terça-feira, 31 de Julho de 2012

"A ESPIRAL DA VIDA"



Recensão crítica publicada primeiramente na imprensa regional.

A Espiral da Vida - As Dez Mais Notáveis Invenções da Evolução”, da autoria do eminente Bioquímico e divulgador científico Nick Lane, é o novo título, nº 194, da incontornável colecção “Ciência Aberta” da editora Gradiva. É a 1ª edição portuguesa (Julho de 2012) de “Life Ascending—The Ten Great Inventions of Evolution” (publicado em 2009 – ano do bicentenário de Darwin), que venceu em 2010 o prémio para livros de ciência atribuído pela Royal Society.


Realce para a tradução para o português do original inglês efectuada por Alexandra Nobre, do Departamento de Biologia da Universidade do Minho, que conseguiu manter a linguagem acessível mesclada com a frontalidade, o humor e a ironia que caracterizam a escrita de Nick Lane. Mas talvez o aspecto mais positivo da tradução seja o ter mantido a beleza da escrita recorrentemente poética de Nick Lane, que nos oferece inúmeras sínteses poéticas de aspectos da evolução da vida. Frases para mais tarde recordar. De facto, muitas das frases originais que preenchem o livro sobre fenómenos essenciais à vida permanecerão na memória do leitor que revisitará este livro como fonte de informação e inspiração futura.

“Se Charles Darwin saísse do túmulo, eu dar-lhe-ia este livro fabuloso para o animar” disse sobre este livro Matt Riddley, autor de “Genoma” e “A Rainha de Copas” (também publicados pela Gradiva). De facto, se a vida é só por si uma realidade fascinante, enveredar pela aventura espantosa de apreender como é que ela evoluiu desde as primeiras moléculas até à complexidade da consciência, torna-a ainda mais deslumbrante. É este um dos aspectos mais cativantes deste terceiro livro de divulgação científica de Nick Lane, que nos oferece uma admirável compreensão da relação entre a história da vida e do planeta em que evoluiu. A componente animadora reside na perspectiva de que há válidas razões para esperarmos que através do método científico possamos revelar e compreender o longínquo desconhecido berço da vida.

Nick Lane surpreende-nos magistralmente numa síntese original, rigorosa mas acessível, do conhecimento acumulado nos últimos 150 anos sobre a evolução da vida que permitiu que hoje estejamos aqui a ler este texto.

Ao longo de 10 capítulos dedicados a outros tantos marcos evolutivos substanciais à vida, Nick Lane problematiza e actualiza-nos o conhecimento sobre a sua evolução. “Começamos com a origem da vida em si e terminamos com a nossa própria morte e procura de imortalidade, passando por pontos altos como o ADN, a fotossíntese, as células complexas, o sexo, o movimento, a visão, o sangue quente e a consciência”, resume o autor na Introdução.


Nick Lane, Bioquímico, escritor e divulgador científico


Nick Lane transmite, de forma original, questões complexas com uma facilidade cativante. Com coragem intelectual confronta teorias concorrentes, relata episódios de como a ciência se processa e produz conhecimento, pelo que acresce a este livro uma dimensão didáctica sobre como a ciência funciona. Ao longo da leitura do livro, sentimo-nos em cima do promontório do conhecimento actual, sentados na sua fronteira a contemplar o desconhecido no horizonte que se espraia em todas as direcções do tempo (passado, presente e futuro), e sentimos a vertigem do abismo que nos atrai para o erro, que evitamos e minimizamos, nesta humanidade conscientemente falível.

A Espiral da Vida que recebeu as melhores críticas internacionais, é por tudo o que se disse, de leitura aconselhável e agradável para todos, mas imprescindível para todos os que se interessam pela aventura da vida no Universo.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

O que não é permitido no comportamento do estudante

Em 24 do corrente mês de Julho foi publicado o Regulamento Disciplinar dos Estudantes da Universidade de Coimbra que “visa a clarificação do que não é permitido no comportamento do estudante”.

Centrando-nos na fraude académica, que tem tido destaque neste blogue, o documento afirma a importância de a instituição académica se pautar pela honestidade e determina que não é permitida a cópia, a falsificação e o plágio.

"O percurso de aprendizagem [deve ser] marcado pelo trabalho honesto, esforçado, perseverante e promotor das suas próprias capacidades” e, nessa medida, não é permitido “falsear os resultados de provas e trabalhos académicos, nomeadamente através da utilização de práticas de plágio, obtenção fraudulenta do enunciado da prova a realizar, substituição e obtenção fraudulenta de respostas, simulação de identidade pessoal ou falsificação de pautas e enunciados".

Esta explicitação de regras é positiva porque constitui um instrumento que, se divulgado, prevenirá e deterá comportamentos fraudulentos, apoiando também decisões em caso de prevaricação.

Mas há algo no documento que me incomoda... Efectivamente, ele decorre da necessidade que se foi acentuando de tratar casos concretos, e, em sequência, do reconhecimento que alguns (muitos?) alunos do ensino superior não integraram no seu percurso escolar o valor da honestidade académica.

DE COMO UM DOS "DEUSES DO DARDO”, DO SÉC. XXI, DE CARLOS FIOLHAIS, ATINGIU MORTALMENTE UM ATLETA NO SÉC. XX,



E DE COMO NO SÉC. V a.C., ANTIFÃO NOS ESCLARECE, NAS SUAS TETRALOGIAS, AS CONSEQUÊNCIAS FILOSÓFICO-JURÍDICAS


por João Boaventura


Após a leitura do memorável trabalho, em epígrafe, do Professor Carlos Fiolhais, de imediato o associei a um acontecimento raro, o da morte do atleta sueco Bo Larsson, no Estádio Johanneshov de Estocolmo, quando participava numa corrida de estafetas, por ter sido atingido acidentalmente por um dardo lançado por outro atleta, durante um torneio de atletismo nocturno, segundo informava então o “Diário Popular”, de 29.08.1959.


E nesta sequência, sem vislumbre de qualquer consequência filosófica ou jurídica, resultante de tão infausto acontecimento, no século XX, o único recurso foi o de recorrer a um texto de debate fictício, do séc. V a.C., da autoria de Antifão, professor de eloquência e de direito, autor das referências, “Da verdade”, “Da concórdia”, e das “Tetralogias”, onde os seus discursos judiciários, constituíam modelos de argumentação, para factos que poderiam ocorrer, e serem pleiteados. Os três títulos eram os textos através dos quais Antifão transmitia os seus ensinamentos aos alunos, e assim se formariam os homens do direito desportivo.


Nas “Tetralogias”, esquematicamente, agrupam-se 4 discursos, cabendo dois ao advogado de acusação e dois ao de defesa:


  1. Exposição da acusação
  2. Argumentação da defesa
  3. Resposta
  4. Réplica

No caso presente os acusadores e os defensores são os pais do filho atingido pelo dardo e do do lançador do dardo mortífero, e cujos pleitos se reproduzem:


ANTIFÃO 1.



ANTIFÃO 2.ANTIFÃO 3.


In Anthologie des Textes Sportifs de l'Antiquité

Recueillis par Marcel Berger et Émile Moussat

Grasset, 3 ème Édition, Paris, 1927, pp 92-95


João Boaventura

"A mais linda história de um amor universitário"

Se o leitor não ouviu o mais recente programa Questões de moral, que passa na Antena 2 da rádio e é "escrito e apresentado" por Joel Costa, talvez tenha interesse em ouvi-lo aqui. É sobre a longa relação intelectual e amorosa entre uma aluna judia que se chamava Hannah Arendt e um professor simpatizante da ideologia nazi que se chamava Martin Heidegger.

Começa assim esse programa:

Em 1924 uma judia alemã de nome Hannah Arendt matriculou-se na universidade de Marburg. Na cadeira de filosofia dava as suas aulas o carismático e já relativamente famoso professor Martin Heidegger. Heidegger tinha 35 anos e estava então a acabar a obra mestra que o projectaria para os mais altos cumes da filosofia do século XX... "Ser e Tempo", a publicar em 1927. Era um homem casado e tinha dois filhos pequenos, além de casado era um homem muito sério, austero, rígido, seguia princípios católicos, filho de camponeses e dedicado ao trabalho científico mais do que a tudo o resto (...). Hannah Arendt tinha 18 anos. Martin Heidegger era o professor mais popular de Marburg, dizem que as aulas dele eram hipnotizantes, que o pensamento dele era espantosamente inovador (...).

segunda-feira, 30 de Julho de 2012

A propósito da educação física e do desporto na escola


Embora não seja hábito nosso republicar artigos de opinião saídos na imprensa fazemos uma excepção para este, da autoria do ex-responsável pelo Instituto Português de Desporto, José Manuel Constantino, a propósito da educação física nas nossas escolas, tema já aqui abordado. Além do mais é oportuno por estarmos em altura de Jogos Olímpicos:

As medidas anunciadas pelo Governo relativamente à educação física e ao desporto escolar são uma desvalorização da disciplina e dos seus profissionais.

Constituem um verdadeiro retrocesso no ensino público. São um produto de gente culturalmente analfabetizada, para quem saber ler, escrever, contar e falar inglês é suficiente. E são um teste ao valor das declarações retóricas do Governo sobre a importância das atividades físicas e desportivas. E sobre as preocupações relativamente aos modos como os jovens constroem os seus estilos de vida.

A decisão é do Governo. Mas o terreno foi-lhe preparado. Nada disto é filho de pais incógnitos. Para perceber o que se está a passar é preciso voltar atrás. E recordar que há cerca de três décadas, e quando se começaram a acentuar as teses de retorno à matriz identitária do início do século - a pureza da educação física contra os malefícios do desporto e da competição -, houve, nessa altura, quem alertasse para o problema que consistia em desvalorizar a principal matéria de ensino, o desporto, em nome de uma certo purismo académico da educação pelo movimento e da aptidão física sem conteúdo normativo. E sobretudo sem uma prática escolar que correspondesse à retórica argumentativa dos seus profissionais. Houve quem denunciasse aquilo a que conduzia a disciplina, ao mimetizar os tiques de pedagogismo que invadiram o sistema de ensino público, arrastando-a por força da contaminação das chamadas "ciências da educação", para uma lógica de verdadeiro descompromisso social quanto ao carácter prático e utilitário dos saberes e das competências que devia fornecer aos alunos. A obsessão didática assente em crenças de suposto valor científico fizeram com que a educação física e o desporto na escola perdessem a sua alma. E a formação de professores de Educação Física, sobretudo nas ESE, foi qualquer coisa de aterrador. A prazo o resultado só podia ser um: algo facilmente descartável. Porque se pretendia justificar e defender uma disciplina através de uma narrativa de utilidade social que os factos não sustentavam. Ninguém nos podia levar a sério. E com isso se perdeu o caráter conspícuo da educação física e do desporto na escola, enquanto, cá fora, aumentava a procura de atividades físico-desportivas.

A resposta à situação, agora criada, não está na ciência. Ou em enunciar um conjunto de vantagens de que os alunos supostamente beneficiariam e que perdem com a medida anunciada. Bem podem acumular-se objetivos salutogénicos, como a luta contra sedentarismo e a obesidade, que qualquer observação atenta e séria sabe que o contributo concreto da disciplina tal como é ministrada é perfeitamente inócuo. Chegámos aqui, em parte, precisamente por causa deste tipo de boa ciência servida por uma má prática. A resposta a este problema está na política e na capacidade corporativa dos profissionais de educação física perceberem por que razão se chegou a este ponto. E baterem o pé. Mas para isso precisam de mudar de estratégia. E entenderem o que está em jogo. Desde logo para que serve a educação física na escola. E o mal que lhe faz, se a levarmos para algo que não seja o trabalho e o investimento corporal dos alunos orientado para a condição físicomotora, para uma educação corporal com conteúdos culturalmente significativos de que o desporto, o aperfeiçoamento e a performance desportiva são um dos seus elementos preferenciais. Que é o contrário de uma espécie de recreio animado com a presença do professor, que foi aquilo em que muitas aulas se transformaram. O discurso do deixar-andar e do facilitismo, de que a escola, mais do que um local de trabalho, de esforço e de superação, em torno das condutas físico-motoras, devia ser um espaço de ambiente agradável, não constrangedor, facilitador das aprendizagens, respeitando as "necessidades" e "personalidades" dos alunos, não foi um contexto organizacional muito estimulante para respeitar a educação física. Sobretudo quando no clube desportivo ou no health club a coisa, para muitos técnicos, alunos e pais, passou a fiar mais fino.

E onde era preciso apresentar trabalho e resultados. Sei que ao dizer isto me exponho a que caia o Carmo e a Trindade. E que mil razões, científicas e outras, esgrimirão contra estes argumentos. E não sobrarão as críticas. Paciência.

É o que penso e não tenho vontade de o silenciar. É evidente que nestas coisas sempre houve exceções: a de muitos docentes que deram o melhor de si aos alunos e à profissão e que não merecem esta desvalorização. A de instituições de formação que se recusaram a alinhar na moda. Uns e outros têm autoridade moral para falar e denunciar o atropelo ministerial. Mas este é o resultado de muitos que, na ausência de qualquer controlo e exigência profissionais, desvalorizaram o seu objeto de trabalho e com ele a profissão. E esses são, junto da comunidade, os melhores aliados desta decisão governamental. Por muito que digam o contrário. E que agora a contestem.

José Manuel Constantino

Público, 2012-07-28

sábado, 28 de Julho de 2012

OURO E PRATA PORTUGUESA NAS OLIMPÍADAS


Os alunos portugueses conseguiram superar a primeira participação nas Olimpíadas de Matemática da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (OM CPLP) e trazem para Portugal uma medalha de ouro e três de prata. David Martins (10º ano - Escola Secundária de Mirandela) conquistou a medalha de ouro. Diana Macedo (12º ano - Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja), Miguel Costa (11º ano - Grande Colégio Universal, Porto) e João Rocha (10º ano - Colégio Paulo VI, Valongo),trouxeram de “terras de Vera Cruz” medalhas de prata.

À semelhança da edição anterior das OM CPLP todos os países em competição, e que marcaram presença nesta segunda edição das OM CPLP, foram medalhados. Esta competição (anteriormente designada Olimpíadas de Matemática da Lusofonia) já tem a sua próxima e terceira edição agendada no próximo ano para Maputo, em Moçambique.

A equipa portuguesa regressa este fim-de-semana da cidade brasileira de São Salvador, na Bahia, onde decorreu a competição, e chegará ao Aeroporto da Portela, em Lisboa, na madrugada de domingo, dia 29 de julho.

A estreia das Olimpíadas da CPLP realizou-se no ano passado em Coimbra e reuniu estudantes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal e Timor-Leste.Em 2011, todos os países participantes conquistaram medalhas, prova do esforço e da dedicação que estes estudantes demonstraram ao longo da competição.Portugal arrecadou então uma medalha de ouro, uma de prata e uma de bronze.

A participação nas Olimpíadas da CPLP é organizada pela Sociedade Portuguesa de Matemática, e a seleção e preparação dos alunos está a cargo do Projecto Delfos, do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra.

O capitalismo não é ético


Teresa Forcades nasceu em 1966, é médica, teóloga e monja. E é uma mulher extraordinária. Muito corajosa, fala claro e sem complexos.

Numa entrevista a um canal catalão defende que o capitalismo não é ético e faz a sua denúncia de uma forma desassombrada. Segundo ela, o mercado "foi sempre regulado a favor de certos interesses: da realeza, interesses protecionistas, da classe dominante, do parente dos governantes de turno." Mercado livre é "uma hipocrisia, uma falácia".

Retenho um exemplo que me parece lapidar. Teresa exemplifica que "no mosteiro, temos uma pequena empresa de cerâmica e há uma pessoa de fora que lá trabalha; se lhe pagarmos um euro e ganharmos mil, o capitalismo dirá: que bem! Mas isto é indigno, pois vai contra a dignidade do trabalho." As diferenças matam a democracia, "talvez esteja bem que eu ganhe um e tu ganhes quatro ou até dez, mas mil não pode ser de modo nenhum".

Isto tem muito significado.

Eu disse coisas semelhantes numa Tedx Talk em Abril de 2012. E isto não é uma revolução (grande música de Tracy Chapman).

A ética, a responsabilização e o mérito são valores basilares de qualquer sociedade democrática justa e saudável.

Nota: este texto foi originalmente publicado em http://www.re-visto.com

sexta-feira, 27 de Julho de 2012

A MORTE DE JOSÉ




Crónica publicada primeiramente na imprensa regional.

José não teve tempo de se aperceber da sua “morte anunciada”.

Foi tudo tão súbito, como o sol que se eclipsa numa desatenção involuntária! Apesar de já não ser jovem adulto, aguardava-o ainda umas quatro décadas na esperança de vida para o seu género. Para a sua vida. Para construir memórias com os seus entes queridos,com os seus amigos e inimigos.


E num instante de três meses, um sinal fez-se num melanoma que invadiu o sistema linfático.Fulminantes, as metástases teceram a mortalha do seu leito de morte.

O que é que teria acontecido para que esta ultima estação tivesse chegado sem andorinhas,sem campos verdejantes. Não ter dado atenção àquele sinal que amanheceu na pele? Ter abusado daqueles cremes hidratantes, elixires rejuvenescedores que activam a circulação? Da exposição desdenhosa aos vapores químicos no laboratório? Ou das longas exposições a um Sol abrasador?

Um Calor corrosivo inundou o seu corpo, para depois esfriar sem consciência num último suspiro.

Há alguma impotência nos tratamentos de quimioterapia hoje disponíveis contra alguns melanomas,estes cancros da pele que nos veste, nos dá individualidade, nos protege de agentes patogénicos, da desidratação, das radiações solares nefastas que reescrevem o genoma, alterando as instruções genéticas, causando a produção de proteínas disfuncionais, vésperas de doenças, talvez cancerosas.

Um dos genes,entre outros, que se encontra “alterado” em células de muitos tipos de cancro, é o que codifica uma proteína importante no controlo da qualidade da duplicação do genoma aquando da divisão celular. O gene é o PT53, a proteína a p53 (p de proteína, com 53 kDa de peso molecular).

A p53 é uma “especialista”altamente eficaz em controlar a qualidade da cópia dos genes nos cromossomas a distribuir equitativamente pelas células filhas. Se “detecta” algo errado, uma letra fora do lugar ou ausente, espoleta uma série de acções moleculares que fazem parar a divisão celular. Eventualmente desencadeia um processo de morte celular programada (apoptose) para evitar que uma célula instável se desenvolva e possa evoluir para um estado tumoral ou canceroso.

Quando a p53não se encontra funcional por o gene que a codifica ter sido alterado, por exemplo por acção da radiação UV, a qualidade da duplicação genética fica perturbada e as células que resultam da divisão celular, necessária para a renovação dos tecidos, podem evoluir para um estado tumoral, podem ser o princípio bioquímico de um cancro.

Curiosamente,no caso dos melanócitos que se alteram cancerosamente pela pele fora, pelo corpo adentro, a p53 até está normalmente funcional. Contudo há outras proteínas que impedem que a p53 cumpra a sua função. Uma delas designa-se por Mdm4. Esta bloqueia a p53, e os genomas alterados são disseminados pelas células que se dividem desrespeitando a arquitectura e função do tecido em que estão.

Se se pudesse de alguma forma inibir a Mdm4, restaurar-se-ia a função da p53 e, pelo menos, poder-se-ia esperar que o cancro não progredisse tão rapidamente, dando tempo extra para uma intervenção terapêutica, mesmo que paliativa. Adiava-se a morte.

Foi isso mesmo que uma equipa internacional de investigadores liderados por Jean-Christophe Marine conseguiram, abrindo horizontes para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas na luta contra os fulminantes melanomas. Num artigo agora publicado primeiramente on line na Nature Medicine no dia 22 de Julho, é apresentada não só a confirmação de que afinal a p53 tem um papel chave naformação de melanomas, que a Mdm4 é um bom alvo para o desenvolvimento de novas drogas para os combater, mas também confirmam a importância da combinação de terapias distintas, incluindo aquela que usa o inibidor, recentemente desenvolvido,para uma outra proteína, a B-Raf (codificada no oncogene BRAF) para uma maior eficácia no tratamento e, principalmente, para reduzir a alta tendência para ressurgimentos dos melanomas.

José já não vive para poder ainda ter uma réstia de esperança nestas novas descobertas. Tivesse ele dado conta do primeiro sinal…

Notar bem: Nesta estação balnear, não se exponha durante períodos prolongados ao sol, principalmente entre as 11h00 e as 16h00, mesmo que tenha aplicado um protector solar adequado ao seu tipo de pele. Não provoque o melanoma.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional

Yscope: uma invenção portuguesa!

Com o fim das imagens impressas em sais de prata, os cirurgiões passaram a pendurar (por vezes em blocos operatórios tecnologicamente muito avançados) normais impressões, em papel, das imagens médicas que necessitam consultar durante as cirurgias. Estas são muito limitadas, em resolução e qualidade. E, não fazem uso do potencial dos formatos digitais em que hoje em dia são guardadas as imagens médicas.

Consultar a imagem num computador, com um rato e um teclado, também não ajuda muito. Além de geralmente terem um monitor pequeno, ao tocar num rato perdem-se as condições de esterilidade necessárias para realizar uma cirurgia.



Esta tecnologia, resulta da visão de um dos médicos do serviço de neurocirurgia do Hospital de Santa Maria. Para a desenvolver, foi estabelecida uma parceria com a empresa YDreams, e este é o resultado. O projecto começou há nove meses. Agora, há outros produtos concorrentes, de empresas estrangeiras. Mas este foi o primeiro! Entra agora em testes no bloco operatório e tem boas probabilidades de ser o primeiro a chegar ao mercado. E, segundo dizem os responsáveis pela sua concepção: é o melhor!

Mais oportunidades de educação superior para o Estado de São Paulo


OS DEUSES DO DARDO



Minha crónica no "Sol" de hoje::

Agora que estão a começar, em Londres, os XXX Olímpiadas da era moderna, surge nos media uma avalanche de dados sobre as várias modalidades: os atletas, as marcas, a história. Venho aumentá-la um bocadinho fornecendo alguns dados sobre o dardo.

Porquê o dardo? Trata-se de uma modalidade olímpica onde os recordes tiveram uma queda, em vez de terem sempre aumentado. O actual recorde mundial é de 98,48 m, obtido em 1986 pelo checo Jan Zelezný, um lançador fenomenal, detentor das cinco melhores marcas mundiais de sempre, mas o recorde mundial anterior era de 104,80 m, marca conseguida pelo alemão de Leste Uwe Hohn, o único atleta a lançar o dardo além de 100 m. O actual recorde olímpico, de posse do norueguês Andreas Thorkildsen (90,57 m, em 2008, nos Jogos de Pequim), o grande favorito para Londres, é também menor do que já foi. Como é isso possível? Acontece que em 1986 os regulamentos do dardo foram alterados: com a pulverização dos recordes, corria-se o risco de o dardo acertar nalgum espectador. Não se alterou nem a dimensão do dardo (para homens, entre 2,6 e 2,7 m) nem o seu peso (máximo de 800 gramas), mas deslocou-se o centro de gravidade escassos 4 cm mais para a frente. Essa simples mudança fez com que o dardo, em vez de planar no ar durante muito tempo, tivesse tendência para se inclinar, caindo mais cedo e mais virado para o solo. A física do movimento real do dardo é bem mais complexa do que a física dos projécteis que se aprende na escola secundária, mas os lançamentos feitos pelos melhores atletas podem ser simulados na perfeição com base nas leis de Newton. Assim, conseguimos, por exemplo, perceber porque é que eles, para obter os seus recordes, lançam o dardo com um ângulo de cerca de 40 graus relativamente à horizontal (o ângulo óptimo depende um pouco do vento).

Já nas Olimpíadas da era antiga, na Grécia, se praticava o lançamento do dardo, imitando certamente o arremesso pelos guerreiros de uma lança. Curioso é que os Lusitanos, que povoaram o território português na época dos Romanos, adoravam um deus, de seu nome Runesocesius, a quem atribuíam a posse de um dardo. Era o “deus do dardo”. Já não há deuses como antigamente. Mas atletas como Zelezný, Hohn  e Thorkildsen são os modernos deuses do dardo.

Manuel Alegre: Pintar a Cor do Vento



 Do ensaísta  Eugénio Lisboa publica-se, como o prazer e proveito de sempre, este texto saído no último número do "Jornal de Letras":

No espírito tacanho e preconceituoso de alguns figurões da nossa praça literária, Manuel Alegre “perde” por se lhe colar ao rosto lírico, de alto gabarito emotivo e oficinal, a legenda de lutador político e campeador melhorista, com, ainda por cima, a adensar-lhe o curriculum, anos de exílio em Paris e Argel. O êxito retumbante – e sonoro – de obras de resistência, como “Praça da Canção” (1965) e “O Canto e as Armas” (1967) e a permanente e impregante presença de canções de irresistível sedução como, entre outras, a celebérrima “Trova do vento que passa”, cantada por Adriano Correia de Oliveira, conferem a este eminente bardo um teor de “popularidade” que, entre nós, sobretudo no território das sílfides universitárias, sempre se paga pela tarifa mais alta. Gomes Leal, António Nobre, Junqueiro, Sá-Carneiro, Régio, Torga ou Mourão-Ferreira são, como Alegre, poetas que as pessoas trazem no ouvido (e no coração) – e isso não lhes é facilmente perdoado por aqueles (e são muitos) de quem ninguém recorda nunca, de cor, um único verso. Pessoa também anda nos ouvidos (e, às vezes, nos corações), mas, a este, tudo se lhe perdoa, vá lá saber-se porquê.

A militância política de Alegre – de resto legítima e altamente nobilitante – nunca o abandonou de todo, embora se tenha vindo a diluir num lirismo cada vez mais decantado e, oficinalmente, mais perfeito. Referindo-se um dia ao livro de “sátiras e epigramas” contundentes – “A Chaga do Lado”, de Régio – David Mourão-Ferreira aludia  “ao fundo social e religioso” do poeta de Vila do Conde, indicando que, “neste sentido, Régio é o continuador directo de poetas como Herculano, Antero, Gomes Leal ou Junqueiro, a quem os seus contemporâneos jamais deixaram de perguntar «em que ponto se encontravam», nas suas relações com os homens  e com Deus.” E com o seu país, acrescentaria eu.

Com Manuel Alegre, algo de muito semelhante  se passa: a cada seu novo livro, de poesia ou de ficção (e a sua poesia é também ficção e a sua ficção também poesia), apetece-nos ir ver, neles, entre outras coisas, em que pé se encontra o escritor, no que respeita ao “estado da Nação”. Nada disto faz dele menos poeta – menos grande poeta - muito embora, às vestais, convenha que assim pareça.

O tema do exílio, que impregna tanto belo poema seu – mesmo deste seu último livro ( “Nada está escrito”, D. Quixote) – vem de longe e com altos títulos de nobreza: glosam-no, por exemplo, Eurípedes, na “Medeia”, ou Homero, na”Odisseia”. Exílio que habita, até, em poetas que, fisicamente, nunca, por aí além, se exilaram: mais ou menos, todos...

Em Alegre, várias “vantagens” se volvem depressa em “desvantagens”, aos olhos dos falsamente “exigentes”. O poeta de “Senhora das Tempestades” é um grande lírico dos sentires mais íntimos, mas é, também, um bardo da tribo ou, se preferirem, da comunidade. Fala aos “happy few” – e com que finura de arte consumada! – mas fala também à tribo mais vasta dos aflitos: dos que perguntam, sofrem e suplicam.

O poeta e crítico inglês Thomas Ernest Hulme, morto, com 34 anos acabados de fazer, em 28 de Setembro de 1917, por estilhaços de granada, na 1ª guerra mundial, deixou uma importante, embora pouco vasta, obra de poeta e crítico, que muito influenciou poetas como Robert Frost e, de um modo geral, todo o modernismo anglo-saxónico. É de Hulme esta passagem extraordinariamente lúcida, que aqui evoco, com prazer, a propósito do lado “comunal”, digamos assim, da poesia de Alegre: “A linguagem”, dizia Hulme, “é, pela sua própria natureza, uma coisa comunal, isto é, nunca expressa a coisa exacta, mas, antes, um compromisso – o qual é comum a ti, a mim e a toda a gente.” Isto é, toda a linguagem procura fazer isto: entrar em compromisso, abdicar de um certo teor de “exactidão”, para poder aumentar o leque dos que lhe têm acesso. Toda a linguagem, repito. Mas, em alguns poetas, um certo e talvez inevitável lado mais “obscuro” (de mais difícil acesso) excede, de longe, o lado mais acessível – e a “dificuldade”, que Steiner estudou, impõe-se. Alegre acumula – tem passagens exigentes (ou mais exigentes) mas, mesmo nessas, há uma óbvia sedução que agarra o leitor e o obriga a não arredar, do poema, a sua atenção. Um dos recursos (não o único) que Alegre não recusa – como não o recusam os grandes poetas do modernismo anglo-saxónico – é a rima, de que se afastam, como da peste, tantos cultores lusíadas do chamado “verso livre”. Verso livre usa-o também Alegre, mas quase sempre bem “aguentado” por “rimas de apoio”, ou abundantes, ou discretamente disseminadas. A rima serve, como sabe quem sabe, para aumentar a força sugestiva do dizer, “valendo-lhe”, onde outras coisas lhe não valem, como muito bem disse Régio, quando cantava o poder de sugestão da rima, numa conhecida ode: “Tu lhe vales, /se as palavras não chegam. Tu lhe trazes /a Frase-Espírito das frases /incompletas.”

A rima, em suma, acrescenta: faz as palavras “chegarem” até onde, de outro modo, chegariam menos... Numa sátira de 1664 (“Sur la difficulté de trouver la rime” ), Boileau, dirigindo-se a esse mestre alado da rima, que foi Molière, pede-lhe lições que lhe forneçam asas: “Dans descombats d’espritsavant maître d’escrime, / Enseigne-moi, Molière; où tu trouves la rime” ( “Em justas de graça, sábio mestre de esgrima, / Diz-me, Molière, onde achas tu a rima”). E nota, quase com inveja, referindo-se à rima: “Ondirait, quando tu veux,qu’elle te vientchercher” ( “Basta quereres, para ela te buscar”). E, por fim: “À peine as-tu parléqu’elle-mêmes’yplace” (“Mal deixas de falar, já ela aí está”).

Alegre insinua a rima, nos seus poemas (mesmo os de verso livre), com a mesma “força fácil” que Boileau , delicadamente, invejava ao mestre da comédia francesa, sagrando-se ele, Alegre, igualmente mestre nesse “rude métier”, como lhe chamava o autor da “Art Poétique”.

Tudo isto me veio à mente, a propósito deste belíssimo livro – “Nada está escrito” – que Manuel Alegre acaba de publicar: nele fremem, como sempre, melhor do que antes, todos os seus grandes temas e obsessões, não excluindo, claro está, o do seu inextinguível amor à Liberdade. O grande Alain, que suponho ser hoje muito pouco lido pelas gerações mais recentes, observava que “Hugo é um desses homens que voltam sempre à liberdade como fonte de todo o bem.” Alegre também: veja-se o poema com esse título, que fulgura, já perto do fim do livro, na página 80:

“Eles não sabem do grande espaço aberto
onde voam os patos e as narcejas
nem procuram as sílabas perdidas
que há muito outros cantaram e onde brilhavam
as espadas o sol e a liberdade”.

A poesia de Alegre ousa e vigia-se, atreve-se e contém-se, ilumina o escuro que também a habita, hesita entre a mais ampla sonoridade e o mais fechado silêncio: grita e cala-se. Sofre e levanta-se. Tenta o impossível. Alguém dizia que a poesia é a tentativa endiabrada de pintar a cor do vento. A poesia de Manuel Alegre  por certo que ensaia erguer-se até ao topo desta loucura.

P. S. – Na tradução dos versos de Boileau, que acima dou, procurei, para a versão portuguesa, as mesmas doze sílabas do original.

Eugénio Lisboa

A Educação Física Escolar na Perspectiva de um Fisioterapeuta



“Mon expérience me fait attibuer une importance três grande au développement de l'éducation physique: on peut, en effet, par ce moyen, diminuer les maladies, renforcer la résistence de l’homme vis-à-vis des agents pathogènes, lui permettre d’attendre à la vieillesse dans la plenitude de son pouvoir physique, intellectuel e moral; en somme, retarder l’heure de la sénescence organique” (Docteur Maurice Boigey, “Manuel Scientifique D’Éducation Physique”, “Masson  Éditeurs”, Libbraires de l’Académie de Medicine, 1932).

Numa altura em que a disciplina de Educação Física anda nas bocas do mundo por causa das matrizes curriculares, com algum espanto meu, ainda que conhecedor da colonização que a Educação Física sofreu no passado por parte dos oficiais do exército e dos médicos, acabo de tomar conhecimento de um texto, intitulado “Sobre a (des)importância da Educação Física no ensino  secundário” (“Expresso”, 16. Julho. 2012), em que o seu autor, Luís Coelho, fisioterapeuta de reeducação postural e ensaísta,  indica caminhos a seguir nas aulas de Educação Física do ensino secundário, por, segundo ele, esta disciplina curricular não ter em devida conta a higiene corporal e a prevenção das doenças. Mas nada disto me devia espantar - mas espanta! -, porque, como escreveu várias décadas atrás, Quintino da Costa, professor do  INEF: “Enquanto os médicos, em tempos idos, só tiveram como competidores os barbeiros, o professor de Educação Física vê ainda o seu campo invadido por contorcionistas da lei que às claras, ou na penumbra, logram alcançar um papelinho ou titulozinho com o ‘imprimatur’ do Estado”.

Como transcrevi em epígrafe, diferente conceito é sustentado por Maurice Boigey e, outrossim, por Celestino Marques Pereira (1909-1978), doutorado em Educação Física, também professor do INEF, quando escreve: “Compreende-se, pois, sem necessidade de estudar a questão em pormenor, a influência que a Educação Física pode ter sob o ponto de vista terapêutico; o aproveitamento adequado e consciente desta acção pode dar resultados de um imenso alcance no domínio das afecções patológicas”. Entrando em contradição com os conceitos mais modernos da fisiologia dos exercícios de desenvolvimento muscular, defende Luís Coelho: “As actividades físicas – principalmente aquelas que fazem uso da força e da resistência musculares – não possuem real valor para a saúde”. E, como tal, em laivos de indisfarçável magistralidade, remata no final do seu artigo: “Reformule-se a Educação Física e aí talvez a disciplina passe a ser mais valorizada e acreditada”. A esta sua proposta, atrevo-me a pensar, subjaz a referência que faz a uma vivência traumática do seu tempo de estudante: “Não posso deixar de lembrar o quase ‘inferno’ que as aulas de Educação Física sempre representaram para mim, dado que um certo ‘mau-jeito’ para as coisas do físico sempre serviu de mote ao agravamento de um ‘bullying’ do qual fui vítima ininterrupta durante muitos anos”.

Escreveu Armand Cuvillier, autor de um Vocabulário de Filosofia, traduzido em Portugal e no Brasil: “Como assinalava, recentemente, Léon Bernard, implantou-se o costume de empregar muitas palavras tiradas do nosso velho vocabulário, mas tomadas num sentido novo e misterioso a ponto de que se poderia crer que nos esforçamos por mais não chamar as coisas pelo nome”. Em consequência, por ora, detenho-me, apenas, para não me alongar numa temática demasiado científica e extensa para se esgotar num simples post, sobre a proposta de Luís Coelho pretender, a modos de quem quer matar dois coelhos de uma só cajadada,  “uma revolução epistemológica no domínio da Educação Física e da Fisioterapia”. Mas nada disto é novo, dando razão ao aforismo latino: “Nil novi sub sole!” Isto porque, v.g., a Economia, que era para Aristóteles a simples arte do governo de uma casa, evoluiu para um conceito bem mais abrangente que, com a lupa da passagem do tempo, muito ampliou o seu acanhado mundo sem o recurso a nenhuma má plástica grotesca nem a uma simples e ridícula cosmética. Isto apesar da da tentativa falhada por Antoine Auguste Cournot (1814-1895) de substituir o nome de Economia Política por Crematística. De igual modo, fracassou a tentativa do professor de Medicina da Universidade de Coimbra José Ferreira Macedo Pinto (1810-1903) para alterar o nome de Medicina Veterinária para Zooatria!

Aliás, este tema mereceu que sobre ele me debruçasse numa comunicação, intitulada “Motricidade Humana: um novo paradigma para a Educação Física?”, que apresentei no “IV Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa e V Congresso da Sociedade Portuguesa de Educação Física”, realizado na Auditoria da Universidade de Coimbra, de  2 a 5 de Março de 1995. O seu texto completo viria a ser publicado in “Horizonte – Revista de Educação Física e Desporto”, Junho-Julho 2001, Vol. XVII, n. 99, p.p, 3,4,5,6,7”.

Como aí defendi, a discussão terminológica sobre a Educação Física reside no facto de ela ter sido considerada por Manuel Sérgio, licenciado em Filosofia e mais tarde doutorado em Educação Física, pelo ISEF da Universidade Técnica de Lisboa,  como as areias movediças de uma “pré-ciência” , enquanto a Motricidade Humana seria o piso firme de uma “ciência”, possivelmente, a exemplo de Karl Marx quando considerou como pré-história a história que antecedeu a Revolução de Outubro (“Motricidade Humana”, uma ciência do homem”,  ISEF, Serviços de Edição. Lisboa-1987, p. 34).

Embora possa parecer uma questão de somenos, a expressão Educação Física está secularmente consagrada continuando a ter um papel importante no contexto que a terminologia científica assume na ciência moderna para que não surja qualquer confusão sobre o seu significado e uso em textos académicos e científicos, porque “a terminologia é o reflexo formal da organização conceptual de uma especialidade e um meio inevitável de expressão e comunicação profissional” (Cabré, M. T., 1993). 

Em consequência, é quase inevitável que o significado da expressão Educação Física (se  dolosamente despojada de uma  perspectiva holística) seja discutido, ou mesmo posto em causa, até entre alguns dos seus profissionais, influenciados pelo canto de sereias que aventam a hipótese esperançosa de que a mudança do respectivo nome para Motricidade Humana possa solucionar  todos os  problemas a ela atinentes, pacificando discordâncias de natureza científica, filosófica  ou  de qualquer  possível e injustificado complexo  pela reminiscência  do desprezo a que o corpo esteve votado secularmente pela exaltação religiosa da alma. Curiosamente, vá lá saber-se porquê, a questão não se coloca quando se aborda a trilogia Educação Integral: Educação Intelectual, Educação Física e  Educação Moral.

Mas sei bem que só em exéquias da dicotomia cartesiana de uma alma sublime  (res cogitans) a tutelar um corpo escravizado (res extensa), se pode tornar  frutuoso o diálogo entre a Educação Fisica, em esconjuro de má fama, e a Filosofia, em acto de contrição: filósofos de séculos  recentes,  e mesmo coevos, vieram em denodada defesa da concepção holística do homem. Com cordão umbilical  em entranhas do tempo, o acesso futuro a uma promissora Neurobiologia, “em que se não tem um corpo, é-se um corpo”, será suficiente  para prosseguir na esforçada jornada  científica do actual modelo da Educação Física  sem a mudança  nominal para o emergente paradigma da Motricidade Humana, a fim de anunciar, urbi  et orbi, jubilosamente, a crisma salvadora como se se tratasse de um radioso horizonte em céu enublado a anunciar uma borrasca iminente capaz de fazer submergir em águas tumultuosas a Educação Física. A mesma Educação Física que se fez património do léxico do mundo,  mercê de faculdades, sociedades e federações europeias e internacionais de Educação Física, como, v.g., “Sociedade Portuguesa de Educação Física”,  “European Physical Education Association e “Federation Internationale d’Education Physique”.

Sem dúvida, a Educação Física é hoje um conjunto de conhecimentos científicos e metodologias cujas ambições de cidadania não feneceram na história das coisas sem história. Muito  menos, deverá a sua sobrevivência ser hipotecada à mudança de nome para Motricidade Humana com a intenção,  como escreveu Oscar Wilde,  de “turvar as águas para que pareçam profundas”!

Um plano nacional para ensino da Informática


Texto recebido de Armando Vieira, físico e empresário:

O sector das tecnologias da informação está a fervilhar e a revolucionar o mundo. Numa economia deprimida, milhares de vagas no sector da informática estão por preencher, por falta de candidatos, em Portugal e por quase todo o mundo. O sector da tecnologia deve crescer muito acima de todos os outros até 2020 e com salários muito competitivos.

Se a tecnologia é o futuro, a escola está a fazer um trabalho lamentável na preparação dos jovens. Apesar da alta empregabilidade, o número de licenciados em informática não tem acompanhado a procura, e este, está longe de ser o curso mais desejado pelos alunos.

Pior, a nível do ensino secundário, praticamente não existe formação nesta área, e quando existe, basta um olhar de relance para perceber que os conteúdos rotulados de “ciência da computação” ou TIC, não mudaram nos últimos 10 anos. A maioria limita-se a aprender a usar o Microsoft Word e o PowerPoint.

Resultado? A maior parte dos alunos acaba o ensino secundário sem nunca ter aprendido conceitos básicos de programação ou de redes de computadores. Pior, adquirem ideias preconceituosas, quase todas falsas, sobre o mundo da informática: que é só para geeks, que é muito complicado, que é aborrecido… Na verdade, a informática é talvez das áreas mais criativas, abertas e ricas (em todos os sentidos da palavra) de se explorar.

A Informática oferece várias vantagens em relação, por exemplo, à matemática. Os alunos recebem um feedback imediato do seu esforço e normalmente ficam empolgados com o que conseguem fazer. Basta aprender uns comandos de HTML e já podem apresentar uma página web ao mundo.

A Informática não é considerada uma competência nuclear como a matemática ou as ciências, mas sim opcional e muitas vezes marginalizada. Porque não é a Informática uma competência nuclear nos curricula do ensino secundário? Porque não ensinamos os nossos jovens a programar e expressar a sua criatividade através da infinita gama de linguagens e plataformas disponíveis? Em Silicon Valley milhares de startups estão a reinventar o mundo e a tecnologia graças às possibilidades da informática e a investimentos agressivos de investidores privados. Porque não podemos fazer o mesmo em Portugal e apostar fortemente nas competências informáticas?

Talvez o maior problema seja o de encontrar professores qualificados e certificados. Mas não é uma tarefa impossível se for lançado um plano ambicioso e competitivo para formar e cativar esses talentos. Israel conhecida como a nação Start-Up tem a maior densidade de startups tecnológicas do mundo. Na década de 90 o governo lançou um ambicioso plano para por a informática em pé de igualdade com outras áreas nucleares. Resultado, o número de estudantes do ensino secundário que aprenderam a programar é praticamente o mesmo dos que estudaram física.

Mas lançar um plano ambicioso de ensino da informática não é sinónimo de povoar a sala de aulas com “Magalhães” ligados à Internet. Se este hardware não for complementado com programas curriculares rigorosos e bem estruturados a seu efeito pode ser mais noviço que benéfico.

Está na hora de lançar um audacioso plano de aprendizagem de informática nas escolas secundárias de forma a motivar e preparar os alunos para o futuro e não para o passado. Paralelamente, reforçar o número de vagas no ensino superior e profissional para satisfazer a procura do mercado de trabalho. Finalmente, será necessário incentivar que muitos licenciados, sem competências especializadas em informática, possam realizar algum tipo de reconversão rápida e possam aprender algo que possa fazer a diferença na altura de procurar emprego. Estamos a perder oportunidades únicas e não nos podemos dar ao luxo de o fazer.

Armando Vieira

quinta-feira, 26 de Julho de 2012

“O Primeiro Alquimista – A Idade do Bronze em Portugal”


Recensão crítica primeiramente publicada na imprensa regional portuguesa:

Uma boa história é quase sempre a melhor maneira detransmitir informações e destas ficarem na memória de quem as ouve ou lê. No quediz respeito à divulgação de conhecimento científico o caso não é, de todo,diferente. Muito pelo contrário.

De facto, uma forma eficaz de transmitir conhecimentocientífico e alcançar leitores a ele alheios, é a de conseguir conciliarinformação rigorosa, e cientificamente bem fundamentada, nos interstícios deuma história que seja propagável, de fácil transmissão oral, passível dealimentar uma boa conversa. Uma boa história pode mais facilmente despertarvocações do que o melhor manual formal.

O livro intitulado “O Primeiro Alquimista – A Idade doBronze em Portugal” da autoria de Sofia Martinez, e que acaba de ser publicado(Junho de 2012) na editora A Esfera dos Livros, é um excelente exemplo do queatrás se disse. Trata-se de uma surpreendente história de “amor e coragem”, umaficção literária cheia de suspense e mistério, compaginada com o conhecimento obtidode dados arqueológicos bem fundamentados (implícitos na bibliografia presenteneste livro e, por exemplo, aqui, aqui e aqui) sobre um povo do início da Idade do Bronze e que poderia, de formacredível, ter habitado há cerca de 3750 anos a Fraga dos Corvos, situada naactual aldeia de Vilar do Monte no concelho de Macedo de Cavaleiros. “Toda a fundamentação científica do romance baseia-se nas investigaçõese no trabalho terreno das equipas arqueológicas que nos últimos 10 anos temescavado na Fraga dos Corvos”, confirma Sofia Martinez.

O presente livro, é o segundo romance da autora(depois de “Caçador e a Curandeira – Aventura de Dois Irmãos na Idade da Pedra”,editado em 2006 nas Edições Silabo), baseado numa pesquisa histórica rigorosa. Apartir do conhecimento científico decorrente das escavações e levantamentosarqueológicos efectuados no arqueossítio da Fraga dos Corvos, a autora desenvolvea ficção que descreve o ambiente sócio-cultural, os mitos e tradições, asdivindades, a estrutura da aldeia, das suas cabanas, da olaria. Assim como amaestria em descobrir, recolher, reduzir os minérios que permitem obter efundir o bronze, bem como das “expressões de poder dos pequenos chefes quelideram essas comunidades” e que “passam pelo controlo da produção dos metais enomeadamente dos machados de bronze de gume largo que, regionalmente, sedesignam como de tipo de bujões”, como escreve na nota histórica, que finalizao livro, o Doutor João Carlos de Senna-Martinez, Professor de Arqueologia naUniversidade de Lisboa.

Ao longo de onze capítulos, que começam por “Um mergulho dequatro mil anos”, Sofia Martinez envolve-nos numa história fértil em surpresas edescobertas que prendem a leitura e nos cativam do princípio ao fim. Um livromuito bem escrito e excelente para uma primeira introdução aos usos e costumesdos povos da Idade do Bronze que viveram nos actuais territórios portugueses deTrás-os-Montes.



Sofia Martinez aquando do lançamento de "O Primeiro Alquimista" em Macedos de Cavaleiros.

Sobre a autora:

Sofia Martinez (n. 1977, Lisboa) é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Colaborou no suplemento literário juvenil DN Jovem entre 1992 e 1995. Participou com dois contos na recolha "Mosaico", dedicada a Manuel Dias pelos autores dessa obra coletiva. Em 2006 publicou um primeiro romance, "O Caçador e a Curandeira". Tem contos e poemas em várias gavetas. Vive em Bruxelas desde 2007, com o marido e os dois filhos.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

quarta-feira, 25 de Julho de 2012

EU is sleepwalking toward a disaster


Um conjunto de professores de Economia do Institute for New Economic Thinking produziu um documento que recomendo que vejam. E dizem, logo a arrancar: “We believe that as of July 2012 Europe is sleepwalking toward a disaster of incalculable proportions. Over the last few weeks, the situation in the debtor countries has deteriorated dramatically.”. Mas todos os partidos portugueses atuam como se não fosse nada com eles, ao bom estilo da banda do Titanic.
Leiam e pensem por vocês mesmos.

Recensão Crítica a “Por que Choramos Quando Cortamos uma Cebola?”


Recensão crítica primeiramente publicada na imprensa regional portuguesa.



Por que Choramos Quando Cortamos uma Cebola” é o título do livro de divulgação científica que as jornalistas de ciência Teresa Firmino e Filomena Naves, respectivamente dos jornais Público e Diário de Notícias, acabam de publicar (Julho de 2012) na editora A Esfera dos Livros.

Este livro “partiu de um convite da editora, a Esfera dos Livros, que aceitámos como uma aventura divertida”, diz Teresa Firmino. “Pensámos que era uma bela ideia e aproveitámos para ir atrás da nossa própria curiosidade”, acrescenta Filomena Naves.

As autoras guiam o leitor através de 130 perguntas que preenchem seis capítulos a saber: “Danças Cósmicas”, “Humores da Terra”, “Dos Vírus à Baleia-Azul”, “Mundanidades” “Humanos aos Microscópio” e “Uma Mão-cheia de Mitos e Outras Curiosidades”.

A escolha das perguntas “resultou de muitas conversas entre nós as duas e também com os nossos amigos, a quem pedimos para dizerem o que gostariam de ver respondido”, explica Teresa Firmino e acrescenta, “procuramos que o livro fosse diversificado e assim chegámos a 129 perguntas sobre ciência, mais uma, a da cebola que se encontra no título”. Para Filomena Naves “algumas perguntas estão aqui (neste livro) porque as suas respostas se nos revelaram através de histórias fascinantes. A verdade é que a ciência e a busca científica estão cheias de histórias fantásticas”. A escolha tem ainda a particularidade de apresentar ao leitor temas de interesse nacional, logo aumentando a proximidade com o leitor.

O livro é de leitura muito acessível, suportada por uma escrita debruada com algum humor e ironias despretensiosas, que cativa e que concilia o rigor científico com a simplicidade na terminologia. Diga-se que a actividade de jornalistas de ciência das duas autoras pressente-se ao longo de todo o livro. Se o jornalismo serve para nos ajudar a compreender o mundo, o estilo jornalístico como as autoras contam as histórias com que respondem às perguntas, facilita a compreensão do conhecimento científico que se pretende divulgar.

Há pelo menos três aspectos que fundamentam a qualidade da divulgação científica presente neste livro. Um, é o de as autoras darem voz a diversos investigadores portugueses que ajudam a responder às questões formuladas. Outro é a actualidade dos conteúdos presentes ao longo do livro. De facto, as autoras recorrem aos conhecimentos e investigações mais recentes (algumas já do primeiro trimestre deste ano!) para fundamentarem as respostas. Por fim, sublinhe-se a existência de uma bibliografia generosa que serve, simultaneamente, para remeter o leitor mais curioso para onde pode aprender mais, e para “ilustrar”, identificar, as fontes primárias e secundárias utilizadas pelas autoras na elaboração das respostas. Este último aspecto não deixa de se revestir de um certo didactismo, útil para quem quer saber por onde começar a obter informação sobre as novidades da ciência e tecnologia mundial.

As autoras parecem convidar o leitor para uma conversa agradável, ao longo de 130 assuntos sobre o Universo em que vivemos. Que leitor? “Este livro é para o grande público, dos 9 aos 99 anos”, indica Teresa Firmino. “Escrevemo-lo”, desvenda Filomena Naves, “de uma forma simples e acessível e, pensamos que interessante, justamente com o intuito de tornar apelativa a sua leitura e de despertar o interesse pela ciência e pelas questões que são objecto da sua busca”.

Um excelente livro de divulgação de ciência para todos, uma brisa refrescante no panorama da divulgação científica portuguesa.

Uma agradável leitura para as férias, mas são só.

António Piedade
Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

Portugal na vanguarda da tecnologia de visualização médica

O Yscope é uma tecnologia que permite seleccionar e manipular imagens médicas no bloco operatório, ao estilo do filme Minority Report (mas sem a necessidade de luvas especiais para detectar os movimentos das mãos). Uma ideia que nasceu no Hospital de Santa Maria e cresceu na empresa YDreams.



(clique para ampliar)

É apresentado esta sexta-feira, às 11h na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, piso 3 do Hospital de Santa Maria.

História


Novo post de Ângelo Alves (na imagem a Biblioteca Municipal de Cantanhede)

«Neste país sem olhos e sem boca/ hábito dos rios castanheiros acostumados»

Ruy Belo

«A bicicleta foi o foguetão que permitiu a minha entrada no espaço»
François Mitterrand

Desço a ladeira da fonte, no sentido de Cantanhede, com a sensação de que percorro este caminho pela primeira vez; o baldio ontem inculto e hoje lavrado, o adventício das pegas e dos corvos, que crocitam nos teixos e nos ciprestes; cada dia é um dia novo. Vou aos esses pela fímbria da estrada, sempre encostado à direita. Uma vertigem… Caio no pretérito, nos tempos da monarquia. A monarquia absoluta e a constitucional: atravesso séculos de injustiça, vejo o povo miserável, esfomeado, doente, escravo, e o rei e seus acólitos que jogam xadrez, valsam, comem com as suas mãos untuosas, entre outros prazeres apetitosos. O povoléu cobarde. Vai de praia a praia a matar, espoliar, e roubar em nome de sua majestade. Continuo pela orla da estrada. Estou no fim da monarquia com as algibeiras vazias. Depois de tanta epopeia e ventura, o governo faz orçamentos falsos, pede empréstimos e o Banco de Portugal está falido. Deixo D. Carlos e D. Luís Filipe, esticados, a meio da viagem. E deixo o último rei. Na Primeira República vejo a mesmíssima coisa: o primeiro presidente eleito por sufrágio universal é assassinado, sucedem-se crises económicas, instabilidade, e desemprego. Dobro alguns anos. Passo pelo Estado Novo e encontro Salazar a preparar endechas para as mulheres católicas e a ler Mussolini: «é necessário existir pobres a trabalhar para os ricos». Enquanto nas colónias se derrama sangue, no Continente o povo morre tuberculoso. As eleições são fraudulentas e Humberto Delgado jaz morto. Estado ético? Neste caso eu sou um anjo. Quantos relatórios sobre o caso? Nenhum. Atravesso lânguido a rua 25 de Abril, em Cantanhede, sentindo no ar o odor dos cravos. Chego à democracia ou ao neo-liberalismo - a máscara de nova ditadura. Ainda ontem 70 por cento das pessoas era fascista, hoje 70 por cento é democrata. A marcha, liderada pelo trio PS, PSD e CDS, conduz o povo à ruína, à falência, à ajuda externa sem que ninguém antes tenha dado por isso. José Miguel Júdice, um neoliberal, define assim democracia: «é, etimologicamente, o governo do povo, e afinal o sistema em que a sociedade gera em si mesma, intrinsecamente, os mecanismos políticos de expressão da sua vontade». O povo está viciado em crédito, vive obcecado por dinheiro e pela promoção própria e dos seus familiares, e os políticos limitam-se pura e simplesmente a segui-lo. Povo sem cultura, sem coragem e sem coração. A cultura per se é estéril – vejam-se os casos de Richard Strauss e a sua ligação ao nazismo, de Céline, de Hamsun…

Desemboco no átrio da Biblioteca, a copa da palmeira rebenta no céu, as folhas glaucas morrem de velhas, reparo nelas pela primeira vez, ao fim de anos. Dois homens altos saem da Biblioteca:

- Isto é um país de ladrões! Andamos a roubar-nos uns aos outros.

Caio no presente. Entro na biblioteca. Sinto que piso a Lua. Deixei Molière, Tchekhov, Shakespeare e Brecht à entrada. Não há palco para eles. Sinto que piso a Lua. O cérebro, o progresso e a vaidade. Sento-me no sofá vermelho. Abro um jornal diário: o Jean Valjean, de Os Miseráveis, de volta! Alguém roubou um pão num supermercado e foi condenado com celeridade. Um ministro, simultaneamente cristão e maçónico, doutor sem estudos, regozija-se com o feito: «Há justiça, hoje.». Mas será que Vítor Hugo não escreveu Os Miseráveis? Os processos de quem desbarata e forra milhões andam em bolandas. Ingénuo Jean Valjean! Não tens a astúcia dos políticos. Estes, quando confrontados com as dívidas, respondem: “Abaixo de...” Porque sabem que o povo não sabe, porque é uma bagatela, porque hoje é “abaixo de” e amanhã será “abaixo de”. Leio que as bibliotecas públicas portuguesas estão 86% abaixo do valor corrente na Europa no que toca a aquisições de livros. Leio que os pobres vão pagando as dívidas dos ricos. Esta troika em nada fica atrás da outra (Estaline, Zinoviev, Kamenev), em medidas draconianas. Os chefes dos municípios abismados com a crise, mas neles há dirigentes a pontapé, alguns deles recebendo dois salários mensais. Já agora não terão um gabinete para mim, eu, que sou iletrado, filho de iletrado e cavador? Não, porque não sou astuto. O caminho é o do passado.

Eu sou mais pequeno do que o Sol. Emudecer? – Nunca. A gota mais pequena tem voz na vaga do destino. A poesia, sempre a poesia. Eles preferem falar no milhão. Expoente seis na base dez, qualquer coisa desse tipo. Mas nós perdemos a noção de ordem de grandeza, já não sabemos sequer fazer contas. Eles lá saberão as linhas com que se cozem e nos cozem. É o fim. Bicicleta e Biblioteca abandonadas, dois atavismos. Meio e fim. Tremo com a ideia do eterno retorno.

Leio, neste blogue, António José Saraiva - “Este mundo é duro: haverá sempre inquisidores e fogueiras”- e não posso estar mais de acordo, no que se refere à história de Portugal. O que não posso também é negar a barbárie e apagar da memória os autores das fogueiras. A justiça está, para mim, acima do talento e da sabedoria. Ezra Pound foi um grande poeta, mas não posso ignorar o seu apoio a Mussolini, assim como o apoio de Céline ao nazismo. Não posso ignorar que o fascismo, no meu país, foi o responsável pela divisão da sociedade em Intelligentsia e o resto. Desta Intelligentsia, uma minoria, não saiu ninguém que acrescentasse valor ao país (António José Saraiva foi uma das poucas excepções). Um país que não lê é um país criminoso, escreveu Joseph Brodsky. O fascismo, durante décadas, foi responsável pela iliteracia. Porquê? Porque o povo tinha de alimentar os ditadores (o meu pai teve muitas refeições de uma só sardinha).

Contudo, há, hoje, oportunidades. Alguns meninos apoderaram-se da frase do papagaio de Raymond Queneau «Eles falam, falam, mas não fazem nada» - leiam “Zazie dans le métro” – e são, hoje, jornalistas, cronistas, humoristas, enfim… Por vezes dá-me ganas de arranhar o rosto como Juliette Gréco quando grita J’Arrive, tantas e tão grandes são hoje as injustiças.

Ângelo Alves