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quinta-feira, 27 de Junho de 2013

SILÊNCIO: TRÊS POEMAS DE REGINA GOUVEIA

Transcrevo três poemas de Regina Gouveia, com o tema comum do silêncio, do livro "Entre margens" que hoje vou apresentar, às 18h, no Rómulo em Coimbra:

SINAL DISTORCIDO

O meu silêncio é prenhe de memórias
em permanente interferência e difração.
Bem tento eliminar todo o ruído
mas o sinal persiste distorcido
por entre a realidade e a ficção.

A BARREIRA DO SILÊNCIO

Tal como as ondas do mar
ao embater nos rochedos da praia
se refletem, se refratam,
interferem, se difratam
e se agigantam revoltas,
também as minhas memórias,
quando embatem na barreira do silêncio
se espargem e multiplicam, soltas.

O SILÊNCIO DAS PEDRAS

Gosto do silêncio das pedras
Mudas, falam através de testemunhos
de estratos e fissuras, de formas e de cor,
que permitem chegar ao seu passado
de muitos milhões de anos -
aos ventos que as fustigaram,
às águas que as arrastaram,
às elevadas pressões e temperaturas
que suportaram na epopeia da sua formação.
Gosto do silêncio das pedras que, mudas,
conservam na memória
os seres vivos com quem coabitaram
dos ínfimos, aos poderosos, passando pelos humanos
que ao longo de toda a história
tantas vezes as moldaram com lágrimas e com suor.

Gosto do silêncio das pedras
tantas vezes pisadas no chão,
pedras que não choram,
ao contrário dos meus olhos que nelas se demora,.
O coração, mudo como as pedras,
não encontro outra forma de falar.

Regina Gouveia

7 comentários:

  1. Em tempos não chegou a ser proibido publicar poesia neste blogue?

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  2. "Gosto do silêncio das pedras", muito bonito. A Regina sabe que elas choram sem lágrimas e as fissuras são-lhes boca aberta de gritos. E sabê-lo poeticamente é senti-las no vagar dos séculos. Calmamente.

    Parabéns a Regina

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  3. *





    Conversar com pedras

    Gosto de com as pedras me entreter,
    ouvindo os seus murmúrios, confidências,
    nas minhas horas vagas de lazer
    em que me entrego às minhas preferências.

    Contam-me histórias de remotas eras
    de quando a terra ainda era criança
    e tudo parecia então deveras
    uma autêntica aurora de esperança.

    Pisaram-nas depois os animais
    e o ser humano usou-as muitas vezes
    como balas em máquinas brutais.

    Trocamos impressões de parte a parte
    e sempre usando locuções corteses
    o tempo se nos vai… sem que farte!

    João de Castro Nunes

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  4. *








    Ouvir chorar a pedra




    Ouvir chorar a pedra é como ouvir
    cantar estrelas pela noite além:
    apenas o Poeta e mais ninguém
    possui a faculdade de as sentir.


    Só ele escuta o choro do granito
    baixinho no deserto a desfazer-se
    em grãos de areia até desvanecer-se
    e regressar em alma… ao infinito.


    Desde o mais trivial ao mais egrégio,
    Deus ao Poeta deu o privilégio
    de ouvir o pó da terra a conversar.


    Tenho por isso às vezes, meu amor,
    a doce sensação de te escutar
    no sítio em que repousas no Senhor!


    João de Castro Nunes

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  5. Corrijo o último verso do penúltimo soneto para:

    o tempo se nos vai... sem que me farte!

    JCN

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  6. Eu gosto de me expressar
    em forma de poesia
    porque permite voar
    largas dando à fantasia!

    JCN

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