Como acontece a quase toda a gente, nesta época que vai ser, de certeza, lembrada pelas nossas preocupações pressurosamente
avaliativas, fui solicitada para me pronunciar sobre o modo de atendimento neste, naquele e
no outro serviço duma certa instituição.
Para isso, apresentaram-me, em
sequência, vários questionários online, daqueles que não nos deixam saltar
nenhum item – qualquer esquecimento ou recusa em responder impede-nos de passar para a “página” seguinte – e que, para não desanimarmos com a extensão, vão-nos dando
informação, em percentagem, do que ainda falta preencher.
Nesses questionários, perguntava-se como é que eu
classificava a “simpatia” dos funcionários. Não me lembro das outras
características de personalidade em apreciação, que eram várias, mas lembro-me
da “simpatia”, porque me questionou sobre o modo como temos de nos apresentar a
outrem, sobretudo aos clientes, para sermos bem avaliados e, em última instância, mantermos
o trabalho.
Ora, a “simpatia” não me parece propriamente uma característica profissional.
Porque é uma coisa muito própria da pessoa, do seu modo de
ser (longe de mim afirmar que o modo de ser de cada um não se altera). Manifesta-se nas escolhas relacionais que vai fazendo e que dão corpo ao mundo
privado que constrói e reconstrói. Traduz-se, digo eu, na disponibilidade de aproximação
ao outro, num envolvimento e confiança e em expressões que não têm qualquer
outra intenção a não ser ir vivendo.
Isto pode acontecer no mundo do trabalho? Admito que sim,
mas nem sempre acontece e nem sequer é necessário (e, mesmo, desejável) que aconteça. Falo
em geral, mas neste mundo público, o que importa é que as atitudes dos profissionais sejam
compatíveis com as funções que desempenham e só isso. Algumas funções exigirão um sorriso que pode ser de simpatia ou metamorfoseado de simpatia, outras funções nem sequer exigem qualquer tipo de sorriso.
..."nesta época que vai ser, de certeza,
ResponderEliminarlembrada pelas nossas preocupações
pressurosamente avaliativas"...
Análise muito apropriada.
Mas também não era exagero dizer:
Pressurosa, obsessiva e paranoicamente
avaliativas.
Com os resultados que, em vários casos,
já se podem apreciar. Veja(m)-se os
extraordinários modelos de avaliação
de professores que foram usados nos dois
últimos biénios. Nem os recursos,
entretanto apresentados, e passados os
prazos legais, foram ainda resolvidos,
pelo menos os que conheço...
À ausência de avaliação que tínhamos,
da responsabilidade do ministério,
seguiu-se a "mistificação da avaliação"
que tivemos, sem nenhum ganho e muitas
perdas.
Mas o que é isso num país como o nosso,
que sempre nadou em abundância e
facilidade? Não é?
Absolutamente de acordo, um bom profissional deve exercer a sua função, seja ela qual for, com eficácia, a simpatia não pode qualificar um bom desempenho profissional, embora não se possa admitir a antipatia em quem lida com pessoas, com público. Mas não se ser "antipático" não implica que se seja "simpático".
EliminarE subscrevo o comentário relativo à paranóia obsessiva da avaliação, nomeadamente no disparate da avaliação dos professores, e não só, pelo que vou sabendo por aí.
Em vez de avaliar, deixem as pessoas trabalhar e actuem onde realmente há necessidade de o fazer. Ou seja, actuem junto dos casos pontuais, porque a maioria das pessoas, em condições normais, sente prazer em dar o seu melhor, mesmo com todos os maus exemplos que proliferam como cogumelos podres.