sábado, 28 de abril de 2012

Onde se fala de Maria Montessori e se volta a falar de exames nacionais


“Ora aqui está, se não me iludo, uma pedra violenta de escândalo para muitos dos nossos leitores anti-desportistas: o desporto como peste contemporânea até agora, invade heterodoxamente o belo templo de Minerva e vem sentar-se, de face descarada, no banco dos doutorandos, perante um areópago sapientíssimo e soleníssimo" (Silvio Lima, 1904-1931). 

Porque nem sempre, como desejou Camões, a lei da morte liberta do esquecimento alguns dos seus valorosos obreiros em vida, comecei por transcrever o testemunho de Sílvio Lima, professor universitário de Coimbra e investigador em Ciências de Educação.

Posto isto, debruço-me, agora, sobre  o comentário do leitor Joaquim Manuel Ildefonso Dias ao meu último post aqui publicado, “A polémica Sobre os Exames Nacionais”, em que ele escreveu: ”Quem neste país se apodera do direito indevido, (que não é mais que uma tentativa de salvar uma estrutura económica já moribunda aos olhos de todos), repito, quem? se apodera do direito indevido e impõe a competição aos filhos dos outros com todos os inconvenientes que isso acarreta na liberdade da criança? Isto é algo de muito grave e que merecer reflexão”.

Sem me considerar suficientemente habilitado a uma reflexão profunda, tentarei, contudo, dar uma resposta, a esta complexa temática, embora sujeita a novas discordâncias, aliás salutares e sempre bem-vindas, até porque, como nos adverte António Gedeão: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê Gigantes./ Vê moinhos? São moinhos./ Vê  gigantes? São gigantes.”
Pois bem, numa sociedade que tarda teimosamente em se  libertar da subalternidade cartesiana da res extensa perante a res cogitans, criticada,  em texto lapidar pelo filósofo da nossa contemporaneidade Jean-François Lyotard – “toda a energia pertence ao pensamento que diz o que diz, que o que  quer; a matéria é o fracasso do pensamento, a sua massa inerte, a estupidez” – , compreendo a heresia, ou como tal podendo ser tida por umas tantas vestes talares ou mesmo pelo homem-comum, em ir buscar  (como fui) a comparação entre os exames nacionais e a medição sujeita ao cronómetro e à fita métrica da prática atlética. Ter-me-ia sido mais cómodo e menos polémico (bem sei que quem não quer polemizar não deve escrever)  socorrer-me do filósofo francês François Châtelet, em citação colhida no post de   Carlos Fiolhais  “Sobre a educação:’na educação há uma espinha dorsal’” (12/02/2011): “Por conseguinte, na educação há uma espinha dorsal -a instrução - à qual se ligam, sem a ela se reduzirem, as outras modalidades de formação. Penso, em particular, na formação física. Não falo da ginástica sueca ou do jogging, mas da aquisição de uma espécie de inteligência do corpo”. Aliás, Agustina Bessa-Luis, em entrevista a Clara Ferrerira-Alves (Expresso/89), viria a afirmar, também, e de forma lapidar, “o corpo é uma inteligência”.

Mas porque, como nos legou Séneca, “viver significa lutar”, deparamo-nos com a contradição com o pensamento de  Maria Montessori, sintetizado por Irene Lisboa, quando sobre ela escreve: “O seu espírito é de liberdade; não admite sequer a competição, a corrida de forças émulas...Cada criança age como pode e por si própria”. Mas numa coisa, creio (não sei se bem, se mal, por estar a falar sem procuração) poderemos estar de acordo quanto ao efeito nocivo de uma competição que não tenha na devida conta a dignidade da pessoa humana, seja ela criança, adolescente  ou adulta. Refiro-me, concretamente, à utilização de esteróides no treinamento das campeãs mundiais e olímpicas da antiga República Democrática Alemã, atentando contra a sua própria feminilidade, masculinizando-as, para lhes atribuir a primazia na obtenção de medalhas, ainda que à custa de um bem que sobreleva todas as riquezas do mundo: a saúde. E porque o mundo é feito de contradições, evoco, em contrapartida, a figura ímpar do professor de Educação Física José Esteves, pioneiro da Sociologia Desportiva em Portugal, autor da mui citada obra “O Desporto e as Estruturas Sociais” (1967), em que defende: “Não troco a promoção desportiva de uma centena de crianças das nossas escolas primárias por uma medalha de ouro olímpica”.

Mas regressando ao cerne da questão, ou seja a Maria Montessori, representa ela a Escola Moderna, embora relativamente, essencialmente, às idades pré-escolares, em oposição a uma escola impositiva e repressiva do ensino primário, de há muitas décadas, em que a "menina dos cinco olhos” fazia de indivíduos pouco dotados, para as aprendizagens cognitivas,  verdadeiros papagaios de coisas que não compreendiam sequer. Sem lhes tirar o mérito, outros pedagogos, que a antecederam, foram adoptados por um ensino em que "teorias pedagógicas" submergem  o conhecimento dando azo a que os jovens saiam  das escolas do básico sem saberem ler, escrever ou contar e, como soe dizer-se, com um possível exagero, chegando a entrar no ensino superior reivindicando novas formas de facilitismo que justifiquem a sua ignorância e a sua aversão a qualquer forma de exames substituídos, quantas vezes, por trabalhos de grupo de uma “ciência infusa” copiada de textos da Internet, porque, e cá estou eu a citar de novo o incontornável Eça, “hoje não se lê, folheia-se”.  Ou melhor, navega-se em águas internéticas com as velas da ignorância ou de cérebros que menorizam o papel da memória.

Abstraindo este aspecto de “modernidade”, aliás, nihil novi no que respeita à educação das crianças! Já Platão ao ser confrontado com a incapacidade das crianças contarem ou distinguirem os números pares dos ímpares manifestava o seu profundo repúdio: “Quanto a mim, parecemo-nos mais com porcos do que com homens, e sinto-me envergonhado não só de mim mas de todos os gregos!” Entretanto, no Portugal de hoje, a vergonha, em certos espíritos de uma impropriamente tida como vanguarda pedagógica, reside no “eduquês" parecendo encontrar terreno úbere na discordância relativamente à realização de  exames  nacionais tendentes a avaliar se as nossas crianças sabem, ao menos, ler, escrever e contar quando saem das escolas do 1.º ciclo do ensino básico. Ou mesmo de  estudos subsequentes que levam  à entrada no ensino superior de indivíduos com uma confrangedora ignorância científica e cultural,  vítimas de um sistema educativo que em nada os prepara para a vida de espinhos que os espera no exigente e competitivo mundo do trabalho adulto.

Este o nó górdio de uma discussão que a espada embotada de políticos palavrosos, “diletantes de coxia” (Eça, uma vez mais) de uma pedagogia mal assimilada e de simples treinadores de bancada discute sem apresentar soluções para um país em que, para o notável académico e neurocirurgião João Lobo Antunes,  “a mediocridade é a lei”!  Uma mediocridade a que os exames nacionais (se bem feitos, obviamente!) poderão fazer, parafraseando um ditado popular, vir a ignorância ao de cima como o azeite na água.

6 comentários:

  1. Joaquim Manuel Ildefonso Dias28 de abril de 2012 às 23:10

    Professor Rui Baptista;

    Escrevi um comentário no seu anterior post, que precedeu este, nele manifestei o perigo que poderá resultar da competição imposta às crianças e à separação por capacidades dos alunos, sob pena de no futuro vivermos num mundo com acentuadas diferenças de valores.

    Dei por isso um exemplo daquilo que eu penso que poderá vir a ser as características prováveis do homem dirigente, que deverá estar à frente de um qualquer e importante sector da vida económica ou social.

    Se tivesse de escrever novamente o comentário substituía-o exemplo que dei. Dava este do secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, que diz:

    "Quando se chega à violência, o Estado devia ser mesmo intransigente", disse, defendendo "uma pena muito simples: afastar essa pessoa do acesso aos cuidados primários de saúde ou dos próprios hospitais".

    Professor Rui Baptista, bem vê aqui a importância da cultura no homem, neste caso pela ausência, numa pessoa que ocupa um cargo responsável. Será certamente uma pessoa inteligente, mas falta-lhe o mais importante, falta-lhe os três pontos da definição – de homem culto - que nos dá o Professor Bento de Jesus Caraça;

    1º Têm consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;

    2º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;

    3º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da sua vida.

    Uma certeza eu tenho é que a inteligência isolada da realidade, sem cultura, é coisa pouca, muito pouca.


    Cordialmente,

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  2. Prezado Joaquim Manuel Ildefonso Dias:

    E assim se cumpre uma troca de opiniões nem sempre concordantes. Todavia, quero deixar bem claro que aceito o facto dos exames poderem promover o perigo de certa medicação: o doente não morrer da doença, mas da cura.Mas como já aqui escrevi o mal não está tanto na canção, mais nos seus cantores que desafinam a ponto de "fabricarem" pontos de exame que já vêm acompanhados de erratas...ou, pior do que isso, com perguntas em que as respostas causam dúvidas nos próprios professores.

    Entretanto, vou lendo e digerindo os textos do Professor Bento de Jesus Caraça, baleado de morte pela PIDE com um tiro à queima-roupa, que me foram endereçados e por si enviados ao DRN que mos fez chegar ao meu conhecimento.O meu obrigado a ambos.

    Cordialmente,

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    1. Sr.Rui Batista: Penso que está a fazer confusão. Bento Jesus Caraça morreu de doença cardíaca. Quem morreu baleado pela PIDE, em 1961, foi o pintor José Dias Coelho.

      Cumprimentos,

      Maria Pires

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    2. Minha Senhora: Tem toda a razão. Quem foi baleado mortalmente pela PIDE foi o pintor José Dias Coelho. Penitencio-me pelo erro, e agradeço-lhe a correcção.

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  3. Sr. Rui Baptista: gostaria de pedir.lhe permissão para citar os últimos parágrafos deste Seu texto, fazendo a devida remissão à Sua autoria em link (onde fala exactamente sobre este possível acto).
    Agradecendo desde já a atenção

    João Moreira

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  4. Crendo que a publicação do comentário será uma resposta positiva...

    Obrigado, professor.

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