terça-feira, 22 de outubro de 2013

DAS "CARTAS A UM JOVEM POETA" DE RILKE


E, na sessão de apresentação do livro A Dinâmica da Espiral, perante as múltiplas referências a Rilke não pude deixar de ler este belo excerto de uma das suas Cartas a um jovem poeta, publicadas postumamente, mas escritas em 1903:

“Se procurar amparo na Natureza, no que é nela tão simples e pequeno que quase não se vê mas que inesperadamente pode tornar-se grande e incomensurável; se alimentar esse amor pelo mais ínfimo e se tentar, humilde como um criado, ganhar a confiança do que parece pobre, tudo será para si mais fácil, mais coeso e de algum modo mais conciliador, talvez não no intelecto, que recua atónito, mas no mais íntimo da sua consciência, do seu conhecimento e atenção.

Você é tão jovem ainda, está diante de todos os inícios, e por isso gostaria de lhe pedir, caro Senhor, que tenha paciência quanto a tudo o que está ainda por resolver no seu coração e que tente amar as próprias perguntas como se fossem salas fechadas ou livros escritos numa língua muito diferente das que conhecemos. Não procure agora respostas que não lhe podem ser dadas porque ainda não as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas. Aos poucos, sem o notar, talvez dê por si um dia, num futuro distante, a viver dentro da resposta. Talvez traga em si a possibilidade de criar e de dar forma e talvez venha a senti-la como uma forma de vida particularmente pura e bem-aventurada; é esse o rumo que deverá tomar a sua educação; mas aceite o que está por vir com grande confiança, e se ele surgir apenas da sua vontade, de uma qualquer necessidade interior, deixe-o entrar dentro de si e não odeie nada.”

Rainer Maria Rilke, “Cartas a um Jovem Poeta”, Carta Quatro, “Worpswede, junto a Bremen”, 16 de Julho de 1903.

1 comentário:

  1. O único que conheço de Rilke é "Cartas a um jovem poeta". Livro tão curto e que me pareceu um conjunto de sábios conselhos. Neste caso, o do amadurecimento-resposta que o tempo pode trazer às questões; e a consciência de que todo o tempo é de viver, mesmo o ser tempo de perguntar.

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