sexta-feira, 29 de março de 2013

Acordo ortográfico (AO) luso-francês


O ensino português anda agitado por tiques nervosos. Bate os braços, para fingir que nada; boia sofrivelmente, para fingir que navega; usa o acrónimo e o acordo, entre outros mimos literários, e vai progredindo na insanidade.
Os acrónimos, quase invariavelmente, tornam obscura a designação clara. O acordo, ufano, cria insuperável distância na aproximação. Tudo isto é encarado como conveniente, note-se.
Tenho seguido com algum interesse o debate público (DP) e alguns privados (AP) sobre o acordo ortográfico (AO). Estou, nessa matéria, em posição acrobática: como professor do ensino secundário público (ESP, o mesmo que extrasensory perception), vejo-me compelido a praticar o acordo (PA); como leitor de «Acordo ortográfico: a perspectiva do desastre», de Vasco Graça Moura (Lisboa: Alêtheia, 2008), vejo-me inclinado a mandar o acordo às urtigas (MAU); como preguiçoso habitual, vejo-me tentado a usar uma única grafia (UUUG); como cidadão responsável, não sei de todo o que fazer, pelo que vou assinar a iniciativa legislativa de cidadãos (ILC) porque sim (PS).
Sinto, no entanto, que alguma coisa há de aproveitável no acordo: sou o feliz proprietário de um Kindle, o que me permite passear por todo o lado com uma biblioteca no bolso. Quando deste retiro o apetrecho, até posso trocá-lo pelas mãos — que ficam quentinhas —, já que consigo passar páginas com o nariz (evito, quando estou constipado). Ora, um dos textos que tenho no meu Kindle, reza assim:
O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival. No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro. E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora. Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em Paris, nos Campos Elyseos, n.º 202.
 (Porto, Livraria Chardron de Lello & Irmão, editores, 1901)
Onde é que entra o acordo? Aqui: fui a Paris, há uns anos, para me confrontar com o 202, e Franceses maus e iletrados tinham removido o prédio. Nada no texto acima me provoca a menor comichão, exceto (excepto, para algum Leitor Angolano) que Eça de Queirós não pode ser devidamente apreciado sem um tipo qualquer de uniformização de endereço.
Por consequência, julgo que se impõe a atualização ortográfica (actualização, para algum Leitor Moçambicano) de «A cidade e as serras»: ao auctor não fará diferença, que é homem de sossego, os Parisienses entenderão melhor a versão para francês, e os turistas Portugueses não passarão por tolos a procurar o 202 na Av. de la Grande-Armée. Como o homem é escritor, penso que o 152 serve: está lá a Montblanc, sempre haverá tinta à discrição.
António Mouzinho
P.S. (não de «porque sim», mas de «post scriptum»): julgo, com isto, poder ter contribuido para a resolução de uma das questões fundamentais do debate sobre AO («adresse optionnelle», no caso).
AM

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Muyto bem !!!

    Eu tenho exactamente as mesmas duvidas do que as expressas neste texto deliciosamente ironico. No entanto, repare o meu amigo que a escolha da M. H. Piwnic, apesar de se compreender a legitima frustração da firma Mont-Blanc, parece poder socorrer-se de bons argumentos : no fundo o titulo francês diz aquilo que devia ser essencial para o leitor parisiense, ou seja que grande parte da historia se passa num palacio dos campos eliseos, que hoje ja não existe, e que podemos localizar com exactidão no sitio onde jaz o "y" de "Elyseos"...

    Que alguns parisienses iletrados, ou que alguns portugueses que se encontram a veranear "la fora ca dentro", possam andar perdidos à procura, é um dano colateral. Julgo até que faria sorrir o auctor, por muito sossegado que esteja.

    Boas

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  3. Aqui fica uma curiosidade semelhante:
    Quando Conan Doyle pôs Sherlok Holmes a morar no 221B da Baker Street, a rua já existia, mas acabava muito atrás.
    Mais tarde, esse número passou a existir.
    A genialidade dos ingleses foi pegar numa casa vitoriana, mais à frente e do mesmo lado da rua, baptizá-la com o número 221B (fora de ordem, claro), e fazer dela uma "casa-museu" do detective.
    Somos recebidos por uma figurante que se apresenta como Mrs. Hudson, e tudo (por dentro, tal como por fora) é exactamente como imaginamos...

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