Ainda o IRS, a Doença e a Velhice
"Não há nada mais relevante para a vida social do que a formação do sistema de justiça” (Ruy Barbosa, co-autor da Constituição da 1.ª República do Brasil, 1889).
"Este texto merece um comentário: é fácil, e talvez demagógico, criticar medidas economicistas e reivindicar cuidados de saúde para os velhos, sobretudo pobres, que não têm como pagar as enormes despesas que as suas doenças, crónicas ou não, implicam. Difícil é tentar um equilíbrio entre o desejável e o possível. Está tudo dependente da economia. Se não produzimos riqueza suficiente, como podemos ter uma saúde de luxo? Se uns ganham escandalosamente (Mexias e Bavas: 3 milhões/ano, Catrogas: 45 mil/mês, Furtados: 30 mil/mês, etc., etc.); se há trabalhadores de 1.ª (os dos transportes, da CGD, do BDP, etc., que têm medicamentos gratuitos, complementos de reforma, subsídios de doença, subsídios de especificidade do trabalho, subsídios de comparência, etc., etc.) e trabalhadores de 2.ª que são os outros todos; se a justiça não funciona para os ricos mas apenas para os pobres, os advogados apenas defendendo os criminosos ricos porque lhes pagam fortunas,etc., etc.; num país como este de corrupção generalizada, como ter uma saúde totalmente humanizada, em que os mais necessitados teriam a prioridade?”
“O pneumologista Manuel Fontes Baganha [professor catedrático jubilado] admitiu ontem que as dificuldades económicas dos portugueses, nomeadamente da população mais idosa, poderão ser uma das razões para o aumento ‘anormal’ dos casos de infecções respiratórias e, consequentemente, da mortalidade que se tem registado nos últimos dias”.
“Como se nós tivéssemos um Serviço Nacional de Saúde de boa saúde (ora, num direito que assiste a qualquer cidadão de procurar o que mais lhe convém na vida, assiste-se à hemorragia de muitos dos melhores médicos dos hospitais públicos para o sector privado), Francisco Louçã, dirigente do Bloco de Esquerda, em debate televisivo com José Sócrates (RTP1,O8/09/2009), defendeu a ideia peregrina de que as despesas com consultas médicas em consultórios privados deviam deixar de contar para efeitos de desconto no IRS.
(…) Mas detenhamo-nos, apenas, no caso dos medicamentos. Actualmente, são deduzidos para efeitos de IRS 30% das despesas feitas nas farmácias com determinados medicamentos. Ou seja, quem tem uma saúde de ferro beneficia do dom precioso em não gastar um cêntimo em medicamentos. Por outro lado, quem tem uma saúde frágil que anda associada, frequentemente, a achaques da velhice, como sejam, por exemplo, para não falar de outras graves, bem mais graves, doenças do foro reumatismal, em que, para apaziguar dores insuportáveis, o paciente é obrigado a encharcar-se em analgésicos, gastando quantias que fazem perigar, ainda mais, o seu periclitante equilíbrio financeiro em busca de uma dignidade humana que não se curve amparada por uma bengala para não abdicar da sua ascendência bípede de milhões de anos.
Tratar atempadamente da nossa saúde não é o mesmo que adquirir um bem que se possa dispensar ou adquirir mais tarde quando a vida corre melhor! Atento à situação de verdadeira crise económica em que a grande maioria dos estratos sociais deste país mergulharam, e que não deve ser paga, apenas, por aqueles que cumprem com grande sacrifício os seus impostos (como escreveu Peter Vries, 'os ricos não são como nós: pagam menos impostos'),manifestou-se, dias atrás, publicamente contra esta medida o CDS/PP ao declarar publicamente que rejeita o PEC (13/03/2010).
Num abreviar de razões, a solução deve ser procurada numa ainda mais apertada malha que taxe o cidadão com sinais exteriores de riqueza, segundo os seus reais rendimentos e haveres e não sobre aquilo que ele dolosamente possa declarar serem os seus hipotéticos rendimentos e haveres. A isto, sim, chama-se, com toda a propriedade, justiça fiscal!”
Moral da história: A própria Esquerda, representada pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Socialista, desrespeita na prática os fundamentos de um Estado defensor de um Serviço Nacional de Saúde, como existe em países sociais-democratas do Norte da Europa ou na própria Inglaterra. Como acreditar, então, que a posição do CDS/PP – ao recusar o corte das deduções fiscais em Saúde (Correio da Manhã, 13/03/2010)– pudesse vingar numa ainda maior perseguição fiscal aos velhos e doentes deste pobre país (descontando apenas 10% das despesas com saúde, para efeitos de dedução no IRS, situação agravada por um tecto menor), também ele velho nos seus mais oito séculos de vida e vicissitudes sem conta?

A doença e a velhice não existem, é tudo invenção.
ResponderEliminarAtenciosamente
Manoel de Oliveira
Caro Manoel de Oliveira: A continuar nesta senda, a doença e a velhice só passarão a existir nas classe pobre e média. Aqueles outros, que Peter Vries. acima citado, diz pagarem menos impostos, terão sempre o aspecto jovem(a cirurgia plástica disso se encarregará).
ResponderEliminarQuanto à doença ela continuará a decrescer nas classes abastadas, através de uma medicina preventiva em recurso a médicos privados. Eu que não me identifico com a esquerda (qualquer que seja a roupagem que veste ou transveste) que promete um Serviço Nacional de Saúde em tempos de vacas gordas para o tentar destruir em tempo de vacas magras. Como diria a Edithe Piaf, "c'est la vie". Mas uma vida pouco cor-de- rosa. Com desgosto, o reconheço ou sou obrigado a recohecer!
Errata: Na 3.ª linha, 3.º §, onde está, "Eu que não me identifico...",rectifico para "Eu não me identifico..."
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