quarta-feira, 27 de junho de 2012

CIÊNCIA, LITERATURA E LIBERDADE


Artigo de M. J. Martins de Freitas, advogado e mestre em Cultura Portuguesa, publicado na última revisa "As Artes entre as Letras" (na imagem, Antero de Quental):

Na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), o Doutor Carlos Fiolhais, catedrático e físico de renome, proferiu a a 16 de Maio uma conferência intitulada Ciência e Literatura justificando a inversão do título (estava anunciado Literatura e Ciência) pela ordem alfabética das palavras. Conheço o Carlos desde o meu tempo de estudante de Coimbra e chegámos a estar alojados nas mesmas instalações. Já então era considerado um jovem talento. Para se conhecer os degraus que subiu na Universidade e na ciência portuguesa e internacional bastará “googlar” o seu nome para verificar, em textos, vídeos e demais informes, a sua actividade académica, científica, e de divulgador da ciência, enchendo de natural orgulho o nosso país. A Régua deve regozijar-se deste homem, que é filho dum graduado da GNR, natural da freguesia de Sedielos.

Ora, Carlos Fiolhais, que tinha sido Professor na UTAD nos anos 80 do século passado, abriu a sua palestra deste modo: “quando tocamos a Literatura ela toca-nos!” Abordou a seguir o livro As Duas Culturas, do inglês Charles Percy Snow, que se reporta à problemática relação entre a Ciência (ciências exactas e naturais, entenda-se) e da Literatura (em geral, letras, artes e humanidades). Essa obra visou combater a separação entre essas duas áreas de cultura. No final da década de 50 do século XX, para C. P. Snow as duas culturas – a Ciência e a Literatura – eram duas faces da mesma Humanidade. Para Snow, não fazia sentido que os literatos e humanistas desconhecem os conceitos básicos da ciência e que os cientistas não dessem atenção às dimensões estéticas, éticas e humanas da ciência. Por isso, as duas culturas deveriam dialogar, procurando eliminar os preconceitos e as visões deformadas que uma cultura tem da outra. O físico reconheceu que a polémica apresentada nesse livro ainda não está resolvida.

Recuando no tempo, Carlos Fiolhais, aludiu à Revolução Científica introduzida pelo italiano Galileu Galilei e pelo inglês Isaac Newton. Expressou a ideia de que “a ciência precisa de instrumentos”, que exprimiu através da imagem que os os “instrumentos são o posto avançado dos olhos” e que “os olhos são o posto avançado da mente”. Prosseguiu afirmando que a Ciência precisa, além disso, da Literatura para exprimir o que se consegue ver, tendo exemplificado a afirmação com a obra “O Mensageiro dos Céus” da autoria de Galileu, cujo título, em si mesmo, já era literário, conforme frisou. Para o escritor italiano Italo Calvino, a prosa de Galileu eleva-se quando fala da Lua.

É impossível, neste apontamento, mencionar todas as ideias sobre a ligação da Ciência com a Literatura ilustradas com exemplos pelo conferencista. Direi, no entanto, que ele adornou a palestra. do lado da Literatura, com textos dos dois poetas maiores da literatura portuguesa: Luís de Camões e Fernando Pessoa. Lembrou que Camões foi um homem muito atento ao mundo da sua época, demonstrando esta afirmação lendo uns versos do Canto X d’ Os Lusíadas onde o autor enumerou as principais constelações do Hemisfério Norte (destacou também que os primeiros versos publicados de Camões saíram nos Colóquios dos Simples de Garcia da Orta, publicados em Goa). Por outro lado, lembrou que Fernando Pessoa, no seu heterónimo Álvaro de Campos, foi quem afirmou que “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo”.

Comprovou a interpenetração de obras de alguns cientistas que foram exímios escritores e de alguns escritores que se interessaram pela ciência. Foram os casos, do lado da ciência portuguesa, de José Anastácio da Cunha, que além de matemático foi poeta, Ricardo Jorge e Egas Moniz, que além de médicos foram biógrafos de escritores (respectivamente Francisco Rodrigues Lobo e Júlio Dinis), e, do lado da literatura nacional contemporânea, Rómulo de Carvalho / António Gedeão (um caso muito feliz de intimidade entre Ciência e Literatura), Vitorino Nemésio, Adília Lopes e E. M. Melo e Castro.

Concluiu dizendo que, para Albert Einstein, o pai da teoria da relatividade, o espaço, o tempo, a matéria e a energia estavam ligados. Trata-se de uma visão científica, mas que não tem deixado de proporcionar metáforas literárias. Contou como um jornal português intitulou “A luz pesa” a notícia, em 1917, da confirmação da teoria da relatividade geral com a observação de um eclipse na ilha do Príncipe.

Carlos Fiolhais disse, no debate final, que no século XVI a Humanidade conheceu uma enorme mudança. Recordou o matemático Pedro Nunes e o papel de Portugal como pioneiro na descoberta de novos mundos, ou seja, da primeira globalização. Os seus esclarecimentos centraram-se, depois, em redor da arte e humanidade dessa época, da recuperação dos ideais do conhecimento, da criatividade e da liberdade já presentes na Antiguidade. No âmbito da arte, afirmou que o nascimento da perspectiva no Renascimento constituiu uma verdadeira revolução na pintura, parte de uma revolução das Artes que se antecipou um pouco à Revolução Científica. Aludiu à educação grega que visava a formação integral do homem e lembrou que a recuperação do ideal grego ocorreu nessa época.

Para Carlos Fiolhais, o cientista é, como o artista, alguém que imagina o mundo. A imaginação é a mola da ciência (para Einstein, a imaginação “era mais importante que o conhecimento”). Porém, a criatividade na ciência tem de se cingir à “imaginação” do mundo (segundo o físico Feynman, a imaginação tem de estar dentro de uma “camisa de forças”), ao passo que na arte a imaginação pode ser mais livre. Defendeu que o homem se enriquece com o conhecimento científico, mas que este só se consegue seguindo um certo número de procedimentos – o método científico, baseado em geral na experiência física, conseguida graças à instrumentação, e na experiência mental, conseguido graças à imaginação. Acrescentou que na ciência há progresso e que na arte também o há, embora de tipo diferente, desempenhando nos dois casos a avaliação pelos colegas do mesmo ofício (respectivamente cientistas e artistas) um papel no estabelecimento das obras maiores. A diferença é que na ciência a Natureza é sempre quem mais ordena.

A finalizar esclareceu – aproveitando uma questão sobre a liberdade – que a liberdade (física e mental) é tão essencial para a ciência como para a literatura. Terminou, ilustrando a relação entre ciência e literatura com a leitura deste soneto de Antero de Quental, que expressa de um modo único não só uma visão científica do homem como o desejo humano de liberdade:

“Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onde, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo…

Hoje sou homem – e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade…

Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.”

M. J. Martins de Freitas

8 comentários:

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