domingo, 3 de novembro de 2013

Soneto do amor e da morte

Em sequência de texto anterior.

O que políticos, burocratas, e todos os que se digladiam para tirar partido do mundo em seu próprio proveito não podem açambarcar é o conhecimento. Esse anda por aí... E a poesia, faz parte dele.

Soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, Antologia dos sessenta anos.

4 comentários:

  1. Açambarcar em todo o vigor do sentido não podem. Mas podem torná-lo elitista. Encontrar formas de não ser para todos. Que não pensa em poesia quem não tem o que pôr na mesa. Há uma base necessária à aquisição do conhecimento, sem ela a vontade de saber falece.
    Aliás, os nossos políticos têm seus poetas preferidos, ouvi alguns deles nomeá-los e até declamá-los. Mas alma de poesia... terão?

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  2. Quando eu morrer quero lá saber da canção,
    e de quem a escreveu
    e de quem a murmura

    Estou-me nas tintas para quem a mim se junta
    e não quero saber das aves,
    nem do céu por onde se fingem
    nem sequer da solidão que tudo é.

    Quando eu morrer
    não quero que me segurem a mão
    nem que me ofereçam olhares
    e muito menos as flores que não recebi em vida

    Quando eu morrer
    não quero visitas, nem penas, nem que me amem mais por isso...
    e muito menos que o meu coração continue a bater num outro qualquer

    porque o amor não é o coração a bater
    nem o bater do coração
    não é bater
    nem sequer é coração

    o amor não é porque depende
    depende do coração
    depende de quem o tem
    depende do bater
    e morre
    tal como a morte nos morre.





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  3. Numa sociedade empobrecida que só 5% consome produtos culturais e num futuro de bipolarização educativa e social isso não é verdade!

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  4. Sou grato aos poetas, pois se é verdade que a poesia não enche a barriga, ela pode alimentar a alma de quem tem uma. Em particular, sou ainda grato a Vasco Graça Moura por ser um defensor da Língua Portuguesa, sem escalracho ortográfico.
    Obrigado, Helena Damião, por ter convocado para aqui esse belo soneto.

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