quarta-feira, 25 de abril de 2012

Ao Correr da Pena: Ordens Profissionais

“As ordens devem estar na primeira linha dos que resolvem ficar para ultrapassar a crise, usando com imaginação e vontade as regras da arte” ( Adriano Moreira).

Um  comentário de José Batista da Ascenção sobre a Ordem dos Biólogos, insito  no post Ensino e Liberdade” (24/04/2012), de Desidério Murcho, que transcreverei lá mais para diante,  não podia deixar de despertar a minha atenção pela responsabilidade por mim assumida em me fazer defensor da criação de Ordem dos Professores com fundamento em  razões como  evitar que o Estado atribua um papel menor à docência como se  tratasse de uma profissão (ou melhor, infelizmente,  mero exercício profissional!) que não se pode responsabilizar pela qualidade dos actos profissionais prestados à sociedade educativa  pelos seus actores,  como consubstancia a legislação que respeita a esta forma de organização profissional de direito público.  Isto é, que os poderes públicos continuem, como até aqui, a arrogar-se senhores de uma sufocante tutela sobre eles e os sindicatos tudo tentem para usurpar um papel que a Constituição lhes não consente por ser da atribuição de ordens profissionais.

No “Fórum Pensar a Educação/Outubro de 97”, promovido pelo Sindicato Nacional dos Professores Licenciados,  sobre a oposição pública de forças sindicais à criação de um Ordem dos Professores, não pude de deixar de formular a minha crítica a este statu quo da forma seguinte: “Mas, para mal dos seus pecados, as suas posições passadas, por de mais evidentes e divulgadas, não lhes devem consentir, agora, a desculpa de mau pagador. Assim, terão eles que arcar com o remorso de tentar fazer passar a imagem da actual docência como que a modos de uma profissão de escravo grego aos serviço dos filhos dos senhores de Roma, expiando a sua ignorância, ou a sua má-fé, em acto de contrição pública”.

Mas indo ao cerne da questão sobre a Ordem dos Biólogos, confesso que, na altura, a sua criação me levantou algumas perplexidades. Aliás, como levanta a José Batista da Ascenção, algumas interrogações a criação da Ordem dos Professores: “Fazer uma Ordem dos Professores? Talvez. Devemos até tentar. Mas não sou muito otimista, confesso. Por um lado, conheço bem a diversidade dos professores. Veja-se quantos sindicatos se formaram e o que ganhámos com isso…Por outro lado, já pertenci a uma ordem, que supus pudesse ser útil aos professores de biologia e que foi completamente ineficaz, para não dizer pior, na defesa do ensino daquela disciplina. Com grande pena minha”.

Desde a sua criação, tenho-me interrogado sobre a abrangência da Ordem dos Biólogos  numa acção dual  sobre o exercício profissional de biólogos propriamente ditos e professores de Biologia. Desde logo, confesso, me pareceu que a acção do exercício docente desta matéria só poderia ter efectividade através de uma Ordem dos Professores. Aliás, a experiência pessoal do subscritor do referido e oportuno comentário, na sua condição de  professor de Biologia,  confirma, segundo me atrevo a pensar, que a Ordem dos Biólogos só tem papel na qualidade exigida aos cursos universitários que formam biólogos e na sua correspondente actividade profissional não tendo, como é óbvio, possibilidades para intervir, por exemplo, nos programas curriculares  do ensino secundário e outras actividades correlacionadas.  Ou seja, “a César o que é de César”!

 Mas, no meio disto tudo, o que mais me impressiona é o facto de os que estão a favor ou contra a criação de uma Ordem dos Professores se remeterem a um silêncio que em nada ajuda a clarificar  situações. Parafraseando o título da obra de Edward Albee: Quem tem medo da Ordem dos Professores?

4 comentários:

  1. José Batista da Ascenção26 de abril de 2012 às 09:17

    Meu caro Rui Baptista

    Houvesse um bom punhado de Professores com a

    sua determinação e outra seria a minha

    esperança na criação da respetiva Ordem. Por

    pedregoso que fosse (e seria!) o caminho.

    Mas, no fundo, no fundo, não está morta em mim

    essa esperança.

    E por isso sou grato a todos os que não calam

    a sua voz.

    Em particular, a si.

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    1. Estimado José Batista da Ascenção: Grato lhe estou eu pelas objecções e concordâncias que tem levantado à criação de uma Ordem dos Professores, e que não se limita, dado o seu espírito crítico, em dizer estou a favor porque sim ou porque não! Ou estou contra por iguais motivos...

      Por vezes, no campo da indiferença de quem comodamente não se pronuncia sobre esta temática, esperando que outros o façam, colhendo os louros se os houver, e sacudindo a água do capote de uma responsabilidade que não querem tomar para não se comprometerem, fica-me o sabor de uma teimosia minha perigosa num país de falsos porreirismos, passe o plebeísmo da palavra.

      Aceito esta atitude pessoal e personalista (que remédio tenho eu!), mas já não aceito, repudio mesmo, o silêncio cúmplice de uma classe profissional que entendo que o seu importante papel se deve circunscrever, apenas, a questões laborais: vencimentos e horários de trabalho. Se assim é, a razão está do lado sindical. E o silêncio sindical (mormente da Fenprof) em debater a criação de uma Ordem dos Professores disso mesmo nos dá conta. Como nos diz a voz popular, “o silêncio é a arma do negócio”…

      Cumprimentos amigos,

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  2. Errata: 4.ª linha, último §, substituir "entendo"por entende.

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  3. Desidério Murcho considera que uma Ordem de Professores é qualquer coisa de medieval. Nem sei se concordo ou não, talvez seja um Sonho-pressupor a possiblidade de uma Ordem de Professores dirigida por pessoas plenas de conhecimento e actuação ética-, ou talvez não passe de uma espécie de mal menor. Seja como for, mesmo quando o desânimo me abala as convicções, continuarei a situar-me como adjuvante da única possibilidade que vislumbro para reabilitar a dignificação profissional dos professores. E não porque queira ter razão ou protagonizar seja o que for, mas tão simplesmente porque desejo que haja alguém que dirija o barco para que eu possa nele navegar e absorver-me em adquirir e transmitir o conhecimento que uma viagem permite. Para que uns possam navegar, outros têm que dirigir o navio. Qualquer um dos papéis é necessário e nenhum o é mais do que o outro.

    PS - Como isto é publico, não será insensato assinalar que o discordar da posição de Desidério Murcho neste e noutros aspectos não impede que muito o aprecie enquanto ser reflexivo e com pressupostos éticos inequívocos.

    HR

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