sexta-feira, 20 de setembro de 2013

No rigor e na beleza das palavras

Tanto na sala de aulas como no campo, ouvi-lo era um encantamento
Ilustre professor de Geografia, Orlando Ribeiro foi senhor de muitos saberes que expunha numa linguagem falada e escrita de invulgar correcção, não raras vezes poética.

Geógrafo tradicional, de elevada craveira nos domínios das geografias física e humana, com uma notável preparação geológica, Orlando Ribeiro (1911-1997) foi um humanista igualmente reconhecido a nível nacional e internacional.

Renovador da Geografia em Portugal, o Prof. Orlando (era assim que o tratávamos), foi senhor de muitos saberes em diversas áreas, como as da História, da Antropologia, da Etnografia e outras, saberes que expunha numa linguagem falada e escrita de invulgar correcção, não raras vezes poética.

De parceria com o seu colega e amigo Pierre Birot, de l’Institut de Geographie de Paris, foi pioneiro numa metodologia de investigação geomorfológica, substancialmente assente no cabal conhecimento dos sedimentos resultantes da erosão do relevo.

E foi nesta linha frutuosa, inovada pelo geógrafo alemão Walter Penk (1888-1923) que me concedeu o privilégio de aceitar ser meu orientador nas dissertações de doutoramento que apresentei e defendi nas Universidades de Paris e de Lisboa, factos decisivos na escolha da via de investigação que caracterizou o essencial da minha actividade com geólogo e como docente. Nesta linha, solicitou-me que montasse no seu Centro de Estudos Geográficos, um laboratório de sedimentologia de apoio à geomorfologia que dirigi entre 1965 e 1981.

Como era hábito deste ilustre Mestre, para além das pedagógicas discussões que travava com os seus orientandos, nas visitas que com eles fazia ao terreno, lia com eles o manuscrito em fase final das respectivas dissertações e aí, uma vez mais, voltava a discutir, dava sugestões, fazia correcções de forma e de conteúdo, e ensinava a escrever em bom português. E foi isso que ele fez comigo, o único geólogo entre os muitos geógrafos que orientou.

Este meu relacionamento com o Prof. Orlando aconteceu porque eu era colega do seu filho António (hoje, o igualmente ilustre Prof. António Ribeiro), na licenciatura em Ciências Geológicas, e ambos fizéramos, com ele, proveitosas saídas de campo, onde a geomorfologia, a geologia, geografia humana e a história de Portugal se harmonizavam no rigor e na beleza das palavras. Aconteceu, ainda, porque éramos vizinhos.

Das traseiras da sua casa falava-se para as traseiras da minha. Assim, para além da relação mestre/discípulo, fomos amigos chegados ao longo de 40 anos.

A. Galopim de Carvalho

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