domingo, 25 de novembro de 2012

Uma moda que não é pedagogia, é pseudo-pedagogia

Escrevo este texto a partir de comentários de leitores a outro texto (Obviamente, já lá estão!), centrado num problema de que tenho vindo a dar conta neste blogue e noutros contextos. Problema que percebo com manifestações cada vez mais graves: a recolha de dados privados e íntimos dos alunos e das suas famílias, a que se segue a sua exposição pública.

Se alguns professores e encarregados de educação entendem que já se foi longe demais, que há muito se ultrapassaram os limites éticos e até legais; outros não vêem qualquer problema nessa situação, ou não pensaram nela; e uns ainda outros, percebendo o problema, pelo menos em alguns dos seus contornos, optam por responder ao que lhes é solicitado.

Para explicar o que afirmo concentro-me na recolha de dados "sócio-biográficos", através de ficha, questionário ou inquérito, a cargo dos directores de turma, os quais (erradamente) fundamentam o Projecto Curricular/de Trabalho de Turma.

Imagino que os primeiros sujeitos a que aludi não tenham a vida facilitada, os professores sentirão a necessidade de justificar-se junto dos colegas e do director; os encarregados de educação sentir-se-ão na obrigação de explicar porque devolvem os instrumentos não preenchidos. Perante uma prática instalada e não contestada, pode presumir-se que temerão ser mal compreendidos e que a sua decisão possa ter consequências negativas. Os segundos contactarão, sem sobressaltos, com os tais instrumentos, os professores distribui-lo-ão e trabalharão os dados como se de outros dados quaisquer se tratasse; os encarregados de educação prestarão, indiferentemente, as informação solicitadas ou dirão aos seus educandos para o fazer, talvez até acreditando que é para o bem deles. Os terceiros, numa atitude de conciliação, procurando não perturbar o que está instalado, para não serem mal interpretados ou para evitarem problemas… passam, os professores, os instrumentos e, os encarregados de educação, respondem-lhe, desviando-se estrategicamente de aspectos delicados, incómodos… as mais conscienciosas, tentado não mentir, omitirão informações ou usarão os subterfúgios que têm mais à mão.

Tendo em conta estas diversas posições, reforço o que dois leitores referiram:

1. O uso dessas fichas, questionário ou inquéritos “socio-biográficos”, ainda que de uso generalizado (em todas ou praticamente todas as escolas do país), indiscriminado (igual para todos os níveis de escolaridade, alunos…) e repetido (todos os anos ou em todos os inícios de ciclo) não passa duma prática acrítica que se instalou com toda a propriedade. Ainda que se tenha instalado por boas razões (conhecer melhor os alunos para melhor os ensinar) não tem nenhuma sustentação científica nem ética.

2. Não há qualquer indicação da tutela que as apresente como obrigatórias. Mas, ainda que houvesse, têm as escolas e os professores o dever de ponderar nas suas decisões o que é certo sob o ponto de vista científico e ético.

3. Alguns documentos normativos e legais, mesmo da tutela, acautelam o direito à reserva da vida privada dos alunos (em texto posterior listarei os documentos de que tenho conhecimento que contemplam este aspecto).

De tudo isto decorre que se estas fichas, questionários ou inquéritos forem suspensos não acontece nada de mal a ninguém, pelo contrário, suspende-se uma prática absurda, uma "moda", que nem sequer é inofensiva: é çesiva em termos individuais e contraditória aos propósitos educativos da Escola

Trata-se de uma "moda" que, ainda que se faça passar por pedagógica, é com todas as letras pseudo-científica.

2 comentários:

  1. O nome " sócio-biográfico" é assaz pomposo. Dá um ar pseudo-intelectual de quem analisa a vida privada dos alunos com propósitos pretensamente sociológicos. Deve ser por causa destas pompas e circunstâncias que Portugal nunca se afasta da cauda da Europa.

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  2. Dadas as proporções que a "praga" tomou, sem que se lhe conheçam quaisquer virtudes (pelo menos da minha parte...) na resolução de qualquer problema (de que eu tenha tido conhecimento em quase três décadas de ensino, sem interrupção), será exagero chamar-lhe antes: "antipedagogia"?

    Bem haja Senhora Professora, além do mais por me estar a facilitar a posição que, seguramente, vou ter que defender em próximos conselhos de turma, dentro de quatro semanas.

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