terça-feira, 3 de julho de 2012

DA FALTA DE HUMANIDADES À MISÉRIA DOS POLÍTICOS

Texto recebido do nosso leitor Miguel Cardoso, professor de Filosofia, a quem agradecemos a reflexão nele contida.

O político medíocre, como todo o homem medíocre, é fruto da falta de formação. Faltam Humanidades no nosso sistema de ensino. A cada reforma curricular, disciplinas como História, Filosofia, Psicologia ou Sociologia perdem terreno e exigência no currículo dos alunos.

O paradigma dominante é tecnológico e económico. Não há discurso político contemporâneo que não vá por aí. Di-lo o Presidente da República e também o Primeiro-Ministro do país hipotecado, os Presidentes da Câmara e da Junta, que fincam pé para que todos os gaiatos tenham pc e naveguem pela net, mesmo sem nunca terem visto o mar. E os velhos, que não podem morrer sem mandar um email, não vá a entrada no céu ou mais abaixo precisar de conta aberta no Google. O futuro é tecnológico, digital, interactivo, pronto a servir e a ser vivido. Ainda não entendemos o jargão, mas já não estranhamos. A tecnologia acoplada a tudo o que mexa. O economês como língua oficial. O deserto em volta.

Vale a quantidade e pouco a qualidade. Vão os alunos passando de ano, ou transitando, ou lá o que é, felizes, até ao dia em que batem no real. Já não se reprova, termo banido da novilíngua educativa, como ensino ou aprender, substituídos por conceitos vazios como competências, aprender a aprender ou empreendedorismo. Nivelamos por baixo e são os fracos que se lixam, com a promoção de uma mediocridade generalizada em que o esforço deixa de valer a pena e a preguiça e a responsabilidade são insistentemente perdoadas por factores externos. Dificultamos a formação dos alunos culturalmente mais carenciados e acentuamos o fosso que os separa dos que possuem um enquadramento económico e familiar que compensa as lacunas escolares. Também para estes a escola se torna obsoleta, cansados de um ensino que os trata como atrasados mentais. Não tardará e o professor será um anacronismo num admirável mundo novo onde cada aluno da geração “tipo” ou “tásse” poderá escolher o seu currículo e avaliar-se a si mesmo. Tudo feito online, entre muitos ☺, LOL e artigos da Wikipédia. O nivelamento pelos medíocres não elimina as classes sociais, perpetua-as. A escola pública transforma-se num monstro inútil onde continuam a safar-se os mesmos. Vale a estatística. Mesmo que a maioria dos alunos não consiga sequer interpretá-la.

As Humanidades dão trabalho, mais se em casa falta o incentivo e a exigência, se a ausência de hábitos de leitura e discussão são o prato de cada dia e o pergunta ao professor que é para isso que lhe pagam está sempre na ponta da língua. Sem resultados imediatos, são desprezadas. Incomodam.

O papel das Humanidades é servir-nos de âncora. Precisamos reaprender a pensar, a demorar o pensamento, resgatando-o da manada e centrando-o no essencial. Da falta de um pensamento crítico nasce o político miserável, ser amputado de espírito, fechado numa perspectiva que se habituou a tomar pela verdade e longe da vida que está para além dela. O futuro não decorre de um conjunto de regras imutáveis estabelecidas por um conjunto de bem pagos especialistas. As regras do jogo estão sempre a mudar, prever hoje o que vale para amanhã é mais fruto do acaso ou de estupidez astrológica do que ciência. Comparem-se todas as previsões económicas feitas a médio e longo prazo. É o aleatório que domina, nas bolsas, nas agências de rating ou nos mercados financeiros: “A verdadeira tarefa da economia consiste em mostrar ao homem o pouco que ele sabe acerca daquilo que pensa poder planear” (Hayek).

A perspectiva em que se situa o observador condicionará sempre a previsão, numa espécie de efeito de realimentação, que apenas espelha o desejo de quem a profere. Limitamo-nos a seguir a música da moda, composta de medo e mecanismos irracionais de toda a espécie, dando corpo a uma crise que começou por ser imaterial, aumentada a cada referência ou auto-referência. Como um discurso viral que contamina todas as instâncias de poder, repletas de arremedos de gente que ofusca a falta de conteúdo do discurso com um palavreado estéril. Wittgenstein diz que a linguagem mascara o pensamento, aqui disfarça o vazio. Aprendizes de pensamento único de escola partidária, gente de frases feitas reproduzidas à exaustão, sem a coerência ou a memória que implique a vergonha que vai do que disseram ontem ao que fazem hoje. Gente esponjosa e bafienta que conspurca tudo o que toca. Todos iguais, em circuito fechado, ninguém daria pela troca do nome do boneco. Esta gente com os seus programas de infelicidade. Bufões. Depois deles não virá o caos.

A saída está na mudança de paradigma. De dentro já não conseguimos ver. É necessário mudar a própria forma de pensar, abandonar a formatação, redefinir prioridades. Não será tanto a Democracia que está em causa, mas a forma de a pensar. Daí não virá o abismo, como dão a entender os aspirantes a profetas e vigilantes interessados em perpetuar um status quo conveniente. De repente, convencionou-se como inevitável a necessidade de reduzir a zero conquistas de séculos e de vidas. HÁ, deve haver, direitos adquiridos. Recusá-los é um retrocesso civilizacional. Mas aceitamos os arautos da desgraça sem questionar. É preciso colocarmo-nos de fora e alterar a nossa perspectiva sobre o mundo. As profecias cumprem-se a partir do momento em que nelas acreditamos cegamente. Talvez cessem a partir do momento em que deixemos de o fazer. Não são tanto as circunstâncias que fazem a nossa vida, mas antes o que fazemos a partir delas.

O pensamento crítico está ausente da política, porque foi expulso das escolas e das universidades. A escola deve assumir-se como instituição crítica para que o Estado deixe de ser manipulador (Ivan Illich) e castrador. Abandonando aquela que foi a sua base e razão de ser durante séculos, as Artes e Humanidades, os sistemas educativos actuais visam apenas a formação de “gerações de máquinas eficazes” (M. Nussbaum) obcecadas com o lucro. Com os políticos habituámo-nos a colocar sempre o contador a zero a cada ritual eleitoral. É importante que percebamos que é possível mudar e que chegou o tempo de ripostar e depor esta política e os seus cães-de-guarda. Para que de cada estudante brote um cidadão. Para que nasça um novo homem político que se importe.

As Humanidades ajudam na adopção de uma perspectiva não contaminada que contribua para arrancar as pessoas à complacência, recuperando-as para o que importa. O futuro não é inevitável. Não está escrito. Não existe. A crise, qualquer uma, mesmo as que nos impõem com base em especulações feitas para não serem inteligíveis, é sempre um momento catártico, de conflito e decisão. Uma boa altura para levantar a voz, limpar a casa e fazer o que é correcto. Recuperar a Ética. E só isto. Ou então já estamos mortos.

Miguel Cardoso

11 comentários:

  1. O meu nome é Rui Ferreira.
    Sou de ciências, no 12º ano tive Física, Química e Matemática, sou Licenciado e Mestre em Educação Física e Desporto (pré-Bolonha).
    Preparo agora o meu Doutoramento em Ciências do Desporto.

    E é nesta qualidade que, acerca do post em epígrafe, quero dizer o seguinte: CONCORDO COM TODO O SEU CONTEÚDO.

    Sem a Filosofia o ser humano é apenas animal.
    Cumprimentos.

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  2. Parabéns pela excelente reflexão.
    «Recuperar a Ética. E só isto. Ou então já estamos mortos.» Temo que já estejamos «mortos»
    Maria

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  3. Cuidado com a seguinte frase: «Comparem-se todas as previsões económicas feitas a médio e longo prazo. É o aleatório que domina, nas bolsas, nas agências de rating ou nos mercados financeiros: “A verdadeira tarefa da economia consiste em mostrar ao homem o pouco que ele sabe acerca daquilo que pensa poder planear” (Hayek).» Nunca estudei Hayek suficientemente, pelo que me posso estar a enganar, mas, tanto quanto sei, ele com esta frase o que ele pretendia dizer é que, precisamente porque não sabemos o suficiente de economia para poder controlar as diferentes variáveis do processo, a tentativa de fabricar qualquer plano para intervir/regular o tecido económico estava destinado ao fracasso e produziria muito possivelmente mais mal do que bem (lembremo-nos que Hayek foi o grande opositor de Keynes). Ora parece-me que o parágrafo que conclui com a citação está longe de apoiar a desregulação dos mercados...

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  4. Esse texto serve muito bem para o lado de cá do Atlântico. Estamos "ligeiramente" decepcionados com os políticos brasileiros e com o descaso com a educação.

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  5. Excelente texto. Vou partilhar! Parabéns pela qualidade da reflexão.

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  6. Mas o Miguel Cardoso não se refere a estas Humanidades, certamente.

    A «escola da vida»
    Era o que se dizia, há muito tempo (ou, se calhar, não tanto como isso), de quem não tinha estudos mas perfazia uma vida cheia de experiência, prática, trabalho, o que equivalia a dificuldades, pobreza, percalços, infortúnios. Depois, já mais perto da actualidade, foi criada uma coisa chamada Novas Oportunidades, que dizia que uma experiência profissional era um curriculum que, até certo ponto e mediante certos limites, merecia equivalência ao ensino básico. Fazia algum sentido, era uma forma de conceder acreditação elementar a quem nunca tinha tido oportunidade de estudar e merecia reconhecimento. Mas para certas pessoas, algumas com um indisfarçável desprezo pelo trabalho suado e honesto, um desdém pela igualdade de oportunidades e uma profunda aversão pela justiça social, tudo isto era facilitismo, um sinal da desbunda de esquerda, um irreversível sintoma do caos cósmico-social. Ah! exames da 4.ª classe do Salazar é que era, nesse tempo é que havia ensino a sério, professores capazes, alunos atenciosos e aplicados. Esta gente está hoje no poder. E vai daí, bye bye Novas Oportunidades, bem-vindos exames, avaliações, castigos à moda antiga. Acabou a palhaçada e o eduquês, as modernices dos planos individuais de recuperação, dos exames específicos para alunos com necessidades especiais, as avaliações contínuas.
    Azar. Hoje soube-se que o ministro-padrão deste governo, aquele que ameaça jornalistas e que sai lampeirinho do caldo, fez a sua licenciatura apenas em um ano, pescou uma única cadeira de frequências anteriores (em Direito... e apenas com um 10) e o resto que falta... bom, o resto, como diz a notícia, justifica-se por uma lei de 2006, que «prevê que as universidades e politécnicos possam reconhecer “através da atribuição de créditos, a experiência profissional” de pessoas que já tendo estado inscritos no ensino superior pretendam prosseguir estudos». Um Novas Oportunidades Superiores, ao que vejo. Bem. Se Passos Coelho chamou ao Novas Oportunidades "um escândalo" e "um certificado à ignorância", o que chamaria a isto?
    Post retirado do blogue Arrastão.

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  7. “Recuperar a Ética. E só isto. Ou então já estamos mortos.”
    Por vezes penso que sim, que estamos mortos e não sabemos; caminhamos como zombies e a menção ou a lembrança da ética é tão estranha e distante como distantes e estranhas nos parecem hoje a menção a discussões mescladas de bengaladas no parlamento, como nos conta o Eça.
    Tempos houve em que, com certeza, da mesma forma as pessoas se insurgiam contra o desaparecimento da honra, que hoje é palavra vã. O espaço deixado por honras e éticas é precioso e preciso para albergar a facilidade; reflectir é acto doloroso e pensar dói. É tão mais simples deixarmo-nos ir e aceitar a condição de recluso das vontades do líder da manada. Até parece bom sermos autómatos… palavra de honra.

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  8. Moral,ética,pensamento,reflexão,....privatizaram-se!

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  9. Boa reflexão, vou levar

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  10. Concordo, subscrevo e penso que todos os nossos políticos deviam levá-lo para casa para refletir, principalmente o nosso Ministro da Educação. Obrigada por fazer das suas palavras o sentir de muitos professores que querem que os seus alunos e as suas escolas sejam espaços de saber e não de máquinas fazedores de SUCESSO, só e só.

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  11. Concordo em absoluto com a reflexão.
    Acrescentaria também a redução e menor relevância do ensino experimental e laboratorial (nomeadamente as ex-TLB- Técnicas Laboratoriais de Biologia) e a inexistência ou previsível redução de assistentes auxiliares com formação nestas áreas em muitas escolas. E também fui sempre muito crítico por terem retirado a Área de Projecto e Formação Cívica dos curricula.
    Os tempos estão difíceis, eu sei, mas quando é minha vida profissional está mesmo em risco, a tristeza é muito mais profunda e a combatividade vai abaixo.
    Vou partilhar, na esperança que mude de vez a ideologia preponderante que tão bem aqui explana. Obrigado.

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