quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Espelho meu, espelho meu... 1

Imagem retirada daqui
"Espelho meu, espelho meu, há alguém mais belo do que eu?". Esta é a pergunta que, insistentemente, a Madrasta da Branca de Neve faz ao seu Espelho Mágico e que, afinal, se revela numa verdadeira obsessão. Não lhe basta ser bela, quer ser a mais bela! Não lhe basta uma resposta, quer respostas confirmatórias sucessivas!

Os irmãos Grimm souberam captar e apresentar o que de há grande e de pequeno na alma humana, o que há de bom e de perverso, o que há de moderado e de exagerado, e por aí adiante. Nesta tendência particular, do exigir saber-a-todo-o-custo quem/o que está à frente, quem/o que ganha, foram certeiros! Efectivamente, tal tendência transformou-se num das grandes marcas dos tempos que correm, que mobiliza "mundos e fundos".

Tudo e todos têm de ser submetidos à pergunta, em suma, avaliados: Quem vende mais discos e mais livros? Que estação e programa de televisão e de rádio se vêem e se ouvem mais? Quem é mais sexy? Quem é o mais bem e o mais mal vestido? Qual é o melhor restaurante e o melhor chef? Que país está à frente na produção disto e daquilo? Quem é mais popular e mais fotogénico? Que empresa consegui mais lucros e que empresário é o mais dinâmico? Que jogador de futebol marcou mais golos e qual o que mais euros ou dólares ganha? Qual o blogue mais visitado e o vídeoclip mais visto? Qual a página de facebook com mais "amigos"? Qual o jovem mais influente no mundo? Etc, etc. etc... os exemplos não acabam.

As grandes marcas dos tempos denotam ideologias bem delineadas (a tal força social interesseira que arrasta as opiniões), que, para se aguentarem, adoptam formas politicamente correctas (são apresentadas de tal maneira certas e razoáveis, que discordar delas só pode ser um sinal de maldade ou de estupidez). Não há que ver: quem as interroga fica em xeque!

Tudo isto acontece na educação escolar, permeável que se encontra ao pensar e ao agir da sociedade.

Para evitar ser confundida com uma "torre de marfim", como variadíssimas vezes tem sido acusada, aligeira a filtragem em relação ao que é a sua própria vocação adopta as mais diversas tendências sociais, políticas, económicas. É neste contexto que se devem perspectivar os rankings de escolas e outras avaliações que nela e em torno dela se fazem.

Isso será objecto de próximo texto.

4 comentários:

  1. Vou fazer uma pergunta algo arrevezada: Quem é capaz de viver sem estar contaminado pela necessidade de se comparar, competitivamente falando, com alguém ou alguma coisas? O que é que aconteceu à nossa cultura que até os agentes culturais trabalham para o pódio e o prémio? A exploração mercantil desta "ditadura", ou "fatalidade", é o que está mais à mão. Veja-se o fenómeno desportivo, maximum, o futebol. De quanta megalomania vive "o melhor do mundo", a "mais bela do mundo", ...do mundo?
    E que necessidade temos nós disso? Que vantagens e desvantagens advêm...
    Mas passa-se isto em todos os domínios, na música, na literatura, na ciência, etc....
    Se eu fosse imperador da humanidade dava a medalha de ouro, não a quem chegasse em primeiro lugar, mas a quem tivesse trabalhado mais, ainda que tivesse chegado em último. E, num concurso de beleza, que não existiria, daria a coroa à menos favorecida pela natureza, compensando-a.
    A realidade...O que é a realidade? As coisas não têm de ser como são.

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    1. É verdade que existe uma certa mania de seriação. Mas não concordo que seja universal e se estenda a tudo. Não concordo desde a faculdade, quando um professor se virou para a turma na aula de apresentação e, isto é a selva e ou comem ou são comidos.
      Alguma competição pode até ser útil, incentivar.

      Não daria medalhas e menos ainda coroas:), as pessoas fazem o caminho sem elas. Ser, por exemplo, a mais bela que mérito tem? O de se ter nascido com determinado potencial genético? Ora bolas. Premeia-se um acaso muito bem calhado. A haver prémios que não sejam desta natureza. Mas as recompensas dos homens levam a sua marca. Na verdade não há melhores do mundo coisa nenhuma. Mas existe um circo que não pára e há que alimentar. Suponho que por lucro.

      A necessidade da comparação talvez nos permita a identidade; sem a pretensão de seriar. Ou havendo uma seriação natural entre os pares e menos escandalosa.
      "As coisas" são, em muitos casos, como as fazemos ser. Mas não só por vontade e deliberação. É, a realidade humana é mutável. Queixamo-nos do ser que nos é próprio e ao qual nos não adaptamos inteiramente. E creio haver nessa fissura uma beleza frágil, um interesse que nenhum outro animal possui.

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  2. Aos rankings respondo com isto: - http://www.youtube.com/watch?v=RQWzdKRVN7M -
    e está apenas no 372º lugar.
    Trabalho num agrupamento com duas EB 2,3 que distam uns 8km , com um rio de permeio. É uma espécie de Vila de Arriba e Vila de Abajo. Muitos dos professores são os mesmos , outros já trabalharam numa ou noutra , num universo muito homogéneo e o ambiente socioeconómico é semelhante . Contudo, uma está no topo do ranking concelhio e a outra no fim. A diferença, notória, está em que uns são empenhados, estudam em casa , a família considera a escola como uma mais valia e os outros não . Os encarregados de educação da Vila de Abajo vão, até bastante, à escola mas para protestar por tudo e por nada, enquanto a simples verificação da caderneta é, completamente, negligenciada.

    Ivone Melo

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    1. Por curiosidade, como está posicionada essa escola nos ditos rankings? Dado que é um método inovador, os alunos estudam sozinhos e colocam na aula as dúvidas, (não tão inovador assim, mas digamos que, menos utilizado) seria de todo o interesse saber também como reagem a provas nacionais. E copiar se fosse o caso.

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