terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Estamos a falar de ciência?

O que é a ciência? Não se apresse o leitor a responder, pois a resposta não é fácil: requer ponderação. E, depois de ponderar - sobretudo, se muito ponderar - é bem possível que, como fez Richard Feynam numa conferência de 1966, contorne a questão e passe a dissertar sobre... ciência ou sobre um outro assunto menos complicado.

Mas, antes, pense no seguinte: podemos dizer que é científica uma actividade que, com a intenção de descobrir alguma coisa, se socorre de procedimentos, metodologias e técnicas que a ciência usa, mas despreza os mais elementares princípios éticos?

Há quem diga que sim. Eu digo que não. E, digo-o cada vez com mais certeza. Leio e releio os mestres por onde aprendi e a minha conclusão não pode ser outra.

Um desses mestres é Jacob Bronowski, que está sempre a dizer-me que a ciência é um "modo humano de pensar", "é uma forma de conhecimento extremamente humana", e daqui não pode afastar-se um milímetro que seja. Ele sabia bem do que falava, o que a vida lhe mostrou foi mais do que suficiente para chegar a esta ideia depurada.

Se se lhe alhear das pessoas, se não se importar com elas, se as usar para fins particulares que em nada as beneficia e, até, as prejudica, se as manipular por ganância, seja ela de que tipo for (poder, dinheiro, "palco"...), transforma-se precisamente no seu contrário: transforma-se em vilania.

Estas considerações são a propósito de um caso concreto (que lamentavelmente tem muitos exemplos conhecidos como o que se pode ler aqui em notícia do jornal Público, e aqui em artigo científico): a "investigação" que grandes empresas de comunicação fazem a partir dos conteúdos que circulam na internet, mais concretamente de mensagens particulares de correio electrónico, sendo que quem as escreve e quem as recebe não é ouvido para dar a sua autorização informada, que indubitavelmente se requer.

Mas, nesta fotografia, muito pior do que essas empresas e os seus investigadores assalariados, ficam as universidades e os seus investigadores que colaboram com essas empresas. E ficam pior porque as suas responsabilidades são acrescidas: além de pugnarem pelos valores da ciência, tudo devem fazer para que eles não sejam desvirtuados, abastardados, tanto dentro como fora das suas portas.

9 comentários:

  1. Professora Helena Damião, é muito bem vindo este seu post sobre o que é a ciência.
    Tal significado têm sido muito confuso aqui no De Rerum, veja-se por exemplo neste post “Suas Excelências, os cientistas de Portugal” de Mário Montenegro (veja-se o meu 1. comentário).

    Quando a senhora professora escreve “... podemos dizer que é científica uma actividade que, com a intenção de descobrir alguma coisa, se socorre de procedimentos, metodologias e técnicas que a ciência usa, ...” isso tem um nome, que eu creio ser “Investigação”.

    Então se é Investigação convém esclarecer as pessoas sobre o que é Investigação, (saber o seu verdadeiro significado e dimensão) para que elas não se confundam com escritos de pessoas como Mário Montenegro, o ex-Mariano Gago e outros quando falam abusivamente em ciência.

    Lei-a por favor o capitulo ESPECIALIZAÇÃO, INVESTIGAÇÃO CRIADORA, INVESTIGAÇÃO TERMINAL (da Biografia do Professor Sebastião e Silva). Nele o leigo fica a perceber o abuso que se faz ao utilizar a palavra ciência, por exemplo, quando se diz “O crescimento da ciência em Portugal "é o maior da Europa", afirma Mariano Gago em entrevista ao Expresso” está-se simplesmente a enganar as pessoas.

    http://www.esec-sebastiao-silva.rcts.pt/JSS/biograf/entrada.htm

    Cumprimentos,

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  2. Sim, estamos. Aliás, muito nos devia preocupar a autorização porque isso significaria que o conteúdo e o autor seriam relevantes e, aí concordo, não estaríamos a falar de ciência. A internet trouxe o maior o passo necessário para que as ditas ciências humanas caminhem para ser ciência porque as relações humanas começaram a ter uma materialização eletrónica. Como se pode deduzir da peça referida, as conclusões que se podem tirar são também limitada aquilo que é matematicamente relevante que, por definição, implica a não violação da privacidade.
    Quanto ao facto desta ser possível, há aquela grande frase cujo autor reconheço, "se é gratuito é porque o produto és tu". Deixemos os legítimos detentores da privacidade decidirem sobre ela.

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  3. Caro João Pires da Cruz
    Não sei se entendi o seu comentário. Ficaram-me as seguintes dúvidas:
    1) Defende que, mesmo quando não são respeitados princípios fundamentais, como a privacidade, podemos dizer que estamos no campo da ciência?
    2) Defende que o consentimento esclarecido por parte dos sujeitos que são investigados é dispensável e até desaconselhado?
    3) Defende que a "internet trouxe o maior o passo necessário para que as ditas ciências humanas caminhem para ser ciência"?
    4) E isto "porque as relações humanas começaram a ter uma materialização eletrónica"?
    E, finalmente, não percebi o que quer dizer com o seguinte: "Deixemos os legítimos detentores da privacidade decidirem sobre ela."
    Cumprimentos,
    Maria Helena Damião

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    1. 1) Sim. O fenómeno não é sequer recente. Os seus dados médicos têm servido para investigações de caracter médico sem que tenha de dar autorização para isso. Tal como as notas dos exames dos meus filhos. Imagino que o seu trabalho e/ou dos seus colegas passe por analisar as notas dos meus filhos Só se consegue tirar conhecimento se os nomes forem retirados dos dados, razão pela qual o facto de servirem para tal são a garantia da privacidade. No mesmo raciocínio, se a privacidade é um problema não é porque os dados são usados para retirar conhecimento.
      2) Sim, o consentimento é um "bias" . E, como disse anteriormente, o facto de se procurar saber mais é a defesa da privacidade. Aquilo de que se tem medo não tem nada a ver com a obtenção de conhecimento por isso a sua ficha médica não é vedada aos médicos nem os exames dos meus filhos são vedados aos professores. A internet é apenas uma amostra maior.
      3) Não tenho a menor dúvida. Aliás, a sustentabilidade matemática de muitos ramos da ciência dedicadas às atividades humanas começam a dar os primeiros passos, Economia incluída.
      4) sim, pela primeira vez na historia da humanidade as relações humanas passaram a ter uma materialização eletrônica e passíveis de tratamento matemático com um mínimo de seriedade.

      Quanto aos detentores da privacidade decidirem sobre ela, se lhe perguntassem genericamente se autorizava que os seus dados médicos servissem para tratamento estatístico, fosse ele qual fosse, negava-o? Pois, as pessoas de que fala o artigo do público deram o seu acordo explícito e não tácito como é o seu caso.

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    2. Sobre o número 2, há que dizer que os sujeitos, nestes estudos, não vêem os seus dados individuais tratados de forma personalizada. O que é estudado são dados anonimizados, em bloco, sem possibilidade de o investigador aceder aos dados de qualquer pessoa em particular. Ou seja, se por absurdo um investigar quisesse obter dados de uma ex-namorada, nunca o conseguiria. Aliás, poderá estar a tratar dados referentes a posts e comentários dele próprio sem nunca o vir a saber.

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    3. Ainda sobre o número 2, o consentimento não teria qualquer impacto na protecção da privacidade, diminuindo, aliás, essa mesma privacidade, ao ser possível ao investigador estabelecer com maior precisão quais os utilizadores cujos dados estão a ser estudados: exactamente os que tinham dado consentimento. Ou seja, não haveria qualquer benefício. Por outro lado, não só a privacidade estaria mais comprometida, como o estudo teria um valor muito menor, pois, como diz João Pires da Cruz, o consentimento é um enviesamento com impacto estatístico muito significativo. Ou seja, obter consentimento para um estudo destes seria absolutamente irrelevante em termos de privacidade ou direitos individuais e seria muito desvantajoso em termos científicos. Ver também comentário abaixo: http://dererummundi.blogspot.com/2013/12/estamos-falar-de-ciencia.html?showComment=1389059031019#c7368772052822224301

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  4. já faz tempo que o único valor da ciência é dinheiro e lucro . ocupou o lugar do clero junto do poder. tudo tão diferente , tudo tão igual no mundo dos homens
    até aqui no dererum publicam imensos posts ciência dinheiro empregos financiamentos mais dinheiro :)
    Bom Ano.

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    1. Não é verdade. A ciência é uma instituição que tenta chegar mais longe no conhecimento do mundo. Sim, os cientistas precisam de financiamento e emprego, como qualquer um de nós. Mas o valor que usam no seu trabalho é a obtenção de explicações o mais fiáveis possível (mas sempre provisórias) do funcionamento do mundo.

      Que muito há a criticar na forma como a ciência se faz? Claro, e os bons cientistas são os primeiros a fazê-lo. Mas afirmar que o "único valor da ciência é dinheiro e lucro" é deturpar uma instituição valiosíssima para não ficarmos reféns de valores obscuros.

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  5. Quando oiço estas notícias fico também preocupado e com medo. Mas, ao mesmo tempo, tento usar uma atitude científica. Se tenho tendência para esse medo de forma instintiva, devo tentar compreender o fenómeno ultrapassando os meus enviesamentos, indo mais fundo na análise e tentando perceber se serão medos justificados.

    Assim, convém analisar mais a fundo a notícia e o estudo citados neste post. Desta forma, há que ter alguma perspectiva:

    a) Os utilizadores analisados não viram mensagens privadas de correio electrónicos invadidas por nenhuma empresa a quem não tinham dado qualquer autorização. O que foi analisado foi o comportamento de utilizadores no Facebook, com o qual cada utilizador estabelece um contrato quando cria uma conta. Esse contrato determinada certos deveres e direitos de cada parte e é nesse quadro que a privacidade do utilizador deve ser analisada. Neste estudo, essa privacidade parece-me assegurada.

    b) Os dados dos utilizadores foram analisados de forma aleatória e anonimizada.

    c) Como se pode ler no artigo, ninguém leu mensagens privadas de qualquer utilizador, tendo sido analisada a frequência de "desistências" de posts ou comentários que começaram a ser escritos, sem que o conteúdo desses posts ou comentários tenha sido lido ou analisado. Tem a empresa possibilidade técnica de o fazer? Obviamente que sim e todos os utilizadores do Facebook o sabem. Mas neste estudo não o fez e não deixou fazer. Na realidade, o estudo assemelha-se a um hipotético estudo de companhias telefónicas que analisariam o momento em que os utilizadores desligam as chamadas, cruzando esses dados com dados dos utilizadores (de forma anonimizada) para chegar a conclusões estatísticas sobre o uso dos seus sistemas. Em caso algum é isto comparável a ouvir as próprias conversas telefónicas (embora, mais uma vez, as companhias telefónicas tenham capacidade técnica para o fazer — a pergunta é se o fazem ou não).

    d) Em caso algum as expectativas de privacidade das pessoas saem goradas neste estudo. Situação completamente diferente seria, como o post pode fazer crer erradamente, se uma empresa acedesse a mensagens de correio electrónico alheias, sem que os utilizadores tivessem qualquer contrato ou relação com essa empresa. Não é, manifestamente, o caso.

    Felizmente, estamos perante estudos públicos, com protocolos estabelecidos e abertos ao escrutínio público e, por isso, não há que ter medo — mas há que estar atento. Isto é ciência. Ciência seria uma qualquer investigação obscura, não publicada, em circuito fechado.

    (Tenho dúvidas, no entanto, que se possa dizer que este estudo é replicável. Afinal, a única entidade capaz de replicar um estudo realizado pelo Facebook parece ser o Facebook. Mas esse é outro problema.)

    Assim, ciência é aquilo que nos faz contornar os enviesamentos humanos através dum estudo racional e testável (uma definição provisória, claro). Esses enviesamentos incluem, por vezes, o próprio medo da ciência (que não deixa de ser útil).

    Cumprimentos a todos e um excelente 2014!

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