The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

segunda-feira, 31 de Dezembro de 2012

E FELIZ ANO NOVO NAS BIBLIOTECAS!


FELIZ ANO NOVO NO LABORATORIO...


HYPATIAMAT



Do Pedro Rosário, a quem agradeço, recebi este vídeo de apresentação de um seu projecto - Hypatiamat -  sobre a aprendizagem da Matemática.

SEMINÁRIO DOS CEM ANOS DE POINCARÈ


Via Alexandre Correia, a quem agradeço, deixo um vídeo de uma conferência realizada em Aveiro comemorativa dos cem anos da morte de Henri Poincaré, o "pai do caos", por parte de um dos maiores especialistas em caos.

Stability and Chaos in the Solar System: From Poincaré to the present.



 
Jacques Laskar, CNRS, Observatoire de Paris

10 dezembro 2012, 14h30,
Anfiteatro do Dep. Física,Universidade de Aveiro.

Abstract:
 
Some of the most famous works of Henri Poincaré (1854-1912) have been 
motivated by the problem of the stability of the Solar System.
Indeed, since its formulation by Newton, this problem has fascinated
astronomers and mathematicians, searching to prove the stability of
the Solar System. Poincaré demonstrated that the perturbative methods
of the astronomers could not be used to provide an answer to the
problem of stability on infinite time because the series that were
used are in general  divergent. At the same time he believed that the
dissipative terms would be of larger importance than the conservative
neglected terms, leading to a stable final state for the Solar System.
In the following of the work of Poincaré, KAM theorems have provided
new hopes for mathematicians to prove the stability of  the Solar
System. On the opposite, the  recent numerical works on realistic
models of the Solar System show that the system is unstable in the
strong sense and that planetary collisions are possible within the
lifetime of the Sun.

PIPOCAS SUPERINTERESSANTES


O número que está nas bancas da revista "Superinteressante", com data de Janeiro de 2013, contém uma entrevista com o David Marçal e comigo, a propósito do nosos liovro "Pipocas com Telemóvel" (Gradiva, 2012).

domingo, 30 de Dezembro de 2012

FALAR GLOBAL - FALA FUTURO

Participei poucos dias antes do Natal num "world cafe", no Pavilhão do Conhecimento em Lisboa, organizado pelo programa "Falar Global" da SIC Notícias, com o título de "Fala Futuro". Moderei a mesa sobre ciência e tecnologia que debateu a relevância da ciêmncia e tecnologia no nosso futuro. Quem não viu pode ainda ver aqui.

O PROCESSO GALILEU


A exposição do ano em 2012 foi, para mim, "Lux in Arcana", que pude ver no Museu Capitolino em Roma, contendo impressionantes documentos do chamado Arquivo Secreto do Vaticano. Eu próprio fotografei o livro do processo Galileu que estava em exibição, com a assinatura correspondente à famosa abjuração do físico italiano.

SESIMBRA INAUGUROU O PRIMEIRO DOS TRÊS MONUMENTOS NATURAIS COM PEGADAS DE DINOSSÁURIOS DO CONCELHO

Agradecemos ao Professor Galopim de Carvalho mais um texto que teve a amabilidade de nos enviar.

Painel informativo, à entrada da Jazida. Foto de António Chagas

Entre Sesimbra e o Cabo Espichel, no sítio do Zambujal e com óptimas condições de musealização, a Pedreira do Avelino, há muito desactivada, conserva o que resta de um afloramento de calcário no qual ficaram impressos vários trilhos de dinossáurios saurópodes (herbívoros, quadrúpedes), que aqui viveram no Jurássico superior, numa paisagem lagunar, sob um clima tropical, quente e húmido.

De diferentes corpulências, os animais que nos deixaram as marcas da sua existência, provavelmente um grupo de indivíduos jovens e adultos da mesma espécie, pisaram um chão lamacento (lama feita de poeira calcária como a que existe actualmente nos litorais recifais intertropicais) que, com o passar dos muitos milhões de anos se transformou no calcário compacto e coeso que aqui se nos oferece.

À deposição dos sedimentos (há cerca de 150 milhões de anos), representados pelas camadas à vista na pedreira, sucedeu-se a sedimentação de muitas outras, numa espessura que podemos estimar na ordem de dois a três mil metros, o que conduziu a um afundamento e consequente aumento da pressão e da temperatura responsáveis pela compactação e coesão da referida lama.

Muito mais tarde, no Miocénico superior, há uns 11 milhões de anos, a deriva da litosfera africana contra a ibérica, que deu origem à pequena cadeia da Arrábida (quase completamente arrasada pela erosão neste local), deformou as camadas, inicialmente horizontais, que, assim, se mostram inclinadas como a que exibe as pegadas deste admirável geomonumento.

Embora de pequena dimensão (cerca de 20 a 30m), esta jazida, descoberta em 1989 pelo professor Miguel Magalhães Ramalho, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), exibe pegadas muito bem definidas e conservadas. A sua importância e a de outras duas com este tipo de icnofósseis, no concelho de Sesimbra (Pedra da Mua e Lagosteiros, no Cabo Espichel), indicou-as como geomonumentos a proteger.

Esta condição e a sua grande vulnerabilidade, levou-me, em 1993 e em nome do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, a solicitar à autarquia que requeresse, ao então Instituto de Conservação da Natureza, a classificação destas ocorrências como Monumentos Naturais, ao abrigo do então recém-criado Decreto-Lei n.º 19/93, de 23 de Janeiro. Num processo demasiadamente burocrático e lento, que durou quatro anos, este pedido de classificação foi finalmente contemplado através do Decreto n.º 20/97, de 7 de Março. Dezasseis anos depois, mercê de dificuldades decorrentes da posse do terreno, a Câmara Municipal de Sesimbra conseguiu, finalmente, colocar a jazida da Pedreira do Avelino à fruição do publico, em geral, e a pensar nos nossos alunos das escolas, em visitas de estudo.

Visitável em perfeitas condições de acesso (inclusive em autocarro) e segurança, este monumento da pré-história está explicado com o necessário rigor científico/pedagógico, dispensando a presença de um monitor. A sua musealização esteve a cargo de elementos qualificados do referido Museu da Universidade de Lisboa, do Departamento de Ciências da Terra da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e da Câmara Municipal de Sesimbra.

 Vista da Laje com as pegadas. Foto de António Chagas

A inauguração deste Monumento Natural teve lugar no passado dia 15 de Dezembro. Neste acto, muito concorrido, estiveram presentes, o Presidente da Câmara Municipal de Sesimbra, Arqº. Augusto Pólvora, e a Vice-Presidente, Dr.ª Felicia Costa; a Presidente da Assembleia Municipal de Sesimbra, Dr.ª Odete Graça; o Presidente da Junta de Freguesia do Castelo, Dr. Francisco Jesus; o Presidente da Direcção do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, da Universidade de Lisboa, Prof. José Pedro Sousa Dias; a Directora do Departamento de Conservação da Natureza e Florestas de Lisboa e Vale do Tejo, do ICNF, Dr.ª Maria de Jesus Fernandes; o Presidente da Direcção da Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal (ADREPES), Engº. António Pombinho e a respectiva Coordenadora, Drª Manuela Sampaio.

Parabéns à Autarquia. O empenho que esta vereação demonstrou faz-nos crer que levará igualmente a bom termo os dois restantes Monumentos Naturais com pegadas de dinossáurios (Pedra de Mua e Lagosteiros) bem como a “Gesseira de Santana” e o “Conglomerado de Porto do Concelho”, há muito referenciados como geomonumentos a preservar.

Galopim de Carvalho.

sábado, 29 de Dezembro de 2012

Breve retrato do País



Texto recebido de Augusto Kuettner Magalhães:

No Público de 26.12.2012 Rui Tavares, eurodeputado e historiador, diz-nos que neste País uns poucos fizeram com que muito dinheiro "nosso" fosse perdido e que vamos ter de o pagar.

E fala-nos da fraude do BPN, envolvendo Rui Oliveira e Costa, a sua filha Iolanda, o seu braço direito Luís Caprichoso, e do dinheiro usado por eles para destroçar ese banco. Nós, contribuintes, estamos a pagar a conta. Fala-nos também de mais umas quantas personalidades nacionais que receberam dinheiro que não deviam ter recebido e que não o devolveram (com juros, claro). Vamos ser nós - uma vez mais - a pagar o dinheiro perdido.

Deixa uma série de questões no ar para as quais alguém devia já ter dado respostas, quer quanto à atuação destes personagens, quer quanto ao dinheiro perdido e que nós, contribuintes do País, vamos ter de pagar (Passos Coelho falará nisto à Srª. Merkel?).

No mesmo Público, Carlos Fiolhais, professor universitário em Coimbra e ensaista, diz-nos que escolhe Miguel Relvas, ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares para "figurão do ano". Aborda a forma estranha (com "inusitada ligeireza") como lhe atribuíram o titulo de "doutor" que, antes de ter sido dado, já aparecia em "placas inaugurais inauguradas pelo próprio". Refere que o ministro da Educação mandou instaurar um inquérito à obtenção desse grau de "doutor", mas que a questão está longe de estar esclarecida pela universidade que o atribuiu.

Depois, Carlos Fiolhais aborda os negócios duvidosos em que Relvas esteve envolvido na Tecnoforma e, no que respeita à comunicação social, na associação de Relvas à demissão de uma jornalista do Público e do diretor de programas da RTP. No campo da reorganização administrativa, escreve que "não há reforma bem estudada do território, mas receia-se que, do gabinete de Relvas, venha a criação de funções intermunicipais que darão reformas douradas a ex-autarcas". Remata: "a queda de Miguel Relvas é a queda de Pedro Passos Coelho, já que ambos estão entrelaçados" (Passos Coelho falará nisto à Srª. Merkel?).

É este o  triste retrato  do nosso País. Lido e compreendido tudo isto, um português não pode deixar de se interrogar sobre se não haveria outra forma de entramos em 2013 sem ser com mais do mesmo e dos mesmos.

Augusto Küttner de Magalhães

Dezembro de 2012

Clarão Vermelho


Novo texto do poeta Ângelo Alves:

«Ce qui vient au monde pour ne rien troubler ne mérite ni égards ni patience»
René Char

Em Portugal, os grandes poetas do século vinte nasceram e viveram quase todos na cidade. A minha Bairrada não é conhecida pelos seus poetas, mas pela sua uva tinta Baga. Nas últimas semanas procurei informação sobre os poetas da “Terra Verde”. Só conhecia Jaime Cortesão, Carlos de Oliveira – este mais Gandarês -, João Grave e o poeta cavador e popular, Manuel Alves. Encontrei uma lista de mais de uma dezena de versejadores, dos quais dois me prenderam a atenção: Adão de Figueiredo e Rodrigo dos Santos. O primeiro, autor de “Cúria, Flor da Bairrada”, nascera no Bolho, concelho de Cantanhede, levara uma vida de boémio e acabara por se deixar seduzir pelo regime de Salazar. O segundo, autor de “Clarão Vermelho”, poeta e ferroviário que nascera em “Vendas Da Pereira”, Anadia; este livro fora, decerto, um dos livros em que a afronta ao salazarismo se fizera de uma forma directa, despeitada e sem receios. Isto em 1936! Para quem não conhece o livro deixo aqui dois sonetos:


Libelo Acusatório

Sociedade maldita, envenenada
Na bílis de asquerosos Preconceitos,
Detêm-te na carreira, ó desgraçada,
E segue outros caminhos mais direitos!

Já na Banda Oriental outra Alvorada
Vai assomando aos velhos parapeitos!
Corre, vem depressa, ó Luz amada,
Corrigir infamíssimos defeitos!

Legiões de famintos sem trabalho!
Virgens transpondo as portas do serralho,
Vendendo a carne, em flor, ao Capital!

Miséria! Fome! Lama! Escravidão!
Habitações sem Luz! Bocas sem pão!
Tuberculose, afia o teu punhal!

Se Cristo Existisse…

Jesus Cristo, foi nulo o sacrifício
Que fizeste na Cruz, para remir
A devassidão torpe, o crime, o vício
Dos ricos, que só gostam de oprimir!

Pregaste o Amor, a Igualdade, o Bem!
Nasceu o Ódio, a Prepotência, o Mal!
Se uns têm Palácios, outros nada têm,
Campeia o luxo em doido bacanal!

Jesus Cristo, meu pobre Nazareno!
De que vale seguir o teu Exemplo,
Se em vez de Pão vamos colher veneno?

Se visses alguns quadros que eu contemplo,
Vinhas pisar, de novo, este terreno,
Para expulsar os Vendilhões do Templo.

Os sonetos falam por si. Como é óbvio Rodrigo Dos Santos fora detido e perdera seu emprego. Este autor vira seus ideais na tríade da revolução francesa (liberdade, igualdade, fraternidade). Aliás, também três dos valores que norteiam minha vida, e nortearam a de Samuel Maia, poeta de Ílhavo, que escrevera: “A igualdade é o elemento primeiro da felicidade humana.” A desigualdade na nossa sociedade é sem dúvida um dos principais motivos de nossa obscuridade. 

A poesia de Rodrigo dos Santos tem métrica, tem ritmo, tem rima, tem cabeça, tem sarcasmo, enfim tem tudo o que os críticos esperam da poesia. É, para mim, surpreendente que o “Clarão Vermelho” esteja enterrado e que ninguém o reacenda. As editoras portuguesas editam certos livros - as “bestas célebres”-, que posteriormente se vem a saber que são plágio de Bob Dylan, entre outros (se Marcel Proust fosse vivo, decerto reafirmaria que as personagens de “À Procura do Tempo Perdido” são todas fictícias, excepto uma), e, esquecem-se dos autores portugueses. Relembro os mais distraídos que Guilherme Faria e Daniel Faria, dois grandes poetas, só recentemente foram descobertos.

Regressando a Rodrigo dos Santos, quem se der ao trabalho de ler, porque ler não é um ócio, vai encontrar muitas analogias com a poesia de Natália Correia, sobretudo na visão que ambos tiveram da sociedade em que viveram e na sua linguagem sem grilhetas. Se Natália Correia usara a expressão “Vendilhões do Tempo”, Rodrigo dos Santos usara a expressão “ Vendilhões do Templo”.

Ângelo Alves                

A ignorância e o preconceito: O Kanum permitia que a mulher se proclamasse homem!

Matéria publicada no Estadão em 27 de Dezembro de 2012 no Blog da Jornalista Claudia Belfort:

Responda em dois segundos se esse retrato é de um homem ou de uma mulher.
Responda em outros dois segundos se a pessoa fotografada parece viva ou morta.

           Foto: Jill Peters


Saiba, é uma mulher e ela está morta.

A foto faz parte de um documentário que a fotógrafa norteamericana Jill Peters está desenvolvendo sobre as últimas virgens juramentadas da Albânia. Remanescentes de uma tradição quase extinta – hoje elas não chegam a 100 – essas mulheres ignoraram suas identidades para viver como homem. Não por uma afirmação de sexualidade, mas para sobreviver às rígidas restrições impostas às mulheres entre comunidades das montanhas dos Balcãs, sudeste da Europa.

Os camponeses dessa região viveram por 500 anos sob as normas do Kanum, um código de honra que vigorou até o início do século XX, e que limitava às mulheres os cuidados da casa e dos filhos. Só. Elas eram proibidas de ter uma profissão, trabalhar, dirigir, beber, fumar, não tinham direito a herança e tornavam-se propriedades do marido. Elas não podiam cantar. “Naquela época ser mulher e ser um animal era a mesma coisa”, disse uma virgem juramentadas, Pashe Keqi, numa entrevista ao The New York Times. Ela nascera em 1930.

O Kanum permitia, no entanto, que a mulher se proclamasse homem, passando consequentemente a viver sob as mesmas regras deles. A partir de então podiam podiam trabalhar e tornar-se patriarcas, sendo muitas vezes o único “homem”do clã.



Essa regra do Kanum tem origem nas precárias condições de sobrevivência nas montanhas da Albânia, agravada pelos crimes de vendeta, outra tradição no país, que chegava a dizimar todos os integrantes do sexo masculino numa família. Na ausência de um herdeiro, a mulher mais velha do clã era obrigada a proclamar-se virgem para garantir o sustento e a honra dos familiares. Outras proclamavam-se homem para ter autonomia e evitar o casamento arranjado.

Para isso, elas faziam um juramento público de virgindade e celibato, cortavam os cabelos e adotavam trajes e gestos masculinos para a vida toda. Deixariam a condição de serva se também deixassem a de mulher, se renunciassem ao sexo, à maternidade e à identidade.

É, de um certo modo, um matar a si mesma.


sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

TOP 3 + 2 - DIVULGAÇÃO DE CIÊNCIA EM PORTUGAL 2012


Na sequência do meu post anterior, apresento a seguir 3 + 2 livros publicados em 2012 em Portugal e que foram, no meu entender, os acontecimentos editoriais mais relevantes nas áreas da divulgação de ciência, história da ciência ou sobre ciência e tecnologia. 

Separo-os por três primeiras edições em português e duas reedições. Seguem por ordem de preferência (subjectiva e discutível) numa estante-pódio seguida de duas incontornáveis menções honrosas.


Estante-pódio

1 - “Um Céu mais Perfeito – Como Copérnico revolucionou o cosmos, publicado em Setembro de 2012 pela Temas e Debates e pelo Círculo de Leitores, Dava Sobel, tradução de Artur Lopes Cardoso, revisão Levi Condinho.



2 - “A Espiral da Vida - As Dez Mais NotáveisInvenções da Evolução”, de Nick Lane, editado pela Gradiva, colecção Ciência Aberta, nº 194. Tradução de Alexandra Nobre.



3 - “Os superficiais - O que ainternet está a fazer aos nossos cérebros”, de Nicholas Carr, editado pela Gradiva na sua colecção Trajectos, nº 92. Tradução de Luiza Alves da Costa, revisão de João Paiva. 



Menções Honrosas

Os Dragões do Édem - Especulações Sobre A Evolução Da InteligênciaHumana E Das Outras, de Carl Sagan. Premiado em 1977 com o prémio Pulitzer, para muitos (em que incluo) a mais bela obra de Carl Sagan.. Reeditado pela 8º vez pela Gradiva, para a sua colecção “Obras de Carl Sagan” (6.º título). A tradução desta obra foi efectuada por Ana Falcão Bastos, a revisão científica foi do físico José Mariano Gago e dos biólogos Maria Margarida Perestrello Ramos e Carlos Henriques de Jesus. 



“O Sistema Periódico”, escrito por Primo Levi em 1975, foi considerado em 2006 “o melhor livro de ciência jamais escrito”, pela Real Academia de Londres. Reeditado este ano pela Teorema, com tradução de Maria do Rosário Pedreira e revisão de Fernando Milheiro. Esta distinção deu visibilidade à valência química de “um dos escritores italianos mais marcantes do séc. XX”, no dizer de Umberto Eco.



Boas leituras.

António Piedade

quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

DIVULGAÇÃO DE CIÊNCIA EM PORTUGUÊS – OS LIVROS DE 2012


Neste final de 2012, é altura de fazer uma pequena nota sobre uma selecção, por contingência de espaço e local sempre incompleta e subjectiva, dos livros de divulgação de ciência originalmente escritos por autores portugueses e que foram publicados em 2012 em Portugal.

Este ano não foi muito abonado em livros de autores portugueses dedicados à divulgação de ciência. Contudo, os que foram publicados são de qualidade e contribuem para uma melhor divulgação de ciência em língua portuguesa.

Assim, chamo a vossa atenção para os seguintes livros (por ordem alfabética do autor) que considero de referência no panorama da literatura de divulgação de ciência em Portugal: 

“Isto não é (só) matemática”, da autoria de Alexandre Aibéo com ilustração de Pedro Aibéo, editado pela QuidNovi, um livro que divulga a matemática de uma forma cativante, enlevada pelo humor.

“A Nova Medicina”, do neurocirurgião João Lobo Antunes, que nos retracta a actual realidade da medicina e da sua prática no século XXI - o título é o nº 22 da colecção “ensaios” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, coordenação editorial Relógio D’Água Editores.

“Cetáceos de Portugal – Passado, Presente e Futuro”, um conjunto de textos de vários autores, coordenação de Cristina Brito e Inês Carvalho, que também assinam alguns dos textos, editado pela Escola de Mar, na sua coleção Paleta Natura, constitui o único livro dedicado exclusivamente aos cetáceos numa linguagem direta de quem escreve para quem lê.

“Uma nova História da Matemática em Portugal?” de Jorge Buescu, o nº 27 da colecção “ensaios” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com a coordenação editorial Relógio D’Água Editores – uma nova perspectiva e reflexão sobre a história da Matemática mas extensível à generalidade da ciência portuguesa.

“Rómulo de Carvalho / António Gedeão - Príncipe Perfeito”, uma biografia intimista escrita por Cristina Carvalho, filha do incontornável professor e poeta, publicada pela editora Estampa.



"AstroFotografia - Imagens à luz das estrelas", do excelente astrofotógrafo português Miguel Claroeditado pela Centro Atlântico. Um magnífico e belíssimo volume sobre o céu astronómico fotografado com a arte do Miguel Claro coadjuvado pelos avanços tecnológicos nos equipamentos de fotografia.


"A Ação da Física na Nossa Vida”, autoria de Maria Teresa Escoval, e ilustrado por Sara Naves, publicado pela Editorial Presença, este volume tem como objetivo demonstrar e explicar, de forma acessível a todos, como a física ocupa um lugar tão preponderante no nosso quotidiano.

“Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência”, autoria de David Marçal e Carlos Fiolhais, publicado pela editora Gradiva, incluído na sua colecção “Ciência Aberta”. Com o número 196, este livro apresenta e desmascara a pseudociência que tende a crescer entre nós.

“Por que choramos quando cortamos uma cebola”, autoria das jornalistas de ciência Teresa Firmino e Filomena Naves, publicado pela Esfera dos Livros. Uma introdução portuguesa na esfera de um género de livros de divulgação de ciência que respondem a questões do dia-a-dia. Escrito com rigor e humor aqui e acolá debruado com ironia, o que torna a sua leitura muito agradável.

Histórias dos roazes do Sado”, livro escrito por Raquel Gaspar dedicado ao público infantil com ricas e profusas ilustrações de Marcos Oliveira, numa edição da Tróia Natura SA, no âmbito do Plano de Acção para a Salvaguarda e Monitorização dos Roazes do Sado, como resultado de um projeto da autora (Associação Viver a Ciência) e da Reserva Natural do Estuário do Sado (ICNF).

“O Primeiro Alquimista – A Idade do Bronze em Portugal”, autoria de Sofia Martinez, editado pela A Esfera dos Livros, sobre um povo do início da Idade do Bronze e que poderia, de forma credível, ter habitado há cerca de 3750 anos a Fraga dos Corvos, situada na actual aldeia de Vilar do Monte no concelho de Macedo de Cavaleiros.

“Penas, o Investigador”, da autoria de Sofia Quaresma, com ilustrações de André Lopes, editado pela Escola de Mar, na sua colecção “Paleta Azul” para a sensibilização e educação das novas mentalidades das crianças portuguesas sobre a conservação do meio ambiente.

“Outras Terras no Universo. Uma história de descoberta de novos planetas”, livro que nos transmite a visão de três cientistas, Nuno Santos, Luís Tirapicos e Nuno Crato, sobre a fronteira da descoberta de novos planetas extra-solares. Editado pela Gradiva, último título de 2012 da sua colecção “Ciência Aberta”, com o número 197.

“Quando os macacos se apaixonam - a vida afectiva do animais, das pequenas formigas aos gigantes elefantes”, do médico veterinário George Stilwell, editada pela A Esfera Dos Livros, um livro sobre os afectos e emoções que são naturais nos animais.

Feita esta recensão de 2012, ficamos a aguardar o que o ano novo trará para expandir a literatura de divulgação científica de autoria portuguesa. 

E, como também já foi referido pelo Carlos Fiolhais aqui, 2013 será o ano em que se publicará o número 200 da colecção "Ciência Aberta" da Gradiva, colecção pela qual o seu editor, Guilherme Valente, recebeu em 2012 o primeiro Grande Prémio Ciência Viva.

António Piedade
Texto publicado primeiramente na imprensa regional.

Qual país tem o sistema de saúde ideal?

A Dra. Marcia Angell foi editora-chefe do New England Journal of Medicine, um dos periódicos científicos mais respeitados do mundo. Atualmente, a Dra. Angell é professora no Departamento de Medicina Social da Harvard Medical School. Sua especialização é em medicina interna  e patologia. Há alguns anos atrás, a revista Time classificou a Dra. Angell como uma das 25 pessoas mais influentes dos Estados Unidos. Ela é uma autoridade reconhecida mundialmente dentro da medicina e defensora de reformas em áreas da saúde em geral e da pesquisa científica. Veja aqui a entrevista concedida ao jornalista fisiologista Ricardo Guerra do Estadão esta semana com exclusividade:

Pergunta Blog: Qual é a função do governo dentro de um sistema de saúde?
Marcia Angell: Eu acredito que qualquer governo decente vê como sua responsabilidade a obrigação de oferecer um sistema de saúde para toda sua população. Em essência, o governo tem a responsabilidade de supervisionar o sistema de saúde. Eu sou a favor de um sistema de saúde sem fins lucrativos, providenciado e administrado pelo governo, que garante tratamento para todos. Eu proibiria o lucro dentro da medicina, pois acredito que este seja o cerne do problema.

Pergunta Blog: Então não haveria um sistema privado que concorresse lado a lado com o sistema governamental que você propõe?
Marcia Angell: Não. Eu não acredito num sistema que tenha dois níveis. Eu acho que um dos pontos fortes do sistema canadense é que todas as pessoas fazem parte daquele sistema. Mesmo com recursos financeiros, o sujeito não tem a opção de um outro sistema de saúde, ou seja, o paciente não encontra uma alternativa para a opção que o governo oferece no Canadá. Eu acredito que nos Estados Unidos todos devem fazer parte de um sistema único incluindo o presidente e os membros do Congresso. Dessa forma, você teria as pessoas mais poderosas certificando-se de que tal sistema fosse adequadamente financiado. Se você permitir que um sistema de saúde tenha dois níveis, o sistema público ficará inevitavelmente cada vez mais enfraquecido e menos financiado… Isso acontece porque pessoas com maior poder aquisitivo podem pagar para obter outro tipo de atendimento.

Pergunta Blog: Em sua opinião, qual país tem um sistema de saúde ideal? Qual o país que tem um sistema que seja exemplo de todos os atributos que você almeja? Você consideraria o Canadá um bom exemplo?
Marcia Angell: Não é o Canadá. O Canadá tem alguns problemas, e as províncias têm muito controle e poder. O sistema canadense não inclui certos serviços que deveria, como, por exemplo, a assistência em longo prazo e nem sempre cobre o custo dos medicamentos prescritos. Embora eu acredite que o sistema canadense seja muito bom porque ninguém é excluído, ele não abrange tudo o que eu acredito que seja importante. Eu simpatizo com o sistema britânico do jeito que era há alguns anos atrás. Ao longo dos últimos anos, no entanto, tem enfraquecido. Mesmo assim, no Reino Unido se gasta um terço do que gastamos por pessoa nos EUA e eles têm uma maior expectativa de vida, menor taxa de mortalidade infantil e um sistema de saúde que é considerado significativamente superior ao nosso em todos os parâmetros. Na verdade, se você olhar para as taxas de mortalidade infantil e de expectativa de vida, nosso desempenho deixa a desejar quando comparado a outros países industrializados. Em termos da satisfação das pessoas, eu diria que os franceses são os que estão mais satisfeitos com o seu sistema de saúde.

Pergunta Blog: O que você acha do sistema britânico ter dois níveis?
Marcia Angell: O fato de ele ter dois níveis é uma fraqueza. É difícil dizer qual sistema é o melhor de todos, mas está claro para mim que o sistema americano é o pior dos países desenvolvidos – o mais caro e o menos adequado.

Pergunta Blog: Você é da opinião que os médicos devem ter um salário tabelado?
Marcia Angell: Eu acredito que médicos deveriam ter um salário fixo. A influência do dinheiro deve ser removida da prática da medicina e ela pode ser vista de duas maneiras diferentes. Se você examinar algumas situações de atendimento médico, você pode se deparar com um cenário no qual quanto menos o médico oferece ao paciente, mais ele é pago. Ele é pago para fazer o menos possível. Por outro lado, existem outras situações nas quais ele é pago para fazer o máximo possível, ou seja, a quanto mais testes ou procedimentos ele submete o paciente, mais ele ganha. As duas situações são injustas. Numa delas, há um incentivo para oferecer o menos possível, e na outra, para fazer o máximo possível. O que eu gostaria de ver é que a boa medicina fosse definida pelo que um médico bem preparado faria se não houvesse nenhum interesse financeiro. A melhor maneira de fazer isso seria através de um salário tabelado, que iria obviamente variar de acordo com a especialidade. Tanto a especialidade médica (algumas requerem maior tempo de treinamento) como os anos de experiência seriam fatores que determinariam qual o salário a pagar. O ponto essencial é que o salário de um médico deve ser tabelado, sem bônus por fazer um procedimento em vez de outro.

Pergunta Blog: Qual é a principal razão para os medicamentos serem muito mais caros nos EUA do que em outros países latinos ou até mesmo no Canadá?
Marcia Angell: Muitos países têm alguma forma de controle nos preços de medicamentos. Tanto o Canadá como o Reino Unido, por exemplo, têm. Eu não sei se o Brasil tem ou não. Nós não temos controle de preços nos EUA. Os medicamentos de marca (não genéricos) são duas vezes mais caros. Nos EUA, as empresas farmacêuticas recebem todo o tipo de favores e privilégios por parte do governo. Ironicamente, estas mesmas companhias afirmam ser adeptas e defensoras da iniciativa privada e do livre mercado. No entanto, tais empresas recebem isenções fiscais e vivem de pesquisas custeadas pelo National Institutes of Health (NIH), que é financiado com fundos públicos.
Nos EUA as empresas farmacêuticas podem cobrar o que quiserem. Durante muitos anos elas têm usado a desculpa do elevado gasto financeiro relacionado com as pesquisas como razão para o preço de medicamentos ser tão altos, mas isso não passa de uma grande mentira. Na verdade, elas estão pouco envolvidas na pesquisa, e de fato, a maior parte de suas despesas são decorrentes de diversas manobras de marketing para atingir os consumidores de forma indiscriminada. Finalmente, o grande objetivo dessas companhias é maximizar o lucro a qualquer custo, ao ponto de serem considerados imorais e de serem até um exemplo grotesco de ganância incontrolável.

Pergunta Blog: Os Estados Unidos e a Nova Zelândia são os dois únicos países do mundo onde quaisquer medicamentos que requerem prescrições médicas são anunciados diretamente aos consumidores na televisão. Qual é a repercussão desse modelo para o paciente?
Marcia Angell: As pessoas mais idosas quando assistem televisão são bombardeadas com propaganda de diversos medicamentos de alto custo para tratar todos os tipos de condições médicas como a disfunção erétil, o colesterol alto, a azia e outros sintomas. Basicamente, é o paciente que tem a iniciativa de procurar o fármaco e de obter a prescrição de um médico na busca de um determinado medicamento. Na verdade, o oposto deveria acontecer. Os médicos, em geral, estão extremamente ocupados nos seus consultórios, não tendo o tempo disponível para submeter o paciente a um exame completo. Assim sendo, muitas vezes é mais fácil ceder ao pedido do paciente receitando o medicamento requerido.

Pergunta Blog: Diversas leis, aprovadas na década de 1980 nos EUA, tiveram um impacto tremendo na medicina em geral. Você poderia comentar especificamente sobre o impacto da lei Bayh-Dole?
Marcia Angell: Basicamente, tal lei garantiu que universidades e pequenas empresas pudessem patentear suas descobertas que estavam diretamente ligadas a recursos públicos do NIH  (National Institutes of Health). Antes da Lei Bayh-Dole, as pesquisas e as descobertas financiadas com o dinheiro do contribuinte eram consideradas de domínio público e estavam disponíveis para qualquer empresa que tivesse interesse em beneficiar delas. Uma das principais consequências desta legislação foi uma crescente parcialidade (falta de objetividade) por parte de muitos pesquisadores acadêmicos em várias de nossas instituições médicas. Estes tendem a favorecer a indústria, tornando-se empreendedores com participação financeira nas empresas nas quais trabalham. Outras leis também aumentaram a vida de patente de vários medicamentos de marca (não genéricos), permitindo assim que as empresas cobrem preços exorbitantes por um determinado medicamento por um longo período de tempo. Parece-me que os maiores perdedores terminam sendo os consumidores.

Pergunta Blog: O que deve fazer um paciente quando ouve falar de um tratamento ou de um medicamento que é apresentado como uma cura para tudo?
Marcia Angell: Eles devem estar sempre cientes de que os interesses comerciais são muito influentes dentro da medicina americana. Desta forma, acredito que os pacientes não devem tomar qualquer medicamento que esteja no mercado por menos de três anos, até que haja tempo suficiente para poder determinar quais são os problemas e os efeitos secundários que estes possam ter. É obvio que há exceções a estes casos, em que o paciente não pode e nem deve esperar para tomar um medicamento. Evidentemente, numa situação de vida ou morte, como por exemplo, no caso de uma infecção que só pode ser tratada com um antibiótico novo, o paciente não deve esperar para tomar o fármaco. De modo geral, em relação à maioria dos medicamentos eu não tomaria nada que tenha entrado no mercado recentemente. Acredito que procederia da mesma forma no que diz respeito aos procedimentos médicos. Sempre que possível, sou a favor da cautela, ou seja, de aguardar por mais provas, pois, se algo parece ser bom de mais para ser verdade, é realmente bom demais para ser verdade. Eu tenho uma maneira muito conservadora de encarar a medicina.

Pergunta Blog: Quais são as especialidades médicas nas quais você vê maior abuso de procedimentos e tratamentos?
Marcia Angell: Esse abuso o qual você se refere pode ser constatado em qualquer especialidade onde há uma utilização maciça de medicamentos e dispositivos médicos como, por exemplo, na cardiologia e na ortopedia. Existem outras áreas como a dermatologia, a endocrinologia e a pediatria, em que a utilização de dispositivos médicos não é tão prevalecente. As áreas que usam alta tecnologia são precisamente aquelas nas quais existem os maiores abusos.

Pergunta Blog: Que regras devem ser adotadas pelos editores de periódicos científicos para que suas publicações tenham maior credibilidade e transparência?
Marcia Angell: Eu realmente acredito que os editores de periódicos científicos devem continuar com as políticas que o New England Journal of Medicine iniciou. Uma delas foi adotada em 1984 e estipulava que todos os autores de pesquisas científicas originais tinham a obrigação de avisar os editores sobre quaisquer vínculos financeiros que tivessem com companhias que poderiam ser afetadas pelas conclusões da pesquisa. O nosso periódico foi o primeiro a adotar essa política e, eventualmente, a maioria das outras publicações de renome na área seguiram o nosso exemplo. A outra política que instituímos em 1990 determinou que a divulgação (dos vínculos financeiros do autor) não era suficiente em alguns casos como, por exemplo, em artigos editoriais e de análise crítica. Em outras palavras, determinamos que pesquisadores que tinham a responsabilidade de escrever editoriais ou artigos de análise crítica para a nossa publicação que envolvessem um alto teor de objetividade e de averiguação dos fatos dentro da literatura, não poderiam ter vínculos financeiros com empresas que pudessem ser diretamente afetadas por tais matérias. Essa política continuou durante todo o meu tempo como editora-chefe, porém, tendo sido abandonada pelo meu sucessor. Nenhuma outra publicação tentou fazer o mesmo. No entanto, eu creio que essa regra era muito importante. Atualmente, eu também estou muito menos otimista (descrente da eficácia) sobre a utilidade de regras que determinem a divulgação destes conflitos de interesses.

Pergunta Blog: Por que o editor que lhe sucedeu não continuou com as mesmas regras que você implementou?
Marcia Angell: Ele deixou claro que encontrar pessoas renomadas sem conflitos de interesse para escrever artigos de revisão e editoriais se tornou muito difícil. Eu acredito que ele deveria se esforçar mais para encontrar essas pessoas mesmo que seja difícil.

Pergunta Blog: O leitor deve olhar com ceticismo para periódicos científicos que não têm regras de divulgação de conflitos de interesses?
Marcia Angell: Claro que sim. Sem dúvida nenhuma. Eu acho que uma política transparente de divulgação seja um critério muito importante quando o leitor for determinar qual periódico científico ele vai dar sua atenção.

Pergunta Blog: Existem muitos periódicos científicos que não têm regras de divulgação de conflitos de interesse?
Marcia Angell: Sim, claro. Existem milhares de periódicos científicos e muitos deles são meras operações de transmissão de anúncios da indústria de medicamentos, de dispositivos médicos e para publicar artigos que são favoráveis aos diversos anunciantes.

Pergunta Blog: Qual é a porcentagem destas publicações que você acha que não tem regras de divulgação de conflitos de interesse?
Marcia Angell: A grande maioria delas.

Pergunta Blog: Existem fontes de informação isentas de interesses financeiros, nos EUA,  a quem os consumidores ou os pacientes possam recorrer com o intuito de obter informações de forma objetiva e imparcial sobre questões relacionadas à medicina?
Marcia Angell: Existem diversas fontes de informação sobre a saúde. Uma delas é o Public Citizen Health Research Group que é dirigido por um médico chamado Sidney Wolfe. Esta organização lançou um livro intitulado Worst Pills, Best Pills. Outra fonte importante é o trabalho desenvolvido pela publicação Consumer Reports, que faz uma avaliação de diversos medicamentos e de outros assuntos relacionados com a medicina e a saúde em geral.

Pergunta Blog: Resumindo, qual é o problema do sistema de saúde norte-americano?
Marcia Angell: É um sistema baseado nas tendências do mercado, que distribui os cuidados de saúde de acordo com a capacidade de pagamento e não de acordo com as necessidades médicas.

quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012

A formula para o sucesso em 2013: EDUCAÇÃO



Veja o video no link abaixo:

 www.youtube.com/watch?v=QM9euDEBkCk

O FIGURÃO DO ANO


Meu artigo de opinião no "Público" de hoje:

 Os media escolhem, nesta época, as figuras do ano. Para figura do ano a Time escolheu Barack Obama e, entre nós, o Expresso escolheu Angela Markel e o contribuinte português para figuras respectivamente internacional e nacional. Proponho-me aqui escolher o “figurão do ano” e o escolhido não pode deixar de ser Miguel Relvas, ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares.

Em Portugal, no ano que ora finda, foram muitos os figurões. Na cena política, mas também nas cenas académica, empresarial, mediática, autárquica e desportiva, vários foram os personagens que, tentando sobressair, caíram no palco com estrondo. A escolha foi, porém, fácil, pois nenhum desses insucessos foi tão grande como o de Relvas, que, figurando em todas essas cenas, não houve nenhuma em que não caísse.

 Um figurão português precisa de um título de doutor. Sem ele, não passaria de uma figurinha. Ora, Relvas conseguiu, com impressionante facilidade, tal título. Não precisava de uma resma de equivalências, pois já o tratavam por “doutor”, como mostram placas inaugurais inauguradas pelo próprio. Mas pediu-as e deram-lhas com inusitada ligeireza. O ministro da Educação mandou instaurar um inquérito, mas o caso está longe de estar esclarecido pela universidade em causa. Por que é que uma carreira política comezinha, largamente decorrida na juventude partidária, recheada de negociatas e enriquecida por um cargo num grupo folclórico, foi considerada equivalente a 32 cadeiras? Como é que o estudo e a avaliação puderam ser equiparadas a disputas partidárias e a jogos de influências? O reitor que participou na bambochata demitiu-se das funções que ocupava sem nunca ter explicado o seu permissivo papel. E Relvas, depois de ter declarado que lhe podiam ter dado mais de 32 cadeiras (queixando-se que, em todo o curso, teve de fazer quatro exames!), eclipsou-se por escassas semanas para voltar, retemperado, à ribalta.

 Mas a queda académica de Relvas foi apenas um dos vários fracassos neste ano da carreira laureada pela Universidade Lusófona. Tudo lhe tem corrido mal. No campo do empreendorismo, vieram à tona os negócios duvidosos da Tecnoforma, uma das empresas que ajudou a singrar, e emergiram na imprensa brasileira suspeitas de ligações com o empresário colombiano-brasileiro-polaco que tentou comprar a TAP. No campo da comunicação social, depois de ter suscitado a demissão de uma jornalista do Público, o nome de Relvas apareceu associado à demissão do director de programas da RTP, empresa que ele tutela e que queria à viva força privatizar até ao fim do ano. Agora, que o grupo angolano Newshold declarou a sua intenção de comprar essa televisão, vale a pena lembrar o afastamento pela direcção da Antena 1, também tutelada por Relvas, de um jornalista que ousou opinar sobre a liberdade em Angola. Onde está Relvas, há uma demissão e nunca é a dele. No campo da reorganização administrativa, está a ser polémica a extinção à trouxe-mouxe de mais de um milhar de freguesias, enquanto a reforma dos municípios permanece na gaveta. Não há uma uma reforma bem estudada do território, mas receia-se que, do gabinete de Relvas, venha a criação de funções intermunicipais que darão reformas douradas a ex-autarcas. Por outro lado, devido à inábil intervenção do ministro, Fernando Seara viu-se obrigado a adiar a sua candidatura pelo PSD a Lisboa. Estará hesitante em avançar atendendo ao mais do que previsível desastre da cor laranja nas autárquicas de 2013, em Lisboa e por todo o país, incluindo o Porto. Uma coisa é certa: Se Relvas insistir em nomear candidatos, o desastre será ainda maior. Por último, no campo desportivo, o ano não podia ter corrido pior para o ministro, conhecida como é a sua paixão pelo Sporting. Mas também os resultados da representação olímpica nacional deixaram a desejar: em Londres foi o que se viu (Relvas esteve lá a ver) e no Rio de Janeiro não vai ser melhor a avaliar pela actual confusão.

 De facto, deste grande rol de azares de Miguel Relvas, só uma parte é imputável ao próprio. Outra parte, e substancial, é da responsabilidade do primeiro-ministro, que o mantém no polivalente lugar. Já o escrevi nesta coluna: a queda de Miguel Relvas é a queda de Pedro Passos Coelho, já que ambos estão entrelaçados. Têm sido dois alpinistas unidos por uma corda em conjunta ascensão política. Os dois passaram por Angola, os dois estiveram juntos na JSD, os dois colaboraram com a Tecnoforma, os dois fizeram cursos tardios em escolas privadas, os dois chegaram ao governo da nação. Passos Coelho afirmou num órgão do seu partido que não podia prescindir de Relvas, porque ele era, em inglês, um doer. O ministro adjunto será um “doer”, mas em português. Os tombos de Relvas estão a doer ao chefe do governo, que bem poderia, por um momento, ser um thinker e pôr termo ao seu “doer”.

"Só nós podemos tirá-lo dessa prisão..."

Num livro publicado em 2007 (que chegou às livrarias portuguesas em 2009 com a chancela da Porto Editora), sugestivamente intitulado Mágoas da Escola, o francês Daniel Pennac, falando em nome próprio, como mau, péssimo aluno que diz ter sido e como professor de milhares de fracos, razoáveis, bons e inclassificáveis alunos, detêm-se na falibilidade das múltiplas atribuições e classificações que vulgarmente utilizamos para predizer a evolução da aprendizagem de cada um.

Daí a grande inutilidade da obsessiva recolha de dados pessoais sobre os alunos e as suas famílias em que a escola investe, pelo facto desses dados pouco ou nada predizerem. Daí também o grande perigo de rotulagem que essa prática envolve, a que se segue, de modo consciente ou inconsciente, o compatível investimento de ensino.

Na vivência académica quotidiana, e muito especialmente na relação que se estabelece entre professores e alunos, tudo é mais complicado e subtil do que as leituras (mesmo que se apresentem como pedagógicas) apressadas e ligeiras podem fazer crer. É nessa vivência que se joga a tarefa do professor de fazer compreender...

Pennac explica isto muito melhor do que eu nas página 24 e 36 desse livro:
"Como é evidente, impõe-se conhecer a causa original. De onde vinha a minha cabulice? Filho da burguesia de Estado, oriundo de uma família afável, sem conlitos, rodeado de adultos responsáveis que me ajudavam a fazer os deveres… Pai formado na Escola Politécnica, mãe em casa, nem divórcios, nem alcoólicos, nem inadaptados, nem taras hereditárias, três irmãos já com o bac feito (com vocação para a matemática, em breve dois engenheiros e um oicial), ritmo familiar normal, alimentação saudável, biblioteca em casa, ambiente cultural adequado ao meio e à época (pai e mãe nascidos antes de 1914): pintura até aos impressionistas, poesia até Mallarmé, música até Debussy, romances russos, o inevitável período Teilhard de Chardin, Joyce e Cioran por ousadia… Conversas à mesa calmas, divertidas e cultas.
E todavia, um cábula.
Nenhuma explicação a tirar da história familiar. Trata-se de uma progressão social em três gerações graças à escola laica, gratuita e obrigatória, ascensão republicana em suma, vitória à maneira de Jules Ferry (...)
A todos aqueles que hoje atribuem a constituição de bandos unicamente ao fenómeno dos subúrbios, digo: sim, têm razão, sim, o desemprego, sim, a concentração dos excluídos, sim, os reagrupamentos étnicos, sim, a tirania das marcas, a família monoparental, sim, o desenvolvimento de uma economia paralela e os tráficos de toda a ordem, sim, sim, sim… Mas evitemos subestimar a única coisa sobre a qual podemos agir pessoalmente e que, essa, data da noite dos tempos pedagógicos: a solidão e a vergonha do aluno que não compreende, perdido num mundo em que todos os outros compreendem.
Só nós podemos tirá-lo dessa prisão, tenhamos ou não formação para o fazer."

terça-feira, 25 de Dezembro de 2012

Aos Mestres

À minha caixa de correio chegou a mensagem dum estudante que se encontra na Universidade de Coimbra, dirigida a todos os professores que aqui encontrou. Uma inesperada e bela prenda de Natal de alguém que, lamentavelmente, não consigo reconhecer pelo nome, de alguém cujo rosto de dilui numa multidão.

Aos Mestres,

Que tão bem desempenharam seu papel neste semestre,
meu muito obrigado pelos ensinamentos
e sempre boa vontade de fazer tão bem
seus papeis de propagadores de conhecimento...

Quero desejar um Feliz Natal,
e um Próspero Ano Novo cheio de realizações,
superações, maior desempenho, muita paz e saúde!

Que 2013 venha repleto e duplicado
de toda a bondade conquistada
e realizada no ano passado!

São os votos mais sinceros do estudante,
Assis Anderson Ribeiro da Silva

"Como é possível que a MATEMÁTICA, sendo afinal um produto do pensamento humano, independente da experiência, esteja tão adimiravelmente adaptada aos objetivos da realidade?"
Alberto Einstein

segunda-feira, 24 de Dezembro de 2012

Âmbito e Objectivos do Ensino Superior


Meu artigo de opinião no "Público" de hoje:
“A única verdade é a realidade” (Aristóteles, 384 a.C. – 322 a. C.).

No programa da RTP, Prós &Contras, do passado dia 12 de Novembro, intervencionaram o Secretário de Estado do Ensino Superior, João Queirós, figuras reitorais de universidades públicas, um representante do Conselho de Reitores  das Universidades Portuguesas, um antigo ministro da Ciência e Ensino Superior e o presidente do Conselho Coordenador dos Politécnicos.
Este programa tinha como um dos objectivos estabelecer as diferenças entre as funções das universidades e dos politécnicos. Pese embora a prestação do Reitor da Universidade Técnica de Lisboa, António Cruz Serra,  na procura de soluções para tentar pôr cobro à “universitação dos politécnicos e à politécnização das universidades” (Adriano Moreira), como era de esperar num programa deste género foram levantadas questões sem haver tempo ou clima para adiantar soluções.

Julgo que uma retrospectiva sobre a etiologia do ensino politécnico poderá ajudar a melhor situar a complexidade desta temática. O ensino politécnico foi criado como um ensino superior curto (2 anos), rapidamente “exigiu” um bacharelato, daí partiu para uma licenciatura e um mestrado com a pretensão (nunca desistida) de atribuir doutoramentos porque a legislação  facilitou esta escalada com  origem na confusão nela implícita por não  estipular, preto no branco,  as diferenças entre o ensino universitário e o ensino politécnico  dificultando a necessária função reguladora do Estado.
Isto porque a Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro (Lei de Bases do Sistema Educativo), presta-se a diversas leituras, por omissão ou mesmo intencionalidade,  ao tornar nebulosa os respectivos campos de acção. Assim:

- “O ensino universitário visa assegurar uma sólida formação científica e cultural e proporcionar uma formação técnica que habilite para o exercício de actividades profissionais e culturais e fomente o desenvolvimento das capacidades de concepção, de inovação e de análise crítica” (ponto 3. do artigo 11.º, da LBSE).
- “O ensino politécnico visa proporcionar uma sólida formação cultural e técnica de nível superior, desenvolver a capacidade de inovação e de análise crítica e ministrar conhecimentos científicos de índole teórica e prática e as sua aplicações com vista ao exercício de actividade profissionais (ponto 4, ibid.).
Nestes dois formulários, as finalidades do ensino universitário e ensino politécnico pouco diferem , exceptuando a ordem que as palavras neles ocupam. Contudo, reporto-me a uma diferença digna de nota: O ensino politécnico “ministra conhecimentos de índole teórica e prática”, sendo o texto omisso no que respeita ao conhecimento prático dos universitários como se fossem, apenas, futuros homens de laboratório de bata branca, ratos de biblioteca ou técnicos de fato e gravata. Entretanto é dada ênfase “à sólida formação cultural e técnica de ‘nível superior’ do ensino politécnico”. Redundância desnecessária porque o ponto 1, do artigo 11.º da LBSE  determina que “o  ensino superior compreende o ensino universitário e o ensino politécnico”, donde a formação ministrada neste último subsistema do ensino superior não podia ser de nível inferior (agora, se o é , em alguns casos, isso é outra ordem de ideias).
Quanto à investigação científica, oxigénio para os pulmões do ensino universitário, nem uma simples referência. Embora eu reconheça, na peugada de George Canning, que possa haver “para cada  problema uma solução que é fácil, clara …errada”, não posso deixar de estabelecer  funções diferentes para coisas diferentes. Ou seja, como defendo publicamente de há anos para cá, a atribuição de bacharelatos, mestrados  e doutoramentos exclusivamente a cargo das universidades e nos politécnicos de bacharelatos com a atribuição de diplomas de estudos superiores especializados quando justificados. Desta forma, seria prestada justiça à respeitabilidade das licenciaturas de antes de Bolonha que foi desvirtuada por licenciaturas depois de Bolonha com bem menor valor académico e prestígio social. Mas haverá coragem política para isso?
Rui Baptista
Co-autor do blogue De Rerum Natura.

Te quero

Um segundo poema do mesmo autor uruguaio, enviado por Jacqueline Oliver.

Te quero
de Mario Benedetti

Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça

Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois

Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro

Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia

Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois

E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero

E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só

Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão

Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.

Da gente que eu gosto

A Jacqueline Oliver pedi que partilhasse com o De Rerum Natura poesia do seus país, o Uruguai, por ela ser tão rara no nosso.

Da gente que eu gosto
de Mario Benedetti

Antes de mais nada gosto da gente que vibra,
que não é necessário empurrar,
que não se tem que dizer que faça as coisas
e que sabem o que tem que ser feito
e o fazem em menos tempo que o esperado.

Gosto da gente com capacidade de medir
as conseqüências de suas ações.
A gente que não deixa as soluções para a sorte decidir.

Gosto da gente exigente com seu pessoal e consigo mesma,
mas que não perde de vista que somos humanos
e que podemos nos equivocar.

Gosto da gente que pensa que o trabalho em equipe, entre amigos,
produz às vezes mais que os caóticos esforços individuais.

Gosto da gente que sabe da importância da alegria.
Gosto da gente sincera e franca,
capaz de opor-se com argumentos serenos e racionais às decisões de seus superiores.

Gosto da gente de critério,
a que não sente vergonha de reconhecer
que não conhece algo ou que se enganou.

Gosto da gente que ao aceitar seus erros,
se esforça genuinamente por não voltar a cometê-los.

Gosto da gente capaz de criticar-me construtivamente e sem rodeios:
a essas pessoas as chamo de meus amigos.

Gosto da gente fiel e persistente
e que não descansa quando se trata de alcançar objetivos e ideais.

Gosto da gente que trabalha para alcançar bons resultados.
Com gente como esta, me comprometo a tudo,
já que por ter esta gente ao meu lado me dou por satisfeito.

O GRANDE LUME

Texto do Professor Galopim de Carvalho que o De Rerum Natura agradece.

Pira preparada para o “grande lume”, na praça, em Barrancos

Foi há cinquenta anos que conheci Barrancos. Estava-se em férias de Natal e era o meu primeiro ano como assistente na Faculdade. O Professor Carlos Teixeira, na altura, o director do departamento, mandara-me chamar. Tinha à sua frente, entre pilhas de livros e papéis, um grosso volume encadernado a couro, com letras douradas, onde se lia Système Silurique du Portugal, uma importante memória da autoria de um dos fundadores da geologia portuguesa, Nery Delgado, publicada no início do século XX.

– Neste trabalho, – apontou, depois de me retribuir o cumprimento – no capítulo referente a Barrancos, estão citadas várias jazidas de ftanitos com Monograptus [1]. Passe o Natal com a família e depois meta-se a caminho. Localize as que puder e faça umas boas colheitas. Temos cá exemplares do centro e do norte do país, mas do sul, só temos isto, – concluiu, passando-me para a mão um fragmento de rocha cinzenta, muito dura e compacta, exibindo os ditos fósseis.

– Vais para Barrancos? Já amanhã? – Admirou-se o Chico, o meu irmão mais velho, que viera do Brasil passar o Natal com a família. – Mas isso é lá no “cu do mundo”. Já lá estive durante uma tournée que fiz aqui no Alentejo com o Igrejas Caeiro. É gente boa. Falam uma espécie de espanhol que dá gosto ouvir.

– Tenho de ir. – Justifiquei resignado. Faltara-me a coragem para resistir ao capricho do catedrático e ali estava eu, forçado a deixar a família, agora reunida após anos de ausência de dois irmãos. O Chico e o Marecas.

Cheguei a Barrancos na última das três carreiras que tive de utilizar desde Évora. A aproximação à vila fazia-se por um percurso tortuoso, num terreno profundamente abarrancado, realidade paisagística de que lhe resultou o nome. Na praça, um ventinho gélido brincava com as cinzas deixadas pelo “grande lume” - a grande e tradicional fogueira da noite de Natal, feita no largo da Igreja - a lembrarem o que fora a alegria e o convívio em louvor do Menino Jesus.

Era noite quando bati à porta da pensão. Sopa e dois pratos faziam o jantar, servido quase de imediato numa sala grande, mal iluminada e fria, com porta para um corredor que levava à cozinha. Aqui, uma enorme chaminé com lume de chão e enchidos frescos ao fumeiro davam ao ambiente um conforto e um aroma a fazerem desta divisão da casa o lugar mais apetecido. Não longe do lume, uma camilha envolta numa saia até aos pés, servia de mesa tanto de comer como para cumprir os trabalhos escolares da única filha. Pai, mãe e filha, avô e avó viviam e conviviam o tempo todo ali, num bem-estar que contrastava com o desconforto da sala destinada aos hóspedes.

Depois de uma sopa rala e sem graça nem sabor, o primeiro prato, à falta de peixe, constou de ovos mexidos com linguiça, seguido de um bife sobre o frito, uma ementa cuidada a condizer com o hóspede vindo de Lisboa e, ainda por cima, da Universidade. Nesse serão já não saí. Recolhi ao quarto, lajeado com placas de xisto a ressumarem água. O tecto, bem alto, limitava-se a um forro de caniço imediatamente por baixo das telhas. Um desconforto que não melhorava do lado de dentro dos lençóis de linho, húmidos e frios, carregados de mantas que só com o peso disfarçavam a falta de agasalho. Lavatório no quarto e espelhinho na parede diziam-me que, na manhã seguinte, a toilette se faria ali. Uma higiene cumprida a medo com as pontas dos dedos a trazerem a água gélida aos olhos.

– Bom dia! Dormiu bem?! – Acolheu-me a avó, de roda do borralho, logo que me sentiu assomar. – Entre, entre. Venha para aqui, que está mais aconchegado. Já lhe preparo o cafezinho.

Pegou então num punhado de gravetos, chegou-os ao grande toro de azinho fumegante, a chiar baixinho, e começou a avivá-lo soprando por um longo canudo de ferro estrangulado na ponta. Às primeiras labaredas arrumou-lhe a cafeteira de barro queimada do uso.

– Este madeiro foi o da noite de Natal – disse – Era bem grande. Tive cá os outros filhos e os netos todos. Olhe aí para o presépio que eles fizeram. O avô trouxe-lhes o musgo e o barro e eles é que fizeram a bonecada toda.

Sentado à camilha, com as pernas passadas para dentro da grossa saia e com a braseira aos pés, tomei café de mistura, bem quente, a acompanhar torradas de pão caseiro, feitas ali, umas atrás das outras, no brasido do chão. Que delícia e que saudades! Até a margarina me sabia à melhor das manteigas. Encorajado por aquela abertura à intimidade da cozinha, desabafei:

– Está-se muito melhor aqui do que naquela sala, lá fora. E então, – acrescentei afoito – não seria também mais prático eu comer o mesmo que come a família?

– Vossemecê é que sabe. – Respondeu-me com naturalidade. – A gente acha que a casa de jantar é mais apropriada para os hóspedes. Ficam mais à vontade, e nós também. – Sorriu. – Só lá comemos nos dias da festa, menos na noite do menino, que é passada aqui ao pé do lenho. Hoje vou fazer chispe com repolho, mogango e feijão encarnado. Se gostar, logo à noite come com a gente. E ainda aí tenho esta carne frita que sobrou das migas do almoço. – Acrescentou, mostrando-me uma tigela de fogo quase rasa de banha encarnada, através da qual se percebia estarem ali mergulhados os pedaços de carne magra e entremeada. – É temperada com alho e massa de pimentão. Sabe o que é? Assim não se estraga. Logo aqueço-lhe um pouco e vai ver como é bom. Quer mais uma pinguinha de café? Coma mais estas torradinhas, agora que estão quentinhas.

Falando deste e de outros Natais, a avó fazia-me companhia. Falou da ceia, do galo que matara, dos ganhotes e borrachos, da fona dos netos entre a casa e o “grande lume”, da missa da meia-noite e do pessoal cantando e tocando zambomba.

Zambomba

Por fim, talvez para me pôr mais à vontade, entoou uma das cantilenas com que alegravam a festa: Anda burriquinho, vamos lá à lenha, pr’aquecer o menino, na Noite Buena.

Com esta entrada no seio da família foi-se o frio, até o da noite, pois ali ao pé do lume até sabia bem prolongar o serão recheado contos e de histórias vividas. Quando, por fim, recolhia ao quarto, levava comigo o calor das brasas e o da convivência, regalos que, aliados à fadiga de um dia inteiro a subir e a descer cabeços e vales, de imediato me viravam a página para o dia seguinte.

Como foi hábito nesses escassos dias por terras barranquenhas e porque, na ocasião, a noite caía muito cedo, frequentei, nos fins de tarde, antes do jantar, a Sociedade, a mais selecta das duas situadas no largo da igreja, em frente uma da outra. Foi o Mário Escoval que ali me introduziu, permitindo-me conviver com os mais notáveis da vila. Como eu a estudar em Évora, uma boa dúzia de anos atrás, esse meu amigo, era então um entre as forças vivas locais, a par de outros lavradores, do autarca, do comandante da guarda, do professor e do padre Agostinho.

- O que é que bebes? Cerveja? - Cerveja, não. Só no Verão e com muito calor. Mas se é preciso justificar o direito à cadeira, que seja um café em copo, bem quente e com um “cheirinho”. Sempre dá para aquecer as mãos e a alma.

Não era fácil explicar aos meus companheiros de ocasião qual era o meu trabalho, todo o dia no campo, com um saco, um martelo, uma bússola e um mapa do exército. Ainda por cima em terras raianas. Logo no primeiro dia, por duas ou mais vezes, tivera a sensação de estar a ser seguido, facto que relatei ao sargento da GNR, já o Mário havia feito as apresentações.

– Fui eu que ordenei a um dos meus homens para ver o que é que um estranho andava ali a tramar – respondeu em tom profissional o representante da autoridade.

– E o que é que ele viu? – Inquiri, interessado em dar continuidade à conserva.

– Viu-o apanhar pedras em tudo o que era sítio, mirá-las por todos os lados, guardar umas e deitar fora outras. Viu-o olhar para o mapa ou para a bússola, escrever umas coisas e pouco mais.

– É esse o nosso ofício. – Aproveitei para explicar. – Apanhamos pedras estudamo-las depois e, desse estudo, procuramos conhecer a história da Terra. Desta vez ando à procura de uns fósseis, ou seja, de restos de animais que provam que aqui foi mar há uns quatrocentos milhões de anos.

– Diga-me cá, - salientou o professor. – E como é que aqui foi mar e hoje é tudo terra em seco? E como é que se sabe que foi, assim, há tanto tempo?

- Bom, tudo isso tem a sua explicação, mas leva tempo.

– Foi o Dilúvio, – meteu-se na conversa o Padre Agostinho, até aí calado, mas particularmente atento.

– Bem, retorqui-lhe - escolhendo as palavras. – Essa é uma história que nos põe num outro campo que nada tem a ver com o nosso trabalho. Uma história que dava pano para mangas. – Rematei, sorrindo-lhe.

– Venha para cá no Verão, por altura das festas, – atalhou o eclesiástico – vai ver que gosta. Temos fiesta com toiros de morte.

– Estamo-nos nas tintas para as leis de Lisboa, mas respeitamos a nossa tradição. – Interrompeu um dos presentes.

– Depois fica aí uns dias connosco para falarmos destas coisas. – Retomou o padre.

– Tertúlia já nós temos. O Zé Adrião diz que tem lá no monte um peixe petrificado, metido no xisto. O Mário já foi ver e diz que parece mesmo um peixe, assim, grande – e abriu os braços, ao jeito dos pescadores desportivos quando falam das suas proezas. - Temos de ir vê-lo.

Só ao terceiro dia da minha estada em Barrancos localizei a tão desejada camada com fósseis de Monograptus. Após duas jornadas de insucesso, ocorreu-me pedir ajuda a um pastor com quem já me havia cruzado. Depois de umas palavras de circunstância e de umas festas ao cão, que logo me reconheceu e se aproximou a abanar vigorosamente a cauda, tirei do saco a dita amostra de ftanito bem embrulhada em jornal.

– Vossemecê já viu por aqui pedra como esta, com estes risquinhos? – Perguntei, passando-lhe para a mão o exemplar que trouxera de Lisboa.

Restos fósseis de Monograptus

– Já vi, sim senhor. – Respondeu, satisfeito, com o ar de quem sabia do que estava a falar. – Uns são direitos, outros enroladinhos. Têm assim um denteado como a folha da serra de rodear.

– É isso mesmo. E onde é que os posso encontrar? – Prossegui, animado pela resposta.

– Há aí vários sítios com esta pedra. - Disse, olhando-a atentamente – É muito diferente do resto. É mais dura e não abre nem deixa meter a folha da navalha, como o xisto. Umas são mais claras e outras mais escuras, como esta. Que eu me lembre, assim de repente, aparece ali para o Calvário. Também as há nas Boticas, em Noudar e ao pé da capela de São Ginés – nomes que foi pronunciado, pausadamente, à medida que os ia tirando da memória dos muitos sítios daquele que era o seu mundo.

– Mas há mais. Olhe, ali atrás daquele cerro. Está a ver? – E apontou com o cajado. – Na Cerca das Almas, também se apanha obra desta. Há um caminho que passa no alto, – continuou – na direcção de quem vai para a vila. Em lá chegando, vê logo um barranco fundo à sua mão direita. É aí, na descida, que há pedra igual a esta, cheínha destes riscos. Abri o mapa e orientei-o. Lá estava a Cerca das Almas, a uns três quilómetros dali. Marquei o local que me pareceu corresponder à descrição do pastor, dei-lhe os bons dias, fiz mais umas festas ao rafeiro e pus-me a caminho. Era meio-dia quando cheguei ao ponto assinalado, dominado por enorme expectativa e pelo receio de mais uma tentativa falhada. Mas não. A camada fossilífera estava finalmente ali, a meus pés. A cada golpe de martelo a rocha abria-se-me nas mãos, repleta dos tão procurados Monograptus. Sentei-me a comer o farnel que sempre levava por almoço e passei o resto da tarde a partir ftanito e a enrolar em jornais todos os fragmentos que contivessem os ditos fósseis, posto o que regressei à vila, ajoujado ao peso da preciosa carga.

No fim dessa tarde foi a festa. Festejava-se a despedida, mas também o achado pelo qual já todos ansiavam e que, naturalmente, todos desejavam observar de perto. Desembrulharam-se as amostras e cada um viu o que quis e comentou ou perguntou o que lhe apeteceu.

– Vai já amanhã embora? Na carreira das sete e meia? – Perguntou-me por fim um dos presentes que, de seguida, gritou para o empregado, ao fundo da sala – Juzé Manué, bei acá i trázi maih uma jarra di binhú i uma pihca de catalão assadu.

Missão cumprida, podia regressar. E ainda faltavam dois dias para o Ano Bom. Na bagagem trouxe comigo um talego de chita cheio de lembranças dos meus amigos barranquenhos, uma preciosidade que entreguei à minha mãe.

– Isto faz um jeitão – comentou ela, no seu estilo de experiente e hábil gestora da economia familiar. – Mas que bem que cheiram os enchidos! E este pão, que coisa linda! E estes queijos e estas azeitonas! Louvado seja o Menino! E isto, o que é? – Perguntou-me ao tirar de dentro do saco um papel muito bem dobradinho.

– É uma receita de um prato que comi lá na pensão e de que gostei bastante. A avó ditou e a neta escreveu em cuidada caligrafia. Não traz nome, chame-lhe “feijoada barranquenha”.

«Coze-se o feijão encarnado e reserva-se. Faz-se depois um refogado farto com azeite, cebola, alho, louro e colorau e mete-se aí o chispe, a que se pode acrescentar toucinho entremeado, faceira e orelha, e deixa-se saltear o suficiente para tomar gosto. Junta-se então a água de cozer o feijão e os enchidos (chouriço, farinheira, etc.). Estando as carnes cozidas, junta-se-lhe o repolho, previamente escaldado e, quase no fim, o feijão já cozido e o mogango, tendo o cuidado de não o deixar desfazer».

Recuperado de “COM POEJOS E OUTRAS ERVAS”. Âncora Editora, 2004. Lisboa. 

NOTA: [1] Género de invertebrado marinho de dimensões milimétricas, vivendo em colónias, característico do período Silúrico há cerca de 410 a 435 milhões de anos.

Imagens retiradas de: Primeira, segunda, terceira.

Galopim de Carvalho