quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O QUE É QUE EXCITA A MOSQUINHA DA FRUTA

Texto publicado no Diário de Coimbra.

Há um século atrás Thomas Hunt Morgan, e seus colaboradores, demonstraram que os genes são “transportados” por cromossomas presentes no núcleo das células eucarióticas e são a base da hereditariedade de caracteres sexualmente transmitidos.

Entre 1909 e 1911 Morgan publicou na revista Science, artigos seminais sobre o mapeamento de genes em cromossomas, associados a características sexualmente transmitidas, da pequena mosca da fruta (nome científico Drosophila melanogaster), tornando-a num modelo animal incontornável e comum para o estudo da hereditariedade genética no século XX. Pelos seus trabalhos Thomas Hunt Morgan recebeu, em 1933, o prémio Nobel da Medicina e ou da Fisiologia.

Cem anos depois de identificadas as bases genéticas da transmissão sexual de características hereditárias, Y. Grosjean e colegas investigadores europeus, publicaram na revista Nature a identificação dos receptores olfactivos responsáveis pela forte atracção da Drosophila por frutos e mostraram que esta percepção olfactiva influencia o comportamento sexual do macho da mosca da fruta. Assim que detecta uma certa substância exalada pela fruta, o ácido fenilacético (uma auxina – hormona vegetal - resultante da carboxilação metabólica do ácido acético), o macho confirma que está na presença de um local rico em alimento (a fruta) e logo muito apropriado para a postura de ovos, pelo que inicia a corte a potenciais fêmeas acasaladoras.

Refira-se, a propósito, que o ácido acético (precursor do ácido fenilacético, como se indicou acima) resulta da oxidação do etanol – produto final da fermentação alcoólica - num processo designado também por fermentação, mas desta vez adjectivada por acética.

Um odor a ácido fenilacético, traduzido pelos órgãos olfactivos em estímulos paras a vias neuronais olfactivas, desencadeia, por sua vez no cérebro da mosca, os circuitos cerebrais responsáveis pelo comportamento complexo de corte sexual que a Drosophila macho passa a exibir.

Por isso, se reparar num ajuntamento de Drosophila numa qualquer peça de fruta madura ou no mosto da vindima, seja discreto, não interrompa o cortejo esvoaçado e dançado de acasalamento.

António Piedade

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