segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Nunca o ocultei porque cumpri sempre

Amavelmente, o nosso leitor João Boaventura enviou-nos uma entrevista do jornalista Pedro Rolo Duarte ao escritor Vergílio Ferreira, que havia sido seu professor de Português no Liceu Camões, em Lisboa. Dessa entrevista, feita há mais de duas décadas, reproduzo extractos que incidem no ensino, tomando a liberdade de mudar o título.

(...) Fez em Março 15 anos que morreu o escritor Vergílio Ferreira. Foi meu professor – infelizmente, menos tempo do que eu (hoje...) gostaria –, tornei-me seu admirador tarde demais, mas ainda a tempo de o entrevistar para a revista K, em Abril de 1991. A entrevista, que o surpreendeu porque não se lembrava do meu nome e foi confrontado com um ex-aluno, em vez de um jornalista (...) Mas eu lembro-me bem dele: caminhava pelos corredores de mãos atrás das costas, ligeiramente curvado para a frente e era assim que entrava na sala, sem um sorriso, uma palavra, até que todos estivessem sentados e calados. Então começava a correcção do trabalho de casa e mais uma aula densa, fria, chata, cheia de gramática e apontamentos e perguntas a que nunca sabíamos responder. Uma vez por outra, chegava um "ponto". Uma vez por outra, uma aula sem matéria para dar, só com o professor tentando o diálogo, falando das árvores da Praça José Fontana ou de um livro que devíamos conhecer. Naquela turma não gostávamos muito do professor Vergílio Ferreira e comentávamos o facto de ser público - estava escrito na Conta Corrente - que ele detestava dar aulas. Detestei essa ideia e, tendo os seus livros em casa, comprometi-me a jamais lhes tocar. Até que um dia, há poucos anos, quebrei o compromisso e abri ao acaso um volume da Conta Corrente (...) Comecei a ler os romances, os romances todos, tudo, e escrevi-lhe uma carta, que nunca mandei, a pedir desculpa por não o ter lido antes. E agora estou à frente do escritor a contar-lhe esta história e a pedir-lhe, humildemente, que comente a minha própria atitude. Diz que "mais vale tarde do que nunca" e sorri, como só um professor sorri. Sentado num cadeirão castanho, rodeado de livros por todos os lados, o professor fala:

É talvez a primeira vez que alguém dá essa ideia de mim, enquanto professor. Têm-me referido alguma austeridade, um homem de poucas palavras, mas a isso é contraposto sempre o professor afável e tolerante. Não me lembro de pretender ser rigoroso. Havia, é verdade, uma coisa que me incomodava muito, que era o aluno distraído, a conversar para o lado - mas sempre que o detectava, atribuí a mim a culpa, entendia que era uma deficiência, sentia-me vexado, diminuído. A minha reacção nunca era castigar - mas dizer coisas que interessassem o aluno, tentar segurá-lo e captar-lhe a atenção. 

K: Mas era muito rigoroso, por exemplo, com a manutenção do Caderno Diário, coisa que rapazes com 17 e 18 anos já achavam que era exclusivamente da sua conta...

Ah, mas isso eram as regras do jogo. Eu tinha o hábito de, no fim de cada período, folhear os cadernos dos alunos, e acho que estava certo: se um aluno não tem o caderno diário em dia isso significa que está ausente das matérias, que não se interessou. O caderno diário é útil no dia-a-dia. Mas, sinceramente, nunca me julgaram assim tão rigoroso, embora ache natural que, se o senhor antipatizava comigo, não lesse a obra do escritor. Não sei o que hoje pensa do que pensava, mas presumo que, olhando da sua idade adulta para essa idade juvenil, algo se tenha alterado. Eu sempre fui contra o professor mandão, sempre descontente, marcando faltas de castigo, sempre fui contra tudo isso.

K: Embora detestasse dar aulas e assumisse essa opinião publicamente...

Olhe, nunca o ocultei porque cumpri sempre. Conheço professores que diziam gostar imenso de dar aulas - e eram professores que não davam as matérias, não faziam exercícios, nada. Ora, como eu tinha a consciência tranquila de cumprir, de ensinar como podia o que tinha de ensinar, estava à vontade para dizer que não gostava de dar aulas, porque não gostava mesmo! Estou, por outro lado, convencido de que, se me pusessem perante as duas hipóteses - ser apenas escritor ou ser escritor e ter uma segunda actividade, por exemplo, ensinar - eu preferiria sempre a segunda. Dedicar-me apenas à actividade literária significaria afogar-me na escrita, na leitura, perder contraste. Assim, depois de uma manhã de aulas, sentia-me livre para começar outra coisa e a escrita saía mais original, mais virginal. Se vivesse de manhã à noite mergulhado na tarefa literária, aquilo que escrevesse não teria a mesma vitalidade.

K: Então foi importante, para a carreira do escritor, a actividade do professor?

Sem dúvida que sim. Sabe, quando era rapaz era melhor aluno a ciências do que a letras. Fui para letras porque tinha aprendido latim no Seminário e resolvi capitalizá-lo, pô-lo a render, tirando um curso que por outro lado eu presumia dar-me rapidamente uma colocação. Não escolhi mal. Hoje, possivelmente, teria optado por outra secção, talvez filosofia, ou românicas. Mas deixe-me dizer-lhe que tive prazer em algumas aulas, em alguns momentos. Em Évora, por exemplo, dei literatura todos os anos, e escolhia sempre uma aula por semana para aquilo a que chamava paleio, conversa. Nessa aula, eu falava-lhes de literatura contemporânea, arte, levava-lhes álbuns com quadros de Picasso, Matisse, e era estupendo... Já em Bragança, onde tinha estado um ano, na altura em que os americanos estavam na berra - o John dos Passos, o Steinbeck, entre outros - eu dava a conhecer esses nomes, essas obras. A um moço de Bragança, que muitas vezes nem sequer tinha visto o mar, falar-lhe de um autor que ele não conheceria tão depressa de outra forma era uma maravilha. Eu não gostava realmente de dar aulas, mas às vezes agradavam-me esses momentos, sobretudo quando sentia que os alunos estavam a abrir os olhos... isso é comovedor, é emocionante... Agora, ir para uma sala dizer 'ó menino, o sujeito, o predicado, o complemento’, é realmente uma chatice! É necessário, mas há coisas absolutamente necessárias que se não gosta de fazer, não é?

K: Tem a noção de que o seu nome, no tempo em que estava no Camões, se confundia com o próprio Liceu?

Não, de maneira nenhuma. De resto, a pensá-lo teria sido já muito antes, quando estava em Évora, numa altura em que o meu nome já era conhecido.

K: Qual era a relação que estabelecia com os seus alunos?

Bom, é outra matéria-prima, a de Lisboa, muito diferente da de Bragança ou até de Évora. A cultura faz-se com o ambiente, o ambiente familiar, um filme que se vê, uma conversa no café, enfim, o mundo exterior. É evidente que um moço de Lisboa é mais desenvolvido, mentalmente, e por isso mais fácil de ensinar.

K: Quando saiu o Até ao Fim, depois do Para Sempre, explicou os seus títulos referindo-se à degradação e perda dos valores por parte da juventude. Não consigo perceber a relação, tanto mais que já tinha deixado de dar aulas, já tinha abandonado esse convívio directo com os alunos... 

Bom, deixei de dar aulas mas não deixei de estar atento ao que se vai passando. A verdade é que, quando era miúdo, eu e as pessoas da minha geração tínhamos pais - eu tinha os pais emigrados, mas tinha umas tias... que nos impunham os seus valores - e nós não discutíamos. Um miúdo não discute, é até certo ponto passivo e, no que diz respeito a valores que o transcendem, ainda discute menos. Mandam-no ir à missa e ele vai. A minha geração ainda encontrou determinados valores - por exemplo, políticos. Não podemos esquecer que o comunismo teve extremo peso na mobilização de muitos jovens. Ora, quando se verificou ser o comunismo um logro - o maior do século vinte - todos os mitos se esvaíram. Ele era o eixo central de todos os valores. Em face de quê, hoje, um pai impõe um valor a um filho, se ele os não tem? Sê honesto - mas sê honesto porquê? O rapaz não pergunta mas sente. A juventude de hoje está desarmada de valores que a preparam para a vida. Foi isso que quis dizer.

K: É isso que ainda pensa?

Bom, eu defendo sempre como último valor - porque é o primeiro de todos - o homem e a vida. E pressinto que esse valor, da defesa do homem e da vida, começa a apontar genericamente para o que se chama ecologia e onde se inclui evidentemente a defesa da vida. Pressinto isso até nesse movimento extremamente equívoco que é o pacifismo, a que não adiro (embora, até por preguiça, seja bastante pacífico...).

9 comentários:

  1. Há lições extraordinárias.
    Uma coisa que, por vezes, se faz com ligeireza é mandar preencher uns inquéritos aos alunos em que se lhes pede para eles indicarem a disciplina preferida. E há depois quem se sinta nos píncaros caso a "sua posição" seja a primeira ou ande lá perto. Compreende-se...
    No entanto, já tenho defendido que inquéritos desses talvez devessem ser passados aos alunos 8 ou 10 anos depois de terem sido ensinados pelos seus professores.
    Mas a pedagogia "quer-se na hora", não é?
    E pelas palavras dos meninos, que se tomam como (muito) objetivas. São os tempos.
    Outros virão. Como serão não o sei eu.

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  2. Professora Helena Damião;

    Tenho lido muito sobre os Professores Bento de Jesus Caraça e Sebastião e Silva. Eles são para mim o melhor que este país alguma vez teve como Professores competentes e dedicados.
    Nos seus escritos, nunca me apercebi que eles tivessem a opinião de Virgílio Ferreira, quando ele nos diz "É evidente que um moço de Lisboa é mais desenvolvido, mentalmente, e por isso mais fácil de ensinar."

    Penso mesmo que essa opinião só pode existir e se compreende numa pessoa que não gostava de ensinar, e mais, porventura reflecte bem as limitações pedagógicas que deveriam existir em Virgílio Ferreira.

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  3. Professora Helena Damião;

    Como é que a Senhora Professora me poderá explicar o facto de na região mais pobre de Portugal – Mértola - e num raio de 15Km terem saído os dois grandes matemáticos portugueses do Século XX, de renome internacional, o Professor Sebastião e Silva e o Professor Aureliano Mira Fernandes?

    Que estranho não é?! Se atendermos ao que diz Virgílio Ferreira!!
    Se assim fosse, eu muito justamente, poderia sugerir que aqui talvez se deva ao ambiente onde nasceram. E repare no que escreve o Professor Sebastião e Silva no seu compêndio de álgebra “(...) por exemplo, alguns pastores contam as ovelhas de um rebanho por meio de entalhes no cajado.”

    E então afirmava que foi o facto do jovem Sebastião e Silva ter-se apercebido, em criança e no contacto directo com algum pastor (inacessível aos moços de Lisboa), do significado dos entalhes do cajado que lhe desenvolveu a capacidade excepcional para a aprendizagem!!!

    Ora, eu não acredito que assim seja, simplesmente porque discordo do que diz Virgílio Ferreira.
    A facilidade de ensinar não se encontra desprendida da inteligência do individuo que recebe a instrução, e esta (a inteligência) está em toda a parte, e em proporções iguais creio eu.

    Cordialmente,

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  4. Professor José Batista de excelente, patrimônio vossa palavra.

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    1. Estimada Cláudia da Silva Tomazi

      Não tenho a mais leve certeza de merecer a generosidade das suas palavras.
      E por vezes, confesso, não entendo os textos que nos traz.
      Mas sinto haver neles uma bondade funda e um respeito por todos, que me faz ter um grande carinho por si.

      Queira desculpar a franqueza do lho dizer assim.
      Porque é assim que o sinto.

      E por isso lhe sou grato.

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  5. Professora Helena Damião;

    Existem muitas dificuldades que caracterizam os meios aldeões. É verdade.

    Essas dificuldades, são na maioria das vezes de ordem material, influem e ainda hoje são impeditivas do sucesso escolar de muitas crianças. É essa a realidade que não se pode negar.

    Outra coisa diferente é considerar que essa crianças se encontram do ponto de vista mental menos capacitadas para a aprendizagem e consequentemente tornam o ensino mais difícil a quem o exerce. Eu penso que isso não é verdade.
    A dificuldade para ensinar reside na maior ou menor imaginação do professor e não nas crianças.

    Transcrevo-lhe uma parte de um texto que li no livro “O Sincretismo Infantil – de J. Dias Agudo (B. Cosmos) para melhor se compreender.

    “Começamos as lições pela escolha dum centro de interesse. Pelo tempo e pelo lugar, achamos os frutos muito a feição. Era a época das uvas, da faina das vindimas. Falámos das vinhas, dos cachos de uva, dos lagares, do vinho, da água-pé, própria da região. Demos conselhos de ordem higiénica sobre o aproveitamento das uvas e, em geral, de todos os frutos, como alimento.
    Apontamos os inconvenientes do álcool (…)
    - «Reparem agora que nós dissemos que A vinha dá uvas. Como os meninos hão-de gostar de ver isto escrito num papel ou no quadro preto, eu vou escrever ao quadro, para todos verem, «A vinha dá uvas». Esta frase constituirá a primeira lição que os meninos avo apreender a ler e a escrever, e estou certo de que hão-de ficar contentes porque o ler é muito preciso»”

    Esta transcrição insere-se numa experiência pedagógica em que se ensinava as crianças a leitura pelo método global, tendo em conta as vantagens desta técnica de aprendizagem segundo o autor. Mas esta técnica dá mais trabalho ao Professor, ou deverei dizer é mais difícil de ensinar para o professor?!!! ainda que os benefícios para a criança sejam evidentes no futuro.

    Acredito, e este exemplo mostra que no ensino as coisas só são mais difíceis (ou dão mais trabalho) naqueles professores que não vivem a sua profissão com 'alma'.

    Cordialmente,






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  6. Estimado Leitor Ildefonso Dias

    Certamente, foi o profundo conhecimento das circunstância em que exerceu a docência que levou Vergílio Ferreira a afirmar que existem turmas em que é mais fácil ensinar e turmas em que essa tarefa é mais difícil.
    Localizando a questão apenas nos alunos (sendo que fazê-lo, secundariza outras variáveis importantes), podemos considerar o seu nível cultural, a sua maturidade, o seu domínio de vocabulário solicitado pela escola, o seu interesse à partida, a sua preparação prévia, etc. Cabe ao professor tudo fazer para superar os maiores obstáculos a cada um destes aspectos, o que, evidentemente, dá trabalho. Penso que foi o que Vergílio Ferreira quis dizer. E como afirmou por diversas vezes, isso nada tem a ver com a "vocação" para ser professor e com o "gosto" de o ser. Um professor que não se sinta especialmente "chamado" para a profissão, e/ou que não tenha uma "alma" especial para a exercer pode ser eficaz, ou seja, pode levar os alunos a aprender bem.

    Quanto à questão da aprendizagem contextualizada na vida próxima dos sujeitos, trata-se de uma concepção que levanta inúmeros problemas, que, em texto, poderei explicar melhor. Apenas direi, por agora, que os métodos globais do ensino da leitura e escrita não só dão mais trabalho ao professor (o que é de menor importância), como não se revelam adequados para a maior parte dos alunos. Sobre o assunto há investigação que não deixa grande margem para dúvidas.

    Cordiais saudações
    Maria Helena Damião

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  7. Professora Helena Damião;

    A explicação adicional, que eventualmente haveria necessidade de dar para melhor compreender as palavras de Vergílio Ferreira, foram agora escritas pela Senhora Professora Helena Damião no seu comentário (muitas vezes tornam-se necessárias, se se atender a que se trata de um contexto de uma entrevista).

    Obrigado. Cumprimentos Cordiais.

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