segunda-feira, 18 de julho de 2011

Um artigo de Helena Matos, um comentário de João Boaventura e o sindicalismo docente.

“Voltámos à instrumentalização dos sindicatos como ‘correia de transmissão’ do PCP” (Mário Soares, "Diário de Notícias", 29/01/2008).

Na madrugada de ontem, em resposta a um comentário de João Boaventura ínsito no meu post “Literatura Portuguesa, um funil social?”(16/07/2011), em que ele me dava conta de um artigo recente de Helena Matos no "Público" que, inadvertidamente e em morte inglória e imerecida foi lançado no caixote de lixo sem o ter lido com grande pena minha, escrevi: “Caro João: A nossa amizade de longos anos e os diálogos por nós mantidos em longos e proveitosos (pelo menos para mim) conciliábulos, em tertúlia de café, que nos levavam a divergir em alguns pontos para que chegássemos, grande parte das vezes, a conclusões conciliatórias, desta vez, não fez jus completo à tradição desses velhos e saudosos tempos. Não podia estar mais de acordo com o teu comentário. Será que os anos e a experiência da vida amoleceram o meu espírito agonístico? Começo a preocupar-me”.

E continuo a preocupar-me pelo facto de a minha resposta não ter estado ao nível deste contundente naco de prosa do comentário de João Boaventura, em que escreveu: “Não havia necessidade de chamar à colação o medo do silêncio sindical, considerando que há entre o sindicalismo e o actual Ministério da Educação um desnivelamento inultrapassável: ideologia do sindicato de um lado, e a independência do outro. O choque é de alto risco e, como disse Helena Matos num recente artigo do Público, o sindicalismo tem de encontrar o seu caminho outro que esqueça o do passado”.

Hoje, depois de uma noite de sono entrecortado pelo "remorso" que me não abandonou, por ter lançado para o lixo inadvertidamente, repito, inadvertidamente (lixo, palavra que por maus motivos entrou no léxico da economia portuguesa, e até do homem comum), o referido artigo entendi que só me podia redimir desta minha falta transcrevendo os parágrafos iniciais de um meu post aqui publicado, com o título 'Braga da Cruz, sindicalismo docente e autoridade dos professores' (20/02/2010). Segue-se o respectivo conteúdo:

“A polémica declaração pública de Manuel Braga da Cruz, reitor da Universidade Católica Portuguesa, ao responsabilizar recentemente os efeitos perversos do sindicalismo docente pela perda de autoridade dos professores, deve obrigar a uma reflexão aprofundada sobre um sindicalismo que fez da rua palco ruidoso reivindicativo, a exemplo das manifestações das grandes massas operárias de pendor revolucionário nos fins do século XIX.


E porque 'toda a verdade gera um escândalo', como escreveu Marguerite Yourcenar, de igual modo deve dar que pensar o silêncio cúmplice dos sindicatos docentes a um artigo de opinião de Helena Matos ('Público?, 21/10/2008), bem contundente pela escolha do título: “Para que servem os sindicatos?”


Do referido texto, transcrevo dados referentes a sindicatos docentes que, ainda segundo Helena Matos, 'são uma extensão da administração pública e por ela sustentados': 'Os 450 professores que estão destacados nos sindicatos representam uma despesa anual superior a oito milhões de euros. No ano lectivo passado, estavam destacados 1327 docentes (…) que custavam por ano 20 milhões de euros, segundo estimativas do governo' (Agência Lusa, 2006)".


São volvidos, portanto, três anos desde este artigo de opinião de Helena Matos e da citação em epígrafe de Mário Soares sobre uma forma de sindicalismo que os ingénuos podem ter como já ultrapassado mas que o presente nos encarregou de tornar cada vez mais presente. Mas “se o futuro a Deus pertence”, como diz o povo, está agendada para o dia de hoje uma reunião entre o actual e combativo ministro da Educação, Nuno Crato, e a Fenprof representada por Mário Nogueira.

Dentro de breves horas (redijo este post ao início da manhã de hoje) saberemos o que o futuro nos reserva sobre um sindicalismo que tenho tido como irreformável não por simples intuição ou descabido parti pris. Apenas, porque uma acção sindical de décadas, como a da Fenprof, sob a batuta do seu corifeu, não se muda de um dia para o outro. Só aparentemente e em mudança táctica de ceder um passo hoje para avançar dois ou mais passos amanhã. Passos ainda que mesmo em falso!

Na imagem: Helena Matos, cronista do jornal "Público".

8 comentários:

  1. A gente da CGTP e da Fenprof é gente que não está de acordo com as perspectivadas políticas do Nuno Crato...
    Então... o Nuno Crato só falou no seu discurso inicial na Assembleia da República sobre Escola como preparação para o trabalho... É óbvio que a gente de esquerda não gosta desse discurso... Ele é Ministro da Educação... não é Ministro da Escola Técnica...
    Depois... dizer que é trabalho dos sindicatos defender X classes profissionais... E eu estou de acordo que eles (os sindicatos) devem perspectivar a coisa, compreendendo os efeitos de X medidas particulares num conjunto... A questão é que eles estão longe de estar de acordo com o conjunto...
    Depois... dizer que é incrível, com a tão grande ofensiva ideológica (como lhe chamam os comunistas) que já existe... ver também em blogs de ciência gente a continuar o ataque... Só falta falar da União Soviética e do Estaline...
    Depois... as palavras do Mário Soares... o Soares... lol... foi sempre um falso... como é que dão algum valor às palavras dele...
    Depois... dizer que ao contrário das pessoas de direita, as pessoas de esquerda são tendencialmente mais honestas... e essa história dos 8 milhões e do suposto parasitismo, e que deveria levar à conclusão de acabar com os sindicatos... só pode vir de uma pessoa de direita...
    A gente de direita não tem razão... porque a gente de direita tem como finalidade o crescimento económico... parece a finalidade da vida... porque é que não se debate ideologias? porque é que não se vai ao fundo da questão? É por causa do Adão e Eva e de não se dever comer o fruto da árvore do conhecimento?
    Isto... enfim... gente desonesta a atacar gente honesta... Como é possível dar algum valor às palavras do Soares? Isto é incrível... Como é possível gostar do Nuno Crato com aquele discurso Escola-Trabalho? Esquecendo que o PSD não é Social-Democrata... O PSD nem é que o afirma ser: Meritocrata... Nunca foi, porque é que haveria agora de ser? Isto, quem souber desmascarar essa gente desonesta... essa gente "inteligente", que leu Nietzsche e a partir daí faz o que quer... é o maior. Mas mesmo desmascarando-os, as pessoas não fazem nada... O escândalo está tão banalizado e as pessoas tão doentes... E não sabem de um projecto alternativo bem delineado e em que possam confiar...

    Enfim, fiquei mesmo chateado com atacarem gente que eu acho que é honesta...!

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  2. Será que o nosso país,
    à falta de latoeiros,
    se transformou, como diz,
    num país de funil(eiros)?

    JCN

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  3. Servem para dar ao pessoal que anda fora do horário zero, uma oportunidade para lá volver...

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  4. 'Os 450 professores que estão destacados nos sindicatos representam uma despesa anual superior a oito milhões de euros. No ano lectivo passado, estavam destacados 1327 docentes (…) que custavam por ano 20 milhões de euros, segundo estimativas do governo....

    olhe que não....a maioria anda acima do 8º escalão

    poucos no sétimo
    logo mesmo a 1700 eurocos x14

    20 mil no mínimo/ano x 1300 dá 26 milhões a preços de 2008

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  5. Anónimo (18 Julho; 13:45 )

    Julgo que o seu comentário foge à questão essencial do meu post ao perspectivá-lo sob o aspecto meramente político e para além disso com juízos de valor sobre Mário Soares e Nuno Crato. Neste último caso com a agravante de aprioristicamente analisar a acção de Nuno Crato (apenas dias atrás empossado no cargo de Ministro da Educação) não pelo que ele fez, mas em exercício de futurologia, sobre aquilo que pensa que ele fará.

    Quanto ao artigo de Helena Matos é natural que lhe não agrade, embor no íntimo não possa deixar de lhe dar razão numa altura em que são pedidos sacríficios a todos os portugueses não devendo como tal ser exceptuados os dinheiros saídos do erário púplico (os impostos saídos dos nossos bolsos) para pagamento dos vencimentos de dirigentes sindicais que se eternizam nos seus cargos. Julgo que parte, ou mesmo a totalidade desses vencimentos (sempre que possível) deveriam ser suportados pelas quotas dos respectivos associados. Não, não ponho em questão o papel dos sindicatos se atidos às suas funções específicas. E apenas essas!

    Transcrevo a frase final do seu comentário:” Enfim, fiquei mesmo chateado com atacarem gente que eu acho que é honesta...!” Teria toda a razão se eu tivesse posto em causa a honestidade dos sindicalistas. Não pus!

    “Last but not least”, limitei-me a criticar um sindicalismo que eu tenho como ultrapassado e que mereceu idêntica crítica por parte de Carvalho da Silva da CGTP na sua tese de doutoramento em Sociologia no ISCTE (Julho de de 2007) que contém a seguinte advertência:”Os sindicatos estão desafiados a ter futuro”.

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  6. 4.ªlinha do 2.º §: púplico, não: público!

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  7. os sindicatos são mesmo incómodos, xatos, xatos a valer, se os patrões são tao bonzinhos, para quê armar banzé, meu Deus ! Viva o prograsso e a prosperidade em que os facholas nos mergulharam !

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  8. Caro Magalhães: Embora o que escrevi no meu post não lhe permita tirar a conclusão de eu ter adjectivado os sindicatos de chatos, aceito o seu comentário no direito que lhe assiste ao contraditório num sistema político democrático.

    Estou de acordo com Carvalho da Silva (que não o tenho como um homem de direita e, muito menos, como um "fachola") quando escreve: "Os sindicatos estão condenados a ter futuro".

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