segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Quem quer ser um Pai Natal?


Não há nada que os estudiosos da gestão gostem mais que metáforas. Uma boa metáfora serve para caracterizar um problema de gestão inteiro, embora seja vulgar que a metáfora seja isso mesmo, só metáfora que fica bem no power point. Uma das melhores para mim é o problema do Pai Natal bêbado que vem mesmo a calhar na quadra e na questão dos concursos da FCT para investigador.

O que é o problema do Pai Natal bêbado? As grandes superfícies comerciais americanas (e agora do mundo inteiro) não passam sem ter um sujeito a fazer de Pai Natal durante a quadra para ajudar às vendas. A coisa, entre americanos, é muito importante porque o sujeito contratado anda por lá a divertir a crianças e a tirar fotografias com as criancinhas ao colo. Um Pai Natal acarta consigo um risco de reputação importante.

No entanto, não há actividade mais sazonal que ser Pai Natal. As pessoas que prestam esse serviço são contratadas por pouco mais de um mês. A qualidade de um pai Natal depende em grande medida de encontrar alguém responsável disposto a aceitar um cargo de um mês a aturar crianças sabendo que vai ser despedido no dia 26 de Dezembro. Por isso, as histórias de superfícies comerciais que contratam Pais Natais bêbados são muitas, não porque tivessem a recrutar pessoas alcoolizadas, mas porque as pessoas que aceitam esses empregos a um prazo tão curto, já são pessoas com uma empregabilidade muito baixa devido a problemas desse tipo.

O que nos traz aos concursos de investigadores e a outros casos bem piores da sociedade portuguesa.  Estando eu relativamente próximo dos investigadores e não sendo um profissional da arte acho que tenho uma visão próxima e  desapaixonada do problema. Naquilo que me é dado a perceber, a FCT faz concursos periódicos para investigadores de acordo com orientações estratégicas(?) emanadas do poder político, sendo que esses concursos são para contratos temporários de alguns anos. Quatro, pelo que me parece.

Os resultados do concurso deste ano trouxeram, naturalmente, muitas desilusões às pessoas que estavam ao abrigo dos contratos anteriores, ou ao abrigo de outras formas de contratação temporária como bolsas, que esperavam ver a sua relação “laboral”  ter alguma continuidade. Independentemente da transparência do processo, que pode ser criticável ou não, a recorrência da questão da contratação temporária é um completo mistério para mim.

Há, de facto, tarefas que pela sua natureza são temporárias. Se investigador é uma delas, ou não, na minha opinião, é irrelevante. O governo da república, eleito pelo povo, entende que é temporária. Se o concurso foi aceite por quem concorreu é porque esse alguém decidiu ser o Pai Natal, pelas circunstâncias que só a ele dizem respeito. Mas, sublinho, aceitou um trabalho temporário.

Por tudo isto,  faz-me uma enorme confusão na minha cabeça que pessoas com inteligências no percentil 95 se prestem a ser Pais Natais. E, pior, invistam nisso. Como estou cansado de ver a mesma coisa nos concursos de professores, com pessoas a dizerem que têm contratos de um ano há 15 anos (o que é que ainda não perceberam do vosso posto de trabalho???) achei que deveria escrever estas linhas em estilo de “abre-olhos”. Se o vosso “patrão” (que neste caso é a república)  acha que vocês só devem ser contratados por 4 anos, acreditem que ele acha que vocês só têm utilidade por 4 anos. O ónus da prova de que valem mais que isso, não é da república, é vosso. Se ficaram de fora no concurso e insistem que deveriam ficar dentro, se estão a fazer esse investimento por um contrato de 4 anos é porque querem ser Pais Natais. Eu não consigo entender que direccionem o vosso investimento pessoal para conseguir um reconhecimento que valerá 4 anos quando não o estão a fazer para um reconhecimento que pode durar uma vida profissional com outros patrões. Até podem ter razão perante o vosso patrão. Perante vós, não têm nenhuma. No próximo concurso, vão fazer a mesma coisa? Com mais 4 anos de idade?

Do ponto de vista de contribuinte, estou muito bem. Tenho uma tarefa que digo que é sazonal e não me faltam candidatos para o fazer ao ponto de lutarem por um lugarito em tribunal(*). E, nesse ponto de vista, um problema de Pai Natal bêbado é coisa que estou longe de ter. Continuem assim!
Como vosso “quase-colega”, abram os olhos! Por favor...

(*) Sobre isto, conheço quem tenha ganho e quem tenha perdido. E quem ganhou, ganhou bem! Quem perdeu, não sei.

11 comentários:

  1. A observação que faz é legítima mas penso que a explicação é mais simples do que pode parecer:

    As pessoas em condições para entra nestes concursos gostam desse trabalho e estão dispostas a fazê-lo, pelo menos por algum tempo, sem condições de segurança no emprego, boa remuneração, etc. Ao contrário aparentemente de que se passa na área da gestão (que deve ser um trabalho muito chato por isso, coitados desses desgraçados, têm que ser bem remunerados).

    Assim não acho estranho que muitas pessoas inteligentes embarquem em tal empresa na esperança de depois de algum tempo conseguirem um lugar mais permanente até porque, como seria possível qualquer governo desperdiçar tal investimento e oferecê-lo de bandeja a qualquer país europeu que venha cá contratar?

    Mais importante do que isto é perguntar como é possível o governo da república enveredar por tal caminho. Estamos a precisar de um exame de entrada no governo urgentemente...

    Uma parte da resposta a este problema seria criar um sindicato destes candidatos a bolseiros, mas os tempos não estão de feição para isso.

    O país perde.

    PG

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    1. Já temos um exame de entrada no governo. Chama-se "eleições". E não me parece que haja assim tanta gente disposta a prescindir desse exame.

      Podem sempre nomear-me Grande Generalíssimo, Pai dos Povos e Ditador Vitalício. Assim concordo!

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    2. Falsa questão. O facto de a maioria escolher (de entre a pobre escolha) algu+em, não significa que esse alguém seja qualificado para o lugar ou valeria o argumento que os professores tb já fizeram exames, são licenciados por um curso, imagine-se, sancionado pelo governo português. E isso não tem nada que ver com dispensar eleições. Os governantes e.g. os ministros, não são necessariamente eleitos mas sim nomeados. E se entende que as eleições são um exame, o que acha de quem é eleito e não cumpre as promessas eleitorais? (há países em que a tal são obrigados) Não será cabulanço? Melhor repetir a prova quanto antes.

      PG

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    3. Sorry, sou um democrata. Acho que há um governo eleito e um parlamento para representar o povo. E a quantidade de bosta feita por um governante deve ser inversamente proporcional ao seu currículo académico, logo a começar pelo Salazar. Mais sério e com um currículo maior deve ser difícil encontrar.
      Recentrando, há um patrão e esse patrão é o povo português.

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    4. Como democrata que diz que é devia apreciar o compromisso de qq candidato a governante de cumprir as suas promessas eleitorais, e não fazer-se eleger com mentiras para depois fazer o oposto do que prometeu. E tendo necessariamente este compromisso que ter limitações, que cumprir algo à letra é não só difícil como indesejável, a verdade é que ele existe em alguns países com uma democracia mais madura do que a nossa. Google is your friend. As democracias não se resumem a dar o voto de 4 em 4 anos. O conceito de democracia é muito lato é há-as de boa e de muito má qualidade. E em geral há muito espaço para serem melhoradas.

      Quanto à bosta, não tem nada que ver com CVs, mas há questões técnicas complicadas e já muita asneira foi feita por pura ignorância. Por isso os directores gerais deviam ser lugares técnicos mas os ignorantes não gostam de forças a bloquearem as suas asneiras...

      Mas se o patrão é o povo português, deixe-se o patrão falar!

      PG

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  2. Para continuar com a metáfora absurda do autor. Por incrivel que pareça há actores profissionais que investem na sua aparência e deixam crescer a barba para poder fazer de pai natal. Agora imaginem que o centro comercial passava a querer um pai natal magrinho e barbeado e só avisa já em dezembro? Pois metaforicamente foi o que se passou.
    Os investigadores não estão desiludidos com os resultados, o que é motivo de legítimo protesto é a forma ilegal que a FCT usou para pré-seleccionar as candidaturas, algo que não estava previsto no regulamento do concurso. Sou investigador e já ganhei e já perdi concursos de várias instituições, eu tal como a grande maioria dos meus colegas respeito de bom grado as regras e aceito perfeitamente quando os meus projectos não são seleccionados em virtude de haver outros melhores. Mas não posso aceitar que o meu projecto nem sequer seja analisado pelo juri do concurso em virtude de ter sido indeferido por um qualquer painel ou individuo desconhecido, já que a FCT se recusa a identificar que fez a pré-selecção.

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    1. «Faz-me uma enorme confusão na minha cabeça que pessoas com inteligências no percentil 95 se prestem a ser Pais Natais.»
      Imagino a confusão que vai pela sua cabeça e a incapacidade de compreender como funciona a academia e a investigação científica a nivel global.
      O que me leva a interrogar sobre qual a sua real contribuição para este blog dedicado à divulgação científica...

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    2. É verdade... Que seria de mim se não fosse o espírito crítico das pessoas inteligentes.

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  3. O anónimo tem toda a razão. Pela parte que me toca, não voltarei aqui a postar para não embaraçar os mais inteligentes.

    Continuação do bom nivel científico.

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