domingo, 22 de dezembro de 2013

PEDRAS BULIDEIRAS

Pedra bulideira de Alijó (Vila Real de Trás-os-Montes), mais conhecida por Penedo Furado.
Pedras bulideiras ou baloiçantes são expressões usadas em diversos lugares do país para designar grande penedos ou fragas de granito, mais ou menos arredondados, com uma base mínima assente sobre um afloramento rochoso da mesma natureza, o que lhe permite balouçar ou oscilar. Há ainda quem lhes chame pedras cavaleiras ou pedras encavaladas.

Mais frequentes nas regiões graníticas das latitudes de clima dito temperado, a origem destes grandes blocos oscilantes reside no processo de meteorização (alteração) das rochas, próprio destas regiões, processo que geólogos e geomorfólogos referem por arenização e que consiste na hidrólise [1] moderada, superficial, dos feldspatos, transformando a rocha num material que se desagrega facilmente. A rocha arenizada, ou saibro (ou arena), torna-se porosa e friável, permitindo o prosseguimento do processo, cada vez mais profundo, a que se segue a erosão e remoção da parte arenizada, por efeito, sobretudo, das águas pluviais e de escorrência.

Para perceber a origem dos blocos arredondados é preciso recuar à fase de arrefecimento do magma granítico e subsequente solidificação da respectiva rocha. Acontece que, a culminar esta fase, tem lugar o desenvolvimento de roturas ao longo de superfícies, sensivelmente planas, que se cruzam nas três direcções do espaço, definindo blocos, grosso modo, paralelepipédicos, sem deslocamento dos diversos compartimentos em confronto.

Estas roturas têm o nome de juntas ou diaclases (do grego dia, em dois, e klasis, fractura, ruptura) e é a circulação da água através delas que promove a arenização, naturalmente mais intensa nas arestas e nos vértices dos referidos blocos paralelepipédicos, arredondando-os.

Alteração da rocha ao longo das diaclases. (Imagem retirada de www.geocaching,com)
À esquerda: arredondamento dos blocos controlado pela rede de diaclases
(Imagem retirada de dinamica-geologica,blogspot.com)
A continuação dos processos de meteorização e erosão conduz à formação de caos de blocos,
Caos de blocos. Foto de Carlos Franquinho
Nestes amontoados, os menos volumosos vão sendo destruídos, acabando por restar o bloco que mais resistiu, no geral o maior que, uma vez arredondado, pode oscilar. Quando isto acontece, a natureza oferece-nos uma pedra bulideira.

Fraga do Ovo”, em Candoso, Vila Flor (Trás-os-Montes). Foto de Aníbal Gonçalves.
Embora baloicem, as pedras bulideiras não rolam e, portanto, não mudam de lugar e isso deve-se ao facto de os respectivos centros de gravidade se encontrarem abaixo dos centros geométricos dos respectivos blocos, como nos bonecos “sempre-em-pé”.

Descritas com bastante pormenor por Borges de Macedo (1885-1951) e por Francisco Manuel Alves (1865-1947), mais conhecido por Abade de Baçal, as pedras bulideiras são relativamente frequentes no norte granítico de Portugal, destacando-se, entre elas as de Alijó, Chaves, Macedo de Cavaleiros, Montalegre, Candoso (Vila Flor) e Sezures. Esta última, no concelho de Penalva do Castelo, distrito de Viseu, depois de devidamente fixada, serve de suporte ao marco geodésico Pedras Altas, no topo da Serra das Cabeças. É frequente encontrar na bibliografia citações alusivas às pedras bulideiras como vestígios pré-históricos associados a monumentos megalíticos na Bretanha, região francesa marcada pela abundância de umas e de outros. É, pois, admissível que, tanto em França como em Portugal, estas pedras tenham tido funções mágicas ou tenham sido consideradas locais de culto que chegaram aos dias de hoje. O facto de algumas serem entendidas por pedras da paciência, outras por pedras do medo e outras, ainda, por pedras que falam (algumas emitem sons enquanto baloiçam), parece indicar que, à semelhança de outros penedos, ainda que não oscilantes, se revestiam de poderes mágicos.

[1] Hidrólise - reacção química produzida pela água, que separa aniões e catiões de uma molécula, libertando-os para a solução.

A. Galopim de Carvalho

1 comentário:

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