quarta-feira, 27 de março de 2013

O AVANÇO DA CIÊNCIA E O RECUO DE DEUS


Primeira parte do prefácio de Álvaro Balsas, coordenador do livro com o título de cima que acaba de sair na editora Fonteira do Caos: 

"Fé e Ciência – neste volume, Ciência é entendida no sentido exclusivo de ciência dos fenómenos naturais – têm constituído na história do pensamento humano, desde há muito, dois pólos de uma carregada e extenuante tensão. E ainda hoje, embora essa tensão adquira, agora, novos contornos.

De facto, os recentes avanços e êxitos da ciência, bem como a sua omnipresença no dia-a-dia das sociedades contemporâneas – onde as novas tecnologias vão introduzindo novos hábitos e estilos de vida; novas formas de comunicação, de pensamento e de aquisição de conhecimentos; novas concepções da economia, da arte, da ética, etc. –, parecem desafiar as concepções religiosas estabelecidas no passado e, nomeadamente, a concepção cristã de Deus.

Perante este coetâneo quadro cultural em que vivemos, no qual a ciência invade cada vez mais os diversos âmbitos da experiência e do pensamento humanos, especialmente em áreas que no passado eram reservadas à filosofia e à teologia, a Deus não parece restar outra alternativa senão a da perda do direito de cidadania e a consequente retirada para o baú das velharias, porque sobra e está a mais. xxxxxx Segundo os mais prestigiados arautos do chamado “novo ateísmo”, a ideia de Deus é nociva para a humanidade, impedindo mesmo o seu desenvolvimento e contribuindo para fazer aumentar o ópio do povo. Entre tais arautos, têm-se destacado, os chamados “quatro cavaleiros” do novo ateísmo – Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett e Christopher Hitchens – que têm travado uma intensa batalha contra o que eles consideram ser a ignorância, a superstição e os mitos religiosos, com o objectivo de “provar” que apenas as visões do mundo puramente naturalistas e ateias são necessárias e benéficas para o desenvolvimento das sociedades.

 Para eles, só o conhecimento científico permitirá, finalmente, desterrar a “ilusão de Deus” – como propõe, aberta e radicalmente, Richard Dawkins na sua recente e amplamente divulgada obra A Desilusão de Deus –, ou, simplesmente, “desterrar as sombras da magia e do mistério que, no passado, envolveram o conhecimento [do mundo e] de nós mesmos” – como defende, de maneira mais suave, Francisco Mora, autor de Neurocultura: Uma Cultura Baseada no Cérebro, cultura essa que, segundo ele, compreende um conjunto tão diversificado de áreas como a neuroética, a neurosociologia, a neuroeconomia e a neuroarte. O movimento neo-ateísta tem-se difundido amplamente até chegar a invadir o espaço público. São conhecidas as manifestações recentes da colocação de frases nos autocarros ingleses afirmando que “There’s probably no God. Now stop worring and enjoy your life” – em resposta a idênticas frases propagandísticas colocadas por cristãos evangélicos, onde se prometia o inferno para os não crentes –, iniciativa que rapidamente se alastrou por outras cidades do mundo; ou as manifestações ocorridas nos últimos meses em vários campus universitários espanhóis, onde grupos de estudantes tentaram impedir a realização do culto católico dentro das capelas universitárias. Além disso, tem também aumentado o número de sítios na internet de movimentos ateístas e de portais ateus, nos quais se veicula a ideia de que a Religião, e o Cristianismo em particular, promove a ignorância, da qual as pessoas só podem ser salvas por meio da ciência.

 A serem verdadeiras as teses do novo ateísmo, que pintam Deus em franca retirada e em inevitável recuo, surgem, de imediato, no nosso espírito várias questões que reclamam ser aclaradas e debatidas: Para quê Deus, se já temos Ciência? A Ciência tem, realmente, razões que tornam a fé em Deus obsoleta? A crescente extensão da esfera da explicação científica a domínios que outrora pertenciam ao âmbito da teologia e das “humanidades” implica necessariamente o abandono definitivo da ideia ou hipótese de Deus? A Ciência dá respostas a todas as perguntas sobre o mundo que nos rodeia e sobre o lugar que ocupamos nele? A explicação científica é mesmo omnicompreensiva e pode abranger todos os âmbitos da experiência humana no mundo? Toda a argumentação não científica é irracional? A Ciência esgota o campo da racionalidade e do pensamento crítico? Há limites ao poder explicativo da Ciência? A explicação teológica é criticamente fundamentada ou assenta em dogmas irracionais? Que possibilidades existem para um encontro real entre Ciência e Fé em Deus: Conflito intransponível? Inimizade irreconciliável? Independência? Diálogo? Integração? Contributos mútuos? A Fé em Deus traz ou não benefícios para as sociedades? Estas questões não têm resposta simples, e menos ainda simplista, dada a complexidade, a amplitude, as ramificações e, até, as subtilezas, inerentes às matérias envolvidas.

 Foi sobre estas relevantes questões que diversos intervenientes, todos académicos e investigadores de profissão, aceitaram reflectir e debater num encontro que teve lugar em Braga, em 18 de Outubro de 2008, sob os auspícios da Faculdade de Filosofia, da Universidade Católica Portuguesa. E fizeram-no com singular competência e mestria. O resultado das suas reflexões e pontos de vista passa, agora, a transcender, pela presente publicação, os muros da academia para ser disponibilizado ao grande público, sobretudo, aos leitores mais interessados nestas temáticas. Os estudos e ensaios que se reúnem neste volume – e que passamos a descrever – evidenciam diferentes perspectivas e pontos de vista, apesar de algumas serem bastante convergentes."

9 comentários:

  1. Hoje no Público. CARLOS FIOLHAIS
    Um doloroso texto e real do momentum a que este políticos de serviço, nestas duas ultimas décadas fizeram ao País, e

    Sem dúvida:

    Poderá Passos Coelho fazer alguma coisa para evitar a sua queda, que decorre da queda do país? Sim, pode ainda mudar alguns dos seus ministros e secretários de Estado. Não podendo alterar a troika externa, que nos manieta a todos, pode mexer nessa troika interna que o assessora, formada pelo inefável Miguel Relvas, pelo desacreditado Vítor Gaspar e pelo desorientado Carlos Moedas. Sendo Passos Coelho político desde que nasceu, deveria saber que está a ser arrastado para mais fundo pelos seus colaboradores mais próximos. Neste momento, os seus eleitores não estão com ele, o seu partido dificilmente está com ele (é público e notório que os "barões" não estão, multiplicando-se em comentários televisivos) e o seu parceiro de coligação só finge que está com ele (Paulo Portas, matreiro, deixa que os outros digam o que ele pensa).
    E a oposição? Que diz António José Seguro? Se não há confiança no Governo, menos há na oposição. O líder da oposição vê o país em queda, vê o Governo em queda e nada mais lhe ocorre do que esperar que um e outro caiam mais. Não oferece solução nenhuma. Eleições agora para quê? Não esqueçamos, como mostram os dados das Nações Unidas, que a queda do país não é de hoje e que o maior partido da oposição é co-responsável por ela.

    Cumprimentos


    Augusto Küttner de Magalhães

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    1. Caro Augusto,

      Tenho a impressão que o seu comentário se dirigia a outro "post", este aqui destina-se à velha e estafada história de algumas aves negras delirantes vislumbrarem no avanço da ciência um recuo de Deus.

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  2. Cuidado, se Deus recua assim tanto - e para onde recuará ele? - é bom não o transformar em "inimigo" e deixá-lo "encurralado". Disse alguém que nunca se deve cercar totalmente um "inimigo" em vias de ser "derrotado", mas antes deixar-lhe espaço para "fugir".

    Mas ocorre-me: E, se mesmo assim, Deus "foge" para o "interior" (o coração, por exemplo...) das pessoas, de muitas pessoas!?

    Que perigo!
    Atenção, perseguidores.

    E peço: não queiram transformar as escolas em "regimentos" anti-Deus, porque isso, além de inútil, provocaria muitas deserções.
    E as escolas já têm ideologias (e mistificações) que cheguem, algumas delas muito "científicas". Como os resultados mostram...

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  3. De forma muito comezinha, eu diria a esses pensadores(referidos no texto) que transpiram "ciência" por todos os poros, que presunção e água benta cada um toma a que quer...

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  4. Bem, quando a gente é criança nem pensa nesta imensidão, de idéias que doravante, (enfim lá do crescimento, da formação e do ajuste) ou do desajuste; posto que este (lé com lé e cré com cré) fará algum dia, de nossa(s) vida(s) algum tipo de consumação. Até, poderíamos supor, que na docilidade de toda infância, reside a face que projecta medo e angústia, mas, compensa-a de motivação e inocência. Sabería-mos de facto que ser criança é estar próximo a serenidade, ao conforto e nem ao confronto; pois que (este desperto) incide pouco; que aos poucos conhecem-no e aos que desconhecem-no. Exorta uma inesperada qualidade, que embora descreve-se provedora, nem abstrai. E na infância restaria a descência desta condicção humana por reconher-se do seu tamanho; redimensionar o querer ser pequenino por sentir-se pequenino, indefeso; resumido na palavra e na causa. Porém, quando se é tão pequeno e tão insignificante, acordasse.

    O que teria Deus haver, com este livro?! Posto que Deus por conceder-se, concebeu-nos. Fizera-nos à semelhança e a justiça consagra cada qual, por caminhos que compreende-se de pura ingenuidade. O autor do livro tem este direito de expressão de maneira a compensá-la da condição divina a parte que o caiba. E, neste que assiste-o de princípio, do estudo e por conhecimento. Quisera eventualmente do proprio benefício a outrem; posto que nem poderia suportar, quando neste movimento exclui-se de uma experiência no que tange a humildade.

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  5. Ao contrário das aparências, a primeira década do século que atravessamos viu o recuo da ciência e do pensamento racional. Como disse Salman Rushdie nas conferências "O futuro do futuro" (Porto 2001) "the past is coming back with a vengeance". Isto é patente na tentativa de tomar o poder pelos fundamentalismos religiosos quer no dito "mundo muçulmano", quer no dito "mundo ocidental" pelo fundamentalismo evangélico nos seus diversos movimentos.
    Em todos as áreas da vida quotidaina assistimos à persistência em pensamento irracional de várias índoles, desde o mais grave (o AO90, as receitas "da troika") até ao mais ridículo (os programas de canais tipo-canal história onde as mais fabulosas teorias desde extraterrestres até crianças-indigo são apresentadas como "ciência").
    O pensamento irracional não está em recuo. Pelo contrário.

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    1. Caro Jorge Teixeira,

      Está a falar a sério quando diz que no mundo ocidental há fundamentalistas religiosos (evangélicos ou os seus diversos movimentos) a tentar tomar o poder?

      De que é que está a falar?

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    2. Nos EUA a agenda do partido está completamente controlada pelos movimentos fundamentalistas evangélicos, e isto resultou de uma acção sistemática desses movimentos. A própria presidência do George W. Bush teve uma agenda claramente determinada pela acção dos movimentos fundamentalistas evangélicos. Neste momento, os movimentos evangélicos são a força motriz dos movimentos "pro-life" e pela proibição do casamento de pessoas do mesmo sexo.
      No Brasil os movimentos evangélicos também estão no terreno com candidatos próprios. A candidatura que ficou em 2.º lugar nas últimas presidenciais foi a candidatura evangélica, protagonizada por Marina Silva. E mais uma vez encontramos os evangélicos como principal força dos movimentos que querem que a lei do aborto não seja alterada.
      Na Europa os evangélicos ainda não são predominantes, mas há fundamentalismos protestantes que espreitam por trás de muitos movimentos, como as movimentações contra os minaretes.

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    3. Caro Jorge Teixeira,

      Aqui em Portugal não há muitos desses evangélicos, mas acredito que possam ser um grande problema no Brasil e nos EU.

      Na Europa o obscurantismo vem sobretudo de alguns ateus com uma visão religiosa (e irracional) da ciência (normalmente são relativistas e defendem o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo). Embora defendam a supressão da religião, por enquanto ainda não defendem a perseguição aos teístas, como na Russia (URSS), ou na China, ou na Coreia do Norte. Pode assim dizer-se que aquí, na Europa, os evangelistas não são um problema, nem se imagina que venham a ser.

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