sábado, 26 de outubro de 2013

A EMBRIAGUEZ DA LUCIDEZ (II)

Publica-se a 2.ª parte do ensaio de Eugénio Lisboa com o mesmo título:

Solar e sombrio, amargo e eufórico, solitário e solidário, Camus investiu-se num leque vastíssimo de “componentes”, mas venerou sobretudo a liberdade, “o único valor imperecível da história”. Por ele, arriscou tudo, amizades, prestígio, sossego, felicidade...
Embora sondando outros valores, em Camus, o centro de auscultação, no livro de Marcello, situa-se no conceito perturbante – e perturbado -  de “felicidade”.  Em vários pontos da sua obra, Camus se interroga sobre os valores – que podem chocar-se – de justiça e felicidade. A justiça, levada, fanaticamente, a um absolutismo cego e abstracto, pode tornar-se pantagruelicamente mortífera. Em Actuelles-I, observa: “A justiça é simultaneamente uma ideia e um calor de alma. Saibamos torná-la no que ela tem de humano, sem a transformarmos nessa terrível paixão abstracta que já matou tantos homens.” Quando a justiça deixa de ser esse “calor de alma” – essa espécie de felicidade – para se volver em frenesi assassino, ela liquida, de um só golpe, liberdade e felicidade. Em L’Homme Révolté, Camus di-lo, em palavras de fogo: “Matar a liberdade para fazer reinar a justiça equivale a reabilitar a noção de graça sem a intervenção divina e restaurar, por uma reacção vertiginosa, o corpo místico nas suas formas mais baixas.”

É este o conflito nuclear que alimenta os protagonistas da peça Les Justes, que Marcello sonda, em profundidade e com mão de mestre, neste seu livro, em boa hora reeditado (e, como dissemos, acrescentado). Analisando os três personagens da peça – Stepan, Kaliayev e Dora – Marcello procura deduzir a possibilidade de um juízo. E é nas palavras do idealista Kaliayev, dirigidas ao seu correligionário Stepan, que lhe é possível ver os indícios de um possível diagnóstico: “Aceitei matar, Stepan, para abater o despotismo. Mas vejo despontar das tuas palavras a imagem de um outro despotismo que, se alguma vez vencer, fará de mim um assassino, ao contrário do justiceiro que me esforço por ser.”

A História dá, infelizmente, razão a Kaliayev, contra Stepan: a revolução de 1789 desembocou no Terror de 93 e a revolução de 1917 desaguou no Grande Terror dos anos trinta do século passado, isto é, em Estaline. A justiça perfeita – absoluta – que Stepan visa alcançar, “custe o que custar”, para se atingir, no futuro, a “felicidade”, nem que ao preço de milhões de mortos, no presente, é a melhor receita que até hoje se congeminou para se fabricar o inferno. “De todas as ideias políticas”, disse-o Popper, “talvez a mais perigosa seja o desejo de tornar as pessoas perfeitas e felizes. A tentativa de realizar o céu na terra tem invariavelmente produzido o inferno.”O frenesi revolucionário só aparentemente é “puro” ou é-o apenas por um breve momento. Barbara Tuchman, a autora de livros seminais como August 1914 e A Distant Mirror, escreveu estas palavras que servem de medalha à sagesse corajosa de Camus: “Toda a revolução virtuosa veste, com o tempo, os trajos do tirano que depôs.” Fiquemos, pois, gratos a Marcello Duarte Mathias por trazer de novo, até nós, a lembrança deste homem de dúvida e de coragem que se chamou Albert Camus. A dúvida não o impediu de agir. Mas poupou-o ao frenesi das certezas absolutas e assassinas. Como dizia Rabelais: “A farsa acabou. Vou à procura de um vasto talvez.”

Eugénio Lisboa

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