The rules of the game: the evaluation of Portuguese research units

quarta-feira, 31 de Outubro de 2012

OS “FILHOS-DA-CURTA”

Texto do Professor Galopim de Carvalho.



Quem anda pela rua, nos supermercados, nos transportes públicos, ouve a toda a hora dizer que estamos a voltar aos tempos do antigamente.

- Mas há uma diferença substancial. - Dizia-me um reformado, meu vizinho de longa data.
- Agora vivemos em democracia, podemos falar e escrever o que nos vai no pensamento, sem receio de “ir dentro”. Não há tribunais plenários, nem presos políticos. Podemos fazer manifestações de rua e as forças policiais não perturbam os manifestantes e só actuam contra meia dúzia de provocadores a mando de quem a gente não sabe nem sonha. No “tempo da outra senhora” havia bufos por todo o lado. Não podias abrir a boca. Comias e calavas.
- Sim, mas olha que de cá se vai lá. Não te esqueças que a seguir a um período de total liberdade, como foi o do final da Monarquia e princípios da República, em que homens como o Eça de Queiroz, escreveram crónicas que podem retratar os dia de hoje, tivemos uma ditadura de quase quarenta anos. Foi o tempo dos “filhos-da-curta”, no dizer da t’Inácia.

Foi numa das minhas andanças pelos campos do Alto Alentejo, em campismo selvagem, na companhia de dois ou três amigos, feitos malteses, com umas mantas, uma panela de ferro, uma canadiana como tenda, emprestada pela sede da Ala de Évora da Mocidade Portuguesa, e mais meia dúzia de utensílios de uso nestas aventuras, que conheci a ti’Inácia, mulher do ti’Justo, hortelão no Monte das Três Irmãs. O ti’ Justo, homem já sem forças para cumprir o que sempre fora o seu trabalho, deixava-nos apanhar as beldroegas que cresciam, viçosas e fartas, entre os regos da rega. Sentava-se numa cadeira de verga, à sombra de um limoeiro e quem agora fazia a lida da horta era a mulher, uns bons anitos mais nova e cheia de força.

Foi numa das várias vezes que ali fomos em busca das saborosas ervas, que conhecemos esta alentejana. O ti’ Justo falava pouco, mas a mulher era uma tagarela, uma “algarvia”, no dizer do marido. Vivia-se um tempo difícil, sobretudo, para os camponeses, sofrendo as agruras dos meses sem trabalho e sem pão para dar aos filhos, intimidados e perseguidos pela GNR e pela polícia política.

- São barrigadas de fome que só a gente é que sabe. Os fiados na venda do Germano são sempre muitos e o pessoal nem sempre tem dinheiro para os pagar. Comemos beldoregas, acelgas, labaças, cardinhos, espargos, cilarcas e o mais que o campo possa dar à gente. E são muitos os dias em que só pão e boletas nos entram na boca. Há alguns que chegam ao ponto de ir à cidade pedir com que dar de comer à família. Outros caçam coelhos ou lebres, o que calha, mesmo no defeso. Não importa. A gente arrisca-se. E não é com espingarda, é a cajado. Fazemos o que for preciso para arranjar pão para os filhos. Tudo menos roubar! – Frisou. – As jornas são uma miséria e, tirando a ceifa, o arranque da cortiça e a apanha da azeitona, ficamos aí de braços cruzados às atenças do Germano que é quem nos vai valendo. Somos mão-de-obra barata e sem direitos, sujeitos à exploração dos patrões. E os governantes estão do lado deles. Todos! – Reforçou – Não são só os de Lisboa. O Governador Civil e o Presidente da Câmara pertencem à mesma família. São escolhidos a dedo.

Calado, o Ti’ Justo ia dizendo que sim com a cabeça.
- À mais pequena palavra ou gesto a pedirmos justiça, – continuou, – aparece logo aí a Guarda ou a polícia à paisana. E não pede licença para levar dois ou três dos homens que lhes pareçam mais destemidos. Muitos ficam lá presos o tempo que eles quiserem, são espancados, torturados e alguns deles assassinados.

- “Filhos-da-curta”! – Exclamou, num suspiro de revolta contida e continuou. – Um parente nosso, chegou-nos aí todo amolgado. Mal podia andar. Os “filhos-da-curta” encheram-no de porrada que quase o iam matando. “Filhos-da-curta”! – Repetiu, uma vez mais, a terminar a conversa. Era evidente que esta alentejana idosa nos anos de vida, mas bem madura na sua combatividade, estava por dentro das lutas dos trabalhadores contra os agrários, enquadradas pelo Partido Comunista.

Falava com desenvoltura das “comissões de rancho”, das “comissões de herdade” e da “praça de jorna”, local da aldeia ou dos montes onde homens e mulheres se reuniam para tratarem colectivamente dos salários, de outras reivindicações e das respostas a dar aos patrões, algumas vezes, na presença intimidatória da GNR. Entremeando os relatos que fazia, foram muitas as vezes que repetiu aquela expressão de desabafo.

Como mulher séria e de bem, não se permitia dizer aquela palavra começada por p, a que se segue um u, um t, e um a, na frente de pessoas com quem não tinha confiança. Aliás, nesse tempo, as mulheres que se tinham por bem educadas não proferiam essa palavra, nem mesmo no seio da família. Quando, por exemplo, acontecia terem que referir uma rapariga que se prostituísse, não diziam esse nome tão feio, diziam “rapariga da vida” ou “rapariga infeliz”. Só os homens e rapazes de condição mais grosseira falavam de putas.

Para a t’ Inácia, os “filhos-da-curta” eram, em especial, o Salazar, os pides e os GNRs que lhe prendiam os homens e todos os ricos que engordavam à custa da pobreza do povo.

Galopim de Carvalho

Carlos Drummond de Andrade, um brasileiro que precisa ser lembrado


Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira em 31 de outubro de 1902 abaixo alguns de seus escritos:
"Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem."
A decadência do ensino no Brasil é uma coisa que tem pelo menos trinta a quarenta anos - e talvez mais”.

“Precisamos descobrir o Brasil/ Escondido atrás das florestas/ com a água dos rios no meio/ o Brasil está dormindo, coitado”


ADEUS

“Quem é que fala hoje em Humberto de Campos? Quem é que fala em Emílio de Menezes? Quem é que fala em Goulart de Andrade? Quem é que fala em Luís Edmundo? Ninguém se recorda deles! Não fica nada! É engraçado. Mas não fica, não. Não tenho a menor ilusão. E não me aborreço: acho muito natural. É assim mesmo que é a vida.

“Não vou dizer como o Figueiredo: ‘Quero que me esqueçam!’ Podem falar. Não me interessa, porque não acredito na vida eterna. Para mim, é indiferente.

“Nenhum poema meu entrou para a História do Brasil. O que aconteceu foi o seguinte: ficaram como modismos e como frases feitas: ‘tinha uma pedra no meio do caminho’ e ‘e agora, José?’. Que eu saiba, só. Mais nada.

“Não tenho a menor pretensão de ser eterno. Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos eu já estarei no Cemitério de São João Baptista. Ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”.

“Quero a paz das estepes/ a paz dos descampados/ a paz do Pico de Itabira/ quando havia Pico de Itabira/ A paz de cima das Agulhas Negras/ A paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada de Morro Velho/ A paz da paz” (Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz - trecho)

JÁ AGORA, A ORDEM DOS PROFESSORES E A FENPROF

“Tudo que sucede, sucede por alguma razão” (Gabriel Garcia Marquez, Prémio Nobel da Literatura 1982).

Resposta ao comentário do engenheiro Ildefonso Dias, ao meu post: “A Ordem dos Professores, o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados e a Associação Nacional dos Professores”, publicado neste blogue em 29/10/2012:
Num país em que “a mediocridade é a lei” (João Lobo Antunes”) sancionada por cursos de três ao pataco e em que o ”professor, desde que seja funcionário público, sente uma tendência – a lei do menor esforço – para a cristalização dos métodos de ensino” (Bento de Jesus Caraça), deparo-me, salvaguardada as devidas proporções, com a perplexidade de Santo Agostinho:” Se não me perguntarem o que é o tempo, então eu sei o que é o tempo; mas se perguntarem o que é o tempo, então eu não sei o que é o tempo”. Ou seja, esta minha perplexidade mais se avoluma num tempo em que, António José Saraiva (1979) baptizou de “diplomocracia”, aquilo que eu definiria como a subalternização do saber a um papel com ou sem o “imprimatur” do Estado que, por vezes,  atesta que  o seu portador sabe aquilo que não sabe!.
Sou honesto: desconheço, em lamentável pecha minha, dado o estatuto cívico, cultural e científico do seu autor, o Professor Bento de Jesus Caraça, mas cuja acção política é do meu respeitoso conhecimento, a conferência da respectiva autoria:  “As Universidades Populares e a Cultura”. Em desagravo pessoal, e em proveito de outros leitores, terei imenso prazer na espectiva publicação se me for enviada através dp DRN. .Mas dada a previsão da sua extensão, se possível, debruçando-se, essencialmente,  sobre “ a maneira de se proceder à renovação constante nas pessoas e nos métodos para que a classe dos professores não descanse nos resultados obtidos na véspera”. Desde já, atrevo-me a pensar que essa renovação possa passar pela auto-regulação da profissão docente para que os professores não continuem, como até aqui, agentes passivos dessa mudança por nada mais lhes restar do que deixar correr o marfim!
Deste modo, para além disto, como se deduz por este intróito, unicamente poderei tentar dar-lhe a minha opinião (e as opiniões valem o que valem, como sabe!) à pergunta final que me faz no seu comentário: “Assim sendo, qual seria o papel de uma Ordem dos Professores no combate a esta situação?” Em princípio, por o exercício docente dever ser reconhecido  (impondo-se mesmo que o seja!) como uma profissão de interesse público, a exemplo do exercício de profissões tuteladas por ordens profissionais, v.g., Medicina, encontro suporte para a criação de uma associação pública  de professores, “com o fim de, por devolução de deveres do Estado, regular e disciplinar o exercício da respectiva actividade profissional” (Diogo Freitas do Amaral). Aliás, na "Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores" (como qualquer proposta sujeita a alterações, ademais numa altura de nova legislação a aplicar às ordens profissionais), mencionada no meu post anterior “A Ordem dos Professores, o Sindicato Nacional dos Professores Licenciados e a Associação Nacional dos Professores”, no respectivo artigo 3.º, são tidas como atribuições da Ordem dos Professores os seguintes itens:
- “Intervir na defesa do Ensino público e privado, através da salvaguarda e promoção da sua qualidade.

 - Zelar pela função social, dignidade e prestígio da profissão de professor, assegurando o nível de qualificação profissional e promovendo o respeito pelos respectivos princípios deontológicos.

 - Emitir a cédula profissional de professor e regulamentar o exercício da respectiva profissão.

 - Contribuir para a reestruturação da carreira docente.

 - Exercer a jurisdição disciplinar relativamente aos professores por actos de natureza docente praticados no exercício da profissão.

 - Elaborar estudos e propor aos órgãos competentes as medidas necessárias a um adequado e eficaz exercício da actividade docente, bem como emitir pareceres sobre os projectos de diplomas legislativos.

 - Emitir parecer acerca de planos de estudo e cursos que tenham por objectivo a formação de professores”.

Bem eu sei que como todas as obras humanas a criação da Ordem dos Professores não é, de forma alguma, panaceia universal para todos os males de que padece o nosso Sistema Educativo. Mas de uma coisa estou convencido: seria uma forma dos professores deixarem de ser gentes passivos de determinações ditatoriais emanadas da 5 de Outubro (haja em vista, a título de exemplo, a acção governamental do  tempo de Ana Benavente e Maria de Lurdes Rodrigues), por vezes,  com a chancela sindical desde que servissem interesses sindicais projectados (abusivamente) para além de questões laborais da respectiva massa associativa que eterniza os seus líderes no poder numa espécie de profissionalização que os afasta do ensino para o qual se prepararam ou deviam ter preparado. Como é consabido, isso não se passa no dirigismo das ordens profissionais em que os bastonários têm essa função devidamente limitada nos respectivos estatutos. Para evitar juízos precipitados, ou mesmo maldosos, nunca pus em dúvida a acção valiosa dos sindicatos se atidos às suas fronteiras. Que fique isto bem claro!
Sobre o papel de uma Ordem dos Professores, julgo de interesse trazer à colação a opinião contrária dos actuais dirigentes da Fenprof (separando eu os cantores da canção) para se extraírem as necessárias e pertinentes ilações desta peça doutrinária:
“Em movimentos agudos de ataque à classe e à profissão, tem caminho fácil a ilusão de que uma ‘ordem’ contribuiria para unir a classe eventualmente dividida e, por essa via, aumentar a capacidade reivindicativa. É uma óbvia ilusão. A criação de uma ordem, no actual contexto, seria mais um factor de divisão. E é uma ilusão enganadora. O campo de intervenção de uma ordem restringe-se ao plano de questões éticas e deontológicas [em sublinhado meu] que não são, para já, as questões centrais das preocupações dos professores e das escola –até porque há uma ética e uma deontologia historicamente construídas, assumidas e respeitadas pela classe docente. Os Sindicatos dos Professores têm sido e continuarão a ser espaço de análise e discussão das questões da Ética e da Deontologia da profissão, conscientes que da sua clara assunção também beneficia a imagem social dos professores que só ilusoriamente seria melhorada pela criação de uma eventual ordem” ( Site da Fenprof,  20/06/2008).
Em resumo, segundo esta federação uma Ordem dos Professores  contribuiria para desunir a classe docente. Os docentes pulverizados por mais de uma dezena de sindicatos, ou organizações afins (sem ter em conta os milhares de docentes não sindicalizados), não. Vá lá a gente entender a lógica deste raciocínio! E isto, já para não falar no aspecto restritivo que a Fenprof atribui a uma futura Ordem dos Professores: “O campo de intervenção de uma ordem restringe-se ao plano de questões éticas e deontológicas que não são, para já, [ em interrogação minha: então para quando?] as questões centrais das preocupações dos professores e das escolas”. É bem certo que “tudo o que sucede, sucede por alguma razão”. Infelizmente,  nem sempre pelas melhores razões!

Isto Não é (Só) Matemática

Isto Não é (Só) Matemática
de Alexandre e Pedro Aibéo
Editora QuidNovi 

Isto Não é (Só) Matemática, eis o título da primeira obra da autoria de Alexandre Aibéo (texto) e do seu primo, Pedro Aibéo (ilustração).

Em primeiro lugar, a necessária declaração de interesses: conheço o Alexandre desde 1996, ano em que entrei na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e no mesmo curso do Alexandre - Astronomia - e este foi o último livro que tive o prazer de trabalhar e "recomendar" na editora QuidNovi antes da minha saída dessa mesma editora. Tem, por isso, uma dupla dose emocional a minha ligação a este livro...

Devo dizer (escrever) também em tantos anos que levo como leitor apaixonado de divulgação científica, nunca encontrei uma obra tão "deliciosamente estranha" como esta. Esta "estranheza" é, neste caso, um perfeito adjectivo; é uma obra de pura divulgação científica? É. É uma obra de banda desenhada? Também. É humor? Definitivamente. Seja por palavras, seja pelos recheados "cartoons humorísticos" que contém.
Não, a Matemática não é fácil. Não tem de ser necessariamente assustadora. E esse é a principal valia do esforço do Alexandre: tem a honestidade (e legitimidade) intelectual para reconhecer a imagem diabólica que a Matemática tem mas aproveita precisamente essa "onda de temor" para a transformar em "onda de humor"; como muito bem indica o Nuno Markl no prefácio, "é pelo humor que vamos", é o humor que deve ser o combustível para esta longa caminhada que leva os leitores desde as mais fundamentais noções matemáticas, as suas raízes históricas, as suas aplicações e implicação no nosso quotidiano até a um patamar de mínima compreensão, de mínima curiosidade. É, precisamente, o acto de resgatar essa "mínima curiosidade" que constitui, por vezes, o mais hercúleo desafio de qualquer bom autor de divulgação científica. E o magistral diálogo entre a mais refinada e cientificamente inatacável prosa literária do Alexandre e o traço único e irónico do Pedro fazem deste livro algo absolutamente sui generis no panorama da literatura de divulgação científica em Portugal e, arrisco-me a declará-lo, mesmo em termos internacionais. 

O Alexandre Aibéo de 2012 é precisamente o mesmo que tive a honra e prazer de conhecer em 1996; totalmente apaixonado e entendendo como "espírito de missão" esta coisa bela da "arte da divulgação científica"... o Alexandre estará para sempre ligado à criação dessa aventura associativa chamada GIRA - Grupo de Informação e Recreação Astronómica - e que foi o primeiro projecto de amor pela comunicação da Ciência de tantos jovens estudantes do curso de Astronomia do Porto, entre eles o autor deste post, o Pedro Russo (sim, o Coordenador do Ano Internacional da Astronomia em 2009) e o Ricardo Reis (do Núcleo de Divulgação do Centro de Astrofísica da UP), apenas para citar alguns. O entusiasmo, dedicação e qualidade que o Alexandre emprestava a cada projecto sempre foi absolutamente contagiante, incendiando ainda mais o nosso prazer por tal "ofício". Resumidamente: o livro do Alexandre é a extensão literária desse fogo e de delícia de partilha que sempre foi a imagem de marca do autor, algo que hoje também podemos constatar como evidente após a vitória que o mesmo obteve em 2010 no concurso FameLab... 


O livro tem um blog, uma página no Facebook e o lançamento será esta 6ª feira, pelas 21:30h, na Fnac do NorteShopping e terá, no dia seguinte, uma apresentação na Bertrand Palácio do Gelo Shopping, em Viseu, pelas 16h.

Os presentes e futuros patamares de excelência da literatura de divulgação científica escrita em português passam por este nome: Alexandre Aibéo. E isto está muito, muito longe de ser apenas a convicção de um amigo...

Parabéns, Alex!

Congratulations, Mr. Collins!

No dia em que o astronauta Michael Collins celebra o seu 82º aniversário, gostaria de deixar aqui um pequeno excerto do seu prefácio à edição de 2009 do seu belíssimo livro (na minha modesta opinião, o melhor livro escrito por um astronauta do programa espacial americano) Carrying the Fire. Provavelmente o livro mereceria outras citações, eventualmente mais relacionadas com a façanha da Apollo 11; porém, prefiro deixar-vos com os sonhos ainda mais ambiciosos de quem foi protagonista de um dos maiores sonhos do século passado...


UM ABALO PARA A CIÊNCIA



Minha crónica no Público de hoje (na imagem dstroços do terramoto de L'Aquila de 2009):

No dia 21 de Setembro de 1761 foi garrrotado e queimado no Rossio, em Lisboa, o jesuíta italiano Gabriel Malagrida, a última vítima da Inquisição no nosso país. O seu “crime” foi afirmar que o terramoto ocorrido em Lisboa seis anos antes tinha sido, não um fenómeno natural, mas um acto de Deus para castigar os homens. Voltaire comentou que ao “excesso de ridículo e absurdo se juntava o excesso de horror”. O responsável último pela acusação de “falso profeta” e “herege” e pelo simulacro de julgamento foi o Marquês de Pombal, o primeiro-ministro que tinha colocado o seu irmão à frente da Inquisição. O poder político queria, para além de se afirmar, tranquilizar as populações quanto ao risco de novos terramotos. Os homens poderiam viver tranquilos na cidade reconstruída (pecando como era hábito) que a Terra não voltaria a ser sacudida pela “ira de Deus”.

No passado dia 22 de Outubro foram condenados no tribunal de l’Aquila, Itália, a seis anos de prisão seis cientistas italianos e um dirigente da protecção civil, por não terem prevenido as autoridades do terramoto que, a 6 de Abril de 2009, destruiu aquela cidade, causando mais de 300 mortos. Tal como no caso do Padre Malagrida, o julgamento italiano foi causado por um tremor de terra. A semelhança continua no facto de, em ambos os casos, terem sido condenadas pessoas inocentes. Pode-se repetir a frase de Voltaire, embora hoje as condenações não sejam à morte (outros são os tempos no Ocidente cristão). Ao excesso de ridículo e absurdo – o julgamento dos cientistas – somou-se o excesso de horror – a sua condenação ao cárcere. Há, porém, uma diferença óbvia: Se o Marquês mandou o Padre Malagrida para a fogueira, por ele ter alimentado o pânico, a justiça italiana acusou os sismologistas por eles não terem alimentado o pânico. Mas logo voltam as semelhanças: nos dois casos, o poder político queria, ao fim e ao cabo, evitar o medo popular, que poderia levar ao descontrolo da cidade. Com efeito, a comissão de cientistas reuniu em l’Aquila em 31 de Março de 2009 a mando da política com o fim de tranquilizar as populações amedrontadas por uma série de pequenos abalos.

Acontece que os cientistas não podiam prever o terramoto maior. Ninguém, no estado actual da ciência geofísica, pode prever um terramoto. Não quer isto dizer que jamais sejamos capazes de prever sismos, mas sim que hoje somos incapazes de o fazer. Uma sucessão de pequenos abalos, como ocorreu em l’Aquila, não prenuncia um grande abalo. Em anos anteriores tinham aliás ocorrido fenómenos semelhantes sem que nenhum sismo violento se lhe tivesse seguido. Não se pode pedir da ciência mais do que aquilo que ela pode dar. Pedir a um sismologista que preveja um sismo, num certo sítio e num certo dia, equivale a pedir-lhe para ele deixar de ser cientista e passar a ser impostor. Curiosamente, há um impostor na história de l’Aquila. Trata-se de um pretenso “investigador” que tinha previsto um sismo para a cidade de Sulmona, perto de l’Aquila. Essa profecia veio naturalmente a revelar-se errada (repito para o caso de algum juiz me estar a ler: não se podem prever sismos!). As autoridades, ao convocarem a comissão de peritos, esperavam ver contrariadas as profecias do impostor. E assim foi. Contudo, os cientistas cometeram um erro, um erro que está longe de corresponder à pesada pena que lhes foi aplicada: permaneceram calados na conferência de imprensa no final da reunião, onde só falou o responsável, ou melhor o irresponsável, pela protecção civil. A mensagem de absoluta tranquilidade (“podem beber um copo”) que ele transmitiu ao público bem podia ter sido contraditada. Assim como não se pode prever terramotos, também não se pode prever não-terramotos.

Encontrados bodes expiatórios, o poder político saiu incólume tanto no século XVIII como no século XXI. Estarão os políticos mais protegidos da justiça do que os outros cidadãos? Parece que sim, até porque são eles que aprovam as leis. Todos sabemos que, nos terramotos económicos a que temos assistido em Portugal e em Itália, os responsáveis políticos não têm sido acusados de qualquer crime, por acção ou inacção. Deveriam ser? Temos nesta matéria de ser cautelosos, pois isso poderia conduzir ao abandono da política. E precisamos da política.

Ao ser criminalizada, a ciência acaba por ser uma das vítimas maiores do terramoto de l’Aquila. A partir de agora os cientistas estarão relutantes a aparecer em público. Se permanecerem calados, poderão ser condenados. E, se falarem, também. A sociedade moderna precisa da ciência, pois é a ciência, por mais limitada que seja, que permite chegar às melhores soluções de muitos problemas. Einstein disse que a ciência é “a coisa mais preciosa que temos”. Mas, ai de nós, a ciência vai passar a andar escondida.

segunda-feira, 29 de Outubro de 2012

Video espetacular sobre a exposição Túnel da Ciência



Veja o video sobre a exposição:



A ORDEM DOS PROFESSORES, O SINDICATO NACIONAL DOS PROFESSORES LICENCIADOS E A ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PROFESSORES



 “Considero professores e professoras como a corporação mais necessária, mais esforçada e generosa, mais civilizadora de quantos trabalham para satisfazer as exigências de um Estado democrático” (Fernando Savater, catedrático de Ética da Universidade do País Basco).

A recente nomeação, para secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, de João Granjo,  diplomado pela Escola do Magistério Primário do Porto (1980), habilitado com o Curso  de Estudos Superiores em Administração Escolar (Instituto de Ciências Educativas, 1993) e Mestrado em Administração e Planificação da Educação (Universidade Portucalense, 2007),  foi noticiada no jornal “Público (26/10/2012)  referenciando  o facto de ter sido presidente da Associação Nacional de Professores  e  defensor da criação da Ordem dos Professores.
Esclarece-se  que  a Associação Nacional de Professores sucedeu à Associação Nacional de Professores do Ensino Básico, constituída por diplomados pelas antigas Escolas do Magistério Primário e Escolas de Educadores de Infância, sendo reclamante da criação da Ordem dos Professores desde 1985 e tendo anunciado “num seminário realizado em 91, em Viseu, o firme propósito de se transformar em Ordem” (“Diário de Coimbra”, 07/05/91). Reclamação, aliás, sem tradição, ou simples analogia, com as ordens profissionais existentes, porque destinadas  a representar, apenas, profissões detentoras de licenciatura universitária.  Só, posteriormente, foram criadas ordens profissionais sem obedeceram a este requisito, como sejam os casos da Ordem dos Enfermeiros (Decreto-Lei n. 104/98, de 21 de Abril) e da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (Decreto-Lei n.º 310/2009, de 26 de Outubro). Lá mais para diante se voltará a esta temática que me mereceu estudo aturado no livro “Do Caos à Ordem dos Professores” (Rui Baptista, edição do SNPL, Janeiro de 2004) e, posteriormente, num pequeno opúsculo “Livro da Ordem” (Edição do SNPL, 1997) sobre uma “Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores” de que fui o coordenador. Da respectiva “Nota Prévia”, transcrevo:

 “A proposta de estatutos elaborada por um grupo de colegas que o SNPL patrocinou com apoio logístico e financeiro, foi entregue ao Presidente da Assembleia da República (20/06/96) e foi difundida por todos os Executivos do SNPL, pelas Associações Científicas de Professores, por instituições de Ensino Superior ligadas  à formação de professores, pela Confederação Nacional das Associações  de Pais, grupos parlamentares e partidos políticos e outras organizações intervenientes no processo educativo, e também pelas Ordens existentes”.

 Para a elaboração do livro supracitado, “Do Caos à Ordem dos Professores”, socorri-me, em consulta de bibliotecas públicas, de legislação sobre ordens profissionais, remontando a mais antiga a meados da década de vinte (Decreto-Lei 13.909/27, 22 de Junho,que criou o Estatuto Judiciário). Importante me parece, também,referir um bem elaborado Estudo Nacional (encomendado pela Associação Nacional dos Professores), intitulado “Ser Professor – Satisfação Profissional e Papel das Organizações de Docentes”, realizado pelo Instituto Politécnico de Castelo Branco e da autoria de João Ruivo (coordenador), João Sebastião, José Rafael, Paulo Afonso e Sara Nunes.
 A páginas tantas, nesse estudo é feita, com a isenção que um trabalho desta natureza impõe, referência  destacada ao papel do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados nesta matéria que se transcreve textualmente:
 “De acordo com Baptista (2006), já em 20 de Junho de 1996 o SNPL submeteu à Assembleia da República uma proposta de estatutos da possível Ordem a criar. Mais tarde, a 25 de Fevereiro de 2004, este sindicato submeteu, também à Assembleia da República, uma petição para a criação da Ordem, contendo 7857 assinaturas. Por último, e de acordo com o autor supra mencionado, no dia 2 de Dezembro de 2005 debateu-se na Assembleia da República a petição n.º 74/IX (2.-ª) do SNPL e outros para a criação da Ordem. As várias intervenções proferidas pelos deputados dos diversos grupos parlamentares também não denotaram convergência de opinião relativamente a esta matéria. A deputada do PCP, Luísa Mesquita, centrou a sua intervenção na necessidade de haver uma maior autonomia profissional, cabendo aos professores a decisão de se criar um código deontológico para essa classe profissional.
 Por sua vez, para João Teixeira Lopes, deputado do Bloco de Esquerda, deveria caber ao Estado a definição de acesso à profissão, bem como os códigos de natureza ética e deontológica. O seu argumento assenta no  pressuposto de que a profissão docente assume-se como sendo um serviço público, pelo que deve ser tutelado pelo Estado. Já o deputado do Partido Socialista, João Bernardo, referiu que a criação de uma ordem profissional carece de uma reflexão profunda, para que não fiquem dúvidas acerca das suas reais funções e competências, e de modo a não colidir com outras entidades profissionais. Por último, as intervenções dos deputados do Partido Social Democrata e do CDS/PP, Fernando Antunes e Abel Baptista, respectivamente, foram muito favoráveis à criação de uma Ordem dos Professores, alegando o primeiro que “a ambição de criar uma Ordem dos Professores surge, pois, aliada a um forte sentimento de união de classe” (Baptista, 2006).”
 Por se fundamentar o texto acima transcrito no meu artigo de página inteira, publicado no “Jornal de Notícias” (08/03/2006), intitulado “Ordem dos Professores e AR”, entendo fazer  considerações para clarificação do que por mim foi escrito. Assim, a parte constante da intervenção do deputado do Bloco de Esquerda, João Teixeira Lopes, foi a que aqui se transcreve ipsis verbis:
 “O deputado do Bloco de  Esquerda João Teixeira Lopes, numa intervenção ‘blasé’ de cábula que não se dignou fazer os trabalhos de casa marcados por um professor demasiado permissivo ou até banazola, apresentou como motivo impeditivo para a criação da OP este esfarrapado argumento: ‘A docência é um serviço público e, como tal, compete ao Estado, antes de mais, definir os critérios de acesso à profissão, bem como os códigos ético e deontológico’. Exemplo acabado de um atestado de menoridade passado aos professores pela incapacidade de se auto-regularem como o fazem outras profissões, como a dos médicos, por exemplo”.
 Em segundo lugar, relevo, com toda a justiça, a intervenção do deputado do CDS/PP Abel Baptista, por ser o único partido político que se mostrou 100% a favor da criação da Ordem dos Professores, quando declarou: “Ao contrário do que diz o Partido Socialista, entendo que a criação da Ordem dos Professores acrescentaria, desde logo, a dignificação da actividade docente que, ultimamente, tem andado muito mal e sido criticada pelo Governo” (…) Nesta medida, julgamos que a Ordem dos Professores pode e deve ser criada”.
 Já não apenas uma pequena rectificação, mas uma correcção de fundo do supracitado Estudo Nacional, que se transcreve: “De acordo com Vilarinho (2004), o SNPL exigia o grau de Licenciatura e o cumprimento do código deontológico para aceder à Ordem”.
 Vamos por partes. Quanto “ao cumprimento deontológico para aceder à Ordem”, nada a corrigir porque aqueles que pretendem estabelecer um código deontológico sem ser a Ordem dos Professores  a fazê-lo e  a zelar pelo seu cumprimento (como tenho visto para aí defendido…)  assumem para si o papel de porem o carro à frente dos bois, em linguagem popular.  Quanto à exigência de uma licenciatura universitária (deixando de fora os diplomas de ensino médio e bacharelatos politécnicos), é facilmente desmentido pela leitura da “Proposta de Estatutos da Ordem dos Professores”, publicados em 1977. Nela especifica-se, sem lugar a qualquer dúvida por no ponto 1, do artigo 13.º estar escrito, preto no branco, o seguinte articulado: “Podem inscrever-se na Ordem, como membros efectivos, os portugueses ou estrangeiros que residam em Portugal de posse de uma licenciatura e profissionalização, por si reconhecidas”.
Para a inscrição de indivíduos, de posse do diploma das antigas Escolas do Magistério Primário, por exemplo, foi estabelecida a categoria de membro associado (Pontos 1 e 2, do respectivo artigo 15.º) obedecendo aos critérios seguintes:
 Ponto 1: “Podem ser inscritos como membros associados os docentes profissionalizados de nacionalidade portuguesa que à data da publicação deste Estatuto exerçam funções docentes com o grau de bacharel ou com habilitação constante do artigo 13.º conjugado com o artigo 31.º, n.º 5 da Lei n.º 44/86, de 14 de Outubro.”
 Ponto 2: “A inscrição como membro efectivo dos membros associados está condicionada à obtenção dos requisitos exigidos pelo artigo 13.º do presente Estatuto.”
 Aliás, estas condições de inscrição na Ordem dos Professores encontra inspiração na doutrina por mim encontrada em poeirentos textos legais que dizem que a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Farmacêuticos contemplaram nos seus estatutos os direitos dos profissionais sem o grau de licenciatura, embora com restrições, como sejam os médicos formados pela Escola Médico-Cirúrgica de Goa, pela Escola Médica do Funchal  e diplomados  com o curso da Escola de Farmácia de Coimbra (Rui Baptista, “Correio da Manhã”, 06/03/19969).
 Todavia, embora o reputado filósofo  e sociólogo francês, Pierre Bordieu, tenha defendido que “só uma política inspirada pela preocupação de atrair e promover os melhores, esses homens e mulheres de qualidade que todos os sistemas de educação sempre celebraram, poderá fazer do ofício de educar a juventude o que ela deveria ser: o 1.º de todos os ofícios”, em Portugal vigora o princípio de habilitações diferentes para o mesmo grau de ensino. Assim, a título de mero exemplo, antes do Processo de Bolonha, a habilitação para a docência da Matemática, no 2.º ciclo do básico, tanto contemplava uma licenciatura universitária em Matemática como uma licenciatura  pelas escolas superiores de educação habilitando para ministrar, simultaneamente, esta disciplina e Ciências da Natureza fazendo, como tal, jus à maior das injustiças. Ou seja, a de igualar desiguais dando, com isso,  ar de virtuosa medida a uma medida de duvidosa moral!
Relevando, com toda a justiça, a posição amplamente favorável do CDS/PP, aquando da discussão na Assembleia da República sobre a criação da Ordem dos Professores, sem querer beliscar a idoneidade do relator do referido parecer, o deputado João Bernardo, professor do 1.º ciclo do ensino básico, e  vice-secretário-geral do SINDEP (sindicato desfavorável à criação de uma  Ordem dos Professores), não posso deixar de registar o facto de se mostrar ele reservado nesta matéria  por recear que  ela, em palavras suas, “se confunda com os legítimos representantes dos interesses laborais das diversas classes profissionais”. Este receio  é tanto mais insólito por o artigo 267.º da Constituição Portuguesa  impedir  essa sobreposição de poderes em seu texto: “As associações públicas não podem exercer funções das associações sindicais e têm organização interna baseada no respeito dos direitos dos seus membros e na formação democrática dos seus órgãos”.
 Se outros motivos não houvesse (mas há-os, e muitos!), estes os suficientes para a urgente criação de uma Ordem dos Professores sem se deixar enfeudar por interesses  sindicais e/ou das escolas de formação de professores para que “não insultemos  a democratização pela mediocratização  de tudo”, como escreveu o catedrático jubilado António Manuel Baptista. Finalmente, este meu texto mais não pretende que chamar a atenção do próprio Ministério da Educação e Ciência para o facto de a criação de uma Ordem dos Professores dever ter em atenção a acção valiosa do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados em representação dos legítimos interesses dos licenciados por universidades que tão maltratados têm sido por acções sindicais em prol  da proletarização da função docente. A Ordem dos Professores peca por tardia. Mas, como nos diz o povo, "mais vale tarde do que nunca".

TVI: A FREGUESIA DO MUNDO MAIS PARECIDA COM O PLANETA MARTE

Continuam as asneiras sobre bactérias marcianas numa pequena Vila do Alentejo, onde alguns jornalistas e um presidente de junta dizem que poderá ter acontecido o "início da vida na Terra". É muito interessante, muito mesmo, o modo como os meios de comunicação social se influenciam uns aos outros. Ao invés do que se exigiria pelas boas práticas jornalísticas verificarem a credibilidade das fontes, cruzando-as e pedindo opiniões independentes (por exemplo), as notícias propagam-se como boatos em conversas de café. E é também impressionante a falta de cultura científica de certos jornalistas não especializados em ciência.

A TVI recuperou o tema já "noticiado" pela SIC, de que numa pequena Vila Alentejana (Cabeço de Vide) existem bactérias, muito semelhantes a outras que só existem em Marte. Não se lembrou de telefonar a um qualquer cientista e perguntar de que cor são essas bactérias de Marte. Se o fizesse, poderia ficar a saber uma coisa muito simples: nunca foram encontradas bactérias ou outra forma de vida em Marte ou em qualquer outro local fora da Terra.


A reportagem pode ser vista aqui, as 22 minutos. E os pontos altos são:

- "Os cientistas acreditam que a vida poderá ter começado nesta vila Alentejana".

- "É a freguesia do mundo mais parecida com o planeta Marte."

- "[vamos] abrir as portas aos cientistas para eventuais estudos. É que Cabeço de Vide, sempre fica mais perto do que Marte".

A fonte científica desta "notícia" é o Presidente da Junta de Freguesia de Cabeço de Vide (autarquia PSD, por curiosidade), que sem dúvida está a fazer uma excelente acção de promoção das termas de Cabeço de Vide. O problema é que o faz dizendo disparates, que não têm qualquer sustentação do ponto de vista científico. E os jornalistas fazem o favor de os propagarem de um modo completamente acritico. Onde estão os principios jornalísticos?

O que acontece é que em Cabeço de Vide, uma região termal, há uma grande concentração de enxofre. Nessas condições, algumas bactérias conseguem usar alguns compostos inorgânicos (como o sulfureto de hidrogénio) como fonte de energia para fazerem moléculas orgânicas. Este processo chama-se quimiossíntese e é uma espécie de fotossíntese, sem luz do Sol. É muitíssimo menos eficiente do que a fotossíntese, mas pensa-se que terá sido usado por algumas formas de vida primordiais. E é também usado, por algumas formas de vida actuais, que existem em muitos locais da Terra (cavernas, no fundo do mar a grandes profundidades onde não chega a luz do Sol). Pode-se estudar em Cabeço de Vide como poderá ter evoluído a vida na Terra, assim como em muitos outros locais. Não se pode dizer que a vida surgiu em Cabeço de Vide (não há maneira de saber, depois de todos os movimentos tectónicos que mudaram os continentes de sítio) mas pode-se estudar a origem da vida em Cabeço de Vide (assim como em muitos outros locais).

Fora da Terra, há sítios em Marte e na lua de Júpiter Europa, que se pensa terem condições semelhantes às que possibilitaram o aparecimento da vida na Terra. E o cientista Steve Vance, que visitou Cabeço de Vide, segundo disse à SIC, estava a experimentar um instrumento que serve para medir gases e estudar estas coisas, com vista a fazer medições semelhantes em Marte, já que a sonda Curiosity (que recentemente chegou a Marte) tem um instrumento parecido a bordo.

A reportagem termina dizendo que a Vila habituada à calma alentejana, sente-se agora no "centro do mundo". Nada mais absurdo e é de uma irresponsabilidade cruel criar essa expectativa na população da Vila, a braços com os problemas da crise económica, desemprego e confrontada com a emigração, que vê neste hipotético estatuto uma esperança.

Republicação de texto

Por razões técnicas, retirámos provisoriamente o texto Contributos de três liberais para a ginástica na Casa Pai, da autoria de João Boaventura, que havia sido publicado ontem.

Assim que os problemas de edição sejam resolvidos reintroduziremos o referido texto.

Pelo facto o De Rerum Natura pede desculpa ao autor e aos leitores

A equipa do De Rerum Natura

domingo, 28 de Outubro de 2012

Mo Yan


 Novo texto de Ângelo Alves:
   
   Inês Pedrosa, na sua crónica no jornal “Sol”, escreveu que o chinês Mo Yan (Nobel da Literatura) não estava à altura do prémio pela ausência de qualidade da sua escrita e por pertencer a um regime opressivo, onde se pratica a pena de morte, tolerada pelo mesmo autor.

   Em relação ao primeiro ponto, como ainda não li nenhum livro deste autor e, tanto quanto sei, apenas se encontra um editado em Portugal (acho que esgotado), obviamente não vou opinar sobre o que ignoro; quero, todavia, lembrar à senhora Inês Pedrosa que Sir Winston Churchill e Sir William Golding, cuja boa parte da obra de cada um li, não mereceram a distinção. Em contraponto, G. Orwell, D.H. Lawrence e E.M. Forster não obtiveram o Nobel porque um foi anarquista, o outro crítico feroz do puritanismo e da hipocrisia da sociedade britânica, e aqueloutro homossexual.

    Quanto ao segundo ponto, estou em completo desacordo com a nossa escritora. Para mim a qualidade da escrita e o génio do autor são motivos mais que suficientes para a atribuição. Por exemplo, Knut Hamsun, escritor de que gosto muito, foi apoiante do nazismo assim com L.F. Céline, que não teve a mesma fortuna do primeiro. Já agora, gostaria que Inês Pedrosa lesse os americanos Sinclair Lewis e T.S. Eliot - se ainda não leu -, para saber a opinião destes autores sobre a pena de morte. Pretender misturar o sentido político do autor com literatura para justificar o Nobel (ignóbil, segundo a mesma) não é o caminho certo. Foi por este motivo que José Saramago foi tão perseguido neste país, que Urbano T. Rodrigues ainda não ganhou o prémio Camões, assim como A. Ramos Rosa, cuja poesia está ao nível dos romances de A. Lobo Antunes, e que Jorge de Sena só por nos apelidar de "povo reles” nunca tivesse sido proposto para o Nobel.

    A ditadura, cara escritora, também existe onde não há justiça e igualdade. Liberdade sem pão é prisão, ou como escreveu Pessoa: quem tem um corpo não é livre.

    É verdade que a nossa língua é menosprezada pela academia sueca, que, nos últimos quinze anos, atribui o prémio revezadamente: a um país muito premiado e a um outro estreante. Mas o que dizer da injustiça da academia em relação à literatura da Argentina?

Ângelo Alves

   P.S: Li recentemente uma antologia de Jorge de Sena escolhida por Eugénio Lisboa e gostaria que ele me esclarecesse se, no poema “As Mãos Dadas”, o autor escreveu a interjeição “ai”ou o advérbio “aí”, como tenho visto na blogosfera:

"Um dia me falaste,
e as árvores morriam galho a galho seco.
Havia flores, recordo.
Havia ruas, ai também recordo.
E escadas
vazias.
Não me falaste, não.
Fui eu quem perguntou,
beijando-te tremente, quantos anos tinhas,
e o teu nome.
Não tinhas nome; ou tinhas, mas não teu.
E a tua idade, as tuas mãos nas minhas"

New Science Tunnel - Brazil



Veja proposta detalhada no video abaixo:



Seria fatal para a saúde moral e física da criança

Rui Baptista, em comentário a texto recentemente publicado, alude a Eça de Queirós, citando-o:
"(...) um dos piores males, e digamos o maior, é a ignorância; a completa, a perfeita, a absoluta ignorância.”
O escritor era viajado, culto, conhecia o país, sabia do que falava e... falava.

Por isso, em 1928, por decreto governamental, foi um dos autores proibidos de entrar nas escolas portuguesas (Decreto n.º 15 941).

Efectivamente, ao tempo, o elogio rasgado das entidades responsáveis pela educação nacional era... o estado mínimo de conhecimento!

De modo algum isso constituía segredo de estado. Em documentos nomativo-legais está claramente explicado que:
"O ensino primário elementar trairia a sua missão se continuasse a sobrepor um estéril enciclopedismo racionalista, fatal para a saúde moral e física da criança, ao ideal prático e cristão de ensinar bem a ler escrever e contar e a exercer as suas virtudes morais e um vivo amor a Portugal" (Decreto-Lei n.º 27279)
E para que alguém mais afoito, que manifestasse a veleidade de aprender mais do que esta conta, foi determinado:
"Que se afixem nas Escolas Primárias, Liceus, Bibliotecas, etc., quadros morais com frases como a seguinte: advogados sem causa, médicos sem clientela, arquitectos sem trabalhos, a vossa instrução nem sempre vos servirá para combater a adversidade, ao passo que um bom ofício salvou sempre o operário corajoso, permitindo-lhe afrontar a inclemência da sorte" (Decreto-Lei n.º 22040)
Afastar o conhecimento tem sido, para nós, portugueses, uma tragédia. Tarde investimos na escolarização universal e além das dificuldades de concretizarmos esse objectivo, não deixámos que a escola cumprisse a sua mais nobre missão.

Podemo-nos indignar com os extractos acima reproduzidos, produtos duma ideologia política designada de direita, mas quando o regime se tornou democrático continuámos (e continuamos) a questionar a pertinência de ensinar Eça e outros clássicos, em favor de textos avulsos, comuns, do quotidiano e que são úteis para o quotidiano, para a vida, para a integração na comunidade local, para o mercado de trabalho...

O exemplo seguido é de Português, mas se nos deslocarmos para outras disciplinas a situação é exactamente a mesma.

A verdade é que não evoluímos o que devíamos ter evoluído, desde que, há um século, emergiu na sociedade a consciência do dever de educar todas as crianças, jovens e adultos, de os tornar cultos, livres... Mais parece que andamos perdidos num círculo, na ilusão de caminharmos em frente... num círculo onde mudará a forma das declarações mas não seu conteúdo.

Nota: Os extractos usados neste texto foram retirados do livro Educação, acto político, de Agostinho Reis Monteiro (Edições O professor), p.146-147.

Bezoar e Unicórnio – Venenos e Antídotos: entre Mito e História, Arte e Ciência

Informação chegada ao De Rerum Natura.

No próximo dia 8 de Novembro (quinta-feira), terá lugar no Museu da Farmácia, no Porto, o Colóquio Internacional “Bezoar e Unicórnio – Venenos e Antídotos: entre Mito e História, Arte e Ciência”, uma iniciativa organizada no âmbito do projecto de I&D “Dioscórides e o Humanismo Português: os Comentários de Amato Lusitano” do Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, em parceria com a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, com a Cátedra de Estudos Sefarditas “Alberto Benveniste” da Universidade de Lisboa e com o próprio Museu da Farmácia.

Muito gostaríamos de contar com a vossa presença nesta reunião científica que pretende proporcionar uma reflexão alargada sobre uma matéria, bezoar e unicórnio – venenos e antídotos, que ao longo dos séculos exerceu sobre o Homem um intenso fascínio.

As actividades terão início a partir das 10h, estando prevista no final dos trabalhos uma visita ao Museu da Farmácia (com particular destaque, naturalmente, para as peças associadas à temática do colóquio). 

Remetemos os interessados para o cartaz/desdobrável/convite, onde poderão encontrar informações pormenorizadas sobre o programa.

 A ideia de organizar este colóquio sobre bezoares e unicórnios surgiu no decurso da execução do projecto “Dioscórides e o Humanismo Português: os Comentários de Amato Lusitano”, cujo principal objectivo é a edição e tradução para português dos dois livros que o médico albicastrense dedicou ao comentário do tratado grego De materia medica de Dioscórides, ou seja, o Index Dioscoridis (Antuérpia, 1536) e as In Dioscoridis Anazarbei de medica materia libros quinque...enarrationes (Veneza, 1553).

Nos seus comentários a Dioscórides, Amato Lusitano aborda, com algum pormenor, as propriedades e virtudes da pedra bezoar e do chifre de unicórnio (quer seja propriamente a presa de narval ou a de outros animais). Este testemunho matricial constitui-se, assim, no ponto de partida de uma ampla e fecunda exploração do tema, no qual confluem vários saberes complementares (Arte, Farmácia, Filologia, História, Literatura e Medicina).

NOTA: O Museu da Farmácia do Porto fica na Rua Engenheiro Ferreira Dias, 728 4100 - 246 Porto.

É uma tristeza

O Governo anda desnorteado, mas muitos ainda ajudam à festa, acrescentando a desorientação e não percebendo (ou percebendo muito bem) que o prejuízo é geral.

É claro que o Governo fez alguns grandes disparates, desbaratando o capital de confiança e de esperança que lhe tínhamos dado e que tanta falta faz. Estaríamos por certo melhor em termos de coesão social e de motivação sem as trapalhadas e as jogadas do incrível Relvas, a solidariedade do Primeiro-Ministro para com ele e a falta de jeito de António Borges. Passos Coelho não percebeu o desgaste a que, por causa do Relvas, estava a ser sujeito, numa altura em que tudo o que conseguisse em termos de confiança e de coesão era pouco.

Perdeu-se um capital precioso, e isso é dramático. Não falo da nossa Esquerda, para quem esta erosão é muito boa. A nossa Esquerda que está sempre contra tudo, para quem o gasto público é a lei, mesmo sem dinheiro, e que fala para os 15, 16% da população que gosta de ouvir as suas vozes. Refiro-me aos outros, à grande massa. Os que compreendem que se andaram a fazer asneiras, em termos internos e externos, e que alguém tem que as pagar. Mesmo vendo nisto alguma perfídia, porque a maior parte foi apanhada por uma estratégia de gastos incentivada em clima de facilidade, que agora nos é cobrada à má cara. E de injustiça, porque durante anos nos andaram a dizer: gastem, gastem, porque favorece a economia, e agora nos dizem poupem e paguem porque o que gastaram não era produtivo, nem rentável, ou seja, era economicamente um logro.

Tirando uns poucos (Ernâni Lopes, Ferreira do Amaral, Medina Carreira, Manuela Ferreira Leite, vistas como aves de mau agouro) ninguém, de entre os que tinham obrigação de o fazer, nos preveniu ou nos aconselhou prudência. O certo é que, face às dificuldades, o País está a radicalizar-se e a perder clarividência. E pior, há muitos, sem pudor nenhum, a querer saltar da carroça dos sacrifícios comuns. Aí está de novo o PREC.

Muitos dos que reclamam e fazem barulho são dos que menos motivos têm. Desde as corporações tradicionalmente mais protegidas (Forças Armada, magistrados, juízes, autarcas, etc.) aos sindicatos das profissões mais defendidas e bem pagas (pilotos, maquinistas, estivadores, por exemplo). Ao fim de tantos anos de Democracia não conseguimos integrar harmonicamente no conjunto estas aristocracias profissionais. As corporações estão em alta, essa é que é a verdade. Vindas do salazarismo, que fez delas ideologia política e dinâmica económico-social, e nelas assentou a estrutura jurídica e laboral do Estão Novo, as corporações ganharam raízes. Tão fortes, que não só se manteve o corporativismo entranhado nas mentalidades, como, por via sindical e intersindical nasceram, depois da Revolução de Abril, outras ainda mais fortes e poderosas. E que agora gritam por privilégios, se manifestam, ameaçam, fazem abanar governos, destroem ministros, arrasam a economia, e sem problema nenhum, porque a lei os protege.

Para quem não tem formação, moral e legal é a mesma coisa. Fazendo o mal e a caramunha, transformam-se em arautos da desgraça muitos dos próprios agentes dela. Todos estão puxando para o buraco sem querer perceber que, se nele cairmos, também eles para lá vão. Lembrem a passagem de São Mateus: «Cegos são e condutores de cegos, e quando um cego guia outro cego ambos vão cair no barranco».

João Boavida

Para a geral, com conhecimento à Senhora D. Helena Tome



Não tenho por hábito responder aos comentários que surgem em resposta aos artigos que publico. Normalmente, são uma crítica ou um elogio que se encerram em si mesmos, não suscitando mais debate; entendo que as pessoas me obsequeiam pelo simples facto de se darem ao trabalho de escrever umas linhas sobre o que lhes desagradou ou agradou nos meus textos.
Não fico, em suma, amargurado nem empolgado. Por norma.
Escrevi, recentemente, um texto sobre classificações internas de frequência e classificações de exame no ensino secundário.
Um dos comentários era de tal forma exemplar daquilo que combato que não resisto a meia dúzia de considerações:

O comentário, para começar:
A avaliação dos alunos em contexto de aula é um enorme desafio. Os bons professores estudam e aplicam a regra básica de que a avaliação é contínua e que são vários os aspetos a avaliar. Assim sendo, em contexto de frequência escolar, os jovens vão, teoricamente, desenvolvendo uma série de competências, das quais não é menos importante a capacidade de se envolver diariamente com os assuntos disciplinares, de sala de aula, ou seja, de construir uma rotina. Pressupõe-se que, uma vez estabelecido um certo sentido de ser, de estar e de fazer, o estudante possa modificar o seu comportamento de base e desenvolver outras competências além das que, para aquele professor, aquela disciplina e aquele contexto, são interessantes para a sua evolução cognitiva. Essa liberdade, que é de esperar de um estudante médio, é muito desperdiçada; ou seja, são muito raros os jovens que integram na sua rotina algo de pessoal, algo de construído por si, com mais ou menos apoio do professor. E, assim desperdiçada a oportunidade, não saímos da cepa torta, nós, os professores, os alunos, a Escola, o sistema educativo, Portugal.
Fazer o apanágio do menino e da menina que se arrastou pelo secundário fora, se preparou e tirou vintes nos exames é de tal mediocridade que lamento o que acabei de ler. Penso que o Dr é nome grado na nossa praça; eu, não sou ninguém. No entanto, dou-me ao luxo de o chamar à atenção e até de lhe perguntar: não estará a referir-se a primos, sobrinhos ou filhos de amigos? Não lhe ocorrerá, nem por um momento, que esses meninos só sabem decorar, que exploraram os seus professores ao máximo fingindo não lhes dar crédito? Saber é tão complexo e é tão dinâmico que ouvir falar de aluninhos de 11 ou 14 tiraram 20 nos exames me deixa profundamente deprimida. Também eu lhe podia dar exemplos do contrário, de alunos muito bons, durante o seu curso de secundário, alguns com esforço, que tiraram vintes nos exames. Quanta diferença não haverá entre estes jovens e os seu génios de exame.
Se o entendi mal, deve-se à minha pequenez e não à sua grandeza. Se o entendi mal, peço desculpa. Contudo, penso que o entendi bem demais.
Tenha uma vida feliz.
(Ass: Helena Tome)
As considerações, agora:
1.   Não se consegue entender o que é a avaliação contínua que menciona. Os anos passam, e quem fala de avaliação contínua fala geralmente de algo que nunca fica definido, pelo que não entendo se todos sabem do que falam. No meu departamento, em informação que pontualmente (na 1.ª aula) entrego aos estudantes (é destinada, também, aos encarregados de educação), define-se a avaliação contínua: é aquela que atualiza a cada momento—independentemente de idênticos processos anteriores—uma opinião vinculativa sobre o estado global dos conhecimentos dos alunos. Ora a julgar pelas suas afirmações, temo que a sua avaliação contínua apenas vise punir um aluno que faz uma carreira irregular, com uma subida rápida no final: são «os aluninhos» que saltam do 11 e do 14 para o 20. São aqueles que não satisfazem critérios—ó, quão objetivos!—de «um certo sentido de ser, de estar e de fazer», aplicados por juízes que, tipicamente, nem sabem bem para que lado é o Norte da vida. Tem, de contínuo, o facto de o aluno nunca conseguir libertar-se do peso do tempo em que sabia ou ligava menos (em que não era cumpridor…). É uma cruz, não é uma avaliação. O meu artigo visava, simplesmente, colocar em pé de igualdade uns com os outros, que fazem o percurso mais regular. Preocupam-me os resultados punitivos, e acabam por ser estes alunos os castigados, por não serem espertos na estratégia final. Uns, como os outros, sabem a matéria—não duvide: os exames de Geometria Descritiva, de onde sai o exemplo do meu artigo, cobrem os dois anos de aprendizagem, são exclusivamente de resolução de problemas e não se compadecem de gente com coisas coladas à pressa; de superficialidades. Defendo que a nota de exame predomine, sempre que represente uma subida relativamente à frequência. Que esse aspeto da legislação, ao menos, seja reconsiderado. Não faço juízos morais sobre examinandos que fizeram um percurso irregular: faço uma apreciação prática da descriminação de que os outros são alvo. Para abusar de palavras suas: nada disto é complexo: mas é dinâmico.
2.   Os aspetos que avalio são, exatamente, os listados no programa como objeto de avaliação. Nem mais, nem menos. É esta a garantia de paridade com outros docentes, com outras escolas, com o resto do serviço público. Os instrumentos de avaliação incluem, por conseguinte, trabalhos realizados nas atividades desenvolvidas nas aulas ou delas decorrentes, quer em termos dos produtos finais, quer em termos dos materiais produzidos durante o processo; fichas de trabalho executadas na aula (com e sem consulta); relatórios; observação direta das operações realizadas durante a execução dos trabalhos; intervenções orais; caderno diário; provas de avaliação sumativa expressamente propostas (com e sem consulta); atitudes reveladas durante as atividades (friso: igualmente definidas no programa).
3.   Não é função minha modificar o comportamento de base de ninguém. É minha função, no entanto, ensinar o melhor que sei o conteúdo da minha disciplina, e avaliar os conhecimentos e competências específicos adquiridos. O aluno tem toda a liberdade de fazer disso o que julgar melhor. Entendi sempre como opressora qualquer tentativa, de qualquer pedagogo, para exercer manobras respiratórias sobre o meu pescoço, o exato critério que norteia parte da minha relação com o barbeiro, e com os meus alunos. Ah, já agora: e com os meus filhos e sobrinhos. Ninguém está em risco. A «Escola, o sistema educativo, Portugal», também não. (Suspira a Pátria, de alívio…)
4.   Encerrado o capítulo da família, voltemos aos alunos: entristece-me perceber que uma senhora cheia de boas intenções fica danada porque há alunos que conhecem uma matéria, e acabam os exames com excelentes notas. São medíocres que se arrastaram pelo secundário fora? Caspité, minha senhora! Acredite: ninguém consegue fazer Geometria Descritiva «só» a decorar—embora decorar seja sumamente importante, claro. Como em História. Como em Literatura. Como em Geografia. Como em Química. Como nas regras gramaticais, que a senhora ignora apolineamente (espero que não seja professora) quando se dá ao luxo de me chamar «à» atenção. Não devo ser chamado «à» atenção como se me chamassem à receção, ao balcão ou à Junta de Freguesia da Encarnação. Pode, no entanto, ser-me chamada a atenção (a minha) para isto ou para aquilo. Imagino que é o que pretendia fazer, mas não explica para quê. Fico intrigado. (Só não resisti a chamar-lhe a atenção para isto, porque a asneira começa a ser demasiado comum.)
5.   Não sou nome grado em praça nenhuma, de resto. Nem Dr. (Só de alcunha: soutor.) A minha saudosa avó materna, que avaliava todos os preços na dita praça, e não se deixava enrolar na qualidade do peixe e dos legumes, era bem mais grada do que eu.
6.   Falei em meia dúzia de considerações; cá vai a última: afirma-se «ninguém», fala da sua «pequenez», pede desculpa por eventualmente me entender mal mas logo acrescenta que pensa ter-me entendido «bem demais». Começa a interpelação, de resto, por esclarecer o que fazem «os bons professores». Sou velho e conheço o discurso: é o mesmo do fascismo, travestido de democrata. É o daqueles que têm uma perspetiva monocromática da vida—porque sabem exatamente o que devem fazer, como pedagogos, a jovens que lhes são entregues, para os obrigarem a uma liberdade que só aparentemente é a deles, porque tem de ser sancionada pelos mentores espirituais. Chama-se «eduquês». Fala do desenvolvimento de «outras competências» «interessantes para a […] evolução cognitiva».  Eu defendo que devo passar conhecimentos, e isso da liberdade é com a consciência de cada um. Os conhecimentos, só por si, favorecem e proporcionam a possibilidade de escolha. Espero que o meu próprio sentido da liberdade possa servir de exemplo para algumas raparigas e alguns rapazes, mas—acrescento—trata-se de um assunto que é já facultativo. Pode ser que aquilo que me agrada só mesmo sirva… para mim.
Agradeço-lhe o texto útil e esclarecedor e, evidentemente, também lhe desejo as maiores felicidades.
António Mouzinho