terça-feira, 27 de março de 2012

Um dever profissional

Na sequência de textos anteriores aqui e aqui):

A investigação pedagógica indica muito claramente que, quando confrontados com comportamentos perturbadores dos alunos – indisciplinados ou violentos –, a tendência dos professores, mesmo que sejam competentes e responsáveis (e, sobretudo, se o forem), é omitirem isso mesmo junto dos seus pares e da escola.
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As razões são diversas (sentimento de incapacidade para controlar sujeitos que seria de esperar que controlassem e sem esforço; receio, fundamentado ou não, dos juízos de colegas; preocupações com a imagem junto da direcção; apreensão com a avaliação do seu desempenho; etc.) e, em geral, conjugam-se para darem forma a circunstânciasa dversas para os professores e para os alunos: nem uns conseguem ensinar, nem outros conseguem aprender.

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Ora, é isto que, sob o ponto de vista do “dever profissional” não pode acontecer: o professor deve ensinar para que os alunos aprendam. Se não estiver a cumprir este dever, que constitui um referencial de actuação explícito e consensual nas mais diversas e actuais abordagens deontológicas, cometerá, um erro.

Assim, não pode guardar problemas de tal ordem para si e só para si: tem de comunicá-los a quem tem igual e/ou mais responsabilidade, bem como envolver-se e solicitar o envolvimento de outros na sua resolução.

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Tais problemas mesmo quando protagonizados por um professor, não são só desse professor: são da escola onde ele pertence e assim devem ser perspectivados.
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E for alguma coisa que um professor não estiver a fazer bem? Ainda assim é um problema da escola, pois ele é um elemento da escola, tendo esta a responsabilidade máxima de o atender e, se for o caso, ajudar e/ou orientar.
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É preciso ter coragem para seguir esta lógica? Sim, é. Em certos casos, é preciso ter muita coragem. Mas há que a ter. Porque ela está certa.

2 comentários:

  1. José Batista da Ascenção27 de março de 2012 às 09:19

    O problema maior (para além das "razões

    diversas" apontadas) é a sensação justificada

    de que, havendo um problema, colocá-lo honesta

    e frontalmente é arranjar uma carga de

    trabalhos burocráticos, ficar mal visto e

    ficar tudo na mesma. Suponhamos um aluno (do

    ensino secundário...) que falta, falta,

    falta... injustificadamente. Qual é a

    consequência? A consequência é que o professor

    da disciplina, em coordenação com o diretor de

    turma, têm que elaborar um "PIT" (plano

    individual de trabalho) para o aluno. E ambos

    têm que tentar assustar o aluno com o "pit"

    não vá o aluno "borrifar-se" e faltar ao

    próprio "pit", situação em que os professores

    ficam com cara de "tacho" e tudo fica sem

    enquadramento legal, a não ser o que determina

    que aquele aluno só no final do ano pode,

    eventualmente, vir a ser excluído por faltas!

    Portanto, o "stress" maior pode ficar do lado

    dos professores que têm que aguentar,

    aguentar, aguentar... E que outras

    consequências pode haver? Bom, alguns

    professores passam a esquecer-se

    sistematicamente de marcar faltas, ou então o

    diretor de turma aceita qualquer justificação,

    e por aí fora. Não resolvem a situação, mas

    livram-se pelo menos de uma carga de trabalho

    absurda, ridícula e frustrante.

    Neste quadro saúdo a nova legislação que

    retira encarregados de educação dos conselhos

    pedagógicos. Se os professores são

    responsáveis pela pedagogia, e devem ser,

    então que os deixem definir essa pedagogia...

    Digo isto e conheci em conselhos pedagógicos

    encarregados de educação que desempenharam um

    bom papel. Mas isso não foi a regra, e ter

    para além de pais, contínuos (agora tem que se

    dizer "auxiliares de acção educativa", sempre

    são quatro palavras...), funcionários de

    secretaria e alunos é ridículo e "apalhaçante"

    e humilhante, mas foi o que tivemos...

    E também deviam retirar os pais dos conselhos

    de turma para avaliação. Em 2008, nos tempos

    da loucura violenta contra os professores,

    passou a haver não um mas dois representantes

    dos encarregados de educação! O que é curioso,

    porque se sabe que estes encarregados de

    educação não representam os outros (nem se

    encontram com eles antes nem depois dessas

    reuniões, e quem fala de meios de comunicação

    como o "mail" não sabe qual é a realidade dos

    encarregados de educação nessa matéria...).

    Ora, a presença destes encarregados de

    educação nas reuniões de avaliação pode

    resultar num privilégio para os seus

    educandos, pelo facto de... estarem ali. Quem

    não quiser ver isto que não veja. As exceções

    só confirmam a regra. E depois há ainda a

    situação obscena de, por vezes, ser o aluno o

    representante dos alunos e o seu encarregado

    de educação o representante(!?) dos pais.

    Não é a loucura?

    Está bem que era preciso quebrar a espinha aos

    professores. Foi mais ou menos o que foi

    assumido e largamente estimulado. Lembrem-se

    aqueles valorosos pais que saíam de casa para

    irem à escola dar uma tareia num professor!

    Quantos deles foram presos?

    Agradeça-se portanto ao famoso "eduquês" e aos

    políticos e governantes que tão diligentemente

    o impuseram.

    O resultado final?

    Bom, esse é o que temos.

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  2. José Batista da Ascenção27 de março de 2012 às 09:25

    Pequeno acrescento:

    Em relação aos pais que estão nos conselhos de

    turma dos finais dos períodos, a prática é

    eles participarem apenas na parte inicial da

    reunião, por exemplo nos primeiros trinta

    minutos, em que se abordam aspetos gerais.

    Depois saem, quando os professores lançam as

    classificações nas pautas e nos registos

    biográficos. Mas, para todos os efeitos,

    aqueles pais estiveram ali minutos antes... O

    que é uma situação de desigualdade em relação

    aos outros...

    ResponderEliminar

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