quinta-feira, 18 de abril de 2013

DAR VALOR ÀS PALAVRAS OU CHAMAR PÁ A UMA PÁ

Com abraço de gratidão pelo envio e o prazer de sempre colhido na sua leitura, de Eugénio Lisboa reproduzo este belo e oportuníssimo texto publicado no “Jornal de Letras” de ontem:

 Vivemos enterrados numa sopa de mentiras. Num notável artigo publicado no Público de 23 de Fevereiro, José Pacheco Pereira, em clave de assumido panfleto, desabafava nestes termos: “Pode ser porque eu dou valor às palavras – uma sinistra manifestação da condição suspeita de intelectual – que me repugna, enoja, irrita, indigna, encanita, faz-me passar do sério, a sua sistemática violaçãopelo governo. Violação, exactamente como as outras violações. Devia haver uma lei não escrita para punir a violação feita com as palavras e pelas palavras, como há com a violação contra os mais fracos, o abuso do poder. Devia haver uma lei não escrita para punir o envenenamento das palavras pela desfaçatez lampeira, a esperteza saloia.” Não peço desculpa pelo alongado da citação, porque ela vale a pena: vem certeira, na hora certa.

Esta preocupação com o estupro das palavras, com o uso calculado e mentiroso que se faz delas, dizendo uma coisa, para querer dizer outra, tem afligido uma classe especial de gente: os escritores. De Gaulle, que foi, por necessidade, e numa fase adiantada da sua vida, um político, mas que foi sempre, e sobretudo, uma grande vocação de escritor, notava: “Uma vez que um político nunca acredita naquilo que diz, fica sempre muito surpreendido, quando os outros acreditam nele.”

Há outra maneira, particularmente irritante, de se praticar este “estupro”: é falar na coisa, precisamente quando ela está ausente (o político que fala de rigor, no meio da bagunça; ou de honestidade, no centro do esbulho; ou de coragem, quando arreia nos fracos e se encosta aos fortes e aos ricos).

 Montherlant, com o fulgor assassino do seu grande estilo, punha já na boca de um personagem da sua bela peça, La Reine Morte, isto: “É quando a própria coisa falta, que se deve propiciar a palavra.” Quando Hitler falava de “paz”, queria, invariavelmente, dizer “guerra”. A coisa, tornada sistemática – e, com frequência, torna-se – leva à descredibilização dos políticos e da política e ao sarcasmo incomplacente e perigosamente generalizador dos humoristas de serviço (Will Rogers: “Se injectarmos verdade na política, acabamos com a política”).

Outra forma de enganar com as palavras é fazer, com elas, o que faz o nosso Ministro das Finanças: construir um discurso circunvoluto, retorcido e infinitamente nebuloso, que tem, para ele, a vantagem de calar, sem apelo, o adversário ou interpelador: é que este nem sequer sabe se o que o ministro disse está certo ou errado – na realidade, está além ou aquém da categoria de “certo” ou “errado”. Com efeito, as suas explicações embrulham muito mais a dificuldade do que ajudam a esclarecê-la (“I wishhecouldexplainhisexplanation”, dizia Byron, que era lord, mas era também bruto). Neste caso, não se cala o adversário, com a força dos argumentos; tira-se-lhe o pio, com a perplexidade em que o mergulha o arrazoado fúnebre. Em Portugal, tem-se sempre muito medo de não achar “inteligente”  o charabia pomposo e o seu tanto sinistro dos tecnocratas de serviço. O estilo “profundote” intimida e, hélas!, faz que deslumbra... O poeta inglês Wordsworth, de quem Fernando Pessoa traduziu um poema, acusava os sonetos de Shakespeare (tu quoque!) de chafurdarem numa “elaborateobscurity” , que pode muito bem ter-se tornado (sabe-se lá!) uma influência dominante no discurso de não poucos literatos lusíadas e, seguramente, nas ejaculações do nosso singular Ministro das Finanças. Aos que não pensam, raramente faltam as palavras, dizia alguém não muito conhecido.

Seja como for, o que eu aqui hoje gostaria de trazer, para iluminar um pouco melhor a irritação de Pacheco Pereira, era um testemunho esclarecedor e pungente. Trata-se de uma carta escrita, em 1937, no dia de Ano Novo, em Zurique, pelo escritor Thomas Mann, e dirigida ao deão da Faculdade de Filosofia da Universidade de Bonn, que acabara de retirar ao autor de A Morte em Veneza o título de Doutor Honoris Causa, anteriormente atribuído. Thomas Mann, como se sabe, abandonara a Alemanha logo a seguir à ascenção de Hitler ao poder, para salvar a sua liberdade e a sua vida. A Universidade, cobardemente, alinhara com os cães do poder.

Nessa carta, que é um monumento admirável e imperecível, o autor de Tonio Kröger diz, com clareza e veemência, que ainda pensou em permanecer na Alemanha, calando-se: “Quando a Alemanha caíu nas mãos deles [Hitler e apaniguados], eu queria calar-me: pelos grandes sacrifícios que tinha consentido, julgava ter adquirido um direito ao silêncio, um direito que me permitisse conservar o que tinha por mais caro: o contacto com os meus leitores da Alemanha.” Apesar destas razões, que o puxavam para ficar, Thomas Mann decidiu sair. Porquê? A razão dá-a, nessa mesma carta e é digna de estudo e divulgação: “Eu não teria podido [aí] viver e trabalhar. Teria sido, para mim, um verdadeiro envenenamento, se não tivesse podido, de tempos a tempos, «lavar o meu coração», como dizem os antigos, se não tivesse podido exprimir, sem reticências, o meu nojo por esses discursos miseráveis, que ribombam pelo meu país, e pelos actos ainda mais miseráveis que nele se cometem. Com ou sem razão, o meu nome está ligado, para o mundo, à noção de uma Alemanha que ama e que honra. Vi-me, pois, na obrigação de denunciar abertamente as mutilações selvagens que infligiram a essa Alemanha. E essa obrigação perturbava todos os meus sonhos de artista, aos quais eu me teria tão voluntariamente abandonado. Mas a essa obrigação, eu não podia subtrair-me, porque me foi sempre permitido exprimir-me, libertar-me pela linguagem. A vida não se acha, para mim, realizada, a não ser nessa constante criação da linguagem que purifica a emoção e a conserva.” (O sublinhado é meu)

Eis o sentido profundo desta carta: todo o escritor se exprime, isto é, se liberta, pela linguagem. É ela que lhe dá as maiores razões de felicidade, nesta terra. Assim sendo, o escritor contrai, pelo seu lado, uma obrigação: retribuir esse dom imenso que lhe dá o uso da linguagem – a libertação, a expressão - , com a garantia solene de que nunca dará um mau uso – um uso perverso, mentiroso –ao instrumento que lhe abriu as portas da felicidade. “A linguagem”, diz ainda Mann, nessa carta, “está carregada de um grande mistério. Somos responsáveis pela sua pureza. E essa responsabilidade é simbólica; não é somente do domínio da arte, é propriamente moral. É a responsabilidade humana na sua essência mesma; compromete-nos com o nosso próprio povo, obrigando-nos a conservar pura a sua imagem aos olhos da humanidade.”  É assim que pensa e sente um escritor digno desse nome. A linguagem não é, para ele, algo que se manipule com leviandade. Não é este, porém, quase nunca, o caso dos políticos. Julgo que o fino Goethe estaria também a pensar neles, quando observou: “Quando uma ideia não comparece, pode sempre achar-se uma palavra que a substitua.” Pior ainda : quando uma ideia é, de momento, inconveniente, pode, em vez dela, dizer-se o contrário, com palavras suficientemente fluidas para, num futuro mais ou menos próximo, se poder desvelar, por actos, o sentido originalmente visado... Em quem estaria a pensar Maurice Barrès, também escritor, como Thomas Mann, quando escreveu: “O político é um acrobata: mantém o seu equilíbrio, dizendo o oposto daquilo que faz”? Não sei em quem estaria a pensar, mas sei a quem pode aplicar-se o que disse, neste “reino cadaveroso” em que me coube vir acabar os meus dias.

P. S. – Como gosto, às vezes, de recordar os macedónios, essa gente “rude e apalhaçada”, que, segundo Plutarco, teimava em chamar pá a uma pá!

Eugénio Lisboa

3 comentários:

  1. Um pouco mais resumido talvez não fosse má ideia....tempo é dinheiro! Como que se diz no mundo americanês.

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  2. Pouco há a notar quando tanto de comentário válido existe no texto. E acrescentar, desnecessita. Talvez assentir. Gostar de ler que ainda existe gente que respeita a palavra e se revolta contra um governo invasivo e incréu, desligado das lições da simbologia; e logo, criador de desumanidade.

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