terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A MÍSERA AMBIÇÃO DO EDUQUÊS (Comentário ao artigo de Maria Emília Brederode)

Transcrevo aqui artigo de Guilherme Valente no Público de hoje:

A melhoria nos testes PIRLS e TIMSS volta a ser falaciosamente usada (PÚBLICO, 24/12) para legitimar as teorias e práticas impostas à escola nos últimos trinta e cinco anos. Escreve Maria Emília Brederode (MEB): “(...) os únicos testes internacionais em que o desempenho dos alunos portugueses ficou acima da média europeia em Língua Materna, compreensão de leitura e em Matemática e Ciências.
Estes resultados correspondem a testes efectuados em 2011 pelo que não há forma de os considerar indicadores de que alguma coisa fosse mal na formação de educadores de infância e de professores dos 1.º e 2.º ciclos”.

Ora, nem o resultado desses testes tem, infelizmente, o significado que MEB lhe atribui; nem a média europeia é satisfatória; nem o mérito dessa subida pertence à formação ministrada nas Escolas Superiores de Educação. Esse progresso, tão tardio, revela, pelo contrário, o seu fracasso. O facto de ostentarem tão modesta e insignificativa classificação mostra, afinal, a mísera ambição dos seus objectivos. Vejamos porquê:

1. Os testes referidos foram aplicados a alunos de 10 anos, a terminar o 1.º ciclo. A este nível, nestes tempos “pós-modernos” em que pouco ou nada se ensina a essas crianças, ainda não há grande diferenciação nos conhecimentos dos alunos.

2. E os referentes não são significativos. Se compararmos os resultados dos nossos alunos - tal como os dos alunos da generalidade dos países europeus - com os dos alunos dos países que claramente progrediram, verifica-se um atraso geral dramático (et pour cause...). Ora, devem ser os resultados desses países o exemplo e o desafio para nós. Atente-se no sucesso conseguido por alguns deles, em várias latitudes, em quatro vezes menos tempo.

3. O mérito desse nosso progresso, relativo a países da Europa em que a qualidade do ensino se tem degradado, não pertence às referidas teorias, mas, pelo contrário, como veremos, ao recuo no seu domínio.
De facto, nos testes PISA, mais significativos, porque aplicados a jovens com 15 anos, quando a influência da escola nos conhecimentos dos alunos é já mais acentuada, os resultados foram sempre muito fracos até 2009, só então se verificando o primeiro progresso visível, depois de o modelo há tantos anos imposto começar a ser contrariado, ainda que timidamente. (Acrescente-se ter constado que o ministério de M. L. Rodrigues não incluiu alunos dos cursos profissionais, e por isso os resultados teriam sido melhores)
Na verdade, o progresso verificado no PISA de 2009 e nos PIRLS e TIMSS de 2011 começa por estar ligado a uma mudança de ambiente resultante das vitórias no longo combate travado por alguns cidadãos e jornalistas, nomeadamente: divulgação dos resultados das provas de aferição e dos exames que ainda restavam; participação nas provas comparativas internacionais, que Ana Benavente proibira.
E, depois, a medidas que, embora temerosas e circunscritas, começaram a enfrentar, o que eu, saudando-as, designei por “eduquês” puro e duro.

Medidas do tempo de D.Justino, nomeadamente reintrodução de exames e preocupação com o ensino profissional. Orientação reforçada por Sócrates/M. L. Rodrigues: afirmação veemente do valor dos exames; mudança no modelo de direcção das escolas; assumida reabilitação da ideia do ensino profissional, permissão para as escolas criarem cursos profissionais - ferindo, assim, um dos dogmas mais estúpidos e cruéis do "eduquês" (de que logo resultou uma localizada descida no abandono escolar); reciclagem, embora mal realizada, de professores de Matemática - “anunciando” o que Crato, seguramente, quer fazer. Medidas que valeram a MLR a significativa ruptura com os ultras das “ciências” da educação.

Registe-se, ainda, a determinação de MLR em enfrentar politicamente os que nunca deixaram governar qualquer ministro, que hoje usam como “carne para canhão” muitos professores, presas fáceis depois de "qualificados" pelas ESE (também pedagogicamente, como se vê).

ESE e mesmo formação de docentes nas Universidades de que Crato deveria ter já promovido a reformulação. Tal como a selecção dos candidatos a esses cursos (na Finlândia é muito rigorosa, com resultados à vista), e a inadiável reciclagem de docentes no activo.

4. O progresso nos testes em causa não traduz, pois, infelizmente, a realidade da grande maioria das escolas.

O indicador expressivo, fiável, da qualidade da educação, é, afinal, o estado em que Portugal se encontra, em todos os registos da realidade - participação cívica, política, economia, cultura, desenvolvimento, independência nacional, em suma. Atraso agravado dramaticamente pelos anos devastadores do “eduquês”.

5. Dou apenas o exemplo determinante da leitura. Transcrevo de Valter Hugo Mãe o testemunho insuspeito que cita:

“Chocou-me ouvir Alice Vieira dizer que os bestsellers dos anos 80 que a levavam às escolas para falar com miúdos do 6.º ano, agora são os mesmos que a levam para falar com miúdos do 12.º ano. Diz ela que, hoje, os livros que concebeu para miúdos de 13 anos, estão a ser lidos e trabalhados por miúdos de 17, no âmbito das escolas. 'O que vou fazer? Pelo menos que os apanhemos aos 17, se não estes livros para 13 anos vão ser mais tarde ou mais cedo trabalhados na universidade ou em doutoramentos e eu vou ser chamada para falar com adultos marmanjões que deviam ter entendido isto aos 13 anos'.”

A observação de Alice Vieira demonstra que temos estado, desde há muito, a recuar, que os nossos jovens aprendem cada vez mais tarde o que deviam aprender muito mais cedo.

6. Do artigo de MEB fica-me uma perplexidade: pensará MEB, realmente, ser possível ensinar-se o valor da leitura, suscitar o seu hábito, a sua paixão, ou mesmo, tão somente, ensinar com eficácia e alegria uma criança a ler, sem se ter consciência desse valor, sem a experiência apaixonante e transformadora do convívio com os grandes textos, Eça, Camilo e Saramago, como, ironizando, refere? Poderá alguém ser
Professor sem uma cultura geral básica? O mesmo se verifica com a química ou a matemática - com a referência à trigonometria MEB tenta caricaturar a exigência que o actual ministro quer promover. Mas há mesmo muitos professores de Matemática incapazes de chegar ao resultado de 8X7, para não falar nos mestres e doutores que não sabem alinhavar duas ideias, nem sabem o mais elementar da História de Portugal...

Mas essa ideia errada, geradora de ignorância e desumanização, está, afinal, no âmago da genética do “eduquês”: desvalorização do conhecimento, horror ao mérito, ideia, social e humanamente aviltante, de que a ignorância, mesmo do mais básico, ou a idiotice, podem ensinar, valorizar, criar, realizar seja o que for. Não sou capaz de atribuir tal ideia a MEB.

Quanto ao que Nuno Crato, cercado, tem sido capaz de fazer, ver-se-á, se houver tempo, o efeito, e haverei de me pronunciar. Devo isso aos muitos Professores com quem partilhei angústia, indignação e esperança.

Guilherme Valente (editor)

6 comentários:

  1. É interessante ver como o Papa Antieduquês se transformou de repente em Lucky Luke. Como foge completamente da argumentação apresentada por Maria Emília Brederode Santos, num sólido (argumentativamente), sensato e moderado artigo, para inventar fantasmas por todo o lado e disparar em todas as direcções.
    Os mesmos que andaram anos a fio a perorar contra a miséria do nosso Ensino, chamando a atenção para a comparação desfavorável dos nossos resultados nos testes internacionais relativamente aos outros países (em 1.º lugar os da OCDE), são os que ficaram possessos quando esses testes nos revelam um ainda ténue mas continuado caminho de melhoria.
    Assim se vê a seriedade intelectual desta gente.
    Primeiro formam as convicções, quando a realidade começa a beliscar, mesmo que tenuemente, essas convicções, perdem as estribeiras.
    Tenham vergonha na cara, Papa e acólitos.


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    1. O que me parece mais falso nisso tudo é rejubilar ou escarnecer de resultados que são sempre consequência desfasada no tempo das políticas em curso, e mesmo das anteriores. Se os testes são de 2011, correspondem a aprendizagens que já vêm de 2004/5 pelo menos, ou seja, políticas de ensino anteriores a essa data. Os seus resultados não se devem ao eduquês maldito de MLR (esse ainda se vai ver no próximo PISA, que se calhar vão querer atribuir erroneamente ao Crato) , nem à efémera Carmo Seabra, mas sim a David Justino e às suas decisões de política educativa.

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    2. Caro Mário:
      Deve-se a vários factores, a algumas acções de vários ministros, à acção quotidiana de muitos professores competentes, esforçados e dedicados (sempre houve e sempre haverá), à importância que os pais e a sociedade dão hoje à Educação, à discussão pública desta por parte de praticamente todos os sectores da sociedade. Há 45 ou 50 anos que discussão pública havia sobre Educação? Publicavam-se na imprensa os enunciados dos exames e as respostas a esses enunciados e pouco mais.
      Não se pode é fazer uma propaganda falaciosa, uma política de terra queimada contra o estado do Ensino, contra a ignorância generalizada dos alunos (excepto os familiares destes críticos, normalmente todos muito inteligentes, verdadeiros oásis no deserto), e depois, quando há resultados ténues de melhoria generalizada, desvalorizá-los e arranjar as mais estapafúrdias explicações.
      Estes resultados incomodaram, verdadeiramente, esta gente extremamente desonesta, estes talibãs antieduquêses.
      Primeiro pediam-nos como o único referente válido (p. ex. Crato), agora desvalorizam-nos.
      Há 2 coisas que eles não conseguem justificar.
      1.ª - Se durante 30 anos, «Os Anos Devastadores do Eduquês» (título de um livro do Papa Antieququês, atenção, eu não uso o termo com intenções ofensivas, sirvo-me dele por ser o que este Papa já aqui usou referindo-se a Ana Maria Bettencourt e a Ana Benavente: chamou-lhes papisas do eduquês), digo, como explicar os milhares de investigadores de ponta que temos e os milhares de engenheiros, médicos, arquitectos, biólogos, informáticos, enfermeiros que são contratados para os mais diversos países, lembro-me especialmente da Alemanha e da Noruega (a campanha anual de recrutamento de 1000 engenheiros em Portugal deste país nórdico), a Inglaterra, o Luxemburgo, a Suíça, etc. Países atrasados que nem sabem onde se meteram a contratar analfabetos, não é?
      2.º - Se a ignorância generalizada durante décadas dos filhos do eduquês, que levou a uma crítica sistemática, ilustrada com a forma errada como se expressavam e também como não sabiam fazer cálculos mentais simples, como justificar as calinadas de pessoas que aprenderam antes dos anos devastadores do eduquês?
      Basta ouvi-los (e vê-los) nos «media» todos os dias, com 50, 60 e 70 anos de idade, alguns doutorados e com altas responsabilidades institucionais.
      E como justificar que até o Papa Antieduquês tenha escrito «haverei de me pronunciar»?
      Já pus esta pergunta em várias situações a outras tantas pessoas e ninguém me respondeu.
      Apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo.
      A argumentação falaciosa não existe à prova dos 9: a prova da realidade.

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    3. Correcção: «A argumentação falaciosa não resiste à prova dos 9»

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  2. "Quanto ao que Nuno Crato, cercado, tem sido capaz de fazer, ver-se-á, se houver tempo, o efeito, e haverei de me pronunciar. "
    E Nuno Crato pretende/pretendia fazer o quê? É difícil vislumbrar um fio condutor na sua acção. Que projecto tem para a Educação? Que fins pretende atingir?

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