quinta-feira, 26 de abril de 2012

Por favor, publiquem noutro lado

Em traços muito, muito gerais as coisas têm acontecido duma certa maneira, ainda que não saibamos bem se pela ordem que descrevemos:

Foi-se (alguém foi) instalando nas “comunidades científicas” a ideia de que certas revistas “com factores de impacto”, sediadas algures, perto do Olimpo, com conselhos editoriais repletos de deuses do saber, publicavam apenas e só o que fosse de inequívoca excelência.

Correlativamente (aqui está o pormenor que faz toda a diferença) surgiu outra ideia: que seria muito difícil um investigador comum, um pobre mortal, obter a graça (próxima da divina) de ver um trabalho seu constar lá.

As universidades e outras instituições “produtoras de conhecimento” acolheram muitíssimo bem esta ideia, acarinharam-na, difundiram-na, incentivaram-na e… acabaram por impô-la, legitimando-a como critério de avaliação: afinal parecia constituir garantia de que só os melhores dos melhores ascendiam ao estrelato, que os trabalhos aí publicados seriam nada menos do que perfeitos. Uma espécie de crença neo-positivista, mas de elite e altamente seleccionada.

Face a revistas de tal estatura, muitas dessas instituições (quase todas) desvalorizaram as suas, e em casos demais (dizemos nós), extinguiram-nas. Afinal, quem aí publicava só poderia ser quem não conseguia publicar nas tais outras, coisa de quarta ou quinta categoria…

Claro está que as instituições de investigação de todo o mundo começaram a pagar (mais e mais) para terem acesso a bases de dados onde constavam (constam) essas tais revistas… que, não é segredo nenhum, pertencerem a empresas privadíssimas.

Acontece que o dinheiro começa a desaparecer… E agora?

Parece que uma universidade – a de Harvard – reconheceu que “várias grandes editoras de revistas tornaram a comunicação científica financeiramente insustentável e restritiva a nível académico. A situação é exacerbada devido ao esforço de certos editores de adquirirem, agregarem e aumentarem o preço das revistas”. Considerando a “situação insustentável”, o seu conselho consultivo “sugeriu aos seus investigadores não só que publicassem os artigos em revistas científicas de conteúdo livre, como abandonassem os conselhos editoriais daquelas que não queiram rever o modo de acesso aos artigos que publicam”. E propõe aos professores e estudantes que considerem submeter os artigos a revistas de acesso livre, ou que têm custos de assinatura razoáveis. Adianta: “Se estiverem num conselho editorial de uma revista, verifiquem se pode ser de acesso livre, ou se pode ser publicada por outras editoras. Se não for assim, considerem a vossa demissão”, diz ainda. Outra proposta é que os cientistas encorajem as associações profissionais a tomarem conta das revistas da sua especialidade.

É um (re)começo.
.
Maria Helena Damião e Marco Aurélio Alves

5 comentários:

  1. segundo parágrafo do texto
    :
    ...conselhos editoriais repleCtos de deuses...

    senhores PROFESSORES, não há na REVISTA quem faça revisão de textos, para evitar gralhas como esta?

    é que repleCtos não é novo nem velho acordos ortográficos. é antes de tudo isso.

    cumprimentos respeitosos

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    1. De mui respeitoso a professora Helena Damião, envolve ênfase. Envolve-na do conhecimento científico.

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  2. Que confusão que para aqui vai... São os cientistas que criam o factor de impacto das revistas, ao escrever os artigos, ao arbitrá-los e ao citá-los. Qualquer cientista digno desse nome consegue publicar numa revista com factor de impacto. Nem todas essas revistas com impacte estão nas mãos de empresas que cobram balúrdios, e algumas revistas com factor de impacto são de acesso universal. Uma coisa boa as grandes editoras têm: democratizam o acesso à publicação, pois os autores não pagam o custo de publicar. Pelo contrário, nas revistas de acesso livre, boas ou más, os autores pagam para publicar. Portanto há sempre um custo que alguém paga. Pessoalmente prefiro que essse custo não caia sobre o autor, especialmente porque é cada vez menos possível financiar essa publicação ....

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  3. Paulo, talvez valha a pena esclarecer bem o que se passa. E o que se passa é o seguinte: o acesso a algumas das mais prestigiadas revistas é muito caro e quem o paga é o erário público, por meio das universidades. Mas em muitos casos os editores recebem gratuitamente camera-ready proofs dos artigos, feitos pelos próprios autores; e o trabalho editorial de revisão inter-pares não foi pago, foi feito gratuitamente; nem sequer o director dessas publicações é pago. De modo que temos uma situação insustentável, com editores privados a ganhar dinheiro com trabalho financiado publicamente.

    Quanto ao resto, totalmente de acordo consigo.

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  4. Concordo plenamente com o Paulo: que grande confusão que para aqui vai. Se os fatores de impacte e outras métricas quantitativas se instalaram nas avaliações, em detrimento da avaliação concreta do conteúdo publicado, isso tem a ver com métodos de gestão, associados a dois fatores: as conivências que se instalam facilmente nas avaliações qualitativas em pequenos grupos; e o grande aumento da docência e investigação nas últimas décadas, levando gestores académicos a sentirem a necessidade de formas mais objetivas de avaliar.

    Podemos gostar disso ou não, mas a colocação da fasquia da publicação (de todo!) primeiro, da fasquia da publicação internacional depois, seguindo-se a fasquia da publicação em revistas indexadas e em índices específicos... nada tem a ver com a abertura ou não do conteúdo da publicação. Há revistas abertas indexadas e revistas fechadas não indexadas. E pode-se criticar este apego aos números sem valor intrínseco, mas não irá longe essa crítica sem uma alternativa viável.

    Quanto à publicação aberta, bem-vinda esta iniciativa de Harvard. É um primeiro passo. Mas que precisa de muitos mais, especialmente políticos: só quando adotarem tal posição as comissões de avaliação dos financiadores de projetos de investigação, de centros de investigação, de acreditação de cursos e instituições... é que será viável conseguir libertar o erário público dos milhões pagos às grandes editoras.

    E isso não será conseguido só com uma passagem à modalidade de "acesso aberto pagando o autor", que implicará na mesma grandes custos ao erário público, além de poder ser ainda mais perversa ao distinguir as ideias pelo mérito económico que consigam reunir para a sua publicação!

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