quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Os papagaios pirómanos


Quando da crise política de julho passado, o sociólogo Manuel Vilaverde Cabral deu um depoimento ao Público no qual dizia, a certa altura, que «o PS não é capaz de reconhecer a sua responsabilidade na bancarrota». Penso que é aqui, nesta ausência de consciência de culpa, que radica boa parte do problema da atual situação política.

E, é óbvio, no governo de Passos Coelho que lhe facilitou a tarefa. Imprudente, e deslumbrado com o poder, pensou que iria resolver a crise “rapidamente e em força”, e que não precisariam do apoio e da co-responsabilidade do PS. Se tivessem sido mais avisados e cuidadosos, não deixando escapar os socialistas, agarrando-os desde o princípio às suas responsabilidades e procurando o seu apoio para as duras decisões, talvez hoje tivéssemos o tão necessário compromisso partidário alargado, e por certo não assistiríamos à agitação atual e estaríamos mais fortes para resolver as dificuldades.

Face à arrogância individualista do poder laranja, o PS esfregou as mãos de contente e foi saindo à socapa, pelas traseiras. E agora aparece como o campeão das alternativas que o não são e da «austeridade com crescimento», que é uma daquelas frases balofas de que o António José Seguro gosta muito e toda a gente anda a repetir, porque, já se sabe, o vírus duma frase feita espalha-se com a rapidez e o perigo de uma pneumónica.

Dir-se-ia que em duas gerações se tinha perdido a moderação e a pertinácia que caracterizava, por bons e maus motivos, os portugueses. Mas ainda não, valha-nos isso. Para lá de todos os erros políticos e abusos “de Lisboa”, há um Portugal que passa ao lado desta bagunça da comunicação social, das manifestações e das centrais sindicais. Trabalha, trata da vida com senso e realismo, vai furando por onde pode e, tendo noção de que se fizeram muitos e grandes disparates, considera que alguém tem de os pagar. O que nos vale é que empresários (quase sempre mal tratados pelo poderes - político, burocrático, fiscal e sindical – e, obviamente, trabalhadores de muitos géneros e feitios, vão produzindo riqueza e vão exportando, há universidades que investigam, colaboram com empresas, inovam, rompem com a inércia, e é isso que nos dá esperança.

Da maioria dos velhos políticos, e dos muitos papagaios que esvoaçam em volta, que se acham donos do regime e com direito a incendiar plateias, nada de bom há a esperar. Não têm capacidade para aprender com os erros, e ainda menos para perceber que muito do erro está neles. Aliás, no mesmo comentário Vilaverde Cabral lembra que o PS «é a terceira vez que chama o FMI – duas com Mário Soares (1978 e 1983) e esta com Sócrates». É muita coisa em pouco tempo.

 E o pior é que vai já a enfiar-se outra vez pelo mesmo caminho. Não consegue perceber que o tempo da irresponsabilidade já passou, que o da impunidade tem que passar, e que é preciso mudar mentalidades. Voltar ao bom senso que o povo tem. Acabar com as impunidades.

Entretanto Arménio Carlos destronou, nas televisões, Jorge Jesus. Os amanhãs cantantes, que hão de vir, sobrepuseram-se, e com razão, às vitórias vermelhas, que nunca chegam. Lá desembaraçado a falar é ele, muito mais que o outro. Valha-nos ao menos isso.

João Boavida

6 comentários:

  1. Dr.João Boavida:

    Só posso dizer: ainda bem que o Arménio Carlos destronou o Jorge de Jesus. Pode ser que signifique que há mais país para além do futebol, das telenovelas, das ciclovias, da reciclagem de lixos, das promoções do Pingo Doce e dos centros comerciais.

    De qualquer forma não sei qual é a solução que apresenta: gostaria que os sindicatos, as ongs, outras instituições, a sociedade civil estivessem quietos e calados, sem nada fazer? Não acha que a ausência de resistência, mesmo sem resultados imediatos (sim, eu sei, que na sociedade actual tem de ser tudo imediato, tudo feliz), que a destruição governativa teria já cumprido os seus objectivos? E que a resistência é uma forma positiva de as pessoas reagirem?

    Enfim, é sempre preferível desejar um amanhã cantante do que um amanhã deprimido e submisso...

    Os melhores cumprimentos,

    Luísa Almeida, Lisboa

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  2. Professor João Boavida;

    Concordo, com quase toda a análise que faz no texto que escreve.
    Onde discordo é precisamente no caminho que devemos seguir para chegar a bom termo.
    Se é bem verdade que, em todo o seu texto, está implícita a falta de cultura que existe em nós enquanto colectividade, então porque considera que a solução pode ser outra sem que o caminho passe pela sua resolução (“despertar a alma colectiva das massas”) quando escreve?! (“… e por certo não assistiríamos à agitação atual e estaríamos mais fortes para resolver as dificuldades”).

    Não estará aqui o Senhor Professor João Boavida a cair em contradição?

    Eu transcrevo-lhe um pouco do Professor Bento de Jesus Caraça, cuja obra muito admiro:

    “Mas o que não deve nem pode ser monopólio de uma elite, é a cultura; essa tem de reivindicar-se para a colectividade inteira, porque só com ela pode a humanidade tomar consciência de si própria, ditando a todo o momento a tonalidade geral da orientação às elites parciais.
    Só deste modo poderá levar-se a bom termo a realização daquela tarefa essencial que atrás vimos ser o problema central posto às gerações de hoje – despertar a alma colectiva das massas.”[A Cultura Integral do Individuo – Conferencia]


    Cordialmente,

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  3. http://nuestroplanetaazulcambia.wordpress.com/2011/12/15/el-amaranto-la-planta-sagrada-de-los-incas-ataca-a-cultivos-transgenicos/

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  4. E então o sapiente sr. Silva das cagarras, o pai do monstro? Se isto é a análise de um auto-intitulado professor e filósofo estamos muito pior do que a maioria imagina! Regressa, Afonso Henriques, e dá uma valente coça na mãe,

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  5. Bom senso é que se exigia que os dois papagaios tivessem. Os portugueses sabem bem que a situação é difícil e sabe bem o que é o bom senso, que não encontra nas duas aves palradoras, cada qual chefe da sua capoeira. Por que se não entendem as aves? Só porque ambas querem o controle do galinheiro
    Meninos mimados que só têm a escola dos partidos e o País (todos os portugueses) para eles não conta para nada.

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  6. O Sr. Professor João Boavida devia estar grato às centrais sindicais (leia-se CGTP) que tanto parece abominar, pois é através delas que a pressão a que estamos sujeitos se vai esvaindo. Bem sei que não precisa de se manifestar porque terá quem o faça por si, uma vez que as melhorias que sejam alcançadas também abrangem quem fica em casa, de roupão e chinelos e com os olhos na TV.
    Pena foi que, após um texto tão interessante - apesar de tudo - tenha terminado com um comentário "futebolez", que considero ofensivo para Arménio Carlos.

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