domingo, 25 de março de 2012

A responsabilização do sistema educativo português

“A ambição universal dos homens é colherem aquilo que nunca plantaram” (Adam Smith, 1723-1790).

Neste extremo ocidental de uma vetusta e tradicional Europa, já pouco ou mesmo nada me devia espantar. Seja mesmo quando um ex-primeiro ministro, José Sócrates, pôs em cheque a dignidade do seu cargo depondo-a aos pés de um diploma de Engenharia não reconhecido pela Ordem dos Engenheiros, em escândalo público que fez correr rios de tinta nos meios de comunicação escrita, levando inclusivamente ao encerramento da instituição de ensino superior privado que o outorgou.

A contrario sensu, exigências sobre a qualidade dos diplomas académicos é afiançada, agora, pelo actual Governo, em cerimónia de pompa e circunstância, com a notícia que reproduzo abaixo:
“O primeiro-ministro disse hoje que o Governo quer uma qualificação profunda, real, abrangente dos portugueses, anunciando que vão arrancar em 2013 programas de bolsas de doutoramento com patrocinadores empresariais e de apoio à inserção de doutorados em empresas.

Pedro Passos Coelho discursava durante a sessão solene do Dia da Universidade do Porto, que marcou o 101.º aniversário e o encerramento oficial das comemorações do centenário daquela instituição, tendo afirmado que "um dos eixos fundamentais da estratégia do Governo para preparar a prosperidade do país" consiste "na capacitação e no aumento da qualificação real dos portugueses. Tem sido insistentemente reafirmado pelo Governo que queremos uma qualificação profunda, real e abrangente. Se, por um lado, queremos aumentar o número de diplomados, por outro, queremos garantir que quem acede ao Ensino Superior tem todas as condições educativas e pedagógicas para aproveitar a educação que aí recebe. Isso só será possível se elevarmos a cultura de exigência e de responsabilidade em todo o sistema de ensino', defendeu” (Lusa, 22/03/2012).
Entendo, todavia, que o saneamento do sistema educativo português, qual “cadáver adiado”, como diria Pessoa, andando a reboque de interesses e pressões sindicais e políticas, mormente da Fenprof, promovendo, até, v.g.,a perigosa promiscuidade entre os ensinos universitário e politécnico, se não deve querer repetido, processando-se, finalmente, com total independência de fins eleitoralistas e estatísticos.

Torna-se evidente, também, a necessidade de que o edifício que preside à Educação não seja começado pelo telhado sujeito, como tal, ao perigo de ruir por falta de caboucos sólidos construídos a partir dos ensinos básico e secundário. Ensino básico que, muitas vezes, tem primado por uma atribuição desregrada de diplomas que não garantem conhecimentos, apenas anos de frequência e certificados de competências (equivalentes até a diplomas do 12.º ano) sancionados por experiências de vida redigidas nem sempre pelos próprios, mas romanceadas por terceiros por amizade ou a troco de metal sonante: as chamadas Novas Oportunidades e as “Provas de Acesso ao Ensino Superior para maiores de 23 anos” (feitas em sigilo dentro de portas da própria instituição escolar que delas venham a beneficiar em vil metal) podem substituir as sérias e exigentes provas nacionais dos Exames Ad-Hoc, conferindo a entrada, pela porta do cavalo, ao ensino universitário estatal a quem nem sequer passaria no exigente exame da 4.ª classe do antigo ensino primário, no qual a sigla LEC obrigava os seus diplomados a bem saberem Ler, Escrever e Contar. Só num ensino mercenário e sem vergonha deve ser consentido que “autodidactas” (verdadeiros ignorantes por conta própria, como diria Mário Quintela) impeçam, com os seus subsídios, que entrem em falência escolas politécnicas e até universitárias, públicas e privadas, sem qualquer intenção da minha parte em misturar o trigo com o joio. O ensino tornou-se numa actividade económica, a exemplo de uma qualquer mercearia de bairro em que o dono investiu uns cobres mas tem sempre com a corda na garganta de uma possível falência pelo aparecimento de supermercados com um melhor e mais eficiente sistema de qualidade e melhores preços.

Mas se é de lamentar que semi-analfabetos entrem no ensino superior mais de lamentar é que de lá saiam com doutoramentos mesmo que obtidos em colaboração com universidades estrangeiras de duvidosa qualidade. O respeitado sociólogo e professor universitário italiano, Francesco Alberoni, critica o ensino do facilitismo neste excerto que bem convida a uma reflexão (ou mesmo a um exame de consciência) dos seus defensores:
“Na verdade a pedagogia que nivela tudo por baixo no intuito de esbater as diferenças tem como consequência tornar ignorantes milhões de pessoas e não privilegiar aqueles que podiam ir para a universidade e para escolas de excelência e programas rigorosos; é por esta razão que há cada vez mais pessoas a quererem uma escola mais séria, mais rigorosa, com professores preparados e mais respeitados."
Segundo Aristóteles, "a pior forma de desigualdade é tentar fazer iguais duas coisas diferentes". As responsáveis e responsabilizantes declarações do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho fazem renascer a esperança que nada ficará como dantes no sistema educativo português. Mas pior que um mau passado seria um futuro frustrante!

10 comentários:

  1. Meu caro, o seu texto faria sentido talvez há 60 anos, não agora. Penso que já tenha reparado que a cultura e a inteligência não garante, ao contrário de uma "ignorância certificada" (não interessa as universidades que por esse mundo o fazem, porque todas o fazem em maior ou menor grau), uma vida boa, e até o bem viver, ou eudaimonia, como diziam os gregos. Descartes dizia que o conhecimento não dava felicidade, embora não fosse ao ponto de defender a ignorância como método para a atingir. Isso só ocorreu nesta nossa era que ficará por isso vergonhosamente conhecida. O grave é que muitos "cientistas credíveis" consentiram, e muitos outros empenharam-se afincadamente, nessa "transformação". Não vê por exemplo o "cientista económico" Victor Gaspar que diz que é, e não é, um homo politicus? Será que aquela fotografia dos geniais da Física (quântica), do famoso congresso da Solvay, não passa afinal de um bando organizado de criminosos? Empenhado em destruir a Lógica Formal a favor da eterna incerteza estatística? Do ser e não ser! Já reparou que é sempre com a estatística que nos falam de programas como as "Novas oportunidades", e que nos avaliam com base em rankings de publicações e citações em revistas do mesmo dono? Não vê que a "boa ciência" há muito que é perseguida, e que os investigadores há muito se deixaram proletarizar, passando a investigar aquilo que "tem financiamento" (das corporações globais) em vez de investigar com base na curiosidade? Todo o edifício científico está podre, por culpa essencialmente dos homens e mulheres que nele trabalharam, e que nele intervêm buscando ao invés da verdade científica, apenas dinheiro e protagonismo.

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    1. Prezado comentador: Começo, em obrigação que me torna feliz, por lhe agradecer o comentário que dedicou ao meu texto. Comentário que me obrigou a uma análise que me levasse a entender (ou, pelo menos, a tentar compreender) a sua profundidade filosófica a quem, como eu, é uma amante (aquele que ama) da Filosofia, tendo como suporte uma disciplina que muito lhe entusiasmou aquando da sua frequência do antigo 7.º ano dos liceus na altura em que este ano terminal se desdobrava em Letras e Ciências (antes do aparecimento das alíneas). Ciências que segui com boa classificação, e muito gosto, nesta disciplina, comum aos estudos em Letras ou Ciências “em busca da sabedoria”.

      Talvez que esta minha explicação, de um pouco profundo conhecimento dos meandros infindáveis das inúmeras doutrinas filosóficas desde a Grécia Antiga a tempos hodiernos, me desculpe o atrevimento de discordar de uma pequeníssima parcela do seu comentário, qual é: “o seu texto faria sentido talvez há 60 anos, não agora”.

      E este seu “talvez” põe em dúvida que o meu texto fizesse sentido mesmo que escrito há seis décadas atrás. Seja como for, atrevo-me a pensar que ele satisfaz, mesmo hoje, o desiderato de que “as acções nobres provocam um sentimento de alegria, que pode engrandecer-se a ponto de se converter em delícia suprema – sentimento que tem a sua base na consciência do dever cumprido”.

      De resto, a seu exemplo (quando escreve que “Descartes dizia que o conhecimento não dava felicidade, embora não fosse ao ponto de defender a ignorância como método para a atingir. Isso só ocorreu nesta nossa era que ficará por isso vergonhosamente conhecida. O grave é que muitos ‘cientistas credíveis’ consentiram, e muitos outros empenharam-se afincadamente, nessa ‘transformação’”), muito lamento o estado caótico a que chegou o nosso ensino cuja finalidade tem sido lançar para o mercado de trabalho milhares de licenciados que se sacrificaram e sacrificaram as bolsas paternas no engodo que uma boa base cultural e científica garantia a sua felicidade pessoal. Não garante! Vasco Pulido Valente o reconhece: "A educação objecto de tanto palavrório, passa moeda falsa: promete o mundo e não dá saber e trabalho".

      E não garante pelo compadrio que, por vezes, leva a que filhos da oligarquia reinante mal saídos de universidades com diplomas que, por vezes, não valem dez reis de mel coado tenham bons empregos, ou mesmo sinecuras, à sua espera.

      Com isto, não defendo ("vade retro, Satanas!") a utopia de uma sociedade sem classes. Pelo contrário, defendo que o esforço académico de cada um deve ser devidamente recompensado como acontece na actividade privada: logo a seguir ao caos de 25 de Abril, os empresários, para além de se preocuparem, com as faculdades em que os cursos eram obtidos preocupavam-se, tanto ou mais, com o ano de formatura.

      Nada disto acontece, por norma, nos empregos do Estado. Por ser do meu melhor conhecimento, dou o exemplo, dos concursos de acesso à docência do ensino não superior. Um diplomado universitário (de uma credenciada faculdade) que concorra com um outro saído de uma escola superior de educação, de menor exigência, será preterido apenas por um simples valor a menos de nota de curso. Acredito que este facto faça a felicidade de quem escolheu o caminho mais fácil para se licenciar. Mas será, no mínimo, justo ou moral? Esta a razão para a escolha do título deste meu post: “A Responsabilização do Sistema Educativo Português”.

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  2. Caro Rui Baptista, agradeço a sua atenção em me responder enquanto anónimo, o que só prova que você possui, além de gosto pela dialéctica, nobreza de carácter. Passarei pois a identificar-me, pedindo-lhe desde já desculpa por o não ter feito antes. Quanto ao tema do seu texto e ao meu comentário, reconheço que ele é bastante difícil pois não podemos analisá-lo isoladamente, sem olhar para aquilo que foi a evolução das nossas sociedades nas últimas décadas, em particular após 1945. O facilitismo vem daí, julgo eu, ligado a um modo de viver puramente hedonista (heranças de Epicuro...) e avesso aos sacrifícios pessoais. Aprender custa. Quanto ao meu "talvez", talvez ele seja despropositado, passe a redundância. E também porventura o resto: o seu texto é claro que (ainda) faz todo o sentido, O que eu apenas noto é que, sem uma análise do contexto ou seja, da "envolvente" política e social, ele limita-se a constatar o óbvio. Assume aquela posição arquimediana de quem não faz (ou não tem querido fazer) parte da comunidade política e que portanto é também co-responsável pelo estado a que o ensino chegou. Para se protegerem, muitas vezes os cientistas (tal como os padres...) se afastaram do mundo e da política, desertificando-a daquela sabedoria da qual, por exemplo, a democracia não pode prescindir. Ora é isso, aliado à ambivalência do ser (cito Gaspar baseando-me numa sua entrevista recente) que me faz a priori duvidar dos cientistas enquanto potenciais percursores de um mundo melhor e mais justo.

    Um abraço para si e continuação de bons textos!

    Valdemar Rodrigues
    www.valdemar-rodrigues.blogspot.com

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  3. Prezado Valdemar Barbosa Rodrigues : Mesmo sob anonimato, o seu bem elaborado e elegante comentário ao meu post não podia deixar de me levar a responder-lhe por saber de antemão ( como é uso dizer-se, pelo andar da carruagem se vê quem vai lá dentro) tratar-se de uma pessoa de bem e de cultura vasta interessada em discutir ideias sem ataques “ad hominem”.Coisa tão rara nos dias de hoje! O seu segundo comentário o confirmou.

    Por outro lado, o seu contributo para uma civilizada troca de ideias (que tenho como um dever de cidadania dos povos do mundo livre) obrigou-me a rever posições minhas, quando confrontadas com argumentos seus,e deu-me a grata oportunidade de discutir uma problemática que, condicionado por razões de espaço concedido por simples post, teve como fraco mérito fazer-me personagem de um dia em que, parafraseando Sigmund Freud, olhando para trás verei que os dias mais belos foram aqueles em que lutei. Bem haja, portanto, pelo seu contributo para este dias.

    Grato, retribuo o abraço que me enviou.

    Rui Baptista

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  4. Joaquim Manuel Ildefonso Dias26 de março de 2012 às 13:20

    Ex.mo Sr. Valdemar Barbosa Rodrigues;

    "Descartes dizia que o conhecimento não dava felicidade"

    Pode confirmar se esse dizer se atribui a Descartes? Obrigado.

    Cordialmente,

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  5. Caro Joaquim Dias, a frase não é citada, mas Descartes, como crente em Deus que era, distinguia claramente entre corpo e alma (o clássico dualismo da tradição cultural judaico-cristã que Descartes partilhava), achando que a "verdadeira felicidade" era a que provinha da razão. Pelo que me recordo de leituras que fiz algures, Descartes atribuía importância ao lema mens sana in corpus sano, pelo que, tal como muito mais tarde Nietzche, achava que o filósofo não devia descurar (completamente) o corpo, fonte dos sentidos e do prazer que, no hedonismo, se confunde com a felicidade. Eu falava pois da "felicidade corpórea" ou dos sentidos, coisa que o "conhecimento", por exigir proporcionalmente mais actividade "mental" e de aproximação a Deus do que "física", não favorece, e que, portanto, a dita tradição cultural tende a desvalorizar (ao contrário, por exemplo, do que Nietsche faz). Como não sou profissionalmente filósofo (o que sei de filosofia é fruto apenas do meu "autodidactismo"), não estou portanto absolutamente seguro quanto a esta interpretação, pelo que, para se aconselhar melhor, sugeria o contacto com alguém mais capacitado do que eu para lhe responder. De qualquer forma obrigado pela sua questão.

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  6. Joaquim Manuel Ildefonso Dias26 de março de 2012 às 21:34

    Ex.mo Sr. Valdemar Barbosa Rodrigues;


    A pergunta que lhe dirijo para confirmar se de facto se trata de Descartes, (haverá alguma confusão?) surge-me na sequencia de uma leitura da nota histórica do livro geometria analítica plana do Professor José Sebastião e Silva (que transcrevo parcialmente);
    Isto porque, nessa nota vemos um Descartes filosofo também sujeito às fraquezas humanas, e no entanto foi um "cientista credível" como se pode lêr no fim da transcrição. De outro modo o senhor não o citaria certamente, seria pois desprovido de sentido com o restante do seu comentário.

    Considero ainda, o seu comentário radicalizante, e sem fundamento, e explico-lhe o porquê. Se fizer o favor lei-a ainda o meu último comentário, que é uma citação, ao post do Professor Rui Baptista “Um governo que desiste dos portugueses e os centros novas oportunidades”, lá encontrará a explicação fundamentada.



    “ «... je me tiendrai toujours plus obligé à ceux par la faveur desquels je jouirai sans empêchement de mon loisir, que je serais à ceux qui m'offriraient les plus honorables emplois de la terre».

    Com estas palavras, que sabemos serem sinceras, termina o Discurso do Método.
    Mas a ironia do destino veio pôr à prova o seu significado, com um episódio que seria cómico, se não tivesse tido consequências funestas.
    Em 1649, a rainha Cristina da Suécia, desejando ter como professor o filosofo cuja fama já então corria mundo, escreveu-lhe com insistência, convidando-o a instalar-se na sua corte. Os filósofos são homens, e, como todos os homens, sujeitos a fraquezas. Deslumbrando-se e atraído, ao que parece, pelo fulgor da realeza, Descartes acabou por aceitar o convite. Veio buscá-lo um navio de guerra. A sua recepção em Estolcomo foi sumptuosa.
    Vigorosa e dinâmica, mais do que o comum entre os mortais, habituada a um regime espartano que impunha rigidamente aos seus súbditos, a rainha achou que deveria receber as lições de filosofia às 5 horas da manhã, acompanhada por numeroso auditório. Para chegar ao palácio real, Descartes, o filosofo que prezava acima de tudo a tranquilidade e o repouso (e que não gostava de se levantar cedo), tinha de atravessar uma praça, em carruagem aberta, a hora tão matutina, no mais rigoroso inverno. O resultado foi contrair uma pneumonia, da qual veio a falecer na idade de 54 anos (1650).

    Aqui termina a história de René Descartes, considerado o pai da filosofia moderna e um dos maiores matemáticos de todos os tempos.”


    Cordialmente,

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  7. Joaquim Manuel Ildefonso Dias26 de março de 2012 às 23:15

    Caro Valdemar Rodrigues;

    O facto de eu considerar o seu comentário radicalizante, não significa, para mim, que o senhor esteja errado na análise que faz, ou que o caminho a seguir tenha de ser outro; agora, o fundamento é que lhe falta, dai a chamada para um outro comentário meu, que fundamenta a razão das coisas serem como são.

    Cordialmente;

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  8. Sem dúvida, obrigado pelo esclarecimento que também muito me ajudou a compreender melhor Descartes e a sua vida enquanto homem.

    Melhores cumprimentos,

    Valdemar Rodrigues

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  9. Se “Descartes dizia que o conhecimento não dava felicidade"

    Então: o que pondera engrandece a burrice...

    Sinto muito mas, o mundo não passa sem perceber o valor e de quão necessária a discussão, minhas sinceras desculpas a Descartes, mas a felicidade como sintoma de realização assimila a necessidade do que abrange, do colectivo, do comunitário... Felicidade do umbigo, eis a decadência.

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