sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Entender a crise política que evidentemente não pode ter fim


Não é nosso costume republicar artigos da imprensa escrita, mas este, de Nuno Garoupa, Professor de Direito da Universidade do Illinois, EUA, saído ontem no Diário Económico, merece ampla divulgação:

"(l) Evidentemente que o Governo está mais que amortizado. É um cadáver político que vai de pacote de austeridade em pacote de austeridade, condenado a fracassar e ao desastre.

É um Governo que, tendo bastantes ministros competentes e empenhados, morre por uma liderança política digna de jotinha. É evidente para todos que, além dos "senadores" habituais (sempre tão agradecidos pelas abençoadas "sinecuras"), o primeiro-ministro não tem a densidade e a estatura para o lugar que ocupa Ao mesmo tempo, o seu círculo político é absolutamente incapaz. Em Junho de 2011, o Governo foi mandatado para reformar Portugal, aumentar a eficiência do gasto público e reduzir o endividamento da economia. Até agora simplesmente aumentou a carga fiscal e matou a economia.

(2) Se o Governo é um absoluto desastre, o PS é pior. Irresponsável e embalado pela demagogia que a sociedade portuguesa (misteriosamente) consente, o PS não apresentanenhuma alternativa. O Governo aumenta impostos porque tem de financiar os tais quatro mil milhões de euros que não consegue cortar na despesa. O PS simplesmente não explica onde vai encontrar esse dinheiro (porque feria exactamente o mesmo como aliás fez o Governo Sócrates). Já o PC e o BE sabem muito bem que, enquanto Portugal estiver na zona euro, o que andam a dizer é uma fantasia pura. Com a TSU, descobrimos que a generalidade dos portugueses prefere a mentira e a demagogia em vez de exigir responsabilidade e rigor. Assim vamos longe.

(3) Nesta altura é óbvio que o PS e o PSD-CDS são incapazes de dar volta à crise. Um interessante artigo no El Pais da semana passada explicava porquê. O ponto central é que temos uma classe política dita predatória, isto é, uma classe política que utiliza o Estado para maximizar as suas rendas privadas sem grande prestação de contas e com bastante impunidade. Um Estado pensado, desenhado e estruturado ao serviço dos interesses pessoais dos políticos. Como aconteceu?

Para evitar a instabilidade e a crise institucional da l.ª República, a democracia instalou um oligopólio político completamente fechado que opera em cartel, equilibrando os interesses instalados dos vários lóbis.

Sem uma verdadeira contestação externa e operando em circuito fechado, mas como dinheiro fácil dos fundos europeus e do crédito barato, o oligopólio corrompeu-se. O Estado social deu lugar ao Estado dos interesses e das rendas. O problema é que, para sair da crise, o Estado dos interesses e das rendas tem que ser parcialmente, ou mesmo totalmente, desmantelado. Desmantelar esse Estado é negar a essência da própria classe política predatória. Consequentemente não pode haver solução para a crise económica e financeira sem uma ampla reforma do sistema político. Desse ponto de vista, o completo e absoluto silêncio dos três principais partidos sobre o tema não surpreende."

Nuno Garoupa

3 comentários:

  1. Efectivamente o retrato desenhado por Nuno Garoupa é fiel e resume bem o que Portugal conseguiu (des)construir em 38 anos de proto-democracia.
    Atrevo-me a corrigir as palavras do autor relativamente a que a solução não passa por nenhum dos actuais 6 partidos com representação parlamentar. Tome-se a propósito a incapacidade da esquerda propor a redução das subvenções estatais aos partidos...!!!
    E no entanto, em democracia a renovação tem necessariamente de ser realizada com os partidos políticos. Todavia, os actualmente existentes, dominados pela máquina partidária de favores e compadrio, é incapaz.
    As pessoas que fazem política em Portugal têm de mudar, para outras que sendo também políticos, possuam: integridade moral, conhecimentos históricos e técnicos e acima de tudo já sejam ricos, para não serem tentados em roubar mais algumas esmolas, de um país miserável.
    Esta vontade mesquinha de ser rei dos miseráveis, releva bem, a pobreza de ambição destes políticos! Será assim tão difícil perceber que se pode "roubar" mais numa economia desenvolvida do que numa miserável?
    Estou em crer que nem para uma aritmética tão básica, estes políticos são capazes.

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  2. Sim, merece toda a divulgação.

    E com que gosto eu o assinaria, caso o transformassem numa petição a exigir as necessárias modificações no nosso sistema político, que julgo muito pouco democrático, especialmente no que concerne à eleição dos deputados que deviam ser representantes das pessoas, e não dos chefes partidários.

    Mas isso é pedir muito, eu sei.

    E no entanto é o que sinto que devemos exigir.

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