quarta-feira, 25 de julho de 2012

História


Novo post de Ângelo Alves (na imagem a Biblioteca Municipal de Cantanhede)

«Neste país sem olhos e sem boca/ hábito dos rios castanheiros acostumados»

Ruy Belo

«A bicicleta foi o foguetão que permitiu a minha entrada no espaço»
François Mitterrand

Desço a ladeira da fonte, no sentido de Cantanhede, com a sensação de que percorro este caminho pela primeira vez; o baldio ontem inculto e hoje lavrado, o adventício das pegas e dos corvos, que crocitam nos teixos e nos ciprestes; cada dia é um dia novo. Vou aos esses pela fímbria da estrada, sempre encostado à direita. Uma vertigem… Caio no pretérito, nos tempos da monarquia. A monarquia absoluta e a constitucional: atravesso séculos de injustiça, vejo o povo miserável, esfomeado, doente, escravo, e o rei e seus acólitos que jogam xadrez, valsam, comem com as suas mãos untuosas, entre outros prazeres apetitosos. O povoléu cobarde. Vai de praia a praia a matar, espoliar, e roubar em nome de sua majestade. Continuo pela orla da estrada. Estou no fim da monarquia com as algibeiras vazias. Depois de tanta epopeia e ventura, o governo faz orçamentos falsos, pede empréstimos e o Banco de Portugal está falido. Deixo D. Carlos e D. Luís Filipe, esticados, a meio da viagem. E deixo o último rei. Na Primeira República vejo a mesmíssima coisa: o primeiro presidente eleito por sufrágio universal é assassinado, sucedem-se crises económicas, instabilidade, e desemprego. Dobro alguns anos. Passo pelo Estado Novo e encontro Salazar a preparar endechas para as mulheres católicas e a ler Mussolini: «é necessário existir pobres a trabalhar para os ricos». Enquanto nas colónias se derrama sangue, no Continente o povo morre tuberculoso. As eleições são fraudulentas e Humberto Delgado jaz morto. Estado ético? Neste caso eu sou um anjo. Quantos relatórios sobre o caso? Nenhum. Atravesso lânguido a rua 25 de Abril, em Cantanhede, sentindo no ar o odor dos cravos. Chego à democracia ou ao neo-liberalismo - a máscara de nova ditadura. Ainda ontem 70 por cento das pessoas era fascista, hoje 70 por cento é democrata. A marcha, liderada pelo trio PS, PSD e CDS, conduz o povo à ruína, à falência, à ajuda externa sem que ninguém antes tenha dado por isso. José Miguel Júdice, um neoliberal, define assim democracia: «é, etimologicamente, o governo do povo, e afinal o sistema em que a sociedade gera em si mesma, intrinsecamente, os mecanismos políticos de expressão da sua vontade». O povo está viciado em crédito, vive obcecado por dinheiro e pela promoção própria e dos seus familiares, e os políticos limitam-se pura e simplesmente a segui-lo. Povo sem cultura, sem coragem e sem coração. A cultura per se é estéril – vejam-se os casos de Richard Strauss e a sua ligação ao nazismo, de Céline, de Hamsun…

Desemboco no átrio da Biblioteca, a copa da palmeira rebenta no céu, as folhas glaucas morrem de velhas, reparo nelas pela primeira vez, ao fim de anos. Dois homens altos saem da Biblioteca:

- Isto é um país de ladrões! Andamos a roubar-nos uns aos outros.

Caio no presente. Entro na biblioteca. Sinto que piso a Lua. Deixei Molière, Tchekhov, Shakespeare e Brecht à entrada. Não há palco para eles. Sinto que piso a Lua. O cérebro, o progresso e a vaidade. Sento-me no sofá vermelho. Abro um jornal diário: o Jean Valjean, de Os Miseráveis, de volta! Alguém roubou um pão num supermercado e foi condenado com celeridade. Um ministro, simultaneamente cristão e maçónico, doutor sem estudos, regozija-se com o feito: «Há justiça, hoje.». Mas será que Vítor Hugo não escreveu Os Miseráveis? Os processos de quem desbarata e forra milhões andam em bolandas. Ingénuo Jean Valjean! Não tens a astúcia dos políticos. Estes, quando confrontados com as dívidas, respondem: “Abaixo de...” Porque sabem que o povo não sabe, porque é uma bagatela, porque hoje é “abaixo de” e amanhã será “abaixo de”. Leio que as bibliotecas públicas portuguesas estão 86% abaixo do valor corrente na Europa no que toca a aquisições de livros. Leio que os pobres vão pagando as dívidas dos ricos. Esta troika em nada fica atrás da outra (Estaline, Zinoviev, Kamenev), em medidas draconianas. Os chefes dos municípios abismados com a crise, mas neles há dirigentes a pontapé, alguns deles recebendo dois salários mensais. Já agora não terão um gabinete para mim, eu, que sou iletrado, filho de iletrado e cavador? Não, porque não sou astuto. O caminho é o do passado.

Eu sou mais pequeno do que o Sol. Emudecer? – Nunca. A gota mais pequena tem voz na vaga do destino. A poesia, sempre a poesia. Eles preferem falar no milhão. Expoente seis na base dez, qualquer coisa desse tipo. Mas nós perdemos a noção de ordem de grandeza, já não sabemos sequer fazer contas. Eles lá saberão as linhas com que se cozem e nos cozem. É o fim. Bicicleta e Biblioteca abandonadas, dois atavismos. Meio e fim. Tremo com a ideia do eterno retorno.

Leio, neste blogue, António José Saraiva - “Este mundo é duro: haverá sempre inquisidores e fogueiras”- e não posso estar mais de acordo, no que se refere à história de Portugal. O que não posso também é negar a barbárie e apagar da memória os autores das fogueiras. A justiça está, para mim, acima do talento e da sabedoria. Ezra Pound foi um grande poeta, mas não posso ignorar o seu apoio a Mussolini, assim como o apoio de Céline ao nazismo. Não posso ignorar que o fascismo, no meu país, foi o responsável pela divisão da sociedade em Intelligentsia e o resto. Desta Intelligentsia, uma minoria, não saiu ninguém que acrescentasse valor ao país (António José Saraiva foi uma das poucas excepções). Um país que não lê é um país criminoso, escreveu Joseph Brodsky. O fascismo, durante décadas, foi responsável pela iliteracia. Porquê? Porque o povo tinha de alimentar os ditadores (o meu pai teve muitas refeições de uma só sardinha).

Contudo, há, hoje, oportunidades. Alguns meninos apoderaram-se da frase do papagaio de Raymond Queneau «Eles falam, falam, mas não fazem nada» - leiam “Zazie dans le métro” – e são, hoje, jornalistas, cronistas, humoristas, enfim… Por vezes dá-me ganas de arranhar o rosto como Juliette Gréco quando grita J’Arrive, tantas e tão grandes são hoje as injustiças.

Ângelo Alves

7 comentários:

  1. "Este mundo é duro; haverá sempre inquisidores e fogueiras" (António José Saraiva), e "não posso estar mais de acordo, no que se refere à história de Portugal" (Ângelo Alves). E esse acordo estende-se aos crimes praticados na ex-união Soviética e na actual Coreia do Norte?

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  2. Sobre os hediondos crimes de Estaline, caro Dr. Rui Baptista, foi passada uma esponja... porque foi tudo "pela santa Rússia"! E lembrar-se a gente que Joseph Diugasvilli era descendente de uma família luso-judaica radicada na Georgia para não ser chamuscada nas fogueiras da Santa Inquisição! É tudo o mesmo, caro Dr. Rui Baptista! O mal está na carcaça do ser humano! JCN

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  3. Onde existe o ser humano
    há sempre o risco de haver
    um vil e reles fulano
    de olho posto no poder!

    JCN

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  4. Há sempre alguém desejoso
    de acender uma fogueira
    por lhe dar imenso gozo
    ver aquilo a que ela cheira!

    JCN

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