sábado, 20 de abril de 2013

Pois, quantificar...

Um passo aqui outro ali, a retórica da "avaliação-total-formalizada-burocrática-a-todo-o-momento-como-forma-de-caminhar-em-direcção-à-excelência-com-consequências-para-o-bem-de-todos-e-quicá-da-humanidade-etecetera" ganha terreno nos mais diversos campos profissionais e instala-se como prática.

Chamam-se especialistas com curriculo vitae de alto gabarito, contratam-se empresas com nomes pomposos em inglês para dar a entender uma inequívoca credibilidade e põem-se técnicos executores (que são apenas isso ou que têm de parecer apenas isso) no terreno. O toque final é dado por uma multiplicidade de procedimentos e, claro está, de instrumentos para apurar, tratar (de preferência com programas informáticos complexos) e cruzar e descruzar a informação.

No final, pode-se descomprimir, respirar fundo e ir beber uma cerveja: afinal foi garantido o rigor e a objectividade e deu-se mais um passo no sentido da justiça, da igualdade, e de outros valores maiores que fica sempre tão bem invocar, mesmo que (quando a cerveja começa a fazer efeito e as amarras às imposições se começam a quebrar) se diga que eles, os valores, são todos relativos e subjectivos e por isso, "cada um tem a sua verdade" e "quem sou eu para julgar os outros"...

Esqueçamos este parágrafo e voltemos ao anterior para dizer que na "função pública" tem-se feito da avalição do desempenho profissional a "bandeira de qualidade". Ufanamente, afirmam aos quatro ventos, sem mostrarem reservas ou entraves de qualquer espécie investigadores, responsáveis institucionais e muitíssimos profissionais que "agora, com essa avaliação, é que vai ser"...

Estas considerações são a propósito da decisão do director de informação da RTP em se avaliarem diariamente (sublinho diariamente) os jornalistas. Isto, explicou, numa tentativa de quantificar o seu trabalho... pois, quantificar... uma palavra central da retórica que acima me escapou.

NOTA: Este texto foi redigido a partir do artigo "Director quer jornalistas avaliados diariamente", da jornalista Filomena Araújo, publicado no Diário de Notícias (em papel) de 19 de Abril passado, página 51.

6 comentários:

  1. Seria possível divulgarem aqui neste blogue o fórum de Física "Física2100"?

    http://fisica2100.forumeiros.com

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  2. Esta "avaliação-total-formalizada-burocrática-a-todo-o-momento-como-forma-de-caminhar-em-direcção-à-excelência-com-consequências-para-o-bem-de-todos-e-quiçá-da-humanidade-etecetera" é uma "cruz" dos tempos que correm. Sabemos que é um terreno altamente propício à manipulação e à injustiça. Mas parece que é preciso chegar ao "Calvário".
    Sem "atalho".

    Depois, quando tantos e tantos, e provavelmente os melhores de nós, tiverem sido destruídos, com prejuízo de todos, não faltarão (outros) teóricos, a explicar(-nos) como tudo foi um erro. Trágico.

    É a obscuridade do presente a condenar o futuro. Pela mão de diplomados à medida e para o efeito.

    Quem bem "semeia" melhor "colhe".
    "Saciar-nos-emos".
    Receio eu. Muito.

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  3. O autor de "Admirável Mundo Novo", Aldous Huxley, nesta entrevista de 1958 já citava a "over-organization" como uma das duas forças impessoais (a outra, a over-population) que nos conduziriam a uma situação de controle, em detrimento da liberdade.
    http://youtu.be/oytAdRoj_1A

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  4. muito bom o seu post Helena. não admito que os "especialistas" queiram tomar conta da minha vida ,aliás , até ando muito anticiência por causa disso. é o poder dos "especialistas ", mais ainda que o político ,que eu sinto que tenho de derrubar. prezo mais a minha liberdade e a sabedoria que está nos meus genes de todos os que me antecederam do que essas modernices xpto caríssimas que me aprisionam e não me deixam ser um animal Gray.. não me sinto minimamente inferiorizada por ser um animal , nada mesmo :)

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  5. Cara Maria
    O problema não está na ciência, a ciência, diz um matemático e filósofo que muito prezo, Jacob Bronowski, "é um louvor ao que conseguimos conhecer apesar de sermos falíveis" e "é um modo muito humano de conhecer" (cito de cor); o problema está na inadequada apropriação dos conhecimentos científicos, na sua deturpação ou manipulação, e na pseudo-ciência, aquilo que se faz passar por ciência e nada tem a ver com ela. A entrevista a Huxley, que se segue no blogue, é a este título muito esclarecedora.
    Cordialmente,
    MHD

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  6. é certo. é por isso que eu estabeleço fronteiras : só tomo sem medo medicamentos com mais de 20/30 anos ,do tempo em que a ciência queria realmente ajudar( sou viciada em aspirina ) , só fico de boca aberta com coisas como a net , que a troco de tostões me dão coisas que valem milhões , este blog , por exemplo. só acredito no grátis/barato /conseguido com próprio trabalho , como o Agostinho da Silva e os lírios do campo , que não semeiam nem colhem :)

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