aqui está o Monte Taígeto escolhido pelos espartanos para as festas dionisíacas e, quando oportuno, lançarem as crianças defeituosas ou débeis, do ponto mais alto, mas esqueceram partilhá-lo com os velhos decrépitos, débeis e incapazes.


Como o tal Ministro japonês terá encontrado nos espartanos esta lacuna, talvez possa aproveitar o Monte Fuji (nesta imagem) cujos oportunos 3.776 metros de altitude se apresentam mais eficazes do que os meros 2.400 metros de altitude local do Taígeto para lançamento de todos aqueles que prejudiquem a economia do sol nascente. 

Talvez pudesse começar pelos ministros e políticos que delapidam o erário com muita ferocidade, já que os da idade provecta só recebem uns míseros ienes...
João Boaventura

O melhor da vida e de nossas realizações começa aos 60 anos!


Veja o video no link abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=vksdBSVAM6g

Segue a narração do vídeo: Based on a true story.

What do people live for?
To miss someone?
To keep living?
To live longer?
Or, to leave?

“Let’s go ride motorcycles!”

5 Taiwanese.
An average age of 81.
1 has a hearing problem.
1 has cancer.
3 have heart disease.
Every one of them has degenerative arthritis.

6 months of preparation.
13 days traveling around the island.
1139 kilometers.
From the north to the south.
From night to day.
For one simple reason.

What do people live for?

Dreams.

sábado, 26 de Janeiro de 2013

Acta est fabula

Dos cinco volumes de memórias que o engenheiro, professor de literatura, ensaísta e poeta Eugénio Lisboa tem planeados, saiu recentemente o primeiro. O título é Acta est fabula - I - Lourenço Marques (1930-1947).

Acta est fabula quer dizer "acabou a peça", "acabou a representação". O sentido do título e o percurso de vida para que remete é a essência do programa Pessoal e intransmissível, da TSF, do passado dia 15 de Janeiro. A interessantíssima entrevista ao autor, conduzida por Carlos Vaz Marques, pode ser ouvida aqui.

O mesmo jornalista elegeu este volume como “Livro do Dia”. Acesso ao "spot” aqui.

sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

O terramoto e os cientistas condenados

Segundo escreveu Desidério a propósito da condenação de seis cientistas pelo homicídio de pessoas que morreram no terramoto de L'Aquila em 2009:
Quando os cientistas italianos foram correctamente condenados porque mentiram à população dizendo-lhes o que cientificamente sabiam que era falso, pois sabiam perfeitamente que não se pode prever terramotos com precisão, quase todos os cientistas reagiram em defesa da classe e não em defesa da verdade. A verdade é que eles usaram o poder social da ciência para aconselhar as pessoas e em resultado disso morreram muitas pessoas.
Não. Eles não fizeram nada disso. Se há coisa de que podem ser acusados é de não terem partilhado o seu conhecimento científico, pois não abriram a boca. Nada disseram e foram usados como figurantes numa encenação levada a cabo por autoridades políticas locais e pela protecção civil.  Não deviam ter deixado, é certo. Deveriam ter falado e retirado a falsa autoridade científica de quem falou em nome deles, dizendo disparates. A sua omissão é condenável, mas por homicídio é absurdo. Tanto poderiam ter falado eles, como inúmeros outros cientistas ou simples pessoas bem informadas. Porque não condena-los a todos? A decisão judicial, se vier a ser confirmada pelos tribunais superiores, é desastrosa para a ciência. Muitos cientistas sentir-se-ão inibidos de participar em comissões semelhantes e contribuir com o seu conhecimento em prol da sociedade. É um passo em direcção ao obscurantismo.

Ciência e poder

A divisão do trabalho intelectual levanta um problema político e social muito espinhoso: é que temos de confiar nos especialistas das diferentes áreas. Eu não tenho competência para saber se o meu médico tem razão ou não; posso usar alguns sinais vagos, mas só se eu fosse médico poderia saber melhor. Do mesmo modo, não posso saber se o que me diz um físico, historiador ou matemático é verdadeiro. Quando nenhuma destas coisas tem peso nem importância política nem legislativa, trata-se de um problema menor. Mas quando precisamos de legislar porque precisamos de fazer algo, torna-se um problema político muito difícil.

A dificuldade é esta: numa democracia saudável, são cruciais os controlos democráticos. Isto significa que as pessoas precisam de saber avaliar se uma proposta legislativa responde ou não aos seus interesses. Acontece que quando a ciência está envolvida, não podemos exercer esses controlos; só os próprios cientistas o podem fazer. Isto é politicamente muito perigoso. Que podemos fazer quanto a isto? Três coisas podem ser feitas; não resolvem o problema, mas ajudam a limitar os estragos.

Em primeiro lugar, podemos divulgar a ciência, aos adultos e aos jovens, e deve haver muita diversidade neste trabalho. A divulgação da ciência é muito importante porque quem tem informação científica básica, tem uma ideia sólida de como se procede cientificamente para refutar ou confirmar uma ideia. Isto é uma defesa contra ideias que são apresentadas como científicas, mas que ao mesmo tempo querem poupar-se à crítica, ao controlo, ao teste rigoroso, sistemático, cuidadoso. Infelizmente, grande parte das ideias que circulam entre as pessoas menos informadas são ideias tolas disfarçadas de ciência. Isto só é possível precisamente porque a ciência tem hoje grande autoridade epistémica. Vende-se todas as banhas-da-cobra fazendo-as passar por científicas. A melhor precaução contra isto é uma divulgação bem feita e rigorosa da ciência e o ensino de excelência. Mas este trabalho de divulgação e ensino tem de ter também outro objectivo: dar às pessoas instrumentos para limitar o poder político dos cientistas, para avaliar criticamente as suas afirmações e para aprenderem a dizer “não”. Uma falácia recorrente nos cientistas é semelhante à falácia das pseudociências: usar a autoridade da ciência para afirmar ideias que nada têm a ver com a ciência: ideias políticas, sociais, legislativas e até filosóficas. Uma maneira de limitar o poder perigoso dos cientistas é dar mais informação e formação científica às pessoas.

Em segundo lugar, os cientistas devem compreender que, como no caso dos juízes, não basta que sejam imparciais e justos: é também preciso que o pareçam. Se as pessoas virem os cientistas apenas como mais um grupo de pressão política e social que defende os seus interesses à custa dos interesses dos outros grupos, não aceitarão o que dizem os cientistas, mesmo que estes tenham realmente razão. Quando os cientistas italianos foram correctamente condenados porque mentiram à população dizendo-lhes o que cientificamente sabiam que era falso, pois sabiam perfeitamente que não se pode prever terramotos com precisão, quase todos os cientistas reagiram em defesa da classe e não em defesa da verdade. A verdade é que eles usaram o poder social da ciência para aconselhar as pessoas e em resultado disso morreram muitas pessoas. Se isto não é um caso claro de irresponsabilidade pública, não sei o que o será. O primeiro dever de um cientista é esquecer-se que é cientista e pronunciar-se imparcialmente sobre este caso, e não em defesa dos colegas e da classe profissional a que pertence.

Em terceiro lugar, precisamos de menos, muito menos estado. O estatismo é a fonte de quase todos os nossos problemas políticos. O estatismo é dar ao estado, que é uma entidade abstracta, demasiado poder e demasiada interferência na vida das pessoas. Precisamente porque é uma entidade abstracta, é sempre uma falácia pensar que o estado nos resolve os problemas por nós. O estado é, na verdade, um poder exercido por pessoas em que não votámos, que escapam completamente aos controlos democráticos e que nada podemos fazer para despedir. Essas pessoas são os funcionários permanentes do estado: os burocratas. Muitas pessoas estão completamente desiludidas com o ministro da educação Nuno Crato, porque a legislação que emana hoje do Ministério da Educação não só nada tem a ver com o pensamento que lhe conhecemos dos seus livros, como é exactamente igual à legislação anterior — até na linguagem. É este o poder dos burocratas: quem realmente legisla sobre a educação não são os governantes, eleitos por todos nós por processos democráticos, mas antes os burocratas. Precisamos, urgentemente, de menos estado, também por esta razão. Mas também porque quanto menos poder tiver o estado, menos o poder da ciência, por via do estado, pode prejudicar-nos. Menos estado é mais autonomia; é dar às pessoas informações e deixá-las decidir o rumo das suas vidas. E isso significa que elas vão errar e prejudicar-se. Mas impedir as pessoas de aprender com os erros é como impedir uma criança de aprender a andar porque, nesta aprendizagem, a criança inevitavelmente cai e magoa-se.

Corrupção e Democracia:O Caso Fujimori e Montesinos!

Publicado no Estado de São Paulo em 23 de Janeiro de 2013
Autora:Eliana Cardoso é PH.D. pelo MIT e professora titular da FGV-São Paulo.

Com Rudi Dornbusch e a convite do Banco Central de Reserva del Perú, fui a Lima, em 1990, para trabalho sobre a inflação de 7.000% naquele ano. Na entrada do Banco Central, ao lado do detector de metais, havia uma estante onde, em escaninhos numerados, as pessoas deixavam os revólveres e outras armas e recebiam uma ficha correspondente a seus pertences. O país encontrava-se conturbado pela violência do Sendero Luminoso - um grupo guerrilheiro maoista que, antes de desaparecer, se tornaria responsável por 69 mil mortes.

Alberto Fujimori acabara de tomar posse e Rudi iria jantar com o presidente. Na última hora o convite se estendeu à diretora do Banco Central, com quem trabalhávamos, e me incluiu. Nosso carro percorreu as ruas de Lima, passou pelas bancadas de sopão, onde as pessoas esperavam em longas filas pelo único alimento do dia, e contornou um tanque de guerra...

No palácio, depois de um corredor comprido e mal iluminado, estavam a pequena sala de jantar e a mesa posta, com quatro paninhos puídos nas beiradas. O presidente entrou vestido numa guayabera. A empregada trouxe quatro Coca-Colas, uma travessa de espaguetes e, para a sobremesa, apenas duas porções individuais de pudim. Voltou 40 minutos mais tarde com outra travessa de espaguetes. A cozinheira, informada sobre o maior número de convidados, preparara segundas porções...

O presidente falava pouco e perguntava muito. Tive pena daquele político solitário e ainda desconhecido, sem uma base seja social, seja partidária. Ele liquidaria a hiperinflação e o Sendero, mas terminaria tragado pela corrupção e pelo poder de Wlademiro
Montesinos, o chefe da polícia secreta que garantiu suas reeleições.

Montesinos subornou o Congresso, o Judiciário e a imprensa, mantendo a fachada democrática: os cidadãos votavam, os juízes decidiam, a mídia noticiava. Mas a negociação e a execução de acordos secretos drenavam a substância da democracia.

Embora possa parecer estranho, Montesinos mantinha registros meticulosos de suas operações: em contratos e recibos dos subornos, em vídeos das negociações ilícitas e das reuniões em que ele mesmo foi o corruptor. A lógica de suas ações deriva de que as fitas eram prova da cumplicidade dos outros e lhe davam o poder para destruir o presidente, impedindo Fujimori de demiti-lo. Constituíram fontes de dinheiro para suborno: o orçamento secreto do Serviço Nacional de Informação, somas recebidas por intermédio do Ministério do Interior e desvios de contratos com o Estado.

John McMillan e Pablo Zoido, da Universidade Stanford (How to subvert democracy, no Journal of Economic Literature), utilizaram os preços de suborno e concluíram que a forma mais forte de controle sobre o governo é a mídia. A julgar pelos subornos pagos e, portanto, pela preferência revelada de Montesinos, a televisão representava a maior ameaça ao poder do governo peruano. O suborno pago ao proprietário de um canal de televisão era cerca de cem vezes maior do que o pago a um político, que era um pouco maior do que o pago a um juiz.

Os pagamentos feitos a políticos ficavam, na sua maioria, entre US$ 5 mil e US$ 20 mil por mês, com alguns pagamentos de até US$ 100 mil, chamados de contribuições de campanha. Entre os meios de comunicação, o diretor do Expresso (um tabloide) recebeu US$ 1 milhão e El Tío (outro tabloide), US$ 1,5 milhão ao longo de dois anos. O Canal 4 recebia US$ 1,5 milhão por mês em propinas. Esses pagamentos subestimam os subornos, pois Montesinos canalizava mais dinheiro para os jornais e a televisão por meio de publicidade oficial.

A única empresa de televisão não subornada, o Canal N, continuou a oferecer jornalismo investigativo independente e levou ao ar pela primeira vez o vídeo que trouxe o regime abaixo. Em 2000, apenas três meses e meio depois da terceira vitória de Fujimori na eleição para presidente, o governo caiu, quando o Canal N exibiu o vídeo que mostrava o pagamento de Montesinos ao político de oposição Alberto Kouri. Outro vídeo mostrava Montesinos oferecendo a Alípio Montes de Oca, membro da Suprema Corte de Justiça, propina de US$ 10 mil por mês, além de atendimento médico e segurança pessoal e a presidência do Conselho Nacional de Eleições.

Os mecanismos democráticos complementam-se e reforçam-se uns aos outros, enquanto a ausência de um enfraquece todo o sistema democrático. Se um dos controles é fraco, todos o são. Nesse sentido, cada um deles é vital. No entanto, a televisão aparece como o limite crucial. Por quê?

Sua importância deriva do fato de que a mídia pertence ao mecanismo de constrangimento fundamental. Considere. A reação de grande número de cidadãos à violação das regras pode depor um governo. Entretanto, eles enfrentam um problema de coordenação, porque, na escolha de como agir, o cidadão precisa avaliar o que os outros farão. Falta de informação constitui a dificuldade-chave da coordenação. Não saber o que os outros sabem é suficiente para frustrar ações que precisam ser coordenadas. Ao informar a todos sobre violações do governo, a televisão ajuda a resolver o problema da coordenação, de vez que a transgressão se torna conhecimento comum.

A diferença entre a televisão e o jornal está no seu alcance: os subornos pagos a jornais impressos foram menores do que os pagos a canais televisivos, porque os peruanos preferem receber as notícias pela televisão. Demonstrando seu poder, foi ela que finalmente derrubou Alberto Fujimori.

Será que tudo isso importa? Poder-se-ia justificar a ação de Fujimori e Montesinos porque eles destruíram o Sendero Luminoso e puseram fim à hiperinflação? Nunca. Pois, ao acumular todos os Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) nas mesmas mãos, a corrupção instaura a tirania e suas arbitrariedades. Ela nos leva de volta à barbárie.

Milagres de açúcar

O efeito placebo é de facto uma coisa fascinante e ainda mal compreendida. Para além do exemplo interessantíssmo que Desidério refere, há estudos que demonstram que dois comprimidos de açúcar têm mais efeito do que um comprimido de açúcar, que comprimidos com determinadas cores têm mais efeito do que com outras (aliás, a cor dos medicamentos não é escolhida ao acaso), têm mais efeito se forem colocados numa caixa mais atraente, se forem de marca e mais caros. E injecções com água do mar são um tratamento muito mais eficaz para a dor do que comprimidos de açúcar.

E, como bem diz Desidério, quando queremos demonstrar que um tratamento funciona, temos que provar que funciona melhor do que um placebo. E o único efeito que homeopatia tem, tal como Desidério também refere, é o efeito placebo.

A sensação de melhoras é uma coisa muito subjectiva. As pessoas sentem-se melhor porque acreditam que se vão sentir melhor. Portanto os placebos têm algum efeito em situações e avaliação subjectiva, como a dor.

Mas qualquer medicamento tem um efeito placebo. Não é um exclusivo do menu homeopático. Fazia sentido tratar pessoas com placebos há 200 anos, quando a homeopatia foi inventada. Hoje em dia, havendo tratamentos que têm um efeito fisiológico (para além do placebo, que é sempre garantido) é pouco ético tratar pessoas com placebos. Especialmente quando lhes é dito que o remédio tem um efeito para além do placebo.

Por causa dos problemas éticos do uso de placebos, o seu uso é restrito até em ensaios clínicos. Em caso de doenças graves, como problemas cardíacos, é pouco ético administrar um placebo aos pacientes para comparar com um novo medicamento em estudo. Em vez disso, muitas vezes o que se faz é comparar com outro tratamento existente. Ou até o efeito em conjunto com outro tratamento.

Muito pouca coisa se resolve com placebos. Há, por exemplo, doenças que se curam sozinhas (como a gripe). As doenças têm um ciclo natural, ou seja há períodos em que o doente está melhor e outras em que está pior, sem que isso nada tenha a ver com os comprimidos de açúcar que tenha tomado. Mas, parecerá lógico atribuir as melhorias ao comprimido de açúcar. No entanto, para o demonstrar científicamente, é necessário fazer ensaios clínicos metodologicamente bem concebidos.

O estudo que Desidério refere enquadra-se numa linha que abre a possibilidade de permitir administrar placebos de uma forma ética aos doentes. Isto, se estes resultados se vierem a confirmar. Na maior parte dos casos, as conclusões de estudos muito inovadores, não se confirmam. E no caso da saúde esse problema é particularmente relevante. E não envolve necessariamente má fé dos investigadores envolvidos. O factor mais importante para determinado resultado de investigação estar correcto é... estar correcto antes do estudo! Ou seja, os resultados precisam de ser confirmados. Isto é a natureza da ciência. Não assenta em não cometer ou não admitir erros, mas na sua correcção.

De qualquer forma, o que os homeopatas dizem não é que estão a receitar comprimidos de açúcar que nenhum efeito têm para além do placebo. Portanto, muito longe desta visão ética da administração de placebos.

quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013

O efeito de placebo

Quero deixar claro que eu não acredito que a homeopatia é científica. Mas também não acredito em mentir e simplificar as coisas a ponto de fazer caricaturas para melhor ganhar uma causa política, que de científica não tem coisa alguma.

Quando se afirma que a homeopatia tem um mero efeito de placebo, mente-se porque as pessoas comuns vão pensar que o efeito de placebo (uma palavra estranha que elas nem conhecem sem explicações) é efeito nenhum. Mas não é. O efeito de placebo é algo que sabemos que existe e que temos em conta quando fazemos testes clínicos de novas drogas e tratamentos. O efeito de placebo é que se dermos comprimidos de açúcar às pessoas, dizendo que é um remédio muito bom, uma percentagem não negligenciável de pessoas tem melhoras significativas. Por isso, temos de fazer os testes clínicos de modo a excluir o mero efeito de placebo. A acusação feita à homeopatia não é, pois, que não tem efeito algum, mas antes que não tem mais efeito do que qualquer outra coisa inócua. O problema é que as coisas inócuas têm realmente efeito, e é muito difícil explicá-lo.

Um investigador que tem procurado compreender melhor o efeito de placebo é Ted Kaptchuk, da Escola de Medicina de Harvard. Veja-se aqui um interessante artigo sobre o caso. O resultado mais surpreendente dos testes clínicos conduzidos por ele é o facto de o efeito de placebo continuar a funcionar (as pessoas melhoram) mesmo que os comprimidos que tomam tenham um rótulo a dizer PLACEBO PILLS (comprimidos de placebo) e que lhes tenham explicado o que é o efeito de placebo.

El derecho a disponer del término de la vida

A "educação" além de se distinguir de "instrumentalização" faculta a sua identificação, permite perceber os seus contornos e, desejavelmente, fazer-lhe face. José Maria Quintana Cabanas, um dos mais importantes pedagogos espanhóis da actualidade, tem insistido nesta ideia. O texto que se segue constitui um valioso contributo para que a ideia linear de se pôr fim à vida humana por razões economicistas não passe, como tantas outras ideias instrumentalizadoras, para os bancos da escola.

"Vamos a distinguir aquí tres casos, que no tienen exactamente las mismas connotaciones, aun cuando tienen evidentes puntos de contacto (…).

El suicidio

A algunos les parece que el suicidio no puede revestir mucha gravedad, dado que uno no perjudica a nadie sino sólo a sí mismo, y admitiendo que “mi cuerpo es mío y de él puedo hacer lo que quiera”... Esta óptica viene alentada por aquella concepción de la ética, tan preponderante hoy día, según la cual los preceptos morales los construyen los grupos sociales por consenso, de un modo dialógico, y no tienen otra finalidad que asegurar la práctica de la justicia, es decir, el garantizarse a todos el que sean respetados sus derechos individuales.

Es la moral social, como única forma de moral (…). Con este tipo de moral constructivista, claro está, poco hay que decir sobre el suicidio, que no sería cuestión de moral. A esta misma conclusión se llega desde la ética “de la responsabilidad”, de que habla Max Scheler, y que viene a ser lo mismo: la moralidad estriba sólo en ser positivamente responsable, es decir, abstenerse de que los actos del sujeto puedan dañar a otros. No hay, pues, actos buenos o malos en sí mismos (será malo matar a otro, pero no matarse a sí propio). Ya se adivina que esta teoría viene a coincidir con la ética «consecuencialista» (…).

Ahora bien, el mismo Scheler explica que, junto a esa ética, hay también otra diferente, a saber, la ética “de la convicción” (o “de la decisión”…), en dependencia de la idea que uno tiene de la moral, admitiendo la moralidad intrínseca de los actos mismos, aun aparte de sus consecuencias. Este último punto de vista es también el de la moral tradicional, según la cual dice M. Vidal (1991c, p. 422) objetivamente hablando “el suicidio aparece como una opción claramente negativa al colocarlo dentro de un horizonte de preferencias humanas y humanizadoras”, por varios motivos y en varios aspectos.

Es más: el suicidio es moralmente incluso peor y más grave que el homicidio. Esta sorprendente afirmación se basa en el hecho de que, para un individuo, su propia vida es un bien superior a la vida ajena (y por eso existe la norma moral de que uno puede matar en defensa propia). Así pues, si el homicidio es horrible, el suicidio, en teoría, ha de serlo todavía más. Todos sabemos que, en la mayoría de los casos, el suicidio constituye un acto poco consciente y responsable. Ahora bien, hay un caso en que el sujeto actúa conscientemente, pero hallándose asistido de motivos al parecer tan razonables y de unas circunstancias tales que suprimirían en su acto el carácter de ser moralmente negativo.

Es el caso de cuando el sujeto se ve, por ejemplo, acosado de una enfermedad terminal y, creyendo más ventajoso adelantar el momento de su muerte, decide hacerlo. Es la ortotanasia, que ahora vamos a comentar.

La ortotanasia

La ortotanasia consiste en la decisión que el sujeto mismo toma con respecto a las circunstancias que desea, como mejores, para su propia muerte natural, en cuyo proceso, de algún modo, ya ha entrado. Estas peculiaridades distinguen la ortotanasia (o “muerte correcta”) del suicidio, en el cual la muerte es totalmente artificial y biológicamente descontextualizada. La ortotanasia, defendida por varios, y relacionada en cierto modo con la eutanasia, con la cual la unen consideraciones comunes, y no exentas de buen sentido, constituye un actual objeto de debate. Defienden la ortotanasia personas razonables, como S, Paniker, el cual incluso ha fundado una asociación para explicar y difundir esas ideas.

Pero nosotros vamos a exponer aquí la teoría de J. Rubio, el cual, en su libro Ética constructiva y autonomía personal (1992), habla del derecho de la persona a una «autonomía para morir», que él llama “autonomotanasia”, basada en la libre disposición del individuo sobre las condiciones y circunstancias de la propia muerte. Aduce, en defensa de este derecho “inalienable”, precedentes en la historia humana cultural, como los hay en la antigua Roma. Se trata del “derecho humano a elegir la propia muerte de forma responsable y solidaria” (p. 297), derecho que ha de ser reivindicado dice frente a los tabúes vehiculados por la religión, a las leyes del Estado y a la resistencia de los médicos a colaborar en esos actos (y colaborando, en cambio, en prolongar la vida a veces en unas circunstancias tan onerosas como desesperadas: es la “distanasia”).

Se trata – dice – de superar o diseñar una nueva cultura de la muerte, por la cual la persona madura y consciente decide sobre el fin de su vida, de un modo personalmente responsable (en congruencia con el proyecto de vida que ha ido desarrollando) y teniendo la debida solidaridad con los demás y coherencia con las propias creencias y sentido de la vida. (…). J. Rubio entiende que “la autonomía moral para morir, como continuación y culminación de la autonomía moral para vivir», es un «derecho humano fundamental” (p. 307).

Podríamos hacer aquí algunas reflexiones, que también valdrán para el caso de la eutanasia. Desde instancias religiosas se recuerda, razonablemente, que el hombre no es dueño de su vida, sino solo un depositario de la misma, de modo que carece de un derecho absoluto sobre ella. La vida sería un medio que se le proporciona para que así pueda realizar unos valores superiores, que serían el fin de su vida, de la cual no podrá disponer, pues, como le plazca. Esta misma concepción puede defenderse también desde un simple humanismo.

En todo caso parece claro que la vida constituye un valor humano superior a otros como pueden ser el bienestar, el goce y hasta la propia felicidad, de tal manera que constituiría una inversión de valores (es decir, un acto inmoral) el posponer la vida a esos valores.

La eutanasia

Con respecto a lo anterior también suele decirse que la vida es un bien superior a la “calidad de vida”, y este principio es el que haría inmoral tanto la eutanasia como la ortotanasia, las cuales quieren fundarse precisamente en una prioridad de la calidad de vida como valor, cosa que parece muy cuestionable. Los contrarios a la eutanasia suelen invocar, aparte motivos religiosos, el de que la muerte constituye un proceso natural, y no es lícito torcer el curso de la naturaleza en asuntos tan graves, erigiéndose uno en señor de la vida y de la muerte (y de la de los demás).

Los otros argumentarán que la naturaleza no siempre actúa bien, y precisamente ahí está la razón humana para corregir la naturaleza y, así, conseguir algo mejor. Dice M. Vidal (1991c, p.507) que la cuestión es compleja porque se trata de respetar y conjugar no un solo valor, sino estos dos: 1.º el respeto a la vida humana, y 2.º el derecho a morir dignamente. La eutanasia no realiza el primero, y la distanasia (o prolongación artificial y exagerada de la vida usando adelantos médicos) no realiza el segundo; lo que realiza ambos es la “ortotanasia” (pero tomada no en el sentido que antes hemos visto, sino en el que acabamos de decir).

A menudo se presenta la eutanasia como una forma de humanismo y, bien entendida, puede muy bien serlo. El peligro está en que se deshumanice, por los abusos a que muy fácilmente puede dar lugar. Aparte de que conviene profesar una doctrina antropológica de valoración del dolor, como elevador del alma y purificador de la misma, que debe ser muy tenida en cuenta, aun en un plano simplemente humanista. La evitación de todo dolor y de toda molestia, tanto por parte del propio paciente como de quienes lo cuidan, se sale de los esquemas de una vida íntegra y digna.

No se trata de ser mártir ni de hacer mártires, pero tampoco de rehuir cobarde o egoístamente la prueba del dolor, que acrisola las almas. El otro punto de vista, el que defiende la eutanasia y el derecho a decidir sobre la propia muerte, descansa sobre un concepto de libertad omnímoda, en que el sujeto humano decide más allá de la naturaleza y de los valores.

Por eso J.M.ª Barrio (1996, p. 275) dice que “este concepto prometeico de libertad humana responde a las exigencias de un discurso más retórico que teórico”, pues “un pleno dominio sobre sí, excluyente de cualquier cortapisa, es una ilusión de libertad”, que desconoce el sufrimiento, el cual, si bien puede destruir al hombre, puede también enriquecerle profundamente, pues “sufrir es elevar un acontecimiento meramente biológico a una categoría moral superior” (p. 277)."
José Maria Quintana Cabanas

Extracto do capítulo Pretendidos derechos humanos que no son tales, incluído no livro Educação, Perspectivas e Desafios, da autoria de J. Boavida, M. Formosinho e H. Damião (pp. 77-99), recentemente publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra, e a ao qual faremos referência brevemente.
João Boavida