segunda-feira, 27 de maio de 2013

A MINHA PRIMEIRA CRÓNICA

Texto que nos foi gentilmente enviado pelo Professor Galopim de Carvalho.
Seara de trigo. Serpa. Imagem colhida em olhares.sapo.pt
Olá! Bom dia a todos!
Como diriam os brasileiros, cheguei !
Chamo-me Francisco como o actual Papa. Era para ser António, como o meu avô paterno, mas este argentino que, em boa hora tomou as rédeas de uma Igreja, em tantos domínios, afastada da palavra de Cristo, revelou-se, de imediato, como uma fonte de amor e solidariedade. Neste desgraçado mundo, em que o dinheiro domina e, tantas vezes, perverte os que escolhemos e não escolhemos para nos governarem, o papa Francisco tornou-se uma luz de esperança para muitos, católicos ou não.

Pois, é verdade. Aqui estou eu, com a minha modesta participação contra a tendência de envelhecimento da população portuguesa.

Nasci hoje, num Hospital de Lisboa, ao mesmo tempo que o Sol começava a subir num horizonte acobreado de um céu sem nuvens.

Nascer em fins de Maio é um privilégio. É o tempo das searas ondulantes, a passarem de verde a ouro, e das papoilas rubras. Os jacarandás explodem em flor e tingem de lilás o chão de jardins, ruas e avenidas da cidade.
Jacarandás. Imagem colhida em amaral-marques.blogspot.com.
É também o tempo dos pirilampos a tracejarem de luz o começo da noite.
Pirilampos. Imagem colhida em depoisfalamos.blogspot.com.
Os dias são grandes, quase tão grandes como os do solstício, amenos e luminosos.

Por decisão do médico que a acompanhou nestes meses em que tenho vindo a transformar-me em gente, a minha mãe deu entrada, neste hospital, ontem, pelo cair da tarde. A minha avó paterna, que durante estes últimos meses tem passado os tempos livres a tricotar-me casaquinhos e botinhas de lã, era constantemente assaltada pelo temor de que eu nascesse com alguma deficiência. Foi assim enquanto grávida do meu pai. E, comigo, foi o mesmo receio. Um tal temor era mais perceptível com a aproximação do dia e da hora da minha aparição no mundo e, assim, não tardou em vir para aqui, com o meu avô, claro. Quando chegaram, já cá estavam os outros meus avós. Eu acabara de entrar, com a minha mãe, na sala de partos.

O meu nascimento foi provocado, pois eu já estava na posição correcta e com todas as condições para ver a luz do dia. Colocaram na boca da minha mãe uma pastilha que lhe desencadeou as necessárias contracções e correspondente abertura da bacia, a fim de dar passagem a esta coisa, que sou eu, com os meus 2,750kg e 48cm de comprimento. Passado algum tempo deram-lhe uma injecção, porque já começava a sentir muitas dores e, a partir de então, era só esperar…Lá fora também se esperava. Liam-se os jornais do dia. O meu avô António folheava, sem muita continuidade, as páginas de um livro que trouxera para ajudar a passar o tempo, enquanto a minha avó completava sudokus uns atrás dos outros. O meu avô materno detinha-se nas páginas de “A Bola” e a outra minha avó olhava, pela janela, o alvorecer do dia. O meu pai, equipado segundo as regras do hospital, estava connosco para assistir à minha chegada a este mundo. Uns bons minutos antes do meu primeiro contacto com o ar atmosférico, já com a minha mãe posicionada e composta para me empurrar cá para fora, senti uma leve pressão. Eram as mãos do médico sobre a barriga dela, ao mesmo tempo que dizia: - Faça força! Faça agora mais força!

Foi então que deslizei, quente, por entre as pernas da minha mãe. Nesse instante, aprendi a respirar, uma entre várias funções que vou ter de cumprir ao longo da minha vida. O relógio da parede marcava 6 horas e 15 minutos.

O meu pai, visivelmente emocionado, tentava controlar a respiração a fim de não perder a compostura. A minha mãe, deitada, e já comigo em cima dela, sorria de alegria e de alívio. O meu pai saiu para dar a boa-nova aos que, lá fora, esperavam por ela. Houve abraços, sorrisos e lágrimas. Na sala de partos sucediam-se os procedimentos próprios destas situações. Por fim, vestiram-me de azul e branco e deitaram-me num daqueles berços altos e com rodas, concebidos para ficarem à altura da mãe, ainda acamada. Depois, foi o nosso regresso à enfermaria onde, pela primeira vez, soube o que era mamar. Ainda não tinha uma hora de existência e já aprendera duas funções essenciais à vida: respirar e tomar alimentos. Faltavam, por agora, outras que se não fazem à vista de toda a gente.

Lá fora, o povo deste país, assiste, por enquanto resignado, à destruição dos ideais pelos quais os meus avós tanto lutaram e que permitiu ao meu pai crescer feliz, destruição que temo venha a ensombrar o meu futuro. Daqui irei para a minha casa, a mesma onde, há muitos anos, o meu pai entrou, recém-nascido como eu. Tenho lá uma cadela cujo ladrar comecei a ouvir quando ainda estava aconchegado no ventre materno. Já gosto dela e sei que irá gostar de mim e me irá proteger de quem me quiser fazer mal.

Numa conversa que ouvi entre os meus pais (dentro da barriga materna, qualquer bebé ouve e conhece, pelo menos, a voz da mãe) fiquei a saber que irei ter um quarto para dormir e arrumar as minhas coisas. Não quero que o meu quarto seja um daqueles onde muitos meninos aprendem a viver isolados da família e do mundo. Quartos assim, com televisão só para eles, computador e jogos electrónicos, privam os filhos da convivência dos pais e tiram aos pais o prazer de verem os filhos brincar e crescer.

Galopim de Carvalho

4 comentários:

  1. Muitos parabéns, por um tal motivo de festa.

    Que deve ser para todos, porquanto a taxa de natalidade no país já vai nos 1,3 nascimentos por mulher. Como deviam nascer pelo menos 2,1 crianças por mulher, o nosso futuro é também sombrio, por este motivo. Chamam-lhe "inverno demográfico". Devemos evitar que, na primeira daquelas palavras o "v" seja trocado por um "f"...
    Mas, é difícil ter filhos com as condições em que se encontra o nosso país. Porém, não há outro meio.
    À função, portugueses e portuguesas.

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    1. Olha, que mal me ficou o comentário que fiz à hora do almoço, um tanto à pressa. Devia ter ficado assim:

      Muitos parabéns, por um tal motivo de festa.

      Que deve ser para todos, porquanto a taxa de natalidade no país já desceu aos 1,3 nascimentos por mulher. Como deviam nascer pelo menos 2,1 crianças por mulher, para a população não diminuir, o nosso futuro é também sombrio por este motivo. Chamam-lhe "inverno demográfico". Devemos evitar que, na primeira daquelas palavras, o "v" venha a ser trocado por um "f"...
      Mas é difícil ter filhos com as condições em que se encontra o nosso país. Porém, não há outro meio.
      À função, portugueses e portuguesas.

      Já agora um pequeno apontamento adicional: enviei para vários colegas o textinho sobre os cristais de quartzo aplicados nos sonares e nos relógios de precisão. Já vários me responderam, agradecidos e encantados. Como eu eles também não sabiam. O "bem haja" reafirmado, deles e meu.

      A um Professor que muito merece os nossos agradecimentos.
      E netos, muitos netos. Pois com avós assim, felizes dos netos e dos que não são netos. Para contentamento dos avós, claro.

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  2. Parabéns Galopim! Parabéns Isabel!
    Um abraço amigo a todos,
    recordando o Blanadet...

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