terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O INÍCIO DO INFINITO


Deixo aqui um excerto do Cap. 3 de um grande livro que acaba de sair na Gradiva na colecção "Ciência Aberta": "O Início do Infinito", de David Deutsch. Recomendo: é uma leitura imprescindível para se perceber o poder da ciência, o seu impacte na filosofia  e a confiança no futuro que ela nos pode transmitir.

"Muitas das referências antigas à realidade para além das nossas experiências quotidianas não só eram falsas como se revestiam de um carácter radicalmente diferente das modernas: eram antropocêntricas. Ou seja, centravam‑se nos seres humanos e, num sentido mais amplo, nas pessoas — entidades com intenções e pensamentos de dimensão humana, que incluíam indivíduos poderosos e sobrenaturais, como espíritos ou deuses. Por isso o Inverno podia ser atribuído à tristeza de alguém, as colheitas à generosidade, os desastres naturais à raiva, e assim sucessivamente. Tais explicações envolviam muitas vezes criaturas de importância cósmica preocupadas com o que os seres humanos faziam e com intenções em relação a elas. Concomitantemente, os seres humanos adquiriam também relevância cósmica. Por fim a teoria geocêntrica colocou igualmente o ser humano no centro físico do universo. Esses dois tipos de antropocentrismo — explicativo e geométrico — tornaram‑se reciprocamente mais plausíveis, e por isso o pensamento pré‑iluminista era mais antropocêntrico do que podemos imaginar hoje.

 Uma das excepções assinaláveis foi a ciência da geometria, em especial o sistema desenvolvido pelo matemático grego antigo Euclides. Os elegantes axiomas e modos de raciocínio sobre entidades impessoais como pontos e linhas seriam mais tarde uma inspiração para muitos dos pioneiros do iluminismo. Até lá, a geometria teve pouco impacto nas visões prevalecentes do mundo. A título de exemplo, grande parte dos astrónomos eram também astrólogos: apesar de usarem geometria sofisticada no seu trabalho, acreditavam que as estrelas prediziam acontecimentos políticos e pessoais na Terra.

 Numa altura em que ainda nada se sabia sobre o funcionamento do mundo, tentar explicar fenómenos físicos através de pensamentos e acções com intenções e dimensão humana poderá ter sido uma abordagem razoável. Afinal é assim que ainda hoje explicamos muitas das nossas experiências diárias: se uma jóia desapareceu misteriosamente de um cofre, procuramos explicações a nível humano, como erro ou roubo (ou, em determinadas circunstâncias, magia), e não novas leis da física. Mas essa abordagem antropocêntrica nunca produziu boas explicações que ultrapassassem o domínio das lides humanas. Em relação ao mundo físico, no sentido lato, foi um erro colossal. Sabemos agora que os padrões das estrelas e dos planetas no céu nocturno não interferem na vida dos seres humanos. Sabemos que não estamos no centro do universo — este não possui sequer um centro geométrico. E sabemos que, embora os titânicos fenómenos astrofísicos descritos no capítulo anterior tenham desempenhado um papel significativo no passado, nunca tivemos qualquer importância nesses mesmos fenómenos. Um fenómeno é significativo (ou fundamental) se, como os átomos e as estrelas, tiver um papel crucial na explicação de muitos outros fenómenos; diria portanto que os seres humanos e os seus desejos e acções são extremamente insignificantes no universo em geral.

 As concepções antropocêntricas erradas têm sido derrubadas em todas as áreas fundamentais da ciência: o nosso conhecimento de física é agora totalmente expresso com base em entidades tão impessoais como os pontos e as  linhas de Euclides, ou seja, partículas elementares, forças e espaço‑tempo — um contínuo de quatro dimensões, com três dimensões de espaço e uma de tempo. Os seus efeitos recíprocos não são explicados com sentimentos ou intenções, mas usando equações matemáticas que expressam leis da natureza. Em biologia, por exemplo, pensava‑se que os seres vivos tinham sido criados por um ser sobrenatural e que continham obrigatoriamente um ingrediente especial, um «princípio vital», que os fazia comportar‑se como se tivessem um propósito. Mas a biologia descobriu novos modos de explicação usando coisas tão impessoais como reacções químicas, genes e a evolução. Por isso agora sabemos que todos os organismos vivos, incluindo os seres humanos, são constituídos pelos mesmos ingredientes que as pedras e as estrelas, obedecem à mesmas leis e não foram concebidos por ninguém. A ciência moderna, longe de explicar fenómenos físicos com base em pensamentos e intenções de pessoas não observadas, considera os nossos pensamentos e intenções agregados de processos físicos microscópicos não observados (mas observáveis) do nosso cérebro.

Este abandono das teorias antropocêntricas tem sido tão frutífero, e tão importante na ampla história das ideias, que o anti‑antropocentrismo tem sido aos poucos elevado ao estatuto de princípio universal, designado por vezes princípio da mediocridade: não há nada de significativo no que diz respeito aos seres humanos (no esquema cósmico das coisas). Como afirma o físico Stephen Hawking, os seres humanos não passam de «lixo químico na superfície de um planeta comum na órbita de uma estrela comum nos confins de uma galáxia comum». A ressalva «no esquema cósmico das coisas» é necessária, pois o lixo químico tem, como é evidente, uma relevância especial de  acordo com os valores que atribui a si próprio, como valores morais. Mas o princípio diz que todos esses valores são em si mesmos antropocêntricos: explicam apenas o comportamento do lixo, ele próprio insignificante. É fácil confundir idiossincrasias do nosso próprio ambiente ou perspectiva (como a rotação do céu nocturno) com características objectivas do que se está a observar, ou regras gerais (como a previsão do nascer diário do Sol) com leis universais. Referir‑me‑ei a esse tipo de erro como paroquialismo. 

Os erros antropocêntricos são exemplos dessa visão restrita, mas nem todo o paroquialismo é antropocêntrico. Ou seja, a previsão de que as estações ocorrem ao mesmo tempo em todo o mundo é um erro paroquial mas não antropocêntrico: não implica uma explicação das estações numa base humana. Outra das ideias influentes sobre a condição humana é a dramaticamente chamada nave espacial Terra. Imagine uma «nave geracional» — uma nave numa viagem tão longa que muitas gerações de passageiros passam aí as suas vidas. Este conceito foi proposto como meio de colonizar outros sistemas de estrelas. Na ideia da nave espacial Terra, essa nave geracional é uma metáfora da biosfera — o sistema de todos os organismos vivos na Terra e regiões que habitam. Os seus passageiros representam todos os seres humanos da Terra. No exterior da nave, o universo é implacavelmente hostil, mas o interior é um sistema de suporte de vida altamente complexo, capaz de prover todas as necessidades de sobrevivência dos passageiros. À semelhança da nave, a biosfera recicla todo o lixo e é auto‑suficiente, recorrendo à sua espaçosa central nuclear (o Sol). Do mesmo modo que o sistema de suporte de vida da nave é concebido para sustentar os seus passageiros, também a biosfera é «aparentemente concebida»: parece altamente adaptada para nos sustentar (afirma a metáfora) porque nós nos adaptámos a ela através da evolução. Mas a sua capacidade é finita: se a sobrecarregarmos, meramente com a nossa população ou adoptando estilos de vida muito diversos daqueles em que temos vivido (aqueles para os quais a biosfera foi «concebida»), ela vai esgotar‑se.

E tal como os passageiros da nave espacial não temos uma segunda oportunidade: se o nosso estilo de vida se tornar demasiado negligente ou perdulário e arruinarmos o nosso sistema de suporte de vida, não temos mais nenhum sítio para onde ir. A metáfora da nave espacial Terra e o princípio da mediocridade alcançaram uma grande aceitação entre as pessoas com espírito científico — ao ponto de se tornarem truísmos. Isto apesar de, dadas as circunstâncias, argumentarem em sentidos ligeiramente opostos: o princípio da mediocridade sublinha quão comuns são a Terra e o lixo químico (no sentido de não serem extraordinários), enquanto a nave espacial Terra salienta quão pouco comuns eles são (no sentido de serem adequados unicamente um para o outro). Quando se interpretam as duas ideias em sentido lato e numa perspectiva filosófica, o que em geral é o caso, elas facilmente convergem. Ambas se vêem a si próprias como correcções dos mesmos equívocos paroquiais, designadamente que a nossa experiência de vida na Terra é representativa do universo e que a Terra é vasta, fixa e permanente. Ambas apontam, em vez disso, o seu carácter diminuto e efémero. Ambas se opõem à arrogância: o princípio da mediocridade opõe‑se à arrogância pré‑iluminista da importância do homem no mundo; a metáfora da nave espacial Terra opõe‑se à arrogância iluminista de aspirar ao domínio do mundo. Ambas contêm um elemento moral: não devíamos considerar‑nos relevantes, dizem; não devíamos esperar que o mundo se submeta indefinidamente à nossa devastação. Desta forma, as duas ideias geram um enquadramento conceptual rico, capaz de informar toda uma visão do mundo. Contudo, como explicarei mais à frente, são ambas falsas, mesmo num sentido objectivo e factual. E num sentido mais amplo, são tão enganadoras que, se quiséssemos gravar numa rocha uma máxima válida e recitá‑la todas as manhãs antes do pequeno‑almoço, mais valia usar as negações destas concepções. Ou seja, a verdade é que as pessoas são importantes no esquema cósmico das coisas e a biosfera terrestre é incapaz de sustentar a vida humana.

Tomemos o comentário de Hawking de novo. É verdade que nos situamos num planeta comum (de alguma forma) de uma estrela comum numa galáxia comum. Mas estamos longe de ser como a matéria que existe no universo. Por um lado, julga‑se que cerca de 80 por cento dessa matéria é «matéria negra» invisível, que não emite nem absorve luz. Actualmente, detectamo‑la apenas através dos seus efeitos gravitacionais indirectos nas galáxias. Só os restantes 20 por cento são matéria do tipo a que restritamente chamamos «matéria comum». Caracteriza‑se por brilhar continuamente. Não costumamos pensar em nós como seres brilhantes, mas trata‑se de outra noção errada e paroquial, dadas as limitações dos nossos sentidos: emitimos radiação térmica, luz infravermelha, e ainda luz no domínio do visível, demasiado leve para ser detectada pelos nossos olhos. As concentrações de matéria tão densas como nós, o nosso planeta e a nossa estrela, embora numerosas, também não são propriamente comuns. São fenómenos isolados e invulgares. O universo é maioritariamente vácuo (e radiação e matéria negra). A matéria comum é‑nos familiar apenas porque é aquilo de que somos feitos, e por causa da nossa proximidade pouco comum com grandes concentrações desta.

 Adicionalmente, somos uma forma pouco comum de matéria comum. A mais comum é o plasma (átomos dissociados nos seus componentes com carga eléctrica), que emite normalmente luz clara e visível, pois existe nas estrelas, que são bastante quentes. Nós, lixo, somos basicamente emissores de infravermelhos, já que contemos líquidos e químicos complexos que só podem existir a temperaturas muito mais baixas.(...)"

David Deutsch

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